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Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia

Print version ISSN 0102-0935On-line version ISSN 1678-4162

Arq. Bras. Med. Vet. Zootec. vol.61 no.5 Belo Horizonte Oct. 2009

https://doi.org/10.1590/S0102-09352009000500035 

COMUNICAÇÃO COMMUNICATION

 

Nutrição enteral precoce com glutamina em cães com gastrenterite hemorrágica pelo parvovirus canino

 

Early enteral nutrition with glutamine in dogs with hemorrhagic gastroenteritis by canine parvovirus

 

 

P.R.S. Costa; L.G. Conceição; M.A.F. Lopes

Departamento de Veterinária - UFV Av. P. H. Rolfs, s/n 36570-000 Viçosa, MG

 

 


Palavras-chave: cão, parvovirose, gastrenterite hemorrágica, glutamina


ABSTRACT

The effect of the addition of glutamine aminoacid in a solution to early enteral nutrition in dogs with hemorrhagic gastroenteritis by parvovirus (GEHV) was evaluated in a prospective study with 20 dogs. The animals were randomly separated in two groups of treatment. Animals in group 1 did not receive glutamine and in group 2 received glutamine by enteral solution. The mortality rate was 20% in group 1 and 10% in group 2, but difference was not statistically significative. The addition of glutamine in a solution to enteral nutrition did not change mortality rate.

Keywords: dog, parvovirosis, hemorrhagic gastroenteritis, glutamine


 

 

A parvovirose canina é a causa mais frequente de diarreia hemorrágica de origem infecciosa em cães até os seis meses de idade (Hoskins, 1997). No Brasil, a doença é frequente e responsável por alta taxa de mortalidade em cães jovens. O objetivo deste estudo foi avaliar os efeitos da nutrição enteral enriquecida com glutamina sobre a evolução clínica de cães naturalmente acometidos pela parvovirose. Para tal, realizou-se um estudo prospectivo em cães com gastrenterite hemorrágica viral (GEHV) pelo parvovirus canino de ocorrência natural utilizando-se 20 animais provenientes da casuística de atendimento clínico em um hospital veterinário, entre os anos de 2005 e 2006. Entraram no estudo os animais que atenderam os seguintes critérios: idade entre dois a seis meses, presença de diarreia hemorrágica, leucopenia ao hemograma, resultado positivo no teste de detecção do parvovirus fecal pelo Elisa1 e concordância do proprietário em internar o animal até a alta hospitalar. Dez receberam o protocolo de tratamento 1 (grupo 1) e os outros 10, o protocolo de tratamento 2 (grupo 2). A única diferença entre os protocolos de tratamento foi a adição do aminoácido glutamina na solução de nutrição enteral para os animais do grupo 2. A decisão de qual protocolo terapêutico a ser utilizado em cada grupo foi definida por sorteio.

O protocolo terapêutico comum a ambos os grupos foi constituído pela administração de fluidos intravenosos, antibióticos, antieméticos, antiparasitários e nutrição enteral com a infusão de pequenas quantidades de nutrientes por sonda nasoesofágica.

Para nutrição enteral, foi empregada uma solução comercial reidratante isosmolar2, contendo eletrólitos e glicose. Nos animais do grupo 2, foi adicionado a essa solução o aminoácido glutamina3, na dose de 500mg/kg. A administração foi realizada por uma sonda nasoesofágica conectada ao equipo e frasco contendo a solução. Como sonda nasoesofágica foi adaptada uma sonda uretral4 número 4 ou 6 conforme o tamanho do animal. A colocação da sonda foi feita diariamente de forma alternada em cada narina. Antes da introdução da sonda, foi instilada 0,5ml de lidocaína5 na narina escolhida com objetivo de minimizar o desconforto da passagem da sonda. Para o posicionamento correto no esôfago distal, o comprimento da sonda foi estimado externamente a partir da distância da narina até o 10º espaço intercostal. A fixação da sonda foi feita com ponto de sutura na pele da face do animal, e o local do ponto de sutura recebeu anestesia prévia com lidocaína.

A solução para nutrição enteral foi infundida à velocidade de 0,25mL/kg/hora realizada por oito horas a cada 24 horas. Para controle da baixa velocidade de infusão, foi utilizada uma bomba de infusão6. A administração da nutrição enteral foi mantida durante todo o período de internação.

