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Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia

Print version ISSN 0102-0935

Arq. Bras. Med. Vet. Zootec. vol.64 no.5 Belo Horizonte Oct. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-09352012000500027 

ZOOTECNIA E TECNOLOGIA E INSPEÇÃO DE PRODUTOS DE ORIGEM ANIMAL

 

Dinâmica da fermentação ruminal de coprodutos do babaçu por meio da técnica in vitro semiautomática de produção de gases

 

Dynamics of the ruminal fermentation of coproducts of babassu (Orbignya martiniana) through the half-automatic in vitro gas production technique

 

 

L.N. FariasI; V.R. VasconcelosI; F.F.R. CarvalhoII; J.L.R. SarmentoIII

IUniversidade Federal do Piauí - Teresina, PI
IIUniversidade Federal Rural de Pernambuco - Recife, PE
IIIUniversidade Federal do Piauí - Bom Jesus, PI

 

 


RESUMO

Avaliou-se a cinética de fermentação ruminal da matéria seca (MS) e da fibra em detergente neutro (FDN) do farelo e da torta de babaçu (Orbignya martiniana), por meio da técnica in vitro semiautomática de produção de gases. As leituras de pressão e volume foram realizadas às três, seis, nove, 12, 15, 21, 27, 33, 39, 48, 60, 72 e 96 horas. Para a degradação da MS e da FDN, quantificou-se o resíduo após 96h de incubação. As curvas de produção cumulativa de gases foram ajustadas utilizando-se o modelo logístico bicompartimental. Para a MS, houve efeito (P<0,05) do alimento sobre o volume de gases da fração solúvel de rápida degradação (Vf1). O volume de gases da fração insolúvel de lenta degradação (Vf2) foi maior para o farelo de babaçu. O farelo apresentou o maior tempo de colonização, e a torta a menor degradação. Quanto ao Vf1 da fração de FDN, não houve diferença (P>0,05) entre os alimentos, e a fração Vf2 foi maior para a torta. A produção cumulativa de gases produzidos até 96h foi alta tanto para o farelo como para a torta, 120 e 140mL, respectivamente. O farelo e a torta de babaçu podem ser utilizados como alimentos alternativos para ruminantes por apresentarem boa qualidade do ponto de vista fermentativo.

Palavras-chave: Orbignya martiniana, fração detergente neutro, degradação, matéria seca


ABSTRACT

The kinetic ruminal fermentation of the dry substance (MS) and the fraction in neutral detergent (FDN) of the meal and the palm cake of babassu was evaluated through the half-automatic in vitro gas production technique. The pressure readings and measurements of volume were been carried through at 3, 6, 9, 12, 15, 21, 27, 33, 39, 48, 60, 72 and 96h. For the degradation of the MS and FDN residue was quantified after 96h of incubation. The curves of cumulative production of gases had been adjusted using the bicompartimental logistic model. For the MS it had the effect (P<0,05) of food for the volume of gases of the soluble fraction of fast degradation (Vf1). The volume of gases in the insoluble fraction of slow degradation (Vf2) was superior (P<0,05) for the babassu meal. The "Lag time" of the meal was bigger (P<0,05) that that of the palm babassu cake. The palm babassu cake presented minor degradation. The Vf1 of the FDN fraction did not have difference (P>0,05) between foods. The Vf2 fraction was bigger for the palm babassu cake. The cumulative production of gases produced up to 96h was high for the meal and for the palm babassu cake, 120 and 140mL, respectively. The babassu meal and cake can be used as alternative foods for ruminants to present good quality from the fermentation point of view.

Keyword: Orbignya martiniana fraction neutral detergent, degradation, dry substance


 

 

INTRODUÇÃO

Na busca por alimentos alternativos, com vistas a atender demandas dos vários sistemas de criação, tem-se observado grande utilização dos resíduos agroindustriais, dentre eles os coprodutos do processamento do babaçu, que é uma palmeira nativa do Brasil do gênero Orbignia (Orbignya sp.) e um dos principais produtos do extrativismo vegetal em alguns estados do Nordeste, principalmente porque a exploração do produto ocorre no período de entressafra das principais culturas regionais. Em seu estado nativo, chega a produzir 1,8 toneladas de coco por ha/ano (Benedetti, 1985).

