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Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia

versão impressa ISSN 0102-0935versão On-line ISSN 1678-4162

Arq. Bras. Med. Vet. Zootec. v.60 n.3 Belo Horizonte jun. 2008

https://doi.org/10.1590/S0102-09352008000300002 

MEDICINA VETERINÁRIA

 

Efeito de diferentes soluções de enema sobre os parâmetros clínicos de eqüinos

 

Effect of different enema solutions on clinical parameters of equines

 

 

U.P. MeloI, IV; M.S. PalharesII, *; C. FerreiraI; I.G.B. EvaristoIII; F.O.P. LemeII; R. SerakidesII; J.M. Silva FilhoII

IAluno de pós-graduação - EV-UFMG - Belo Horizonte, MG
IIEscola de Veterinária - UFMG - Caixa Postal 567 - 30123-970 - Belo Horizonte, MG
IIIAluno de graduação - EV-UFMG - Belo Horizonte, MG
IVBolsista do CNPq

 

 


RESUMO

Avaliou-se o efeito de diferentes soluções de enema sobre os parâmetros clínicos de eqüinos hígidos. Foram utilizados 15 eqüinos adultos, distribuídos em três grupos de cinco animais cada: grupo 1 - tratados com água de torneira mais sabão neutro; grupo 2 - tratados com solução isotônica e grupo 3 - tratados com água de torneira mais vaselina. O efeito das soluções de enema sobre os parâmetros clínicos variou em função do tipo de solução infundida. A solução com menor efeito sobre os parâmetros clínicos foi a isotônica. A solução de água de torneira e sabão neutro desencadeou um aumento da temperatura retal e edema da mucosa retal. Embora as três soluções tenham se mostrado efetivas em hidratar e amolecer as fezes, a solução de água com sabão foi a que apresentou o melhor efeito.

Palavras-chave: eqüino, enema, parâmetros clínicos


ABSTRACT

The effect of three different enema solutions on clinical parameters of equines was studied using 15 healthy adult animals. They were alloted into three groups of five animals each: group 1 - treated with tap water associated with neuter soap; group 2 -treated with isotonic solution; and group 3 - treated with tap water associated with vaseline. Effects of enema solutions on clinical parameters were observed. Isotonic solution caused less alteration on clinical parameters. Tap water and soap enema induced inflammatory reaction on colon mucosa. Even though all three solutions showed effectiveness in hydrating and softening the feces, the treatment with water plus soap showed the best results.

Keywords: enema, equine, clinical parameters


 

 

INTRODUÇÃO

Nos eqüinos, os distúrbios de motilidade do trato gastrintestinal manifestam-se comumente como cólica e, independentemente dos recentes avanços no manejo geral, a cólica continua a ocorrer e se constitui na principal causa de morbidade e mortalidade na espécie eqüina (Singer e Smith, 2002).

O trato gastrintestinal é uma estrutura volumosa e complexa que realiza uma variedade de funções simultâneas e, às vezes, opostas tais como: secreção e absorção, mistura e propulsão, esvaziamento e enchimento, que podem variar de segmento a segmento. A falha ou negligência em reconhecer a natureza heterogênea desse sistema pode levar a erros na escolha do tratamento mais adequado para uma doença específica (Freeman, 1999).

A administração de enemas é um procedimento de enfermagem comumente utilizado para tratar quadros de compactação e esvaziar o cólon menor e reto antes de procedimentos cirúrgicos e diagnósticos (Schmelzer et al., 2004). Os enemas foram utilizados pela primeira vez há centenas de anos. Sua utilização é baseada na tradição, sem nenhuma investigação científica profunda dos seus efeitos, tanto na medicina humana quanto na veterinária. Grande quantidade de solução de água de torneira com sabão, administrada por meio de enemas, é utilizada no tratamento de eqüinos com compactações do cólon descendente (cólon menor e reto) (White II e Dabareiner, 1997; Schumacher e Mair, 2002). Entretanto, ainda não são conhecidos os efeitos sistêmicos dessa terapia, principalmente sobre os parâmetros clínicos.

