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Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia

Print version ISSN 0102-0935On-line version ISSN 1678-4162

Arq. Bras. Med. Vet. Zootec. vol.60 no.1 Belo Horizonte Feb. 2008

https://doi.org/10.1590/S0102-09352008000100004 

MEDICINA VETERINÁRIA

 

Avaliação clínica, ultra-sonográfica e teloscópica das papilas mamárias de búfalas

 

Clinical, ultrasonographic, and theloscopic evaluations of the water buffaloes mammary papillae

 

 

S.C. EscrivãoI; V.A. GhellerII; E.F. NascimentoII; C. MalmII; F.R. AmaralI; A.L. SerranoIII; P.B. NéspoliI; V. FoltynekI

IAluno de pós-graduação - EV-UFMG – Belo Horizonte, MG
IIEscola de Veterinária - UFMG – Belo Horizonte, MG
IIIAluno de Graduação - EV-UFMG – Belo Horizonte, MG

 

 


RESUMO

As papilas mamárias de 23 búfalas foram avaliadas por meio de exame clínico e ultra-sonográfico. Em oito animais do mesmo grupo, as papilas mamárias foram submetidas ao exame teloscópico. Os resultados mostraram que o exame ultra-sonográfico e a teloscopia podem ser utilizados para a avaliação das papilas mamárias na espécie bubalina. As restrições ao uso desses exames, com a metodologia e os equipamentos empregados, foram: a identificação ultra-sonográfica dos ductos papilares foi precária para as papilas mais curtas, e em matrizes jovens, a resistência do ducto papilar limita o uso de telescopia axial.

Palavras-chave: búfala, papilas mamárias, ultra-sonografia, teloscopia


ABSTRACT

All the mammart papillae from 23 water buffaloes were clinically and ultrasonographically examined, and eight animals from the same herd were submitted to theloscopic examination. The results showed that ultrasonography and theloscopy are satisfactory methods to evaluate the mammary papillae of the water buffalo. However, the ultrasonographic identification of the streak canal of the shorter papillae was poor and, it was not possible to proceed with axial theloscopy in some animals, specially the primiparous.

Keywords: water buffalo, mammary papillae, ultrasonography, theloscopy


 

 

INTRODUÇÃO

As lesões da papila mamária apresentam incidência anual média de 2 a 3%, variando de 0 a 20% entre os rebanhos bovinos. Determinam perdas econômicas em função dos custos terapêuticos, decréscimo na produção leiteira, incremento do risco de mastite e descarte precoce dos animais acometidos (Geishauser et al., 2005).

Em diversos países, a ultra-sonografia (Cartee et al., 1986; Dinç et al., 2000; Couture e Mulon, 2005) e a teloscopia (Inzumisawa et al., 1995; Hospes e Seeh, 1998; Hirsbrunner e Steiner, 1999; Gheller et al., 2007) têm sido utilizadas em bovinos como métodos complementares no diagnóstico e tratamento de patologias das papilas mamárias.

Nesta espécie, a ultra-sonografia identifica com acuidade as estruturas das papilas mamárias, nas quais sua parede apresenta-se dividida em três camadas: a mais externa (pele) e a interna (mucosa) aparecem hiperecóicas, e a mediana hipoecóica (camadas musculares, tecido conjuntivo, submucosa) (Cartee et al., 1986). O ducto papilar é visualizado como uma linha hiperecóica fina circundada por duas linhas hipoecóicas (Franz et al., 2001; Couture e Mulon, 2005). Tanto na porção papilar do seio lactífero (PPSL) como na porção glandular do seio lactífero (PGSL), o lúmen se apresenta anecóico (Cartee et al., 1986). Apesar de permitir informações detalhadas sobre distribuição, formato e tamanho das lesões obstrutivas na maior extensão da PPSL, a ultra-sonografia não é adequada para o diagnóstico de obstruções no ducto papilar (Dinç et al., 2000).

A teloscopia, por sua vez, permite a visualização direta do ducto papilar e da mucosa da roseta de Fürstenberg e demais porções da PPSL (Inzumisawa et al., 1995; Gheller et al., 2007). É descrita como axial e lateral. Na primeira modalidade, o endoscópio é introduzido através do óstio papilar, na segunda a introdução do endoscópio se faz via incisão lateral na parede da papila. Além da grande utilidade diagnóstica, a técnica mostra-se promissora para tratamento cirúrgico das lesões estenosantes das papilas mamárias, sobretudo para as proximais, comumente consideradas de difícil resolução pelos métodos tradicionais (Hospes e Seeh, 1998).

