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Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia

Print version ISSN 0102-0935

Arq. Bras. Med. Vet. Zootec. vol.64 no.3 Belo Horizonte June 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-09352012000300024 

ZOOTECNIA E TECNOLOGIA E INSPEÇÃO DE PRODUTOS DE ORIGEM ANIMAL ANIMAL SCIENCE AND TECHNOLOGY AND INSPECTION OF ANIMAL PRODUCTS

 

Qualidade da silagem de híbridos de sorgo em diferentes estádios de maturação

 

Silage quality of sorghum hybrids in different maturation stages

 

 

F.S. MachadoI; N.M. RodríguezII; J.A.S. RodriguesIII; M.N. RibasII; A.M. TeixeiraII; G.O. Ribeiro JúniorII; F.O. VelascoII; L.C. GonçalvesII; R. Guimarães JúniorIV; L.G.R. PereiraI

IEmbrapa Gado de Leite - CNPGL - Coronel Pacheco, MG. E-mail: fernanda@cnpgl.embrapa.br
IIEscola de Veterinária - Universidade Federal de Minas Gerais - Belo Horizonte, MG
IIIEmbrapa Milho e Sorgo - Sete Lagoas, MG
IVEmbrapa Cerrados - Planaltina, DF

 

 


RESUMO

Avaliou-se a qualidade das silagens de três híbridos de sorgo, BRS 610, BR 700 e BRS 655, colhidos em três estádios de maturação da planta, grãos leitoso, pastoso e farináceo. O delineamento utilizado foi o inteiramente ao acaso, em esquema fatorial 3x3 (híbridos x estádios de maturação), com quatro repetições. Os teores de matéria seca apresentaram variação de 22,9% a 41,3%. O BR 700 apresentou maior porcentagem de matéria seca que os demais híbridos em todas as idades de corte. Os teores de proteína bruta e as frações fibrosas, fibra em detergente neutro e fibra em detergente ácido, apresentaram comportamento diferente entre estádios de maturação e entre híbridos. Os valores de lignina não foram alterados com o avanço da idade de corte. Os coeficientes de digestibilidade in vitro da matéria seca das silagens variaram de 50,7% a 55,6% e comportaram-se de forma diferente com a maturidade para cada hibrido. De acordo com os valores de pH, de nitrogênio amoniacal e de ácidos orgânicos encontrados, as silagens dos três híbridos são classificadas como de boa qualidade em todos os períodos de colheita.

Palavras-chave: Sorghum bicolor (L.) Moench, momento de colheita, valor nutritivo


ABSTRACT

The quality of silages of three sorghum hybrids BRS 610, BR 700 and BRS 655 harvested at three maturation stages, milk, soft dough and floury grains, was evaluated. A complete randomized design was used in a 3x3 factorial arrangement (hybrids x maturation stages), with four repetitions. Dry matter values varied from 22.9% to 41.3%. BR 700 had a higher percentage of dry matter than the other hybrids in all ages. The content of crude protein and fibrous fractions, neutral detergent fiber and acid detergent fiber presented different behavior between the maturation stages and between hybrids. The lignin values were not modified with the advancement of the cut age. The in vitro digestibility of silages varied from 50.7% to 55.6% and presented different behavior among each hybrid maturity. According to the pH, ammonia nitrogen, organic acids and dry matter values, the silages of the three hybrids were classified as good fermentation quality at all harvest periods.

Keywords: Sorghum bicolor (L.) Moench, nutritive value, moment of harvest


 

 