Este estudo teve como objetivo avaliar o efeito de diferentes soluções de enema sobre os parâmetros clínicos de eqüinos hígidos.

 

MATERIAL E MÉTODOS

O experimento foi realizado entre os meses de setembro e outubro de 2006, tendo sido aprovado pelo Comitê de Ética em Experimentação Animal (CETEA/UFMG) sob o número 19/2006. Foram utilizados 15 eqüinos adultos hígidos, com média de peso de 262±48,28kg. Antes do período experimental, os animais passaram por período de adaptação de 30 dias durante o qual receberam ração comercial1 (0,5kg/100kg de peso vivo), feno de tifton (Cynodon ssp.), além de capim-elefante (Pennisetum purpureum) triturado, e água e sal mineral2 ad libitum. Todos os animais receberam tratamento endo3 e ectoparasiticida4.

Os animais foram agrupados de acordo com o peso e sexo (quatro fêmeas e um macho/grupo) e distribuídos em três grupos de cinco animais cada. Os do grupo 1 foram tratados com água de torneira mais sabão neutro5 (seis gramas de sabão neutro/litro de água; osmolalidade: 24mOsm/l); os do grupo 2 com solução eletrolítica (solução: Na+: 135mEq/l; HCO-3: 25mEq/l; Cl-: 110mEq/l; K+: 4mEq/l; Ca++: 5mEq/l; osmolaridade: 285mosm/l; pH: 7,45); os do grupo 3, com água de torneira mais vaselina líquida (três litros de água/litro de vaselina; osmolalidade: 6mOsm/l). Durante a avaliação clínica os animais permaneceram em jejum hídrico e alimentar desde o primeiro até o último exame, totalizando 10 horas. Foram realizados três enemas em cada animal, um a cada três horas. O enema foi administrado por fluxo de gravidade, com o recipiente posicionado a dois metros de altura com sonda de 8mm de diâmetro, em volume equivalente a quatro litros de solução à temperatura de 35°C. Após cada enema, os animais foram estimulados a caminhar ao passo durante 15 minutos e, então, a cada hora. Todas as mensurações foram realizadas com os animais em posição quadrupedal.

Antes de cada enema foi realizada palpação transretal para identificar a presença de fezes na ampola retal e terço distal do cólon menor, bem como avaliar as características das fezes - consistência, hidratação, coloração, odor, tamanho da fibra e presença de grãos e de muco - conforme sugerido por Gonçalves et al. (2005).

Os parâmetros clínicos freqüência cardíaca, pulso arterial, freqüência respiratória, tempo de preenchimento capilar, temperatura retal, pressão sangüínea sistólica, motilidade gastrintestinal, tolerância ao enema e manifestação de dor foram avaliados antes do primeiro enema (T0 - tempo zero) e a cada 30 minutos, totalizando 15 tempos (T) de avaliação. O esquema foi: T0 (tempo zero) seguido pelo enerma 1; T1 a T6 seguidos pelo enema 2; T7 a T12 seguidos pelo enema 3; e T13 e T14. A avaliação terminou uma hora após o último enema. A motilidade gastrintestinal foi classificada como ausente, diminuída, normal ou aumentada, adotando-se a classificação proposta por Ehrhardt e Lowe (1990), em ambos os antímeros.

A pressão sangüínea arterial foi mensurada indiretamente em um esfignomanômetro de coluna de mercúrio6 na artéria coccígea, utilizando um Doppler7 para detectar o fluxo e o retorno do fluxo conforme técnica descrita por Gay et al. (1977). Os valores obtidos representaram a pressão sistólica da artéria coccígea, em mmHg, não corrigida.

O delineamento experimental foi inteiramente ao acaso, tendo-se o cuidado de manter um macho em cada grupo. O modelo experimental constituiu-se de parcelas subdivididas, sendo três grupos nas parcelas e 15 tempos na subparcela para estudar freqüência cardíaca, pulso, freqüência respiratória, tempo de perfusão capilar e temperatura retal, com cinco repetições. Os parâmetros clínicos foram avaliados antes do primeiro enema e após esse, a cada 30 minutos. A análise de variância foi utilizada considerando-se a ocorrência dos erros (a) e (b), referentes à parcela e subparcela, respectivamente. Para comparação de médias usou-se o teste Student Newman Keuls, com nível de significância de 95% (P<0,05). Todos os dados foram tabulados em planilhas do programa Excel e analisados pelo pacote computacional SAS (User's..., 1999).

