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Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia

versão impressa ISSN 0102-0935versão On-line ISSN 1678-4162

Arq. Bras. Med. Vet. Zootec. v.60 n.5 Belo Horizonte out. 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-09352008000500037 

COMUNICAÇÃO COMMUNICATION

 

Carrapatos em aves selvagens no Zoológico de Sorocaba - São Paulo, Brasil

 

Ticks em wild fowls at Sorocaba - São Paulo State, Brazil

 

 

R.H.F. TeixeiraI; I. FerreiraII; M. AmorimIII; G.S. GazetaIII N.M. Serra-FreireIII, IV

IParque Municipal Zoológico "Quinzinho de Barros" - Rua Teodoro Kaisel, 883 - 18021-020 - Sorocaba, SP
IIInstituto de Biologia - UFRRJ - Seropédica RJ
IIIFIOCRUZ - Rio de Janeiro, RJ
IVBolsista do CNPq

 

 


ABSTRACT

Eight wild fowls kept in captivity at a Brazilian Zoo were examined from july 1994 to October 2000. One hundred twenty-three Ixodidae specimens were collected and sent to the Ixodides Laboratory at the Instituto Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, Brazil. They were examined by stereomicroscopy and were identified as Amblyomma longirostre (53), A. pacae (50), A. cajennense (14), and A. parvum (6).

Keywords: Ixodidae, wild birds hosts, fowls, ticks


 

 

Carrapatos têm ampla distribuição geográfica e são vetores de bioagentes para animais e seres humanos, secundando os culicídeos na importância da vetoração de bioagentes de enfermidades. No Brasil, são esparsos os trabalhos sobre carrapatos em animais selvagens, com registros esporádicos e com resumidas notificações de pesquisadores (Serra Freire et al., 1996; Amorim e Serra Freire, 1999; Evans et al., 2000; Barbosa-Silva et al., 2002; Labruna et al., 2005).

Entre junho de 1994 e outubro de 2000, as inspeções dos animais do acervo vivo do Parque Municipal Zoológico "Quinzinho de Barros", realizadas sem periodicidade pré-definida serviram de momentos para exame e colheita de carrapatos encontrados nos hospedeiros. Os carrapatos foram removidos manualmente do corpo dos hospedeiros por torção contínua em torno dos próprios eixos longitudinais dos idiossomas, sacrificados em água quente (90ºC), preservados em etanol 70ºGL em frascos com tampa de rosca. Os frascos, etiquetados com a identificação do hospedeiro, nome científico e nome comum, data de colheita, e o nome do responsável pela colheita, foram encaminhados ao Laboratório de Ixodides - Referência Nacional em Taxonomia de Vetores das Riquétsias, IOC/FIOCRUZ, no Rio de Janeiro, RJ. No laboratório, foram examinados por estereomicroscopia e microscopia de luz com material montado entre lâmina e lamínula. Exemplares adultos foram identificados pela chave dicotômica de Aragão e Fonseca (1961). Para as larvas, foi usada a chave de Amorim e Serra-Freire (1999), e as descrições de Barros-Batestti et al. (2005) e Barbieri (2005). Para ninfas, as descrições de Floch e Abonnenc (1940) e a chave ilustrada de Keirans e Durden (1998). A identificação das aves foi realizada pela equipe técnica do Zoológico de Sorocaba.

No período, foram recolhidos 123 ixodídeos, em oito hospedeiros de cinco espécies de aves selvagens mantidas cativas, sendo quatro espécies da fauna autóctone: ema (Rhea americana Linnaeus, 1758), gurundi (Tachyophonus coronatus Vieillot, 1822), gavião carcará (Poliborus plancus Miller, 1777) e seriema (Cariama cristata Linnaeus, 1766), e uma exótica, pavão de ombros negros (Pavo cristatus Linnaeus, 1758). Essas aves foram sedadas e examinadas no setor de medicina veterinária do Zoológico. De 357 espécies de animais selvagens no Zoológico de Sorocaba, somente cinco espécies de aves apresentavam ixodídeos fixados ao corpo (Tab. 1).