INTRODUÇÃO

A intensificação dos processos produtivos na pecuária de corte e de leite nacional promoveu aumento das necessidades quantitativas e qualitativas de alimentos para os animais, principalmente nos períodos de escassez de pastagens. Nesse aspecto, a produção de silagem de alta qualidade torna-se uma alternativa viável à manutenção dos sistemas de forrageamento, por restringir o período de carência alimentar e contribuir para a melhora dos índices zootécnicos do rebanho bovino nacional (Machado et al., 2011). Entre as forrageiras indicadas para a produção de silagem, o sorgo destaca-se pela resistência ao déficit hídrico, pela amplitude de plantio e pela capacidade de rebrota. A qualidade e o valor nutritivo de uma silagem dependem, fundamentalmente, da cultivar utilizada, do estádio de maturação no momento do corte e da natureza do processo fermentativo, o que refletirá diretamente na composição química e, por conseguinte, no desempenho animal (Vilela, 1985). O teor de matéria seca da forragem no momento da ensilagem é um dos principais determinantes do processo fermentativo e, consequentemente, da qualidade da silagem produzida. Assim como a alta umidade prejudica a obtenção de silagem de qualidade, devido à multiplicação de bactérias indesejáveis e à produção de efluentes, altos teores de matéria seca também não são desejáveis, devido à dificuldade de compactação e expulsão do oxigênio, levando ao aumento da fase aeróbica no processo de ensilagem (Machado, 2009). A digestibilidade das forrageiras é um importante parâmetro que determina qual é o aproveitamento dos nutrientes, devendo ser considerada na formulação de dietas para ruminantes. As técnicas in vitro utilizam microrganismos e/ou enzimas que reproduzam as condições do trato digestivo dos ruminantes, e pela simplicidade de execução, pelo baixo custo, pela acurácia e pela alta correlação com dados obtidos in vivo, têm se tornado cada vez mais populares (Williams, 2000). Na qualificação do processo fermentativo devem ser consideradas as características químicas das silagens, que abrangem os valores de pH, teores de matéria seca, nitrogênio amoniacal em relação ao nitrogênio total e os ácidos orgânicos (Tomich et al., 2003). Objetivou-se avaliar a composição bromatológica, a digestibilidade in vitro da matéria seca e os parâmetros de qualidade das silagens dos híbridos de sorgo BRS 610, BR 700 e BRS 655 nos três estádios de maturação: leitoso, pastoso e farináceo.

 

MATERIAL E MÉTODOS

O experimento foi conduzido na Embrapa Milho e Sorgo, localizada no município de Sete Lagoas, Minas Gerais (19º28' de latitude sul e 44º15'08" de longitude oeste, 732 metros de altitude). O clima da região é do tipo Aw, conforme classificação de Köeppen, e o solo classificado como latossolo vermelho-amarelo fase cerrado. As condições climáticas (precipitação pluviométrica e temperatura) referentes ao período experimental estão apresentadas na Fig. 1. Foram avaliados três híbridos de sorgo (BRS 610, BR 700 e BRS 655) em três diferentes estádios de maturação dos grãos: leitoso, pastoso e farináceo. O BRS 610 é um híbrido de porte alto, colmo seco, panícula semi-aberta, grãos vermelhos, endosperma semiduro e sem tanino. O BR 700 é um híbrido de porte alto, colmo seco, panícula semiaberta, grãos de coloração castanha, endosperma semiduro, com tanino. O BRS 655 é um híbrido de porte alto, colmo seco, panícula semiaberta, grãos marrons, endosperma semiduro, com tanino. A semeadura foi realizada em canteiros, constituídos por quatro fileiras com 5m de comprimento e 70cm de espaçamento entre linhas. Para cada híbrido, foram utilizados quatro canteiros por estádio de maturação, sendo o corte realizado nas duas linhas centrais, descartando-se 2m nas extremidades dos canteiros. Na semeadura utilizaram-se 350kg ha-1 da fórmula do adubo N-P-K 08-28-16 e realizou-se adubação de cobertura com 100kg ha-1 de ureia, de acordo com as análises de solo. Foi utilizado o herbicida Atrazine para controle de plantas invasoras. Para determinação dos estádios de maturação, avaliaram-se os grãos localizados na porção central da panícula. Os cortes de cada híbrido foram realizados nas idades apresentadas na Tab. 1. As plantas foram cortadas manualmente, rente ao solo, e picadas em picadeira estacionária. O material foi amostrado de forma homogênea e ensilado em silos de laboratórios fabricados com tubos de PVC, tendo 10cm de diâmetro e 40cm de comprimento, dotados de válvula tipo Bunsen. A abertura dos silos ocorreu aos 56 dias de fermentação. Após a homogeneização da silagem, parte do material foi amostrada e pré-seca em estufa de ventilação forçada a 55ºC por 72 horas e posteriormente submetida à moagem em moinho com peneira de 1mm. Foram determinados os teores de matéria seca em estufa a 105ºC e de proteína bruta, método kjeldahl, segundo Association... (2000). As frações fibrosas foram determinadas pelo método sequencial de Van Soest et al. (1991), com adição 2mL de amilase termo-resistente no aparelho Fiber analyser ANKOM 220, utilizando sacos filtro F-57 ANKOM®. A digestibilidade in vitro da matéria seca (DIVMS) foi determinada segundo o procedimento de dois estágios descrito por Tilley e Terry (1963), adaptado por Holden (1999) para utilização do simulador de rúmen Daisy II ANKOM®. Outra parte da silagem foi submetida à prensagem hidráulica para retirada do suco e avaliação imediata do pH em potenciômetro com escala expandida Beckman e nitrogênio amoniacal em relação ao nitrogênio total (N-NH3/NT) (Association..., 2000). Parte do suco da silagem, 10mL, foi congelada com adição de ácido metafosfórico 25%, na proporção de 5mL do suco para 1mL do conservante, para posterior análise de ácidos orgânicos em cromatografia gasosa (cromatógrafo Shimadzu GC-17) utilizando-se uma coluna capilar Nukol.