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

A freqüência cardíaca manteve-se dentro dos limites fisiológicos para a espécie, embora tenham ocorrido diferenças dentro do grupo e entre grupos dentro de cada tempo (Tab. 1). O grupo 1 não diferiu (P>0,05) do grupo 2 dentro de cada tempo, exceto em T5, e somente em T10, o grupo 1 foi diferente do grupo 3. Médias mais altas observadas no grupo 2 podem ser atribuídas à presença de um animal com freqüência cardíaca elevada durante todo o estudo. Embora a freqüência cardíaca tenha diferido entre os tempos, dentro do grupo ela manteve-se dentro dos limites fisiológicos. Além disso, não se observou diferença (P>0,05) entre os tempos que antecederam ou sucederam os enemas.

 

 

A elevação da freqüência cardíaca é causada primariamente por estímulo simpático em resposta à dor, hipovolemia, endotoxemia ou septicemia (Wilson e Gordon, 1987; Furr et al., 1995) ou por alteração comportamental (Bordin et al., 2007). Como a freqüência cardíaca se manteve dentro dos limites fisiológicos, independente da solução administrada, é provável que a administração de enemas não estimule o sistema simpático. Seria lógico esperar que o estresse induzido pela infusão do enema e a dor desencadeada pela distensão do cólon menor e reto provocassem elevação da freqüência cardíaca, entretanto, tal efeito não foi observado.

A freqüência respiratória (Tab. 2) manteve-se dentro dos limites de referência durante todo o período experimental nos três grupos. Não houve diferença (P>0,05) entre os tempos dentro do grupo 1. No grupo 2 apenas T11 diferiu de T0 e T1 (P<0,05) e no grupo 3, T0 e T1 diferiram (P<0,05) dos demais tempos. Dentro dos tempos, houve diferença (P<0,05) entre os grupos em T0, T4, T11, T12 e T13. Aparentemente essas diferenças não têm significado clínico em decorrência da manutenção da freqüência respiratória dentro da faixa de normalidade em todos os grupos e em todos os tempos.

 

 

A temperatura retal (Tab. 3) variou (P<0,05) entre os tempos, dentro de cada grupo e entre grupos em T13 e T14. A temperatura retal em todos os grupos elevou-se atingindo maiores valores no grupo 1 (Fig. 1). A mensuração da temperatura retal é essencial na avaliação de eqüinos com distúrbios gastrintestinais. Elevação da temperatura retal acima de 39°C indica a presença de processo séptico ou infeccioso (peritonite ou enterite/colite). A temperatura retal baixa, menor que 37°C, é, geralmente, indicativa de choque circulatório e, sob muitas circunstâncias, é um sinal grave (Colahan, 1985). Embora a temperatura retal tenha se mantido dentro da faixa de normalidade, a elevação nos seus valores, principalmente no grupo 1, sugere que a infusão de diferentes soluções dentro do cólon menor/reto tenha desencadeado um quadro inflamatório decorrente da excessiva manipulação da mucosa retal durante a infusão do enema ou secundário à infusão de substâncias irritantes, ambos desencadeando um processo inflamatório.

 

 

 

 

Outros fatores devem ser considerados quando se avalia a elevação da temperatura retal em eqüinos com abdome agudo, como: elevação da temperatura ambiente ao longo do dia, deambulação dos animais ou elevação do metabolismo. Este fato foi observado quando se compararam os grupos dentro dos tempos. O grupo 1 diferiu (P<0,05) dos grupos 2 e 3 apenas nos tempos 13 e 14, ou seja, após a administração do terceiro enema. Assim, a irritação local provocada pela água com sabão pode ter sido o fator desencadeante do aumento da temperatura retal, neste grupo.

