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Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia

On-line version ISSN 1678-4162

Arq. Bras. Med. Vet. Zootec. vol.67 no.2 Belo Horizonte Mar./Apr. 2015

https://doi.org/10.1590/1678-7071 

Zootecnia e Tecnologia e Inspeção de Produtos de Origem Animal

Desempenho, consumo e morfometria in vivo de cordeiros Santa Inês alimentados com rações contendo torta de girassol em substituição ao farelo de algodão

Performance, consumption and in vivo morphometry of Santa Inês lambs fed diets containing sunflower cake in place of cottonseed meal

F. Fernandes Júnior 1  

E.L.A. Ribeiro 2  

F.A.B. Castro 2  

I.Y. Mizubuti 2  

L.D.F. Silva 2  

E.S. Pereira 3  

A.P. Pinto 3  

M.A.A.F. Barbosa 2  

N.A. Koritiaki 1  

1Alunos de pós-graduação - Universidade Estadual de Londrina - UEL - Londrina, PR

2Universidade Estadual de Londrina - UEL - Londrina, PR

3Universidade Federal do Ceará - UFC - Fortaleza, CE


RESUMO

Este estudo foi conduzido com o objetivo de determinar o melhor teor de substituição da proteína do farelo de algodão pela proteína da torta de girassol em dietas para cordeiros Santa Inês, por meio da avaliação do consumo, ganho de peso, conversão alimentar e medidas morfométricas. Foram confinados, por 60 dias, 30 cordeiros da raça Santa Inês, machos inteiros, com idade e peso médio no início do experimento de 80 dias e 21,45±2,16kg, respectivamente. O delineamento experimental foi completamente casualizado, sendo os animais divididos em 5 tratamentos, com 6 repetições por tratamento, de acordo com a quantidade de proteína do farelo de algodão substituída pela proteína da torta de girassol (0, 20, 40, 60 e 80% de substituição). As variáveis peso final, consumo de matéria seca e conversão alimentar não foram afetadas pelas dietas experimentais, embora o ganho médio diário tenha sido inferior para as dietas com maior teor de torta de girassol. Para os parâmetros de consumo, verificou-se diferença apenas no consumo de extrato etéreo em relação ao peso metabólico (g/kg PV0,75), em que cordeiros recebendo dieta com maior teor de torta de girassol ingeriram maiores quantidades de extrato etéreo. Em relação às medidas morfométricas, houve decréscimo linear da altura de dorso e largura de garupa com a inclusão da torta de girassol na dieta. A substituição da proteína do farelo de algodão pela proteína da torta de girassol afetou negativamente o ganho de peso de cordeiros Santa Inês em confinamento. Porém, teve pouca ou nenhuma influência nos parâmetros de consumo e nas medidas morfométricas in vivo.

Palavras-Chave: Biodiesel; coprodutos; confinamento; ovinos

ABSTRACT

This study was conducted with the aim to determine the optimal level of protein replacement of cottonseed meal protein by sunflower cake in diets for Santa Inês lambs, through the evaluation of consumption, weight gain, feed conversion and morphometric measurements. Thirty Santa Inês lambs, bulls, with age and weight at the beginning of the experiment of 80 days and 21.45±2.16kg, respectively, were confined for 60 days. A completely randomized experimental design was used, where the animals were divided into 5 treatments with 6 replicates per treatment. For the treatments, the protein from the cottonseed meal was replaced by the protein of the sunflower cake (0, 20, 40, 60 and 80% of substitutions). For morphometric determinations, the following measurements were taken: pre-slaughter body length, leg length, leg perimeter, height of the dorsum; hip height; chest girth, hip width and chest width. Final weight, dry matter intake and feed conversion were not affected by the experimental diets, although the average daily gain was lower for diets with higher content of sunflower cake. For consumption parameters, there was a difference only in the consumption of ether extract in relation to metabolic weight (g/kg PV 0, 75), where lambs receiving diets with higher levels of sunflower cake ingested larger amounts of ether extract. Regarding the morphometric measurements, there was a linear decrease of the height of the dorsum and hip width with the inclusion of sunflower cake in the diet. The replacement of cottonseed meal protein by sunflower cake protein negatively affected the weight gain of Santa Inês lambs. However, it affected little or nothing the parameters of consumption and in vivo morphometric measurements.