O delineamento experimental utilizado foi inteiramente casualizado, em esquema fatorial 3x3 (três híbridos x três idades de corte) e quatro repetições (canteiros). Os dados obtidos foram submetidos à análise de variância utilizando-se o pacote estatístico SAEG (2007) , e as médias comparadas pelo teste SNK ao nível de 5% de probabilidade. O modelo estatístico utilizado foi:

Yij= µ + Hi + Cj + (H*C)ij + Eij ,

em que: Yij = observação da variável resposta do híbrido "i" no estádio de maturação "j"; µ = média geral; Hi = efeito do híbrido; i= BRS 610, BR 700 e BRS 655; Cj = efeito do estádio de maturação; j= leitoso, pastoso e farináceo; (H*C)ij = efeito da interação híbrido x estádio de maturação; e Eij = erro aleatório do híbrido "i" no estádio de maturação "j".

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Observou-se interação significativa (P<0,05) entre os híbridos e os estádios de maturação para os teores de matéria seca (MS), proteína bruta (PB), digestibilidade in vitro da matéria seca (DIVMS). Como pode ser observado na Tab. 2, os valores de MS das silagens variaram de 22,86% a 41,27%. Os híbridos BRS 610 e BR 700 mostraram aumento gradativo das porcentagens de MS entre cortes sucessivos. Já o BRS 655 obteve elevação do teor de MS somente entre o estádio pastoso e o farináceo. Os acúmulos de MS entre o primeiro e o terceiro corte foram de 29%, 47% e 18% para BRS 610, BR 700 e BRS 655, respectivamente. Em todos os períodos, o BR 700 apresentou maior teor de MS que os demais. A elevação considerável nos teores de MS entre cortes para o híbrido BR 700 indica que o intervalo de colheita deste material no ponto ideal é reduzido. No estádio leitoso, o BRS 610 apresentou maior porcentagem de MS que o BRS 655, enquanto no estádio pastoso essa relação se inverteu e no estádio farináceo não houve diferença.