O principal produto comercial extraído do babaçu (Orbignya martiniana) é o óleo (extraído da amêndoa), representando 7% do peso total do fruto (Teixeira, 2000), e a torta (que resulta do processo de prensagem mecânica). O farelo de babaçu, um coproduto do processamento, é obtido após a extração do óleo da polpa por solvente e moagem fina e constitui um ingrediente de ração animal, fibroso e com baixa concentração de energia Segundo Rocha Júnior et al. (2002), apresenta 16,5% de proteína bruta (PB), 1,8% de carboidratos não fibrosos (CNF), 78,7% de fibra em detergente neutro (FDN), 53,8% de fibra em detergente ácido (FDA), 1,1% de extrato etéreo (EE), 3,9% de lignina e teores de nitrogênio insolúveis em detergente neutro (NIDN) e em detergente ácido (NIDA), respectivamente, 53,1 e 13,5% do matéria seca total. A torta de babaçu apresenta 1,75Mcal/kg de energia metabolizável, 92,8% de MS; 20,6% de PB 5,8% de EE; 78,7% de FDN; 45,4% de FDA e 6,2% de MM na matéria seca (Valadares Filho et al., 2002).

Dentre os métodos de avaliação e de determinação nutricional está a técnica de produção cumulativa de gases; pelo gráfico, mensuram-se os gases gerados pela atividade microbiana anaeróbica nos frascos de fermentação, os quais são utilizados para interpretação das características nutricionais (Cabral et al., 2000).

Considerando-se as vantagens da técnica de produção de gases, bem como sua simplicidade de uso e a possibilidade de processar grande número de amostras em curto espaço de tempo, é importante testar esta técnica com fontes alternativas de alimentos para ruminantes, buscando validar correlações entre a digestibilidade in situ e os parâmetros de produção de gases.

O objetivo deste trabalho foi estimar os parâmetros da dinâmica de fermentação ruminal da matéria seca e da fibra em detergente neutro de coprodutos do babaçu, pela técnica in vitro semiautomática de produção de gases, utilizando-se inóculo ruminal.

 

MATERIAL E MÉTODOS

O experimento foi realizado com as amostras de farelo e de torta de babaçu, e apenas a torta foi submetida à trituração em moinho tipo Willey, com peneira de porosidade 1,0mm de diâmetro, posteriormente, ambas as amostras foram armazenadas em recipientes de vidro.

A composição química das amostras foi avaliada segundo métodos descritos por Silva e Queiroz (2002), sendo determinados os teores de matéria seca (MS), matéria mineral (MM), proteína bruta (PB), fibra em detergente ácido (FDA), extrato etéreo (EE). O teor de carboidratos totais (CHTO) foi obtido a partir da equação proposta por Sniffen et al. (1992): CHOT(%) = 100 - (%PB + %EE + %Cinza). O conteúdo de carboidratos não fibrosos (CNF) foi calculado por meio da diferença entre CHOT e FDN corrigida para proteína: CNF (%) = 100 - [%PB + (%FDN - %PB na FDN) + %EE + %Cinza].

A dinâmica de fermentação ruminal da fração FDN da torta e do farelo de babaçu foi determinada segundo Silva e Queiroz (2002), tomando-se 5g de amostra seca ao ar (ASA), moída em moinho tipo Willey com 1,0mm, submetida à fervura durante uma hora em solução detergente neutro. Posteriormente, o resíduo obtido foi filtrado em cadinho filtrante e lavado com água destilada quente e 200mL de acetona, para retirar completamente qualquer resíduo do detergente, sendo, então, colocado em estufa de ventilação forçada (55ºC, 48 horas). O meio de digestão foi preparado 24 horas antes da incubação das amostras, de acordo com metodologia descrita por Maurício et al. (2001). Foi composto por soluções de microminerais, macrominerais, tampão, redutora e, por fim, indicadora de pH.

As frações sólidas e líquidas de conteúdo ruminal, foram retiradas diretamente do rúmen, via cânula ruminal, às 7h30min, antes do fornecimento da primeira refeição. Após a coleta, as frações foram armazenadas em garrafas térmicas aquecidas com água a 39ºC. O conteúdo ruminal foi imediatamente transportado ao laboratório. As frações sólidas e líquidas foram homogeneizadas na proporção 1:1, o material resultante filtrado em tecido de algodão. Para a incubação das amostras, foram utilizados frascos de vidro com capacidade de 160mL, identificados. Para a determinação da cinética de fermentação ruminal, foi colocado em cada frasco 1g de amostra, sendo utilizados dois frascos por tratamento.

Foram adicionados aos frascos 90mL do meio de digestão, gaseificados com CO2, fechados e colocados em estufa de circulação forçada de ar a 39ºC por uma hora. Em seguida, foram retirados para a adição de 10mL do inóculo ruminal, vedados com rolhas de borracha e lacres de alumínio. Após a colocação dos lacres, os gases gerados no interior de cada frasco foram eliminados e levados novamente para a estufa para manutenção da temperatura.

