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Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia

versão impressa ISSN 0102-0935versão On-line ISSN 1678-4162

Arq. Bras. Med. Vet. Zootec. v.60 n.1 Belo Horizonte fev. 2008

https://doi.org/10.1590/S0102-09352008000100034 

COMUNICAÇÃO COMMUNICATION

 

Avaliação clínica da infecção experimental de bezerros com Salmonella Dublin

 

Clinical evaluation of experimental Salmonella Dublin infection in calves

 

 

D.G. SilvaI; P.R.L. SilvaII; J.J. FagliariIII, *; F.A ÁvilaIII; A.C. AlessiIII; R.G. OliveiraIV

IAluna de pós-graduação - FCAV-UNESP – Jaboticabal, SP
IIAluno de graduação - FCAV-UNESP – Jaboticabal, SP
IIIFaculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias - UNESP – Via de Acesso Prof. Paulo Donato Castellane, s/n – 14884-900 – Jaboticabal, SP
IVMédico veterinário autônomo

 

 


Palavras-chave: bezerro, Salmonella Dublin, salmonelose


ABSTRACT

The clinical conditions of healthy calves infected with experimental 108CFU of Salmonella Dublin were evaluated and the viability of the experimental model in disease induction in calves was verified. Twelve 10 to 15-day-old male Holstein calves were examined. They were allocated into two groups, control and experimentally infected with 108CFU of Salmonella Dublin. Animals were submitted to clinical examination after inoculation and at every 12 hours, during seven days after the experimental infection. Samples of rectal swabs were collected for Salmonella Dublin isolation. All animals had severe diarrhea, with mucus and bleeding, 12 to 84 hours after the experimental infection with Salmonella Dublin, accompanied by fever, dehydration and respiratory signs. The isolation of Salmonella Dublin from rectal swabs occurred 12 hours after the infection. Two out of the six animals inoculated with Salmonella Dublin died with symptoms of enteritis, fibrinous pneumonia, centrilobular hepatic steatosis, hepatocyte necrosis, spleen congestion, interstitial nephritis, and tubular degeneration. Thus, the oral administration of 108CFU of Salmonella Dublin induced clinical signs of salmonellosis in 10 to 15-day-old calves.

Keywords: calf, Salmonella Dublin, salmonellosis


 

 

Dentre as causas de diarréia em bezerros, a salmonelose é uma das mais importantes, principalmente a enfermidade causada pela Salmonella enterica subsp. enterica sorovar Dublin, a qual sobrevive bem em bovinos e induz altas taxas de morbidade e mortalidade (Veling et al., 2002).

A principal porta de entrada para a infecção é a cavidade oral, sendo necessárias doses entre 104 e 1011 unidades formadoras de colônia (UFC) para provocar a doença em bovinos sadios (Wray e Sojka, 1977). Ao atingir a lâmina própria da parede intestinal, a Salmonella estimula uma reação inflamatória caracterizada por enterite fibrinopurulenta necrosante (Santos et al., 2002). Por serem parasitas intracelulares facultativos, as bactérias podem sobreviver e multiplicarem-se dentro de macrófagos e neutrófilos, sendo subseqüentemente transportadas aos linfonodos mesentéricos e a outros órgãos (Frost et al., 1997).

Em bezerros com um a seis semanas de idade, a infecção caracteriza-se por diarréia, desidratação, febre alta (40,5 a 42,0ºC), pneumonia, poliartrite e gangrena de extremidades (Wray e Davies, 2000; Loeb et al., 2006), sendo a taxa de mortalidade inversamente proporcional à idade (Santos et al., 2002).

O objetivo do presente estudo foi avaliar o quadro clínico de bezerros submetidos à infecção experimental com 108 UFC de Salmonella Dublin e, adicionalmente, verificar a viabilidade do modelo experimental na indução da doença em bezerros.

Foram examinados 12 bezerros machos da raça Holandesa, sadios, com 10 a 15 dias de idade e peso médio de 40,2kg, obtidos de um rebanho comercial. Os bezerros foram alojados em abrigos individuais (1,30m x 1,50m x 1,35m) e receberam quatro litros de leite in natura pasteurizado tipo A, duas vezes ao dia, além de ração, feno e água à vontade. Os animais foram distribuídos aleatoriamente em dois grupos experimentais de seis animais. Os do grupo 1 foram infectados experimentalmente, por via oral e com auxílio de seringa estéril com 108 UFC de Salmonella Dublin suspensas em 10ml de caldo Brain Heart Infusion (BHI) (CM225 –Oxoid, Hampshire, Inglaterra), antes da primeira mamada do dia; os do grupo 2 receberam apenas 10ml de caldo BHI (grupo-controle).

Salmonella Dublin (registro IOC 3101/03) foi isolada originalmente de bezerro infectado naturalmente e cedida pela Fundação Oswaldo Cruz (Manguinhos – RJ). A bactéria foi cultivada de acordo com as recomendações de Wray e Sojka (1981) e quantificada pela técnica de Miles e Misra (1938).