Os estádios de larva e ninfa de Amblyomma longirostre têm como hospedeiros preferenciais as aves (Botão-Miranda et al., 2001; Storni et al., 2005; Venzal et al., 2005). Esta preferência foi confirmada, assim como foi demonstrada a característica polixévica dessa espécie. Chamou a atenção a presença de 34 ninfas, fixadas na região perioftálmica de um único exemplar de T. coronatus, encontrado junto ao solo no Zoológico. A ave apresentava dificuldade em se deslocar devido à quantidade de carrapatos que chegava a obstruir-lhe a visão. A polixevia é característica do carrapato estrela (A. cajennense), relatada por diversos autores (Flechtmann, 1985; Rojas et al., 1999). Assim, fica evidenciado o potencial que as aves possuem para garantir a sobrevivência e a dispersão de populações novas de carrapatos e, por extensão, admitir que as aves possam ser excelentes dispersores de bioagentes e vetores. Esse é um fator complicador quando esses animais estão em ambiente artificial, como um jardim zoológico, onde muitas espécies de indivíduos compartilham o mesmo espaço geopolítico.

Amblyomma pacae foi referida por Aragão (1936), mas é pouco citada na literatura, que sinaliza ser mais freqüente em mamíferos silvestres, como paca (Agouti paca) (Aragão, 1936), javali (Tayassu pecari) (Santos Dias, 1986), tamanduá (Tamanduá tetradactyla) (Jones et al., 1972) e anta (Tapirus bairdii) (Guzmán-Cornejo et al., 2006), oriundos de regiões próximas à linha do Equador, com temperaturas altas durante todo o ano. Neste trabalho, A. pacae foi encontrada em condição diferente das citadas, parasitando seriema, ave bastante comum na região de Sorocaba, em áreas de campo aberto e cerrado. Este é o primeiro registro do encontro de formas imaturas de A. pacae em hospedeiro naturalmente infectado.

Em exemplar de ema, seis espécimes de Amblyomma parvum foram encontrados e recolhidos. Essa espécie de ave passou a ter importância econômica, como animal de produção e tem sido bastante manejada ultimamente em território nacional, visando à exploração econômica. Segundo a literatura, A. parvum também é espécie de carrapato comumente encontrada parasitando mamíferos silvestres e domésticos, em criações comerciais de gado e até no homem (Bechara et al., 2002; Labruna et al., 2005;) Os resultados deste trabalho diferem dos apresentados por Rojas et al. (1999) quando pesquisaram a prevalência e a intensidade média de parasitismo para carrapatos em aves de vida livre.

As aves silvestres, mantidas em condição de cativeiro dentro de um parque zoológico, mostraram-se suscetíveis ao parasitismo de ixodídeos. Alguns fatores condicionantes são levantados, entre os quais: o espaço que impõe limitação física aos animais; a maior densidade de hospedeiros; a facilidade de acesso dos carrapatos aos recintos das aves, por intermédio de vetores foréticos, a dispersão eólica e até mesmo veiculada por funcionários em transporte passivo, ou mesmo por humanos visitantes dos parques; a interação involuntária entre aves e mamíferos silvestres de vida livre, visitantes ocasionais dos zoológicos que ali freqüentam por encontrarem segurança e alimento, estando naturalmente parasitados (Barbosa-Silva et al., 2002; Amorim et al., 2004). A carência de estudos da ixodofauna em animais selvagens cativos, assim como as conseqüências diretas aos animais e aos seres humanos, é um fator alarmante para a conservação das espécies de animais silvestres, dentro ou na proximidade de ambiente urbano.

 

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Recebido em 2 de julho de 2008
Aceito em 30 de outubro de 2008

 

 

E-mail: rhftzoo@hotmail.com

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