As leituras de pressão foram realizadas às três, seis, nove, 12, 15, 21, 27, 33, 39, 48, 60, 72 e 96 horas de incubação, com auxílio de um transdutor de pressão conectado a uma válvula de duas saídas. Após a leitura, alguns frascos foram retirados e colocados em um recipiente com gelo para parar a fermentação. Em seguida, foram abertos, e o conteúdo transferido para cadinhos filtrantes; com o auxílio de uma bomba a vácuo, foi retirado o líquido. O resíduo foi, então, transferido para a estufa (105ºC, 72h) e, depois, pesado.

Os dados obtidos de pressão e volume durante a fermentação foram utilizados para o cálculo da equação de regressão por meio do procedimento PROC REG SAS (Statistical..., 1999). A degradabilidade ruminal da MS foi realizada por meio da diferença entre a quantidade total de amostra colocada para fermentar e a recuperada por filtração em cadinho de filtragem após a incubação às três, 12, 27, 48, 72 e 96 horas. Os parâmetros de produção de gases e de degradação ruminal foram obtidos pelos modelos de France et al. (1993) e de Orskov e McDonald (1979), modificado por McDonald (1981), respectivamente.

O modelo matemático adotado na estimativa da dinâmica de fermentação ruminal foi o logístico bicompartimental, cuja equação é V(t)=Vf1/(1+exp(2-4*c1*(T-L)))+Vf2/(1+exp(2-4*c2*(T-L))) , sendo 1V(t)=volume total de gases (mL/100 mgMS) acumulado no tempo T; Vf1=volume final de gases oriundo da degradação da fração solúvel de rápida degradação quando T→∞; c1=taxa específica de produção de gases pela degradação da fração solúvel; c2 = taxa específica de produção de gases pela degradação da fração insolúvel; T=tempo de incubação (h); L=fase de latência; Vf2=volume final de gases proveniente da degradação da fração insolúvel de lenta degradação quando T→∞ (Schofield et al., 1994).

As curvas de ajuste e as estimativas dos parâmetros de interesse biológico foram realizadas pelo processo interativo de Marquardt, com o auxílio de procedimento para modelos não lineares (PROC NLIN) do SAS (1999). Os parâmetros estimados pelo modelo foram comparados em delineamento em blocos ao acaso com dois tratamentos e seis repetições, sendo os blocos constituídos pelas coletas, utilizando-se PROC GLM do SAS (1999). As médias dos tratamentos e suas respectivas interações foram comparadas pelo teste SNK.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

O teor de MS do farelo de babaçu foi menor que os 95,4% obtidos por Rocha Jr. et al. (2003) (Tab. 1). Quanto à torta de babaçu, o teor de MS foi maior que os 91,4% obtidos por Souza et al. (2000).

Os teores de PB, em torno de 15 a 17%, estão acima do intervalo de 6 a 8% recomendado por Van Soest (1994) para a efetiva fermentação microbiana ruminal. O extrato etéreo da torta de babaçu foi elevado. Geralmente, dietas ricas em lipídeos são utilizadas para vacas leiteiras no início da lactação para aumentar a energia das rações, em função da elevada densidade calórica, embora possam causar redução na ingestão de MS e na taxa de passagem (Mello et al., 2006). Souza et al. (2000) obtiveram 8,2% de EE para a torta de babaçu, enquanto Rocha Jr. et al. (2003)

obtiveram apenas 1,1% de EE. O teor total de gordura na dieta, em especial de ácidos graxos insaturados não protegidos da fermentação ruminal, deve ser controlado, pois teores acima de 8% na dieta promovem diminuição na digestibilidade da fibra em até 50%, pelo impedimento da aderência dos microrganismos às partículas dos alimentos ou pelo efeito tóxico sobre organismos celulolíticos. Além disso, ocorrem decréscimo na concentração de protozoários, principalmente os ciliados, aumento no conteúdo de ácidos graxos voláteis e redução na produção de metano no rúmen (Jenkins, 1993; Van Soest, 1994).

Houve diferença (P<0,05) nos alimentos para Vf1 (Tab. 2). O maior volume de gases (P>0,05) obtido com a torta (52,91) pode estar relacionado ao valor mais elevado de CNF em relação ao farelo de babaçu, já que o volume de gases produzidos está associado à degradação da fração de rápida degradação (Campos et al., 2000).