Os bezerros foram submetidos ao exame clínico segundo Rosenberger (1993), imediatamente antes da inoculação e a cada 12 horas, durante sete dias após a infecção experimental. O isolamento de Salmonella Dublin foi realizado a partir de amostras de suabes retais, enriquecidos em caldo selenito cistina1 e tetrationato Muller-Kauffmann1 e plaqueados em ágar verde brilhante modificado1 com 50µg/ml de ácido nalidíxico, como preconizado por Santos et al. (2002).

Os animais que vieram a óbito foram submetidos a exame necroscópico e histológico. Nessa ocasião, foram colhidos fragmentos de tecidos e órgãos para o isolamento microbiológico de Salmonella Dublin.

Antes da inoculação com Salmonella Dublin, todos os parâmetros clínicos estavam dentro dos valores considerados normais para a espécie bovina (Rosenberger, 1993). Entre 12 e 36 horas após a infecção experimental, todos os animais inoculados com 108 UFC de Salmonella Dublin apresentaram diarréia grave/acentuada, com presença de muco e/ou estrias de sangue. Os primeiros sinais de febre e desidratação apareceram 24 e 36 horas após a inoculação, respectivamente, enquanto que 84 horas após a infecção experimental, os animais inoculados com a bactéria apresentaram temperatura média de 40,1ºC e sintomas respiratórios, como tosse e secreção nasal e taquipnéia (Tab. 1). Não foram observadas alterações clínicas nos animais do grupo-controle.

 

 

O isolamento de Salmonella Dublin a partir de suabes retais ocorreu 12 horas após a infecção experimental, sendo verificada excreção contínua nos animais 1 e 2 e intermitente nos demais, ao longo dos sete dias de avaliação (Tab. 1). Não houve o isolamento de Salmonella Dublin nas amostras de suabes retais dos animais do grupo-controle.

Dos seis animais inoculados com Salmonella Dublin, dois vieram a óbito aos sete e quatro dias após a infecção experimental. Neles, os principais achados histopatólogicos observados foram enterite, pneumonia fibrinosa, esteatose centrolobular, necrose de hepatócitos, congestão de baço, nefrite intersticial e degeneração tubular (Fig. 1 e 2). Foi detectada Salmonella em todas as amostras teciduais avaliadas (Tab. 2).

 

 

 

 

 

 

A administração oral de 108UFC de Salmonella Dublin em caldo BHI mostrou-se eficaz na indução de salmonelose, uma vez que todos os bezerros inoculados apresentaram sinais clínicos evidentes, como diarréia severa, febre, desidratação e sintomas respiratórios, também relatados por Wray e Davies (2000) e Veling et al. (2002). Similarmente, Yokoyama et al. (1998) observaram que a maioria dos animais inoculados com Salmonella Dublin apresentaram febre a partir do segundo dia e diarréia ao terceiro dia após a infecção. Nesse mesmo experimento, notaram um período de sobrevivência de cinco a sete dias e taxa de mortalidade de 100% no 10º dia após o desafio, quando os animais não receberam nenhum tipo de tratamento. Contudo, nos animais infectados experimentalmente não foram constatados sinais de poliartrite e gangrena de extremidades, aspectos já descritos por Loeb et al. (2006).

De acordo com Smith et al. (1979) e Tsolis et al. (1999), a infecção oral com 104 a 107UFC de Salmonella causa diarréia transitória que persiste por 48 a 192 horas, enquanto doses entre 108 a 1011UFC causam doença septicêmica de evolução aguda, com morte em curto espaço de tempo. Segundo Eicher et al. (2003), dose de 108UFC de Salmonella Dublin é adequada para infectar animais com até três semanas de idade.

Apesar de alguns estudos indicarem o uso de antiácidos juntamente com o inóculo para evitar a inibição da multiplicação da Salmonella Dublin pela microbiota ruminal e pelo baixo pH abomasal (Nazer e Osborne, 1977; Santos et al., 2002), a administração do inóculo suspenso no caldo de cultura, não foi afetada pela acidez abomasal, pois foi possível realizar o isolamento da Salmonella tanto nas amostras de suabes retais dos animais inoculados quanto nas amostras de tecidos dos dois animais que vieram a óbito.

Os resultados permitem concluir que a administração oral de 108UFC de Salmonella Dublin em caldo BHI é suficiente para induzir quadro clínico de salmonelose em bezerros com idade entre 10 e 15 dias, cujos principais sinais clínicos constatados foram diarréia, febre, desidratação e sintomas respiratórios.

 

AGRADECIMENTOS

Os autores agradecem à FAPESP pela concessão de bolsa e auxílio financeiro e à Fundação Oswaldo Cruz pelo fornecimento da cepa de Salmonella Dublin.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Recebido em 8 de novembro de 2006
Aceito em 18 de dezembro de 2007

 

 

* Autor para correspondência (corresponding author)
E-mail: fagliari@fcav.unesp.br
1 CM225 –Oxoid, Hampshire, Inglaterra

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