Para analisar o efeito da adição de glutamina na nutrição enteral, foram confrontados as taxas médias de mortalidade, a tempo de internação e o percentual de ganho de peso entre os animais dos grupos 1 e 2. Os resultados foram comparados pelo teste exato de Fisher ao nível de significância de 5%.

A taxa de mortalidade foi de 20% no grupo 1 e 10% no grupo 2. Pelo teste exato de Fisher, o valor de P foi 1,00 e a 5% de significância não houve diferença entre os dois grupos em relação à taxa de mortalidade. A não existência de diferença significativa entre os grupos pode ser explicada por algumas hipóteses. Primeiramente, o protocolo de tratamento intensivo realizado em ambos os grupos foi bastante semelhante, e a única diferença foi o acréscimo do aminoácido glutamina. A presença de nutrientes no intestino estimulou o sistema imune local a secretar IgA, aumentou a produção de muco e manteve a massa intestinal funcional, reduzindo a permeabilidade intestinal e o potencial de translocação bacteriana  conforme sugeriram Devey e Crowe (2000) e Mohr et al. (2003). Portanto, é possível que a presença de glicose e eletrólitos na luz intestinal tenha contribuído, de maneira similar à glutamina, para a manutenção da função intestinal.

Vários estudos em medicina humana e com animais de laboratório têm demonstrado que a glutamina melhora a função da barreira intestinal, diminuindo a permeabilidade e aumentando a cicatrização da mucosa (Souba, et al. 1990; Li et al., 1994; Remillard et al., 2000). Desse modo, neste trabalho não foi possível demonstrar o efeito benéfico da suplementação de glutamina na alimentação enteral. É possível que o efeito não ocorreu em razão do pequeno volume administrado na nutrição enteral, no entanto, esse volume não pode ser aumentado, pois pode exacerbar o vômito e a diarreia.

 

AGRADECIMENTOS

À Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (FAPEMIG), pelo apoio financeiro para a execução do presente trabalho.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 

DEVEY, J.J.; CROWE, D.T. Microenteral nutrition. In: BONAGURA, J.D. Kirks current veterinary therapy. XIII. Small animal practice. Philadelphia: Saunders, 2000. p.136-140.         [ Links ]

HOSKINS, J.D. Update on canine parvoviral enteritis. Vet. Med., p.694-709, 1997.         [ Links ]

LI, J.; LANGKAMP-HENKEN, B.; SUZUKI, K. et al. Glutamine prevents parenteral nutrition-induced increases in intestinal permeability. J. Parenter. Enter. Nutr., v.18, p.303-307, 1994.         [ Links ]

MOHR, A.J.; LEISEWITZ, A.L.; JACOBSON, L.S. et al. Effect of early enteral nutrition on intestinal permeability, intestinal protein loss, and outcome in dogs with severe parvoviral enteritis. J. Vet. Intern. Med., v.17, p.791-798, 2003.         [ Links ]

REMILLARD, R.L.; ARMSTRONG, P.J.; DAVENPORT, D.J. Assisted feeding in hospitalized patients: enteral and parenteral nutrition. In: HAND, M.S.; TRATCHER, C.D.; REMILLARD, R.L. et al. Small animal clinical nutrition. 4.ed. Topeka, KA: Mark Morris Associates, 2000. p.351-390.         [ Links ]

SOUBA, W.W.; KLIMBERG, V.S.; PLUMLEY, D.A. et al. The role of glutamine in maintaining a healthy gut and supporting the metabolic response to injury and infection. J. Surg. Res., v.48, p.383, 1990.         [ Links ]

 


Recebido em 26 de fevereiro de 2008
Aceito em 6 de agosto de 2009

 

 

E-mail: prenato@ufv.br
Apoio: FAPEMIG, MG
1 Snap Parvoâ - BioBrasil São Paulo, Brasil.
2 Pedialyte solução Abbott São Paulo, Brasil.
3 Glutamina em pó Mendicamentus farmácia de manipulação Viçosa, Brasil.
4 Sonda uretral descartável siliconizada Mark Méd. Bragança Paulista, Brasil.
5 Lidojet União Química São Paulo, Brasil.
6 LF 2001 Lifemed.

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