Segundo Paiva (1976), silagens de boa qualidade devem ter de 30% a 35% de MS. Para Pizarro (1978), essa faixa seria mais ampla, variando de 28% a 38% de MS. Já McDonald et al. (1991) afirmaram que, quando há adequada quantidade de carboidratos solúveis, teores de MS de 20% são suficientes para garantir boa fermentação. Para Van Soest (1994), os valores de MS das silagens deveriam estar em torno de 30%, pois assim é garantido o maior consumo pelo animal. Araújo et al. (2007) observaram aumento gradativo dos teores de MS das silagens dos híbridos BR 700, BR 701 e MASSA 03 com o avanço do estádio de maturação, sendo as médias dos híbridos de 39,03%, 36,78% e 39,91%, respectivamente. Esses autores encontraram para o BR 700 teores de MS de 30,46%, 39,35% e 44,43%, para os estádios leitoso, pastoso e farináceo, respectivamente, valores superiores aos observados neste trabalho para os mesmos períodos. Pires et al. (2006), avaliando três híbridos de sorgo em oito idades de corte, também observaram elevação da MS das silagens com a maturidade (20,78% a 41,89%), encontrando para o BR 700 valores de 25,31%, 32,52% e 39,74% para os estádios leitoso, pastoso e farináceo, respectivamente. Já Molina et al. (2002) encontraram teores de MS para BR 700 e BR 601 de 27,6% e 20,8% no estádio leitoso, 39,3% e 26,2% no pastoso e 44,9% e 28,2% no farináceo, respectivamente.

Para o híbrido BRS 610, o teor de PB não variou entre as idades de corte (Tab. 2). Para o BR 700, o estádio leitoso apresentou maior porcentagem de PB do que o estádio pastoso, e o último corte apresentou valor intermediário e semelhante aos demais períodos. O BRS 655 apresentou menor teor de PB no estádio farináceo em relação aos dois primeiros cortes, que foram semelhantes entre si. Comparando-se os híbridos dentro de um mesmo período, não houve diferença entre eles nos estádios leitoso e farináceo. Já no estádio pastoso, o BRS 655 mostrou maior teor de PB do que o BR 700, e o BRS 610 apresentou valor intermediário e semelhante aos demais. Araújo et al. (2007) citaram teores de PB de 6,07% a 7,84%, ocorrendo influência do estádio de maturação devido à redução dos níveis de PB das frações folha e colmo. Pires et al. (2006) observaram reduções significativas das porcentagens de PB com o avanço do estádio de maturação (8,52% a 6,38%) para os três híbridos de sorgo avaliados. Os valores de PB encontrados no presente trabalho (5,71% a 6,81%) foram inferiores aos observados por Molina et al. (2002), de 5,7% a 7,8%. Entretanto, foram próximos aos valores médios observados por Neumann et al. (2004), de 5,55% para híbridos forrageiros e 5,85% para híbridos de duplo-propósito. Rocha Júnior et al. (2000), ao trabalharem com sete genótipos de sorgo, com diferentes suculências de colmo, encontraram variações de 4,9% a 10,3% para os teores de PB nas silagens.

Os valores de DIVMS variaram de 50,73% a 55,55% (Tab. 2). O BRS 610 apresentou menor valor de DIVMS no estádio leitoso do que nos cortes posteriores, que não diferiram entre si. O BR 700 não mostrou alteração nos valores de DIVMS entre os períodos de colheita. Já o BRS 655 apresentou redução gradativa da DIVMS com a maturidade da planta, sendo o estádio leitoso superior ao farináceo, e o estádio pastoso semelhante a ambos. Comparando-se os híbridos dentro de um mesmo período, no primeiro corte o BRS 655 apresentou maior valor de DIVMS que o BR 700, que, por sua vez, foi superior ao BRS 610. No estádio pastoso, o BRS 610 e o BRS 655 foram semelhantes entre si e superiores ao BR 700. Já no estádio farináceo, o BRS 610 apresentou maior DIVMS do que os demais híbridos, que foram semelhantes entre si. Araújo et al. (2007) não observaram variações na DIVMS com o avanço da idade de corte, sendo as médias de 47,2%, 50,7% e 52,2% para os híbridos BR 700, BR 701 e MASSA 03, avaliados em cinco estádios de maturação. No trabalho de Pires et al. (2006), o efeito do estádio de maturação sobre a digestibilidade no sorgo apresentou comportamento variável para os diferentes híbridos avaliados. O efeito do avanço da maturidade sobre a digestibilidade é variável entre diferentes materiais devido às variações nas proporções das partes da planta (folhas, colmo e panícula) e às diferenças nos valores nutricionais dessas frações, o que interfere na qualidade final das silagens de sorgo. Além do estádio de maturação, da proporção de grãos na massa ensilada e da qualidade da fibra, a DIVMS da silagem de sorgo pode ser influenciada pela presença de taninos, que são conhecidamente inibidores da digestibilidade dos alimentos (Saba et al., 1972; Nunez-Hernandez et al., 1991). O BRS 610 é considerado um híbrido sem tanino, enquanto o BR 700 e o BRS 655 são classificados como híbridos com tanino. Dessa forma, a maior DIVMS do BRS 610 no estádio farináceo, quando há maior porcentagem de panícula na planta, pode ser atribuída à ausência de tanino nos grãos.