O Vf2 do farelo foi mais alto (P<0,05) que o da torta, o que pode estar relacionado com a maior quantidade de lipídeos encontrados na torta, já que a fermentação ruminal dos carboidratos estruturais é reduzida pela adição de lipídeos às dietas e o grau de redução depende das fontes de fibra e de lipídeos (Berchielli et al., 2006), portanto, quando o substrato era o farelo, sem interferência do maior teor de gordura e com maiores teores de carboidratos estruturais, provavelmente contribuíram para um ambiente favorável ao desenvolvimento de bactérias celulolíticas .

Para o parâmetro C1, o farelo apresentou valores maiores (P<0,05) de produção de gases que a torta. O C2 do farelo não diferiu (P>0,05) da torta. Considerando-se que o gás produzido na fermentação reflete a degradação da amostra testada, a taxa e o potencial máximo de produção de gases são, provavelmente, as principais características para avaliar a qualidade dos alimentos pela técnica de produção de gases. Contudo, não devem ser levados individualmente como critério de avaliação, uma vez que o maior valor potencial máximo de produção de gases implica menor tempo para a fermentação da fração potencialmente fermentável, mas não considera a extensão dessa fração no rúmen. Assim, as forragens mais fermentáveis ou digestíveis seriam aquelas que apresentam valores de potencial máximo e de taxa de produção de gases, pois alcançariam potencial máximo de fermentação em menor tempo (Tomisch et al., 2003).

A fase de latência (L) do farelo foi maior (P<0,05) do que a da torta. Esse parâmetro está relacionado com o tempo de colonização, que é favorecido pela presença de substratos prontamente fermentáveis e por características físicas e químicas da parede celular da amostra, capazes de facilitar a colonização microbiana (Magalhães et al., 2006). Os resultados obtidos neste trabalho corroboram a afirmação desses autores, observando-se que o farelo de babaçu apresentou os maiores teores de fibra e as menores concentrações de substratos fermentáveis (CNF) quando comparado ao da torta.

A produção total de gases para o farelo foi de 132,5mL. Para a torta foi menor (117,2mL). Segundo Van Soest (1994), o que caracteriza maior ou menor degradação (produção de gases) é a proporção entre as frações solúveis e insolúveis, como observado na Tab. 1. A fração insolúvel para o farelo foi maior que para a torta, no entanto, de acordo com Santos et al. (2003) e Noguera et al. (2005), alimentos ricos em carboidratos solúveis, como o amido, propiciam maior fermentação ruminal e, consequentemente, maior produção de gases em relação a outros alimentos com maior produção de carboidratos estruturais. O fato de a torta possuir valor de EE alto pode ter interferido na aderência dos microrganismos às partículas do alimento e alterado o ambiente ruminal, contribuindo, assim, para redução na fermentação dos carboidratos estruturais.

As curvas de produção cumulativa de gases do farelo e da torta de babaçu encontram-se na Fig. 1.

Nos tempos iniciais de incubação, a produção cumulativa de gases do farelo foi similar à torta: a partir das 48 horas de incubação, observa-se superioridade na produção de gases para o farelo.

O Vf1 não diferiu (P>0,05) entre os alimentos (Tab.3). Noguera et al. (2005) obtiveram diferenças nesse parâmetro ao estudarem a fração fibrosa de diferentes alimentos. Para o parâmetro Vf2, a torta foi melhor (P<0,05) que o farelo. Santos et al. (2003) obtiveram maior produção de gases para Vf2 em relação à fração insolúvel para a maioria dos alimentos avaliados. No entanto, dentre os alimentos avaliados, o farelo e o caroço de algodão apresentaram maior produção de gases para a FDN, inferindo-se que, nesses alimentos, a fração insolúvel é a principal fonte de energia para o crescimento microbiano.

A taxa específica de produção de gases pela fração solúvel (C1) não diferiu (P>0,05) entre os alimentos. A fração insolúvel (C2) foi maior (P<0,05) para a torta. A diferença entre os alimentos deve-se ao menor teor de FDN (Tab. 1) e ao maior teor de carboidratos não estruturais (CNF) para a torta.

A FDN dos alimentos apresenta uma fase de latência (L), em que não se verifica a degradação do substrato. Durante essa fase, podem ocorrer hidratação das partículas do alimento, remoção de substâncias inibidoras, eventos ligados à adesão e efetiva colonização das partículas do alimento pelos microrganismos ruminais, de modo que, antes do término desta fase, o alimento permanece inalterado no rúmen, a não ser por ação mecânica (Azevedo et al., 2003). A L não diferiu entre os alimentos (P>0,05). Segundo Noguera et al. (2004), a fração solúvel constitui um substrato energético de rápida fermentação para os microrganismos, facilitando, assim, os processos de adesão e colonização do substrato, mas sua importância começa a diminuir com o transcorrer do tempo, quando maior quantidade de constituintes da parede celular começa a ser disponível e grande parte da produção de gases procede da fermentação dessa fração.