Baseado nestes dados pode-se hipotetizar que a administração de sucessivos enemas em um paciente com doença gastrintestinal pode alterar os valores da temperatura retal interferindo na avaliação de diferentes casos.

Quanto ao tempo de perfusão capilar (Tab. 4), não houve diferença (P>0,05) entre os tempos dentro dos grupos 1 e 2, todavia, observou-se diferença (P<0,05) no grupo 3 quando se compararam T9 e T10 com T0 até T5. O grupo 1 foi diferente (P<0,05) do grupo 2 em todos os tempos, e do grupo 3, em T6 e T11. Entre o grupo 2 e o grupo 3 foram observadas diferenças (P<0,05) em T0 a T5. O tempo de perfusão capilar manteve-se dentro dos limites fisiológicos durante todo o período experimental, independente do grupo e do tempo, indicando que a administração de enemas não provoca desvios de fluido do espaço intracelular para o extracelular, e deste para o lúmen intestinal, provocando um quadro de hipovolemia.

 

 

Não houve diferença (P>0,05) da freqüência de pulso entre os tempos dentro de cada grupo e, dentro de cada tempo, os grupos 1 e 3 diferiram (P<0,05) do grupo 2 na maioria dos tempos (Tab. 5). Embora não forneça uma avaliação quantitativa da pressão sistólica periférica, a mensuração da freqüência do pulso fornece importantes informações sobre a condição cardiovascular do eqüino. A elevação da freqüência do pulso durante episódios de dor abdominal são secundários ao estímulo simpático e essa elevação, associada à alteração das características do pulso, é importante durante a avaliação do paciente. Um pulso forte indica que não há alteração significativa no sistema cardiovascular. Por outro lado, um pulso fraco pode refletir vasoconstrição secundária à hipovolemia, enquanto o pulso irregular reflete grave desequilíbrio eletrolítico ou endotoxemia (Speirs, 1999; Corley, 2002; Southwood, 2006).

 

 

Não houve alteração nas características do pulso. Embora tenha havido diferença entre os grupos 1 e 2 e entre os grupos 2 e 3, os valores obtidos estão dentro da faixa de normalidade. A ausência de alterações na freqüência do pulso indica que a administração de diferentes soluções de enema, conforme o protocolo adotado neste experimento, não tem influência sobre os parâmetros cardiovasculares. Essa afirmativa é confirmada pelos resultados obtidos nos valores da freqüência cardíaca e tempo de perfusão capilar.

Em relação à pressão sistólica (Tab. 6) não houve diferença (P>0,05) entre os tempos dentro dos grupos 1 e 3, e no grupo 2, houve diferença (P<0,05) entre os tempos. Não foi observada diferença (P>0,05) entre os grupos dentro de cada tempo. A administração dos enemas, independente da solução, não teve efeito significativo sobre os valores da pressão sistólica. Embora a pressão sistólica dentro do grupo 2 tenha oscilado entre os tempos, aparentemente essa diferença não apresentou significado clínico, por se apresentar dentro dos valores de referência para a espécie.

 

 

Na palpação transretal inicial (tempo 0) não foram observadas alterações na posição das vísceras abdominais palpáveis em nenhum animal dos três grupos. As características das síbalas foram semelhantes em todos os grupos, apresentando-se verde-oliva, tamanho normal, boa hidratação, odor sui-generis, sem presença de grãos ou película de muco.

A infusão do primeiro enema do grupo 1 desencadeou desconforto abdominal em um animal após a administração de um litro, resultando na expulsão de parte da solução. Essa mesma resposta foi observada nos outros quatro animais após a infusão de dois a três litros de solução. No decorrer do período de caminhada, 100% dos animais eliminaram pequenas quantidades de líquido associada ou não às síbalas formadas. Decorridos 60 minutos do enema, 80% dos animais eliminaram síbalas pastosas, e em 20% (1/5), as síbalas apresentaram-se recobertas com muco. No grupo 2, a resposta de eliminação do primeiro enema ocorreu após a infusão de 2,5-3 litros da solução em 100% dos animais, e no período da caminhada todos os animais eliminaram pequenos jatos de líquido associados com síbalas formadas de coloração verde-oliva. Passados 60-90 minutos, os jatos de líquido foram substituídos pela eliminação de síbalas formadas em 40% (2/5) e pastosas em 60% (3/5) dos animais, sem presença de muco.