Observou-se interação significativa (P<0,05) entre os híbridos e os estádios de maturação para os teores de fibra insolúvel em detergente neutro (FDN), fibra insolúvel em detergente ácido (FDA) e lignina. Como pode ser observado na Tab. 3, os valores de FDN oscilaram de 52,85% a 59,32%. Para os híbridos BRS 610 e BRS 655, no estádio leitoso foram observados teores de FDN superiores em relação ao pastoso e ao farináceo, que foram semelhantes entre si. Já o BR 700 apresentou maior porcentagem de FDN no estádio leitoso do que no farináceo, sendo o estádio pastoso semelhante aos demais. Não houve diferença entre os híbridos avaliados no primeiro e no terceiro cortes. Já no segundo corte, o BR 700 e o BRS 655 obtiveram o maior e o menor teor de FDN, respectivamente. Araújo et al. (2007) obtiveram valores de FDN de 62,6%, 61,5% e 59,1% para os híbridos BR 700, BR 701 e MASSA 03, respectivamente. Estes autores não observaram diferenças significativas nesses teores entre épocas de corte. Molina et al. (2002) também não verificaram influência do estádio de maturação sobre a porcentagem de FDN, sendo o valor médio de 41,2%, 49,4% e 50,5% para híbridos graníferos, forrageiros e de duplo-propósito, respectivamente. Já Pires et al. (2006) observaram reduções nos níveis de FDN à medida que avançou o estádio de maturação (64,98% a 50,52%), provavelmente devido ao aumento da participação das panículas e à redução da proporção de colmos e folhas no material ensilado.

Os híbridos BRS 610 e BRS 655 apresentaram comportamento semelhante com o avanço da maturidade da planta, com maiores valores de FDA no estádio leitoso em relação aos cortes posteriores, que foram semelhantes entre si (Tab. 3). Já o BR 700 apresentou menor teor de FDA no estádio farináceo do que nos estádios leitoso e pastoso, que não diferiram entre si. Não houve diferença significativa entre os híbridos em todos os períodos de colheita. Ocorreu variação de 32,89% a 37,45% para os valores de FDA, resultado próximo aos valores observados por Araújo et al. (2007) (34,48% a 38,67%). Neumann et al. (2004) obtiveram valores médios de 35,19% e 31,84% para híbridos forrageiros e de duplo-propósito, respectivamente. Molina et al. (2002) observaram teores médios de 23,85%, 29,9% e 31,15% para híbridos graníferos, forrageiros e de duplo-propósito, respectivamente. A alta porcentagem de FDA é uma característica indesejável, pois indica a presença de substâncias pouco aproveitáveis pelo animal, como lignocelulose, que são um bom indicador da qualidade da silagem, pois apresentam correlação negativa com a digestibilidade da matéria seca (Oliveira et al., 2010). Essa fibra indigestível ocupa espaço no trato gastrointestinal, diminuindo a taxa de passagem e o consumo (Zanine et al., 2006).

Não houve influência do estádio de maturação sobre os teores de lignina, e a variação foi de 6,05% a 6,22% (Tab. 3). No estádio leitoso, o BR 700 apresentou maior teor de lignina que os demais híbridos, os quais foram semelhantes entre si. Já nos estádios pastoso e farináceo, não houve diferença nos teores de lignina entre os híbridos avaliados. Níveis inferiores a 7,3% de lignina na silagem de sorgo favorecem o aumento do consumo e da digestibilidade das frações fibrosas (Martins et al., 2003). Araújo et al. (2007) encontraram valores de lignina entre 4,16% e 6,91%, e não relataram variação significativa entre estádios de maturação, em razão da compensação entre o aumento da participação da panícula e a redução da participação do colmo.

