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Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia

Print version ISSN 0102-0935On-line version ISSN 1678-4162

Arq. Bras. Med. Vet. Zootec. vol.61 no.4 Belo Horizonte Aug. 2009

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-09352009000400017 

MEDICINA VETERINÁRIA

 

Presença de Campylobacter spp. em macacos-de-cheiro (Saimiri spp.) assintomáticos cativos e sua correlação com as condições de manejo

 

Campylobacter spp. in asymptomatic captive squirrel monkeys (Saimiri spp.) and its correlation with the handling conditions

 

 

M.C.R. Andrade*; D.A. Lopes; S.C.O. Gabeira; W.T.C. Esteves; M.C.B. Vilardo; J.D.S. Thomé; A.L. Lauria-Filgueiras

Fundação Oswaldo Cruz Av. Brasil, 4365 21040-900 - Rio de Janeiro, RJ

 

 


RESUMO

Avaliou-se a circulação de Campylobacter spp. em uma criação de primatas neotropicais macacos-de-cheiro (Saimiri spp.), clinicamente saudáveis, utilizados em investigações biomédicas. A análise foi feita no decorrer de sete anos não consecutivos, de 1995 a 1999, 2002 e 2003. Os resultados revelaram um maior índice de positividade no ano de 1996, em contraste com a ausência do agente em 2003. Os dados sugerem que as alterações realizadas no manejo animal, ao longo deste estudo, foram eficazes para a eliminação do Campylobacter spp. na criação de macacos-de-cheiro, levando os animais a uma melhor qualidade de vida e, consequentemente, obtendo-se um melhor produto para fins de pesquisas.

Palavras-chave: primatas neotropicais, campilobacteriose, manejo animal


ABSTRACT

The circulation of Campylobacter spp. in a breeding colony of clinically healthy neotropical primates squirrel monkeys (Saimiri spp.) used in biomedical investigation was evaluated. Analyses were undertaken during seven non-consecutive years: 1995 to 1999, 2002 and 2003. Results revealed a higher rate of positivity in 1996, in contrast to the absence of the agent in 2003. The data suggest that the changes made in the animal management during this study were effective for the Campylobacter spp. elimination of the squirrel monkeys breeding colony, leading to a better quality of life and, hence, resulting in a better animal for research.

Keywords: neotropical primates, campylobacteriosis, animal handling


 

 

INTRODUÇÃO

Doenças bacterianas, como a campilobacteriose, atuam como importantes causas de morbidade e até mortalidade, afetando tanto os primatas neotropicais de vida livre quanto os cativos. Um outro ponto relevante desta infecção é o seu aspecto zoonótico, sendo extremamente necessário que os seres humanos que manejam os primatas neotropicais adotem determinadas precauções e que sigam os devidos procedimentos operacionais padrões, evitando, assim, situações indesejáveis de contaminações diretas ou indiretas (Dubois, 1996; Diniz, 1997; Montali e Bush, 1999). Campylobacter spp. é uma bactéria comensal do sistema digestivo, pode apresentar-se de forma enteropatogênica e auto-limitante, amplamente distribuída pelo mundo, causando quadros diarreicos em humanos e em primatas não-humanos de laboratório, nos quais o quadro infeccioso se estabelece pela rota orofecal (Bennett et al., 1995).

Ainda não está esclarecida a importância etiológica dessa bactéria em primatas de laboratório (Russel et al., 1988). De acordo com Sá et al. (2001), o isolamento de Campylobacter spp. a partir das fezes de animais com diarreia ou assintomáticos é amplamente relatado, tanto em animais domésticos como silvestres, incluindo os primatas neotropicais. Um estudo retrospectivo de 20 anos responsabiliza as bactérias enteropatogênicas, dentre elas Campylobacter spp., por 7% dos problemas de saúde de uma colônia de Callithrix jacchus (Diniz e Costa, 1995). Uma análise de cinco anos de necropsias realizadas em primatas neotropicais revelou a presença de diversas bactérias enteropatogênicas, incluindo Campylobacter jejuni (Gozalo e Montoya, 1990; 1992).

