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Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia

On-line version ISSN 1678-4162

Arq. Bras. Med. Vet. Zootec. vol.67 no.4 Belo Horizonte July/Aug. 2015

https://doi.org/10.1590/1678-4162-8255 

Zootecnia E Tecnologia E Inspeção De Produtos De Origem Animal

Comportamento ingestivo e desempenho produtivo de cordeiros mantidos em pastagem tropical e recebendo diferentes suplementações

Ingestive behavior and productive performance of lambs maintained in tropical pasture receiving different supplements

M.F. Silveira1 

V.P. Macedo1 

R. Batista1 

G.B. Santos1 

R. Negri1 

J.M. Castro1 

A.P. Silveira1 

L. Wlodarski1 

1Universidade Tecnológica Federal do Paraná - Dois Vizinhos, PR


RESUMO

Avaliaram-se os efeitos dos tipos de suplementação sobre o desempenho produtivo e o comportamento ingestivo diurno de cordeiros mestiços Santa Inês mantidos em pastagem de capim-aruana (Panicum maximum cv. Aruana) sobressemeado com aveia branca (Avena sativa L.) e azevém (Lolium multiflorum Lam.), em um delineamento inteiramente ao acaso, com três tratamentos e três repetições. Os cordeiros foram distribuídos aleatoriamente em três sistemas alimentares, com seis animais cada, sendo: PAST - cordeiros mantidos exclusivamente a pasto; SIL - cordeiros mantidos em pastagem recebendo suplementação (1,0% do peso vivo) com silagem de milho; CONC - cordeiros mantidos em pastagem recebendo suplementação (1,0% do peso vivo) com concentrado. Os cordeiros suplementados com concentrado apresentaram ganho de peso médio diário 37,5% superior aos mantidos em pastagem, mas não diferiram da suplementação com silagem de milho. O tempo de pastejo foi superior para os animais não suplementados quando comparados aos animais suplementados. Cordeiros mantidos a pasto e suplementados com silagem de milho ou concentrado ganham mais peso do que os cordeiros não suplementados.

Palavras-Chave: aruana; ganho médio diário; silagem de milho; tempo de pastejo; tempo total de alimentação

ABSTRACT

The aim of this work was to evaluate the types of supplementation on performance and the diurnal feeding behavior of crossbred Santa Inês lambs maintained in aruana (Panicum maximum cv. Aruana) pasture grass overseeding with oat (Avena sativaL.) and Italian ryegrass (Lolium multiflorum Lam.) pasture in a completely randomized design with three treatments and three replications. The lambs were randomly assigned to three food systems of six animals each, PAST - lambs fed only pasture; SIL - lambs fed pasture and supplemented (1% of live weight) with corn silage; CONC - lambs fed pasture and supplemented with concentrate. Animals supplemented with concentrate presented average daily gain 37,5% higher, but did not differ from supplementation with corn silage. Grazing time was higher for non-supplemented animals compared with supplemented animals. Lambs maintained in pasture and supplemented with corn silage or concentrate gain more weight than non-supplemented lambs.

Key words: aruanagrass; corn silage; grazing time; weight daily gain; total eating time

INTRODUÇÃO

Pastagens tropicais durante o período de outono/inverno reduzem seu crescimento devido à escassez de chuvas e/ou baixas temperaturas, comprometendo o desempenho animal. Na região Sul do Brasil, uma forma de reduzir esse problema seria a utilização de pastagens anuais de inverno sobressemeada na pastagem tropical. Dentre as pastagens temperadas anuais, destacam-se a aveia e o azevém (Rocha et al., 2007), que apresentam grande potencial de produção de matéria seca e fornecimento de alimento de boa qualidade.

No entanto, essas forragens apresentam altos teores de N degradável no rúmen, o que pode levar a perdas significativas de N na urina. Assim, o fornecimento de suplementação energética poderia aumentar a eficiência da utilização do N da pastagem e, com isso, melhorar o desempenho animal, por aumentar a proporção de carboidratos não estruturais no rúmen. A suplementação geralmente utilizada nos sistemas de engorda a pasto é os concentrados à base de grãos secos, que muitas vezes oneram o sistema. O uso de silagem como meio de suplemento é uma alternativa para a redução de custos, pois ela pode ser produzida e armazenada na propriedade, sendo menos dependente da variação dos preços de mercado (Brondani et al., 2000).