Na infusão do primeiro enema do grupo 3, 60% (3/5) dos animais apresentaram desconforto abdominal leve. Após a administração de dois litros do enema, esses mesmos animais eliminaram parte do volume infundido, enquanto 40% (2/5) suportaram todo o volume. Ao caminharem (15 minutos), 100% dos animais eliminaram pequenas quantidades de líquido com fezes pastosas. Após esse período, os eqüinos continuaram a eliminar pequenas quantidades de líquido por 60 minutos, e a partir daí, fezes pastosas recobertas com vaselina foram eliminadas por todos os animais.

Na palpação transretal, realizada antes do segundo enema do grupo 1, não foi encontrada nenhuma alteração na anatomia topográfica das vísceras abdominais palpáveis, nem tampouco alteração das características das síbalas em relação à primeira palpação. Entretanto, na ampola retal de todos os animais observou-se discreta dilatação e 40% (2/5) deles apresentaram edema da mucosa retal. No segundo enema, a quantidade de solução necessária para iniciar a eliminação da solução infundida foi inferior àquela do primeiro, em média 1,5-2 litros. Desconforto abdominal manifestado por olhares para o flanco, escoiceamento do abdome e manoteamento foi observado em 60% (3/5) dos eqüinos. Ao caminharem, 80% (4/5) eliminaram pequenos jatos de líquido associado com síbalas pastosas, enquanto 20% (1/5) eliminaram fezes normais. Após uma hora, esse jato de líquido foi substituído pela eliminação de síbalas formadas recobertas por moderada quantidade de muco em 60% (3/5), enquanto 40% (2/5) eliminaram síbalas sem muco.

Na palpação transretal antes do segundo enema no grupo 2, as síbalas apresentavam as mesmas características da palpação inicial. Não foi constatada a presença de edema da mucosa retal e em apenas 20% (1/5) dos animais ocorreu distensão da ampola retal. Após a infusão de aproximadamente dois litros da solução, 80% (4/5) dos eqüinos eliminaram parte do enema, 40% (2/5) apresentaram leve quadro de desconforto abdominal e 20% (1/5) desconforto abdominal mais intenso. Na deambulação, todos eliminaram pequenos jatos de líquido em associação com fezes pastosas, sem muco.

No grupo 3, constatou-se que as características das síbalas de 80% (4/5) dos animais antes do segundo enema permaneceram inalteradas em relação às da palpação transretal inicial. Entretanto, em 20% (1/5) foram observadas fezes pastosas, mas não houve alteração no odor e na coloração das síbalas. Nenhum animal deste grupo apresentou edema nesse tempo. A quantidade de enema infundida antes do início da eliminação foi menor do que para o primeiro enema, em média um litro, em três animais. Os outros dois suportaram todo o volume infundido. Ao longo da caminhada todos os animais eliminaram pequenas quantidades de líquido associado ou não à presença de síbalas formadas ou pastosas, recobertas com vaselina. Pequenos jatos de líquido foram eliminados durante 90 minutos e, após esse tempo, os animais começaram a eliminar fezes pastosas, recobertas com vaselina.

No grupo 1, a palpação transretal antes do terceiro enema revelou a presença de edema da mucosa retal em todos os animais e desencadeou quadro de desconforto abdominal, dificultando a realização do procedimento. Nenhuma anormalidade na anatomia topográfica das vísceras abdominais foi visualizada, entretanto observou-se distensão da ampola retal. As fezes apresentavam características normais em 40% (2/5) dos animais, enquanto em 60% (3/5) eram pastosas e recobertas com muco. Por ocasião do último enema, a expulsão foi iniciada após a administração de, aproximadamente, 1,5 litros em todos os animais, e à caminhada, 60% (3/5) eliminaram pequenos jatos de líquido associado com fezes pastosas, enquanto 40% (2/5) eliminaram síbalas recobertas por muco.