Campylobacter jejuni também já foi isolado em mico-leões-dourados (Leontopithecus rosalia), estando associado com doenças intestinais nas colônias de Calitriquídeos (Montali e Bush, 1999). Gozalo et al. (1991) verificaram maior prevalência do organismo em amostras fecais de Saguinus spp. recém-capturados do seu habitat do que em calitriquídeos mantidos em cativeiro por mais de um ano, não havendo correlação entre os episódios de diarreia e os animais infectados.

O envolvimento de Campylobacter spp. no desenvolvimento dos processos zoonóticos e enteropatogênicos tem sido amplamente discutido. Contudo, são extremamente escassos os relatos científicos que correlacionam a presença desse microrganismo com primatas neotropicais. Visto que o manejo animal adotado em uma criação influencia diretamente na presença do referido patógeno (Evans et al., 2003), avaliou-se a dinâmica comportamental de Campylobacter spp. em um criadouro de macacos-de-cheiro (Saimiri spp.), em relação às alterações nutricionais, sanitárias e estruturais de recinto, ao longo dos anos de 1995 a 1999, 2002 e 2003.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Foram analisadas 433 amostras fecais de macacos-de-cheiro (Saimiri spp.), destinados à pesquisa biomédica, pertencentes ao criadouro científico do Departamento de Primatologia do Centro de Criação de Animais de Laboratório (Cecal) da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) nos anos de 1995 a 1999, 2002 e 2003. Os animais foram separados nas faixas etárias: infantil (de 0 a 12 meses), juvenil (de 13 a 36 meses), subadulto (de 37 a 60 meses) e adulto (acima de 60 meses). A Tab. 1 mostra o número de animais estudados de acordo com o sexo e as faixas etárias.

Durante o manejo médico anual realizado no Cecal-Fiocruz (Andrade et al., 2004), foram coletadas amostras fecais por suabe retal. Foram utilizados suabes em meio Cary Blair1 para a conservação das amostras até o seu processamento. As fezes coletadas foram testadas de acordo com o protocolo de Lauria-Filgueiras e Hofer (1998). As amostras foram semeadas em meio seletivo à base de ágar Columbia2, acrescido com 05% de sangue desfibrinado de carneiro ou 0,4g% de carvão ativado, 05mL% de solução redutora FBP (0,5mL% de sulfato ferroso, bissulfito de sódio e piruvato de sódio) e 0,5mL% solução de antibiótico (cefalotina3 81mg) + lactato de trimetoprim4 25mg + vancomicina3 50mg + actidione5 10mg + colistina3 11mg + água destilada 25mL) e incubadas a 42ºC por 48 horas em atmosfera de microaerofilia, gerada pelo método da passivação de cobre (Pinheiro et al., 1991) ou envelopes comercializados.

O diagnóstico presuntivo foi realizado após a incubação, com base na morfologia de colônia (transparentes com brilho d'água) e morfologia celular, por meio do método de Gram e de acordo com a descrição de Lauria-Filgueiras e Hofer (1998). Para o diagnóstico definitivo, utilizaram-se testes bioquímicos, tais como, hidrólise do hipurato de sódio e do acetato de indoxila, produção de Dnase e antibiograma (Lauria-Filgueiras, 2000).

Com a constatação da presença de Campylobacter spp. na população animal estudada e com o intuito de erradicar o agente na criação, alterações no manejo foram sendo realizadas no decorrer dos anos. No ano de 1998, houve uma modificação estrutural nas instalações onde estão alojados os macacos-de-cheiro, com a troca das placas de amianto do lanternim, localizado na entrada do prédio, por telhas de alumínio, a fim de prevenir infiltrações indesejáveis. Trocaram-se, também, as telas de proteção dos recintos, optando-se por um material de maior durabilidade (aço inoxidável). Em 2001, introduziu-se maravalha autoclavada nas gaiolas, evitando-se, assim, a lavagem diária do local para redução da umidade e consequente contaminação ambiental, além de menor frequência da circulação dos funcionários no interior das gaiolas, fato que contribui para minimizar o estresse dos animais.