Em estudo com silagem de milho, Tomich et al. (2006) encontraram valores de 27,3% de MS, 7,2% de PB, 51,5% de FDN, 32,4% de FDA e 4,0% de lignina e, para silagem de sorgo, valores de 31,7% de MS, 6,8% de PB, 59,1% de FDN, 35,9% de FDA e 4,9% de lignina.

Observou-se interação significativa (P<0,05) entre os híbridos e os estádios de maturação para todos os parâmetros de fermentação das silagens apresentados na Tab. 4. O BRS 655 não apresentou alteração no pH entre os períodos de colheita. Já o BR 700 apresentou aumento no teor de pH entre cortes sucessivos, de 3,88 a 4,22, enquanto o BRS 610 apresentou valor de pH no estádio farináceo (4,03) superior ao estádio leitoso (3,94). Comparando-se os híbridos em um mesmo período, não houve diferença entre os materiais avaliados no estádio leitoso. Já nos cortes posteriores, o BR 700 apresentou valor de pH superior aos demais híbridos, que foram semelhantes entre si. O teor de MS mais elevado da planta do híbrido BR 700 pode ter dificultado a compactação, fermentação, distribuição dos ácidos produzidos e, consequentemente, a redução do pH. Segundo Paiva (1976), silagens boas apresentam pH entre 3,8 e 4,2. Desta forma, as silagens do presente trabalho podem ser classificadas como de boa qualidade.

Os teores de nitrogênio amoniacal das silagens dos três híbridos de sorgo colhidos em três idades de corte estão apresentados na Tab. 4. Os valores de NH3/NT foram baixos, com variação de 1,36% a 2,25%, indicando o controle do processo de proteólise. Para os híbridos BRS 610 e BR 700 não foram observados efeitos dos estádios de maturação sobre os teores de NH3/NT. Já para o BRS 655, foi observada redução no teor de NH3/NT entre os estádios leitoso e pastoso, sendo o estádio pastoso semelhante ao farináceo. No estádio leitoso, o BRS 655 apresentou maior teor de NH3/NT que os demais híbridos. Nos cortes posteriores, o BRS 655 passou a apresentar o menor valor para este parâmetro. Pires et al. (2006) observaram valores de NH3/NT superiores (6,03% a 7,79%), e redução desse parâmetro com a maturidade da planta de sorgo. Já Araújo et al. (2007) não observaram influência do estádio de maturação sobre os teores de NH3/NT e encontraram valores médios de 5,53%, 5,44% e 7,12% para os híbridos BR 700, BR 701 e MASSA 03, respectivamente. Ribeiro et al. (2007), avaliando o perfil de fermentação das silagens de híbridos de sorgo colhidos 101 dias após o plantio, observaram valores médios de NH3/NT e pH de 2,87% e 4,05, respectivamente, para 56 dias de ensilagem. Os níveis de NH3 alcançados no presente trabalho estão bem abaixo de 10% do N-total, considerado por Oshima e McDonald (1978) como adequado em silagens com fermentação lática e, consequentemente, de boa qualidade.