No grupo 2, na palpação transretal, realizada antes do terceiro enema, em 80% (4/5) não havia alterações nas características das fezes, 20% (1/5) delas eram pastosas, e nenhum animal apresentou edema na mucosa retal. Durante a infusão do terceiro enema, 80% (4/5) dos animais eliminaram parte do enema após a administração de três litros da solução e 20% (1/5) suportaram todo o volume administrado. Ao caminharem, 100% (5/5) eliminaram pequenos jatos de líquido sem presença de fezes, e uma hora após, todos eliminaram fezes pastosas verde-oliva, sem muco.

No grupo 3, na palpação transretal antes do terceiro enema, observaram-se fezes pastosas em 80% (4/5) e síbalas normais em 20% (1/5) dos eqüinos, e nenhuma alteração de coloração ou odor foi identificada. A palpação revelou discreto edema de mucosa em 20% (1/5) dos animais. No decorrer da administração do enema, 40% (2/5) apresentaram desconforto abdominal manifestado por inquietação, olhar para o flanco e manoteamento (escavação do solo). A eliminação do enema ocorreu após a administração de três litros do enema em 80% (4/5) e de dois litros, em 20% (1/5) dos animais. Durante a caminhada houve eliminação de pequenos jatos de líquido associados ou não com fezes pastosas recobertas com vaselina.

Independente da solução houve eliminação do enema após a infusão. Embora não se conheça o mecanismo de ação do enema, provavelmente ocorre um quadro de irritação química e distensão que produz forte onda de contração, na tentativa de eliminar a substância irritante. Dessa forma, a resposta contrátil observada após a administração das soluções estudadas pode ser uma resposta de proteção do organismo aos efeitos deletérios de substâncias irritantes, principalmente sabão e vaselina, como sugerido por Wood (1994) e Potter e Perry (2001).

A resposta à irritação química pode ser útil se esta for leve o bastante para estimular a defecação, sem causar alterações no epitélio colônico e retal. Todavia, a excessiva irritação pode lesar as células epiteliais, resultando em um processo inflamatório (Chang et al., 1996).

As características das fezes eqüinas nos diversos quadros de abdome agudo são pouco estudadas na medicina veterinária, no entanto, pode ser um método efetivo de avaliação da função gastrintestinal. As características das fezes assemelharam-se a aquelas relatadas na literatura (Wilson e Gordon, 1987; Gonçalves et al., 2005). Entretanto, após a realização do enema, independente da solução utilizada, houve alterações dessas características. A principal foi a mudança de consistência das fezes, sem alteração no odor e na coloração. A consistência mudou de ligeiramente firme para pastosa em decorrência da infusão de líquido dentro do reto e segmento distal do cólon menor.

A eliminação de fezes pastosas logo após a administração das soluções de enema é uma resposta esperada à terapia, pois hidratam e amolecem as fezes localizadas na porção final do cólon menor e reto (Schumacher e Mair, 2002; Schmelzer et al., 2004). Como as soluções infundidas não possuem efeito sobre o conteúdo intestinal localizado em partes mais craniais do cólon menor, a eliminação de síbalas formadas e com hidratação normal ou diminuída ocorre após certo período de tempo, como observado neste estudo.

Outra alteração foi a presença de grande quantidade de muco recobrindo as fezes dos animais do grupo 1. Geralmente a presença de muco sobre as fezes é indicativo de aumento no tempo de trânsito intestinal. Nesse caso, a presença de muco foi uma resposta fisiológica do organismo à administração de irritantes químicos dentro do cólon menor distal e reto. A secreção de muco pelo epitélio colônico cria um microambiente próximo ao epitélio intestinal, além de funcionar como uma barreira contra a abrasão e irritação química. Aparentemente, a solução de enema composta de água e sabão apresentou efeito mais irritante químico do que as outras soluções estudadas. A osmolalidade dessa solução, 24mOsm/l, pode ter sido um fator adicional à produção do muco, por lesão celular osmótica.