Para a realização da coleta das amostras fecais, até o ano de 2000, era utilizado um coletor de metal de uso coletivo, higienizado com solução desinfetante entre um animal e o outro. A partir do ano de 2001, utilizaram-se suabes descartáveis estéreis e individuais. Outra medida sanitária adotada, a partir do ano de 2002, foi a lavagem dos alimentos vegetais, por meio de imersão em hipoclorito de sódio durante 15 minutos, antes do fornecimento aos animais.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

De acordo com os testes realizados, as espécies isoladas, mais frequentes nos animais analisados, foram Campylobacter jejuni e C. coli. Outras espécies não tipificadas foram classificadas como Campylobacter spp. (Tab. 2).

Os resultados obtidos, para a população de macacos-de-cheiro, demonstraram que as taxas de positividade decresceram ao longo dos anos analisados (Fig. 1). Obteve-se o maior índice de positividade no ano de 1996 (24,24%) e o menor índice em 2003 (0%).

Fernández et al. (1994) observaram que, em indivíduos com diarreia, Campylobacter jejuni era mais frequente em relação a C. coli. Neste trabalho verificou-se, também em animais assintomáticos, maior frequência de C. jejuni. Scarcelli et al. (2005) detectaram a presença de C. jejuni em 5% (18/366) de primatas analisados. A infecção por C. jejuni pode desencadear um quadro de paralisia neuromuscular (Scarcelli et al., 2005). Neste estudo, os animais portadores de Campylobacter spp. não apresentaram nenhum tipo de manifestação clínica.

Durante o período de análise, constatou-se ausência da infecção nos animais subadultos. Os maiores percentuais de positividade foram encontrados em animais jovens, durante os anos de 1995, 1997 e 2002. Já nos anos de 1996, 1998 e 1999, os maiores índices foram detectados nos animais adultos (Fig. 2). Estes resultados contradizem estudos anteriores, que afirmaram serem os animais mais jovens os mais afetados (Russel et al., 1987).

Os resultados deste trabalho sugerem que as alterações no manejo animal em relação à alimentação, à higienização e às instalações influenciaram na incidência de Campylobacter spp. na colônia de macacos-de-cheiro. As modificações estruturais dos recintos dos animais, por exemplo, auxiliaram na prevenção da entrada de roedores e pássaros nas gaiolas, já que, em geral, todos os animais podem constituir reservatórios assintomáticos ou mesmo veículos, representando sérios riscos à saúde (Tribe e Frank, 1980; Pei et al., 1991).

Segundo Fox (1982), animais de laboratório mantidos em confinamento geralmente são acometidos por estresse ambiental devido à superpopulação, às mudanças na dieta, à iluminação, à temperatura, à ventilação, à umidade e à alta circulação de indivíduos. Um ou uma combinação destes fatores pode induzir ao aparecimento de sinais clínicos da campilobacteriose, em animais que, até então, eram portadores assintomáticos. Dessa forma, a introdução da maravalha autoclavada nas gaiolas também pode ter sido uma medida eficaz.

Outra medida importante foi a substituição do coletor fecal não descartável pelos suabes, que, sem dúvida, constitui um método mais adequado para a coleta de amostras para análises, por prover resultado individual de maior confiabilidade e por evitar contaminações cruzadas (Fox, 1982).

O método mais efetivo para o controle de Campylobacter spp depende inteiramente da interrupção da sua transmissão entre os animais e os humanos, adotando-se medidas de higiene adequadas com a finalidade de eliminar o organismo infectante presente nos alimentos e na água (Perez-Perez e Blaser, 1996). De acordo com os exames semanais realizados nas amostras de água e alimentos vegetais lavados, enviadas ao laboratório para controle sanitário, a contaminação parasitológica nestes produtos foi eliminada totalmente.

Torna-se necessária uma melhor compreensão da patogenicidade da infecção causada por Campylobacter spp. em símios do gênero Saimiri spp. e da história natural da doença, para o desenvolvimento de métodos profiláticos e de controle.

 

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Recebido em 27 de maio de 2008
Aceito em 12 de maio de 2009

 

 

* E-mail: andrade@fiocruz.br
1 Plast Labor - Rio de Janeiro, Brasil.
2 Difco - Kansas, EUA.
3 Sigma - Rio de Janeiro, Brasil.
4 Roche - São Paulo, Brasil.
5 Upjohn - São Paulo, Brasil.

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