Observou-se produção cumulativa de gases da FDN muito semelhante entre os alimentos (Fig.3). O volume de gases produzido até às 96 horas foi alto para os dois alimentos, variando entre 120 e 140mL. Azevedo (2007) obteve menores volumes de produção de gases para a FDN quando comparados aos da MS e atribuiu esse resultado ao fato de que, durante a degradação da FDN, não ocorrem os efeitos associativo e aditivo das frações solúveis e insolúveis.

A degradabilidade das frações solúveis (A) do farelo e da torta de babaçu foi menor do que as obtidas por Moraes et al. (2005), para o farelo de babaçu, usando-se tamanhos de partículas de 3 e 5mm, de 61,3 e 64,5%, respectivamente (Tab. 4). Souza et al. (2000) obtiveram diferentes valores para A em relação a outros autores e atribuíram tal fato à influência da técnica de incubação e ao processo de obtenção dos subprodutos sobre o desaparecimento da MS. Blummel e Orskov (1993) ressaltaram que a extensão e a taxa de degradação de nutrientes dos alimentos baseiam-se no desaparecimento da MS, assumindo, assim, que todas as perdas ocorreram pela fermentação, o que nem sempre acontece. Na técnica de produção de gases, pode haver perda pelos poros do cadinho, porém essa perda é bem menor do que a que ocorre na técnica in situ.

 

 

A fração potencialmente degradável (B) da MS do farelo de babaçu diferiu (P<0,05) em relação à torta, como já foi citado antes, fato este que pode estar relacionado ao alto teor de EE presente na torta, o que pode ter interferido na aderência dos microrganismos às partículas do alimento. Moraes et al. (2005) obtiveram valores para o farelo de babaçu com granulometria de 3 e 5mm, de 44,8 e 52,2%, respectivamente, mostrando que quanto menor a granulometria, menor a degradação.

A taxa de degradação (C) diferiu (P<0,05) entre os alimentos. Os valores estimados estão menores que os dados obtidos por Moraes et al. (2005) para o farelo, tanto para a granulometria de 3mm como para a de 5mm. Souza et al. (2000) obtiveram o valor 0,019% para a torta, bem inferior ao obtido neste trabalho. A maior degradabilidade potencial (Dp) foi obtida para o farelo em relação à torta de babaçu. Souza et al. (2000), ao estudarem subprodutos da agroindústria, encontraram Dp para a torta 99,1%. As razões das variações existentes entre os resultados obtidos e a literatura revisada, para as constantes "a", "b" e "c", são amplas, uma vez que os alimentos, as dietas, os regimes alimentares, as fases fisiológicas, as espécies animais, a aplicação da técnica, além das características ambientais, são diferenciadas nos experimentos (Souza et al., 2000).

A degradabilidade efetiva (De) da MS da torta a 2%h-1 foi menor que a do farelo de babaçu. Tais parâmetros encontram-se abaixo do encontrado por Moraes et al. (2006) para o farelo a 5mm (51,2%) e para o farelo a 3mm (50,0%). Já Souza et al. (2000) obtiveram para a torta a 2%h-1 valor de De igual a 55,8%. Para esses autores, os resultados revelaram que a MS da torta de babaçu e a de outros alimentos estudados eram mais resistentes ao desaparecimento ruminal ou ao ataque microbiano e os dados de De da MS apresentaram uma tendência, sem avaliação da significância estatística, de redução das taxas com o aumento do turnover, principalmente para a torta de babaçu, o farelo de algodão e o farelo de soja. Resultado similar foi obtido neste presente trabalho. Em relação à De a 5% h-1, não houve diferença entre os alimentos (P>0,05). Souza et al. (2000) obtiveram valor superior para a torta de babaçu (38,0%). Moraes et al. (2006) obtiveram valores de De para o farelo de babaçu de 40,7 e 40,9%, para 5 e 3mm, respectivamente.

 

 

CONCLUSÕES

A técnica in vitro semiautomática de produção de gases mostrou-se adequada para estimar o perfil de fermentação ruminal do farelo e da torta de babaçu, constituindo importante ferramenta na determinação do valor nutritivo de alimentos para ruminantes.

 

AGRADECIMENTOS

Ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), pela bolsa de estudo concedida e pelo apoio financeiro necessário à condução da pesquisa.

 

REFERÊNCIAS

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Recebido em 6 de abril de 2011
Aceito em 24 de maio de 2012

 

 

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