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Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia

Print version ISSN 0102-0935On-line version ISSN 1678-4162

Arq. Bras. Med. Vet. Zootec. vol.59 no.5 Belo Horizonte Oct. 2007

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-09352007000500032 

COMUNICAÇÃO COMMUNICATION

 

Produção de enterotoxinas e da toxina da síndrome do choque tóxico por cepas de Staphylococcus aureus isoladas na mastite bovina

 

Production of enterotoxins and toxic shock syndrome toxin by Staphylococcus aureus strains isolated from bovine mastitis

 

 

A. Nader FilhoI, *; L.M. FerreiraII; L.A. AmaralI; O.D. Rossi JuniorI; R.P. OliveiraI

IFaculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias - UNESP Via de Acesso Prof. Paulo Donato Castelane s/nº 14884-900 – Jaboticabal, SP
IIAluno de pós-graduação - FCAV-UNESP – Jaboticabal, SP

 

 


Palavras-chave: bovino; mastite; Staphylococcus aureus;enterotoxinas


ABSTRACT

A total of 72 strains of Staphylococcus aureus were examined for the production of staphylococcal enterotoxins (SE) A, B, C, D and toxic shock syndrome toxin (TSST-1). The strains were isolated from milk samples from cows with mastitis in dairy herds of São Paulo State, Brazil. Off 72 isolates, 38 (52.8%) produced SEA, 38 (52.8%) SEB, 32 (44.4%) SED, 28 (38.9%) SEC and 27 (37.5%) TSST-1. From the 72 strains, 66 (91.7%) produced, at least, one or more toxin, including TSST-1.

Keywords: bovine; mastitis; Staphylococcus aureus; enterotoxins; TSST-1


 

 

Staphylococcus aureus está envolvido em infecções intramamárias de fêmeas em lactação, sendo o principal agente causador da mastite em bovinos (Cardoso et al., 2000). Algumas cepas desse microrganismo podem produzir uma grande variedade de toxinas extracelulares e de fatores de virulência (Matsunaga et al., 1993), cuja presença no leite e seus derivados pode representar sério problema de saúde pública (Ichikawa et al., 1996).

Enterotoxinas estafilocócicas (SE) são os principais agentes de intoxicação de origem bacteriana no homem e têm sido relatadas em vários surtos de doenças transmissíveis por alimentos (Lamaita et al., 2005).

As toxinas são termoestáveis (Cliver, 1994) e o período de incubação é bastante curto, variando de 15 minutos a 6 horas após a ingestão do alimento contaminado (Carmo, 2001). Segundo Bergdoll (1989), uma mesma cepa de S. aureus pode produzir mais de um tipo de toxina, que em quantidades inferiores a 1µg podem desencadear os sintomas de intoxicação, representados, principalmente por vômitos e diarréias. Casos mais graves podem ocorrer entre os récem-nascidos, idosos e pessoas acometidas por doenças crônicas imunossupressoras (Cliver, 1994).

Outro fator de virulência é representado pela toxina 1 da síndrome do choque tóxico (TSST-1) sendo reconhecida como causadora febre, hipotensão, congestão de vários órgaos e choque letal (Bergdoll e Chesney, 1991).

Tendo em vista a importância dos S. aureus como agentes etiológicos da mastite bovina, considerando os riscos que o leite contaminado por estes microrganismos pode representar para a saúde pública, idealizou-se o presente trabalho com o objetivo de verificar a produção de SE e da TSST-1. Para tanto, foram utilizadas 72 cepas de S. aureus isoladas no leite de vacas com sinais de mastite ou que apresentavam positividade no California Mastitis Test, em 10 propriedades rurais do Estado de São Paulo.

A detecção das SE e da TSST1 foi realizada pela equipe do doutor Luiz Simeão do Carmo, do laboratório de enterotoxinas estafilocócicas da Fundação Ezequiel Dias, que utilizou o método de placa de sensibilidade ótima (optimum-sensitivity plate method - OSP) descrito por Robbins et al. (1974).

Na Tab. 1 mostra-se que das 72 cepas de S. aureus estudadas, 66 (91,7%) apresentaram produção de pelo menos um tipo de toxina, isoladamente ou em associação, evidenciando, portanto, elevado grau de toxigenicidade. Revela, também, que 12 (16,7%) produziram apenas um tipo de toxina, enquanto 10 (13,9%) produziram, simultaneamente, até quatro SE, e que apenas seis (8,3%) mostraram-se negativas na produção das toxinas SEA, SEB, SEC, SED e TSST-1.