Key words: biodiesel; coproducts; feedlot; sheep

INTRODUÇÃO

Com a crescente demanda pela carne ovina, passou a existir a procura por melhorias nos sistemas de produção, especialmente no que se refere ao desempenho e qualidade da carne de cordeiros, em que a utilização da terminação intensiva pode contribuir para o melhor controle sanitário e nutricional dessa categoria animal (Madruga et al., 2005).

No entanto, as maiores desvantagens se encontram nos altos custos de produção, principalmente relacionados à alimentação. A utilização de coprodutos gerados a partir de desenvolvimentos tecnológicos da cadeia do biodiesel é uma alternativa para possibilitar que os animais atinjam o máximo do seu potencial de produção com baixo custo e, ao mesmo tempo, solucionando eventuais problemas ambientais, oriundos da geração de biodiesel (Agy et al., 2012; Goes et al., 2012).

O girassol (Helianthus annus L.) apresenta viabilidades técnica e ambiental na produção de biocombustíveis, gerando a torta e o farelo, coprodutos da extração do óleo (Backes et al.,2008). A torta de girassol apresenta possibilidades de aplicação na alimentação animal, por sua fácil obtenção na propriedade, no processo de produção do óleo bruto combustível. Estudos utilizando torta de girassol na dieta de bovinos de corte (Goes et al., 2012), caprinos (Dutta et al., 2002) e ovinos (Ahmed e Abdalla, 2005) demonstraram resultados satisfatórios de ganho de peso e consumo de alimentos.

De maneira geral, a torta de girassol pode ser considerada uma fonte alternativa de proteína (>200g/kg de MS de proteína bruta), apresentando em torno de 800g/kg de MS de nutrientes digestíveis totais e lipídios superiores a 150g/kg de MS (Beran et al., 2007).

Em um sistema de produção de carne, o consumo de alimentos é fundamental para atender às exigências de uma determinada categoria, influenciando no desenvolvimento corporal do animal, o qual também pode ser caracterizado com o uso de medidas morfométricas in vivo, permitindo correlacionar com o peso vivo, indicando ainda características produtivas e determinação da idade ao abate (Costa Junior et al., 2006).

Nesta pesquisa, avaliaram-se os efeitos da inclusão da proteína da torta de girassol em substituição à proteína do farelo de algodão na ração sobre os parâmetros de desempenho, consumo e medidas morfométricas in vivo de cordeiros Santa Inês terminados em confinamento.

MATERIAL E MÉTODOS

O experimento foi realizado no setor de ovinocultura da Fazenda Escola da Universidade Estadual de Londrina (FAZESC-UEL), conduzido de acordo com as normas éticas e aprovado pelo Comitê de Ética em Experimentação Animal da mesma instituição, registrado no CEEA/UEL sob o n° 60/10, processo n° 123/2010. O período experimental compreendeu os meses de agosto a novembro de 2011. Foram utilizados 30 cordeiros da raça Santa Inês, machos, inteiros, com idade e peso médio no início do experimento de 80 dias e 21,45±2,16kg, respectivamente.

No início do experimento, os animais foram pesados, identificados, vacinados contra clostridioses, vermifugados e distribuídos aleatoriamente, dois a dois, em baias (1,3 x 2,0m) em aprisco coberto e com piso ripado, em regime de confinamento durante 60 dias, precedidos de sete dias de adaptação às condições experimentais. O delineamento experimental foi completamente ao acaso, sendo os animais divididos em cinco tratamentos, com seis repetições por tratamento, de acordo com a quantidade de proteína da torta de girassol em substituição à proteína do farelo de algodão na ração (0, 20, 40, 60 e 80% de substituição).

O arraçoamento era feito duas vezes ao dia, às 7 e às 16 horas, na forma total (volume de silagem de sorgo + concentrado). As sobras foram pesadas diariamente e a quantidade de ração ofertada foi ajustada de acordo com o consumo do dia anterior, permitindo sobras de 20% do total oferecido da ração em MS. Os cordeiros tinham acesso irrestrito à água.