O comportamento ingestivo de animais mantidos a pasto é dependente da quantidade e da forma do pasto disponibilizado ao animal (Hodgson, 1985). A suplementação concentrada modifica a estratégia de colheita do pasto, diminuindo o tempo de pastejo e a taxa de bocados (Jochims et al., 2010); por sua vez, a suplementação com leguminosa para cordeiros em sistema creep-grazing também reduziu o tempo de pastejo (Piazetta et al., 2009). Porém, resultados sobre o desempenho e o comportamento ingestivo de cordeiros mantidos a pasto e suplementados com silagem de milho são escassos.

Desse modo, este estudo foi conduzido para avaliar o desempenho animal e o comportamento ingestivo de cordeiros mantidos em pastagem temperada sobressemeada em pastagem tropical, não suplementados, ou suplementados com silagem de milho ou concentrado.

MATERIAL E MÉTODOS

O experimento foi desenvolvido na Unidade de Ensino e Pesquisa (Unepe) de ovinos e caprinos da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), localizada no município de Dois Vizinhos, na latitude 25º42' S, longitude 53º03' W e altitude de 520m acima do nível do mar (INMET, 2011), conduzido de acordo com as normas éticas e aprovado pela Comissão de Ética no Uso de Animais da UTFPR/DV (número do protocolo 2014-015).

Foram utilizados 18 cordeiros mestiços Santa Inês castrados, com idade aproximada de 150 dias, alocados em nove piquetes com 400m2 cada, em um delineamento inteiramente ao acaso, com três tratamentos e seis repetições cada. Os animais foram distribuídos aleatoriamente em três sistemas alimentares com seis animais cada, sendo: PAST - cordeiros mantidos exclusivamente a pasto; SIL - cordeiros mantidos em pastagem recebendo suplementação (1,0% do peso vivo, base matéria seca) com silagem de milho; CONC - cordeiros mantidos em pastagem recebendo suplementação (1,0% do peso vivo, base matéria seca) com concentrado farelado.

A área experimental encontrava-se com a pastagem de aruana (Panicum maximumcv. Aruana) já implantada há cinco anos. A aveia branca foi semeada pelo método de plantio direto, utilizando-se 120kg/ha de sementes; já o plantio do azevém foi a lanço, utilizando-se 40kg/ha de sementes. No momento do plantio, foram utilizados 300kg/ha de NPK (8-20-10). Para a adubação de cobertura, foram utilizados 45kg/ha de nitrogênio na forma de ureia em três aplicações, com intervalos de 21 dias cada.

No início do período experimental, os cordeiros foram pesados e avaliados quanto ao seu escore da condição corporal (ECC) por neio de palpação lombar, segundo metodologia descrita por Russel et al. (1966). Os animais apresentaram peso médio inicial de 24,87kg e ECC médio inicial de 2,38. Posteriormente, os animais foram pesados a cada 21 dias, após jejum de dieta sólida de 14 horas, para ajuste das quantidades de suplementos fornecidos. Os cordeiros permaneciam na pastagem das oito às 17 horas e eram recolhidos nas instalações para pernoitar. O suplemento foi fornecido diariamente às 13h, em cochos a céu aberto nos piquetes. As sobras foram coletadas e pesadas, para posterior cálculo de consumo do suplemento.

O método de pastejo foi de lotação contínua com taxa de lotação variável. O ajuste da carga animal (CA) foi realizado visando manter oferta de forragem (OF) de 9%. A massa de forragem (MF) foi determinada por meio da técnica de dupla amostragem (Wilm, 1944) a cada 21 dias. Para a determinação da taxa de acúmulo diária (TA), expressa em kg/ha, foi utilizada uma gaiola de exclusão ao pastejo por piquete.

Para determinação das perdas de forragem (PF), foram demarcados, com duas estacas, dois pontos amostrais alocados em três transectas, em cada repetição. Em cada ponto amostral, em cada avaliação, foi colocado um quadrado com área de 0,0625m2 para coleta da forragem considerada não aproveitável pelos animais, constituída por material morto, senescente e danificado pelo pisoteio e pastejo.

As avaliações do comportamento ingestivo foram realizadas em seis períodos contínuos, das oito às 17 horas, horário em que os animais permaneciam nos piquetes, totalizando nove horas de avaliação diária, e nos dias 24 e 25 de agosto; 14 e 15 de setembro e 29 e 30 de setembro de 2013, mediante observações visuais.