Apesar de o uso destes métodos ser relativamente difundido nos bovinos, não existem estudos similares aplicados à espécie bubalina, e os estudos correspondentes em outras espécies se restringem a trabalhos realizados em caprinos (Bruckmaier e Blum, 1992; Hospes et al., 1997; Franz et al., 2001; Néspoli et al., 2006) e ovinos (Bruckmaier e Blum, 1992; Franz et al., 2001).

Considerando o exposto, o objetivo deste trabalho foi estudar a aplicação dos métodos de exame clínico, ultra-sonografia e teloscopia para a avaliação das papilas mamárias de búfalas.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Para o exame clínico e ultra-sonográfico, foram utilizadas 23 búfalas lactantes, mestiças da raça Mediterrâneo, procedentes da Fazenda Estiva, município de Luz, MG. A avaliação teloscópica foi realizada aleatoriamente em oito animais dentro do mesmo grupo, totalizando 32 papilas.

Os animais foram contidos na posição quadrupedal em tronco de contenção, submetidos à higienização do úbere com água e sabão e secagem com papel toalha.

O exame clínico das papilas mamárias seguiu o protocolo descrito por Grunert (1993). A parede do ducto papilar e a da PPSL foram palpadas, rolando-se a papila mamária entre a ponta dos dedos, atentando-se para alterações da textura e do volume, bem como para aumentos da temperatura local e da sensibilidade.

O exame ultra-sonográfico foi realizado com um aparelho portátil equipado com transdutor linear de 5MHz1. Após a aplicação de gel, o transdutor foi apoiado e movimentado sobre superfície da pele para permitir a formação de ultra-sonogramas longitudinais e transversais da papila mamária.

Para a realização da teloscopia axial, foi utilizado um endoscópio rígido de 30º e de 2,7mm de diâmetro2, cabo óptico de 3,5mm2, câmera TELECAM SL2 e fonte de luz Xenon 3002 para endoscopia. Após a fixação de uma pinça coprostática de Doyen na base da papila, a PPSL foi insuflada com ar ambiente, via ducto papilar, por intermédio de uma seringa estéril de 10ml acoplada a um filtro de ar. Em seguida, o endoscópio rígido foi introduzido através do ducto papilar, possibilitando a visualização da mucosa e da superfície interna da porção proximal do ducto papilar e da PPSL. O exame endoscópio da superfície interna da porção glandular do seio lactífero e a contagem do número de aberturas dos ductos lactíferos foram realizados mediante a retirada da pinça coprostática inicialmente colocada na base da papila. Após a teloscopia, aplicou-se uma bisnaga de antibiótico intramamário em cada quarto mamário. Os animais foram avaliados clinicamente após sete dias.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Durante o exame clínico, observou-se a mesma textura em todas as papilas avaliadas, como descrito por Steere et al. (1960) e Metzger et al. (1999). Exceto pela ocorrência de fibrose em cordão, abrangendo a PPSL de uma papila, não foi observado nenhum outro tipo de processo patológico ou obstrutivo durante o exame clínico.

Nos achados ultra-sonográficos, a pele foi observada como uma camada hiperecóica fina, e as demais porções da parede como um tecido hipoecóico homogêneo (Fig. 1). O lúmen da PPSL apresentou-se anecóico (Fig. 1, 2, 4) com formato triangular, estreitando-se gradativamente em direção à extremidade da papila (Fig. 1). O ducto papilar, por sua vez, apresentou-se como uma linha hiperecóica na extremidade distal da papila (Fig. 1, 2, 3), de acordo com as descrições de Cartee et al. (1986). Entretanto, naquelas papilas curtas, o ducto papilar não pôde ser escaneado satisfatoriamente.