As rações utilizadas no experimento foram calculadas após análise bromatológica dos alimentos (Tab. 1), realizada no Laboratório de Nutrição Animal da Universidade Estadual de Londrina. As determinações de MS, proteína bruta (PB), matéria mineral (MM), extrato etéreo (EE), fibra em detergente neutro (FDN), fibra em detergente ácido (FDA) e fibra bruta (FB) (para estimativa de NDT) foram realizadas segundo procedimentos citados por Mizubuti et al. (2009).

Table 1. Composição químico-bromatológica dos ingredientes das rações experimentais 

Ingredientes Componentes nutritivos
MS MM PB EE FDN FDA NDT
g/kg MN g/kg MS g/kg MS g/kg MS g/kg MS g/kg MS g/kg MS
Silagem sorgo 279,30 58,20 86,80 19,00 673,4 429,00 550,30
Milho triturado 875,30 15,40 83,10 29,20 179,6 26,00 817,40
Torta de girassol 921,10 55,10 257,60 196,10 369,4 225,40 803,70
Farelo de algodão 915,40 49,70 318,90 68,80 485,2 317,40 620,10
Fosfato bicálcico 990,00
Cálcario calcítico 990,00
Mineral 990,00

Os teores de nutrientes digestíveis totais (NDT) dos alimentos utilizados para o balanceamento das dietas foram estimados pelas seguintes equações propostas por Kearl (1982): Alimentos energéticos = 40,2625 + 0,1969(%PB) + 0,4228(%ENN) + 1,1903(%EE) + 0,1379(%FB); alimentos proteicos = 40,3227+0,5398(%PB) + 0,4448(%ENN) + 1,4218(%EE) - 0,7007(%FB); silagem de volumosos = %NDT = -21,9391 + 1,0538(%PB) + 0,9736(%ENN) + 3,0016(%EE) + 0,4590(%FB).

As rações eram isoproteicas e continham silagem de sorgo e concentrado composto por farelo de algodão, milho grão triturado, torta de girassol, fosfato bicálcico, calcário calcítico e sal mineral, com relação volumoso:concentrado de 34:66 elaboradas para cordeiros de maturação tardia, 20kg de peso corporal e ganho de 0,200kg/dia, com base no NRC (National..., 2007) (Tab. 2).

Table 2. Proporções dos ingredientes e composição das rações experimentais 

Ingredientes (g/kg MS) Teores de torta de girassol (%)
0 20 40 60 80
Silagem sorgo 343,00 343,00 344,00 343,70 343,60
Milho 193,16 160,57 127,59 94,90 61,89
Torta de girassol 0,00 112,48 224,94 337,60 449,89
Farelo de algodão 446,76 366,67 286,08 205,29 124,50
Fosfato bicálcico 0,00 0,00 0,00 2,49 6,37
Cálcario calcítico 10,51 10,71 10,89 9,39 7,02
Mineral1 6,57 6,57 6,56 6,56 6,56
Composição nutricional
Matéria seca (g/kg MN) 482,50 500,30 501,80 517,50 491,00
Matéria mineral (g/kg MS) 67,00 68,10 67,20 70,80 69,80
Proteína bruta (g/kg MS) 206,50 206,30 194,70 195,40 191,50
Extrato etéreo (g/kg MS) 55,70 67,00 72,70 88,40 95,40
Fibra detergente neutro (g/kg MS) 452,70 431,10 419,40 404,80 417,30
Fibra detergente ácido (g/kg MS) 263,90 249,30 280,90 257,90 298,00
Nutrientes digestíveis totais (g/kg MS) 623,40 637,80 651,60 665,10 678,30

1Mineral: Cálcio 128g; Enxofre 10,00g; Fósforo 60,00g; Magnésio 6.000,00mg; Sódio 152,00mg; Cobalto 50,00mg; Ferro 1.400,00mg; Iodo 74,00mg; Manganês 1.820,00mg; Selênio 15,00mg; Zinco 2.730mg; Flúor 600,00mg.

Foram realizadas coletas semanais das rações ofertadas e das sobras, sendo estas acondicionadas em sacos de papel e levadas a estufa com ventilação forçada a 55ºC, por 72 horas para pré-secagem. Posteriormente, as amostras foram moídas em moinho com peneira de 1mm de diâmetro, sendo feitas amostras compostas de cada tratamento por período, conservadas e previamente identificadas para determinação de MS, PB, EE, MM, FDN e FDA.