Os valores de ácido acético foram influenciados pela idade de corte para os híbridos BRS 610 e BR 700. Os menores teores deste ácido foram observados para o estádio leitoso em relação ao farináceo, enquanto para o estádio pastoso foram observados valores intermediários e semelhantes aos demais. Já o BRS 655 não apresentou variação significativa no teor de ácido acético entre períodos de colheita. Não houve diferença entre os híbridos em todos os estádios de maturação. O ácido acético possui menor eficiência para um adequado abaixamento do pH da silagem, e sua presença em grandes proporções está relacionada à ação prolongada de enterobactérias e bactérias heterofermentativas, cujas fermentações acarretam maiores perdas de matéria seca e energia (Muck e Bolsen, 1991). A variação nos teores de ácido acético do presente trabalho (0,53% a 1,45%) foi inferior à encontrada por Molina et al. (2002), de 1,1% a 2,8%. Araújo et al. (2007) encontraram variação no teor de ácido acético de 0,75% a 2,0%. Os valores de ácido butírico variaram de 0,0% a 0,06%, o que, segundo Paiva (1976), classificaria as silagens como muito boas (< 0,1% de ácido butírico). Silagens com presença de fermentação butírica possuem elevado pH e alto teor de nitrogênio amoniacal, caracterizando forragem malpreservada, com baixa ingestão de matéria seca e pobre utilização do nitrogênio pelo animal (Leibensperger e Pitt, 1987). O BRS 610 apresentou produção de ácido butírico apenas no estádio farináceo (0,06%). Já o BR 700 apresentou maior teor de ácido butírico no terceiro corte (0,04%). O BRS 655 apresentou produções desse ácido em todos os períodos, com variação de 0,01% a 0,04% (P>0,05). Comparando-se os híbridos, não houve diferenças entre eles em todos os estádios de maturação. Molina et al. (2002) não observaram diferenças neste parâmetro entre os estádios leitoso, pastoso e farináceo, sendo as médias de 0,07%, 0,06% e 0,02% de ácido butírico, respectivamente. Com relação ao ácido lático, o BRS 610 apresentou maior valor no estádio farináceo (9,48%) em comparação com os demais períodos de corte, que foram semelhantes entre si. O BR 700 não mostrou alteração no teor de ácido lático entre os estádios de maturação. Já o BRS 655 mostrou maior valor no estádio leitoso (9,05%) em relação ao estádio farináceo (6,03%), sendo o estádio pastoso intermediário e semelhante a ambos (7,67%). Comparando-se os híbridos, no primeiro corte o BR 700 apresentou menor teor de ácido lático que os demais. No estádio pastoso, o BR 700 apresentou o menor valor, seguido do BRS 610, que foi superior ao BRS 655. No estádio farináceo, o BRS 610 apresentou maior porcentagem de ácido lático que o BR 700. Segundo McDonald et al. (1991), o ácido lático é o principal regulador da acidez da forrageira dentro do silo. Araújo et al. (2007) encontraram reduções no teor de ácido lático à medida que o teor de MS da silagem aumentou e citaram correlações negativas (p<0,001) entre ácido lático e MS (r = -0,75), e entre ácido lático e pH (r = -0,54). Os valores descritos por esses autores (6,30% a 15,42%) foram superiores aos encontrados no presente trabalho. De acordo com Paiva (1976), silagens muito boas apresentam teores de ácido lático acima de 5,0%, o que foi observado para todos os híbridos avaliados nos três estádios de maturação, exceção para o BR 700 no estádio farináceo. Tomich et al. (2003) propuseram uma qualificação do processo fermentativo de silagens em relação ao pH associado ao conteúdo de matéria seca, ao conteúdo de nitrogênio amoniacal em relação ao nitrogênio total (N-NH3/NT) e aos conteúdos de ácido butírico e de ácido acético. De acordo com a classificação elaborada por esses autores, as silagens dos três híbridos avaliados podem ser consideradas de excelente qualidade em todos os estádios de maturação. A fermentação com qualificação excelente corresponde àquela que ocorreu com perdas insignificantes de matéria seca e de energia e manteve a qualidade da fração proteica da forragem original durante a armazenagem.

 

CONCLUSÃO

A fim de garantir um teor ideal de MS no momento de corte (25% a 35%), o híbrido BR 700 deve ser colhido no estádio leitoso. Para garantir maiores digestibilidades das silagens, o BRS 610 deve ser colhido entre o estádio pastoso e o farináceo, e o BRS 655 entre o estádio leitoso e o pastoso. Os parâmetros de qualidade avaliados indicam que as silagens dos três híbridos apresentaram bom padrão fermentativo em todos os estádios de maturação.

 

REFERÊNCIAS

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Recebido em 2 de março de 2011
Aceito em 3 de abril de 2012

 

 

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