 

 

 

 

 

 

 

 

Os achados ultra-sonográficos do ducto papilar observados diferem pelo menos em parte das descrições feitas por Franz et al. (2001) e Couture e Mulon (2005). No detalhamento da imagem descrito por esses autores, o ducto papilar aparece como uma linha hiperecóica circundada por duas linhas hipoecóicas, o que não foi observado neste trabalho. Esse fato está, provavelmente, relacionado à frequência do transdutor de 5MHz utilizada, pois as freqüências maiores têm proporcionado maior reconhecimento das estruturas do ducto papilar tanto para bovinos, como para caprinos e ovinos. Para tanto, podem ser utilizadas as freqüências de 7,5MHz, 10MHz e até de 12MHz (Franz et al., 2001; Couture e Mulon, 2005). A dificuldade em se detectar o ducto papilar em papilas mais curtas também deve estar relacionada com o uso da freqüência de 5MHz e poderia ser contornada utilizando-se frequências maiores como 7,5MHz, também disponíveis em aparelhos veterinários.

A fibrose em cordão encontrada no exame clínico foi visualizada pelo ultra-som como uma estrutura hiperecóica com contornos pouco definidos, localizada em toda a extensão da PPSL. Nesta porção, a parede da papila não apresentava contornos bem definidos. Em vacas, estenoses similares têm sido diagnosticadas com maior acuidade pela ultra-sonografia do que pelos métodos tradicionais, com informações adicionais sobre a distribuição, a forma e o tamanho das lesões (Dinç et al., 2000).

Para a maior parte dos animais, a realização da técnica de teloscopia foi relativamente fácil. Não houve necessidade de anestesia local, e os animais toleraram bem o procedimento. Entretanto, houve dificuldade para se introduzir o endoscópio rígido no óstio papilar em alguns animais, principalmente naquelas matrizes mais jovens. Nestes animais, o procedimento não foi concluído para prevenir danos às estruturas do ducto papilar. O uso de dilatadores de teto modelo Schecker tem proporcionado maior facilidade e segurança às teloscopias axiais realizadas em caprinos (Gheller, 2006)3 e, possivelmente, poderia produzir efeitos similares também em papilas de búfalas que apresentam grande resistência do ducto papilar. Nenhum dos animais submetidos à teloscopia apresentou complicações clínicas em exame subseqüente.

O exame teloscópico proporcionou visualização anatômica da mucosa que se apresentava lisa e brilhante, dos vasos da PPSL (Fig. 5A e 5B), do anel venoso de Fürstenberg (Fig. 5C e 5D) e da PGSL (Fig. 5E e 5F), além de permitir a observação da abertura dos grandes ductos lactíferos, como descrito para vacas por Inzumisawa et al. (1995) e para cabras por Néspoli et al. (2006). Todavia, não foi possível visualizar a roseta de Fürstenberg, como descrito por Gheller et al. (2007), em função da orientação do endoscópio na PPSL. O número das aberturas dos grandes ductos lactíferos variou entre quatro e seis em todos os animais avaliados.

 



 

Somente em um caso foram observadas congestão e superfície irregular da mucosa durante o exame teloscópico. O mesmo animal apresentou contagem de células somáticas mais elevadas que a média do rebanho, indicando um quadro de mastite subclínica, em condições similares àquelas descritas por Inzumisawa et al. (1995) em vacas.

 

AGRADECIMENTO

Ao núcleo de bubalinocultura da Escola de Veterinária - UFMG.

 

CONCLUSÕES

O exame ultra-sonográfico com transdutores de 5MHz é um método satisfatório para a avaliação de estruturas anatômicas, exceto para o ducto papilar de papilas mamárias mais curtas, e a avaliação teloscópica axial propicia detalhada avaliação das estruturas anatômicas internas da papila, com exceção do ducto papilar e da roseta de Fürstenberg. Em matrizes jovens, a grande resistência do ducto papilar limita o uso de teloscopia axial na espécie bubalina.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Recebido em 31 de maio de 2007
Aceito em 28 de janeiro de 2008
Apoio: FAPEMIG

 

 

E-mail: sidneyescrivao@yahoo.com.br
1 Medison do Brasil Ltda. Rua Apiacás, 910 – Perdizes, Brasil.
2 Karl Storz, H. Strattner & Cia. Ltda. - Belo Horizonte, Brasil.
3 Gheller, V.A., comunicação pessoal. 2006, UFMG, Minas Gerais, Brasil.

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