Para estimativa do consumo de MS, foram realizadas pesagens diárias, por baia, da ração ofertada e das sobras. Os totais do ofertado e sobras da ração foram divididos pelo número de dias em confinamento (60), resultando na média diária de ofertados e sobras.

Com os valores de MS, determinaram-se as quantidades médias de MS ofertada e MS das sobras e, por diferença entre esses valores, obteve-se o consumo médio diário de MS por baia (CMS). Para obtenção do CMS e dos demais componentes nutritivos, dividiu-se o consumo observado pelo número de animais na baia. Foram avaliadas as ingestões de MS, MM, PB, FDN, FDA, EE e de NDT, expressas em grama/animal/dia, em percentagem de peso corporal (% do PC) e em peso metabólico (PV0,75).

Ao final do período experimental, foi feita pesagem, precedida por jejum de 16 horas, para obtenção do peso vivo final, do ganho de peso médio diário e da conversão alimentar. A conversão alimentar foi calculada pela razão entre os consumos da ração e o ganho de peso diário.

Determinou-se a condição corporal antes do abate, por meio da palpação da região lombar, conferindo-se nota de 1,00 a 5,00 (1,00 para pior e 5,00 para a melhor), de acordo com a metodologia descrita por Osório e Osório (2005).

Para os cálculos morfométricos, foram aferidas as seguintes medidas pré-abate, adaptadas de Yáñez et al. (2004) e Cézar e Souza (2007): comprimento corporal, comprimento da perna, perímetro da perna, altura do dorso, altura da garupa, perímetro torácico, largura da garupa e largura de peito. As mensurações foram feitas com os animais em estação forçada, isto é, membros, anterior e posterior, na perpendicular sobre um piso plano e cimentado. As medidas foram obtidas pelo mesmo observador e sempre do lado direito do animal, utilizando-se fita métrica e esquadro de madeira.

Estimou-se também a compacidade corporal (IC), índice objetivo da conformação in vivo, obtido pela fórmula: IC = peso vivo final/comprimento corporal (kg/cm) (Costa Junior et al., 2006).

Os dados obtidos foram submetidos à análise de variância, e quando significativo à regressão polinomial, considerando-se o nível de significância de 5% (Statistical..., 2001).

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Os valores observados para o ganho de peso médio diário foram de 0,252; 0,204; 0,182; 0,153 e 0,123kg/dia para os animais das dietas experimentais com 0; 20; 40; 60 e 80% de torta de girassol, respectivamente (Tab. 3). Houve efeito linear negativo (P<0,05) para essa variável, sendo que os teores de 0,0; 20,0 e 40,0% de substituição da proteína do farelo de algodão por proteína da torta de girassol mostraram ganhos próximos ao esperado, que era de 0,200kg/animal/dia. Porém, as dietas com maior nível de torta de girassol obtiveram ganho de peso médio inferior aos demais níveis de torta de girassol.

Table 3. Desempenho produtivo de cordeiros alimentados com teores crescentes de inclusão de torta de girassol na ração 

Variáveis Teores de torta de girassol (%)
0 20 40 60 80 R P CV%
Peso vivo inicial (kg) 21,48 21,51 21,38 21,52 21,38 - 1,0000 24,25
Peso vivo final (kg) 36,50 33,97 32,53 30,88 28,88 - 0,2606 18,03
Ganho peso médio diário (kg) 0,252 0,204 0,182 0,153 0,123 0,0001 18,98
Consumo MS (kg/dia) 1,287 1,175 1,208 0,998 0,973 - 0,6250 23,75
Consumo MS (% PC) 4,390 4,260 4,390 3,880 4,030 - 0,7119 12,51
Consumo MS (kg/PC0,75) 0,121 0,116 0,119 0,103 0,106 - 0,5566 13,17
Conversão alimentar 4,760 5,240 5,910 5,010 4,920 - 0,8429 25,44

CV: coeficiente de variação; R: regressão; P: probabilidade; L: linear; PC: peso corporal; PC0,75: peso metabólico; y1 = 0,275 - 0,03093x (R2 = 0,64).