 

 

A Fig.1 apresenta a distribuição da produção das SE e da TSST-1 entre as 72 cepas de S. aureus estudadas, isoladamente, desprezando-se as associações. As toxinas SEA (52,8%) e SEB (52,8%) foram as mais produzidas, seguidas por SED (44,4%), SEC (38,9%) e TSST-1 (37,5%).

 

 

Entre as toxinas identificadas, houve predomínio da SEA e SEB em relação às outras toxinas estafilocócicas. Este resultado difere dos obtidos por Lopes et al. (1990), em São Paulo, por Cardoso et al. (2000), em Minas Gerais, e por Sá et al. (2004), em São Paulo, que verificaram maior ocorrência da SEA e SEC, TSST-1 e SED e da SEC e SED, respectivamente. Cardoso et al. (2000) acreditam que as diferenças observadas nas freqüências e nos tipos de toxinas extracelulares talvez possam ser atribuídas aos métodos de detecção das toxinas e as características das cepas de S. aureus isoladas de diversas origens.

Com relação à TSST-1, deve-se ressaltar que essa toxina ganhou notoriedade por ser detectada com freqüência nos casos de mastite bovina, ovina e caprina (Jones e Wieneke, 1986; Matsunaga et al., 1993; Bezek e Hull, 1995). O primeiro relato de detecção da TSST-1 produzida por S. aureus de origem animal no Brasil é atribuído a Cardoso et al. (2000), que verificaram a produção dessa toxina em 47,2% das cepas isoladas de casos de mastite bovina em Minas Gerais. A freqüência (37,5%) de isolamento de cepas de S. aureus produtoras de TSST-1 observada neste trabalho (Fig. 1) foi menor que a obtida por Cardoso et al. (2000). Sá et al (2004) não identificaram a ocorrência de cepas produtoras dessa toxina nos casos de mastite estudados na região de Botucatu/SP.

A mesma cepa de S. aureus pode produzir mais de um tipo de enterotoxina, como observado neste trabalho (Tab. 1). Achados semelhantes foram relatados por Cardoso et al. (2000) em Minas Gerais, a exemplo dos observados por alguns autores em outras regiões do mundo (Jones e Wieneke, 1986; Matsunaga et al.,1993; Ichikawa et al.,1996; Takeuchi et al., 1998). Embora Soares et al. (1997) tenham assinalado que a co-produção de diferentes tipos de toxinas possa sugerir maior toxigenicidade dessas cepas na patogenia das infecções produzidas por esses microrganismos, e Refai et al. (1988) tenham demonstrado a relação existente entre a atividade enzimática específica, a enterotoxigenicidade e a resistência dos S. aureus a vários antibióticos, principalmente naquelas produtoras de mais de um tipo de enterotoxina, os autores citados não discutiram a importância desse resultado.

Embora sejam variáveis as freqüências de isolamento de cepas de S. aureus em amostras de leite de vacas com mastite, esse agente pode ser considerado mundialmente como o de maior significado na etiologia dessa enfermidade (Sá et al., 2004). Este fato, aliado ao elevado índice de cepas enterotoxigênicas, como o verificado nesta investigação, deve merecer especial atenção dos órgãos oficiais de inspeção e de vigilância sanitária, uma vez que pode representar sério risco potencial para a saúde pública (Lamaita et al., 2005).

Apesar da simples presença das cepas de S. aureus enterotoxigênicas não implicar necessariamente na ocorrência de casos intoxicações, sabe-se que o leite constitui em excelente substrato para a proliferação desses microrganismos e que a temperatura da glândula mamária é ideal para a produção de enterotoxinas em concentrações suficientes para causar a doença no homem.

Os achados deste trabalho adquirem uma importância ainda maior principalmente se considerar a termoestabilidade das enterotoxinas estafilocócicas pré-formadas e a conseqüente possibilidade da sua persistência tanto no leite pasteurizado como em seus derivados.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Recebido em 23 de março 2006
Aceito em 3 de setembro de 2007

 

 

* E-mail: nader@fcav.unesp.br

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