O quadro de desconforto abdominal demonstrado por alguns animais pode ter sido resultante da excessiva distensão do reto e cólon menor durante o procedimento ou ao desenvolvimento de reação intestinal inflamatória. Como alguns animais demonstraram desconforto durante a administração do primeiro enema, independente do grupo, a provável razão foi a rápida distensão intestinal por líquidos.

A identificação de edema à palpação transretal no grupo 1 foi ao encontro do objetivo especifico deste estudo, o de avaliar o efeito de diferentes soluções de enema sobre a mucosa retal. A presença de edema é um achado quase constante em eqüinos submetidos à terapia com sucessivos enemas. O surgimento do edema retal durante o quadro clínico de abdome agudo normalmente é associado com as sucessivas palpações transretais e pouco valor se dá ao efeito da administração do enema sobre o seu desenvolvimento. O surgimento do edema é devido, primariamente, à infusão de soluções irritantes dentro do reto, embora sucessivas palpações transretais possam ter um efeito aditivo. Mas, com base na experiência clínica, é improvável que sucessivas palpações transretais realizadas por profissional experiente possam levar ao desenvolvimento do edema.

De forma geral, a motilidade gastrintestinal não foi alterada pela infusão de diferentes soluções de enema. Embora seja advogado por alguns clínicos que a administração de enema aumente a motilidade do segmento posterior do trato gastrintestinal, esse efeito só foi observado em alguns animais, imediatamente após a infusão (tempos 1, 2 e 7). A infusão de grandes quantidades de enemas distende o lúmen intestinal produzindo forte onda de contração intestinal, resultando na expulsão da solução de enema e das fezes presentes no terço final do cólon menor e reto. A forte contração após a administração de uma solução dentro do cólon menor e reto pode ser uma resposta de proteção do organismo aos efeitos deletérios de substâncias irritantes.

Embora tenha ocorrido forte onda contrátil durante a infusão dos enemas em todos os grupos e a motilidade tenha aumentado após a administração dos enemas, esse aumento da motilidade gastrintestinal não foi mantido por muito tempo. Cerca de uma hora após a infusão de cada enema a motilidade já havia retornado ao normal em todos os grupos. Provavelmente, a eliminação de grande parte do enema durante sua infusão pode ter diminuído seu efeito sobre a motilidade intestinal. Entretanto, ressalta-se que a extensão na qual esse enema penetra dentro da porção distal do cólon menor pode não ser suficiente para alterar a motilidade gastrintestinal. A rápida distensão do reto e porção distal do cólon menor pode ter desencadeado a ativação do reflexo intestinal. Diante do exposto, é possível que o aumento da motilidade intestinal seja transitório e restrito ao momento da infusão ou por um pequeno período de tempo após a infusão do enema.

 

CONCLUSÕES

A utilização dos enemas na espécie eqüina pode ser útil para promover a hidratação e amolecimento das fezes. A solução de água com sabão é a mais efetiva em promover o amolecimento das fezes, entretanto, promove maior desconforto abdominal e elevação da temperatura retal. Embora a solução de água com sabão seja amplamente utilizada no manejo das compactações da região distal do cólon menor e reto, estas devem ser substituídas por soluções com menor efeito sobre os parâmetros clínicos.

 

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Recebido em 8 de novembro de 2007
Aceito em 29 de abril de 2008
Apoio: FAPEMIG

 

 

* Autor para correspondência (corresponding author)
E-mail: palhares@vet.ufmg.br
1 Ração Equitage 15P, Guabi Nutrição Animal - São Paulo, Brasil.
2 Guabiphos centauro, Guabi Nutrição Animal - São Paulo, Brasil.
3 Panacur pasta, Intervet - Cruzeiro, Brasil.
4 Butox, Intervet - Cruzeiro, Brasil.
5 Lavarte, Bertin Ltda - São Paulo, Brasil.
6 Esfignomanômetro - Missouri, Brasil
7 Doppler Vascular Veterinário DVT 500 - Martec - Ribeirão Preto, Brasil.

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