Furusho-Garcia et al. (2000) relataram ganhos 0,195kg/dia em cordeiros do mesmo genótipo em confinamento, trabalhando com dietas contendo 60,0% ou mais de concentrado, semelhante ao usado neste trabalho, que foi de 66,0%.

O consumo de MS kg/dia, MS %peso corporal e MS kg/peso metabólico (Tab. 3) não foi influenciado pela dieta (P>0,05), porém, em valores absolutos, pode ser observada uma diminuição do consumo nos tratamentos com maiores teores de torta de girassol, podendo explicar o menor ganho de peso médio diário em animais recebendo dietas com maiores teores de torta de girassol.

Segundo Mertens (1987), quando a densidade energética da dieta é elevada (baixa concentração de FDN) em relação às exigências do animal, o consumo pode ser limitado pela demanda energética, não ocorrendo repleção ruminal.

Dentro desse contexto, Fontenele et al.(2011) relataram que, quando o consumo é limitado pela demanda fisiológica de energia, a melhor forma de expressá-lo é com base no consumo por peso metabólico (MS/kg/PC0,75). No presente estudo, houve um consumo de 15,87% superior da dieta controle (0% torta de girassol) em relação à dieta com maior teor de torta de girassol (80% torta de girassol).

O maior teor de lipídeos presente na dieta dos animais que ingeriram as quantidades mais elevadas de torta de girassol (Tab. 2) pode ter contribuído para a redução do consumo de MS e na diminuição da digestibilidade da fibra. Os ruminantes são relativamente intolerantes a altos níveis de gordura, e o consumo de alimento usualmente diminui quando os níveis de gordura excedem 6% na dieta (Palmquist, 1994).

Pode ter ocorrido uma redução na digestibilidade da FDN, decorrente da inibição do crescimento de bactérias e do recobrimento físico da fibra por lipídeos, que dificulta a ação dos microrganismos (Doreau e Chilliard, 1997). Observa-se que o teor de EE na dieta dos animais variou entre 57,0 a 95,4g/kg de MS (Tab. 2).

Lage et al. (2010) observaram efeito linear decrescente dos níveis de glicerol sobre o consumo de MS e ganho de peso médio diário, em cordeiros Santa Inês em confinamento, devido aos níveis de gordura na dieta, que variaram de 30,4 a 82,5g/kg de MS.

Em relação ao não enchimento do rúmen-retículo, também é provável que o tamanho da fração de fibra de torta de girassol, que foi finamente moído para compor as rações, tenha promovido trânsito normal no tubo digestivo sem causar enchimento ruminal, conforme descrito por Agy et al.(2012). Os pesquisadores também não encontraram diferença no consumo de MS em caprinos Bôer com inclusão de torta de girassol nas proporções de 0,0; 8,0; 16,0 e 24,0% da MS da dieta.

A média de consumo de MS/dia foi de 1,128kg (Tab. 3). Resultados de consumos superiores, de aproximadamente 1,250kg de MS/dia, foram encontrados por Neiva et al.(2004), em experimento com cordeiros Santa Inês, não castrados, com 19,0kg de peso corporal, alimentados com dieta com relação volumoso:concentrado de 30:70, próxima da utilizada neste estudo.

Os valores de conversão alimentar (Tab. 3) estão de acordo com Homem Jr. et al.(2010) e Rocha et al. (2004) para cordeiros da mesma raça em regime de confinamento.

Entre as variáveis de consumo dos componentes nutritivos, apenas o consumo de extrato etéreo em %peso corporal apresentou aumento linear (P<0,05), devido ao acréscimo dessa fração com a inclusão da torta de girassol na dieta (Tab. 4).

Table 4. Consumo dos componentes nutricionais em cordeiros alimentados com inclusão de torta de girassol na dieta 

Compostos nutritivos Teores de torta de girassol (%)
0 20 40 60 80 R P CV %
Proteína Bruta
g/dia 269 235 230 184 178 - 0,2895 23,12
% do PC 0,92 0,86 0,83 0,71 0,74 - 0,2974 14,47
g/kg PC0,75 25,38 23,40 22,69 19,10 19,41 - 0,1896 14,49
Matéria Mineral
g/dia 83,33 80,83 79,66 70,16 67,00 - 0,7320 23,32
% do PC 0,30 0,30 0,28 0,27 0,28 - 0,9158 12,22
g/kgPC0,75 8,13 7,97 7,86 7,26 7,29 - 0,7725 12,78
Fibra detergente neutro -
g/dia 586 505 506 405 415 - 0,3883 23,59
% do PC 2,00 1,83 1,84 1,57 1,72 - 0,2900 12,50
g/kg PC0,75 55,20 49,90 49,90 41,93 45,17 - 0,2124 13,20
Fibra detergente ácido -
g/dia 330 297 343 255 268 - 0,6128 25,41
% do PC 1,13 1,07 1,24 1,00 1,11 - 0,3124 12,21
g/kg PC0,75 31,10 29,13 33,81 26,46 29,19 - 0,3358 13,66
Extrato etéreo -
g/dia 73,16 91,33 89,00 89,00 87,75 - 0,8419 25,09
% do PC 0,24 0,33 0,32 0,34 0,36 L1 0,0244 10,38
g/kg PC0,75 6,89 8,90 8,81 9,21 9,58 - 0,0862 11,90
Nutrientes digestíveis totais -
g/dia 803 798 796 708 702 - 0,9267 23,40
% do PC 2,74 2,88 2,89 2,74 2,90 - 0,9305 10,82
g/kg PC0,75 75,69 78,44 78,58 73,31 76,24 - 0,9494 12,04

PC: peso corporal; PC0,75: peso metabólico; CV: coeficiente de variação; R: regressão; P: probabilidade; L: linear; 1y = 0,2716+0,00127x (R2=0,79).

A inclusão de torta de girassol nas dietas não afetou o consumo de PB (P>0,05) quando expresso em g/dia, % do PC e g/kg PC0,75 (Tab. 4), devido ao fato de as dietas serem isoproteicas e o consumo de matéria seca ter sido próximo entre os animais das diferentes dietas. O consumo médio de proteína bruta foi de 219 g/dia, sendo semelhante ao valor recomendado pelo NRC (National..., 2007), que é de 200g/dia. Santos et al. (2009) verificaram ingestão de 242g/dia de PB utilizando coprodutos da canola na dieta.

Não foram observadas diferenças (P>0,05) nos consumos de FDA e FDN (Tab. 4), já que os teores da fibra nas dietas eram próximos. Os consumos de FDN expressos em %peso corporal estão de acordo com os valores de 0,8 a 2,2% recomendados por Van Soest (1994)para ruminantes.

Nas variáveis perímetro torácico, altura de garupa, comprimento de perna, perímetro de perna e largura de peito (Tab. 5) não se observou diferença (P>0,05) entre as médias dos animais entre as dietas experimentais até o momento do abate. Pode-se então afirmar que as medidas não foram afetadas pelas diferentes rações utilizadas, respeitando um padrão comum de crescimento.

Table 5. Medidas morfométricas in vivo pré-abate e índice de compacidade corporal de cordeiros alimentados com teores crescentes de inclusão de torta de girassol na dieta 

Variáveis Teores de torta de girassol (%)
0 20 40 60 80 R P CV %
Condição corporal (índice 1 a 5) 3,58 3,50 3,50 2,83 3,10 - 0,1628 17,7
Comprimento corporal (cm) 57,75 58,25 54,25 55,50 55,00 - 0,5672 7,17
Perímetro torácico (cm) 77,75 74,50 71,50 71,25 70,50 - 0,3896 7,84
Altura de dorso (cm) 73,75 71,25 65,25 66,50 65,75 L1 0,0013 3,95
Altura de garupa (cm) 71,25 69,00 65,50 67,00 65,00 - 0,2793 6,46
Comprimento de perna (cm) 33,25 30,00 29,75 30,00 30,00 - 0,1153 6,51
Perímetro de perna (cm) 34,25 33,00 29,25 29,50 31,00 - 0,0868 8,80
Largura de garupa (cm) 22,75 20,75 20,75 20,25 18,75 L2 0,0412 7,68
Largura de peito (cm) 20,50 20,25 18,25 17,75 17,50 - 0,1143 10,08
Compacidade corporal (kg/cm) 0,58 0,55 0,53 0,50 0,49 - 0,1426 11,88

CV: coeficiente de variação; R: regressão; P: probabilidade; L: linear; 1y = 72,650 - 0,10375x (R2 = 0,78); 2y = 22,35 - 0,0425 (R2 = 0,88).

Houve decréscimo linear (P<0,05) com a inclusão da torta de girassol na dieta para a altura de dorso e largura de garupa (Tab. 5). Segundo Marques et al. (2008), medidas morfométricas são pouco influenciadas pelo manejo nutricional, desde que os animais sejam abatidos com o mesmo peso. No presente estudo, apesar de não haver diferença significativa (P>0,05) para o peso vivo final, as médias foram numericamente diferentes: 36,65 (dieta com 0% de torta de girassol) a 28,88kg de peso vivo (dieta com 80% de torta de girassol), sugerindo as diferenças encontradas para altura de dorso e largura da garupa.

As médias das medidas morfométricas (cm) encontradas neste estudo (55,75 (comprimento corporal), 73,1 (perímetro torácico), 68,5 (altura de dorso), 67,55 (altura de garupa), 30,6 (comprimento de perna), 31,4 (perímetro de perna), 20,65 (largura de garupa) e 18,85 (largura de perna)) são semelhantes às encontradas por Marques et al. (2008), de 55,75; 73,10; 68,5; 67,55; 30,6; 31,4; 20,65 e 18,85 para comprimento corporal, perímetro torácico, altura de dorso, altura de garupa, comprimento de perna, perímetro de perna, largura de garupa e largura de perna, respectivamente, em animais com peso vivo final de até 30kg da raça Santa Inês.

Os valores do índice de compacidade corporal não foram afetados pelos diferentes teores de torta de girassol na dieta (P>0,05). De acordo com Costa Junior et al. (2006), quanto maior a compacidade corporal, maior a proporção de músculos e gordura no animal.

Segundo Bueno et al. (1999), não há variação considerável no comprimento corporal quando o animal atinge a maturação esquelética. Portanto, quando finda o crescimento ósseo dos animais, o acréscimo no valor do índice de compacidade corporal é ocasionado pela deposição de músculo e gordura. Assim, considerando a facilidade de obtenção desse índice, seria interessante determinar seu valor para a raça Santa Inês para caracterizar a idade ao abate.

Valores de correlações positivas elevados foram constatados entre as medidas morfométricas e entre estas e o peso vivo final (Tab. 6), em consonância com Costa Junior et al. (2006), obtidos em cordeiros da raça Santa Inês.

Table 6. Coeficientes de correlações de Pearson entre medidas morfométricas in vivo pré-abate e peso vivo final de cordeiros confinados com dietas contendo torta de girassol 

CC PT AD AG CP PP LG LP
Peso vivo final 0,738* 0,926* 0,855* 0,835* 0,740* 0,841* 0,740* 0,896*
Comprimento corporal 0,657* 0,687* 0,694* 0,641** 0,646* 0,536** 0,704*
Perímetro torácico 0,742* 0,813* 0,796* 0,647* 0,668* 0,844*
Altura de dorso 0,960* 0,619* 0,747* 0,649* 0,773*
Altura de garupa 0,805* 0,739* 0,749* 0,817*
Comprimento de perna 0,700* 0,785* 0,771*
Perímetro de perna 0,455** 0,741*
Largura de garupa 0,818*

*1% de probabilidade; **5% de probabilidade.

Apesar de todas as medidas terem sido altamente correlacionadas com o peso vivo final, a medida que apresentou maior correlação com o peso vivo final nos animais alimentados com torta de girassol foi o perímetro torácico. Este resultado concorda com aqueles obtidos por Koritiaki et al. (2012).

CONCLUSÕES

A substituição da proteína do farelo de algodão pela proteína da torta de girassol afetou negativamente o ganho de peso de cordeiros Santa Inês em confinamento. Porém, teve pouca ou nenhuma influência nos parâmetros de consumo e nas medidas morfométricas in vivo.

AGRADECIMENTOS

Os autores agradecem ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e à Fundação Araucária pelo suporte financeiro.

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Recebido: 26 de Julho de 2013; Aceito: 04 de Agosto de 2014

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