A cada cinco minutos, foram anotadas as atividades de pastejo (TP), ruminação (TR), ócio (TO), bebendo água (TB) e permanência do cocho (TC). O tempo gasto pelos animais na seleção e apreensão da forragem, incluindo os curtos espaços de tempo utilizados no deslocamento para a seleção da forragem, foi considerado tempo de pastejo. O tempo de ruminação compreendeu o período de cessação de pastejo e da realização de mastigação; já o tempo de ócio compreendeu os períodos de descanso. O tempo bebendo água compreendeu o tempo desferido pelo animal para consumo de água nos piquetes, e o tempo de permanência no cocho foi o tempo despendido pelo animal no consumo de suplemento.

Também foram calculados o tempo de alimentação total (TAT), que é obtido pela soma do tempo de pastejo (TP) e o tempo de cocho (TC), além do tempo de mastigação total (TMT), que é a soma do TAT e do tempo de ruminação (TR).

O consumo de matéria seca de pastagem (CMSp) foi determinado por meio do cálculo da relação entre a produção total de matéria seca dividido pela carga animal. Já o consumo de matéria seca do suplemento (CMSs) foi calculado pela quantidade de suplemento fornecido descontando-se as sobras de alimentos no cocho. Por fim, o consumo de matéria seca total (CMSt) foi obtido pelo seguinte cálculo: CMSt = CMSp + CMSs.

Foram calculadas a taxa de substituição (TXS) e a taxa de adição (TXA) segundo metodologia descrita por Hodgson (1990), em que: TXS = [(CMSf animais não suplementados - CMSf animais suplementados)/CMSs]*100; TXA = [(CMSt animais suplementados - CMSt não suplementados)/CMSs]*100;

Amostras da pastagem e dos suplementos foram pesadas e secas em estufa com circulação forçada de ar a 65oC por 72 horas, pesadas novamente e moídas em moinho tipo Willey com peneira de 1mm. As amostras foram acondicionadas em sacos plásticos e posteriormente foram realizadas as análises bromatológicas.

Nas amostras da pastagem, silagem de milho e concentrado, foram determinados o teor de matéria seca (MS) por secagem definitiva em estufa a 105oC, o teor de fibra em detergente neutro (FDN) e a proteína bruta (Silva e Queiroz, 2002) (Tab. 1).

Tabela 1. Teores médios de matéria seca (MS), proteína bruta (PB), fibra em detergente neutro (FDN) e matéria seca digestível (MSD) da silagem de milho, do concentrado e da simulação de pastejo 

Itens Silagem de milho Concentrado Simulação de pastejo
MS, % 27,02 89 19,93
PB, % 4,89 17,75 23,20
FDN, % 57,97 41,81 58,16
MSD¹, % 66,70 66,79 61,78

¹Equação aditiva proposta por Van Soest (1994).

Os dados foram submetidos à análise estatística por meio do procedimento PROC MIXED do pacote estatístico SAS (SAS Institute, 2001). Os efeitos do tipo de suplementação foram avaliados pelo teste Tukey a 5% de probabilidade.

RESULTADOS E DISCUSSÕES

Os pesos inicial e final dos cordeiros mantidos somente em pastagem de aruana+aveia ou suplementados com silagem de milho ou concentrado foram semelhantes entre si (Tab. 2; P>0,05). A suplementação com concentrado promoveu ganho médio diário (GMD) superior (P<0,05) ao da pastagem exclusiva, não diferindo da suplementação com silagem de milho. Os cordeiros suplementados com concentrado apresentaram GMD 37,5% superior aos mantidos em pastagem, e isso pode ser atribuído ao maior consumo de energia e nutrientes pelos animais sob suplementação concentrada. Por outro lado, a semelhança no desempenho animal entre as suplementações concentrada e volumosa é benéfica, pois os suplementos volumosos são mais baratos do que o uso de grãos e farelos. Uma das forrageiras mais utilizadas em silagens para ruminantes é a planta de milho, por apresentar elevado valor energético, baixo teor de fibra, alta produção de MS por unidade de área, colheita mecânica facilitada e bons padrões de fermentação, sem a necessidade de aditivos (Pereira et al., 2004). Outros estudos (Heck et al., 2006) também encontraram vantagem na utilização de silagem de milho como suplemento para animais mantidos em pastagem cultivada de inverno.

Tabela 2. Peso inicial, peso final, ganho médio diário (GMD) e ganho de escore corporal (GEC) de cordeiros pastejando aruana+aveia não suplementados ou suplementados com silagem de milho ou concentrado 

Variáveis Suplementação CV
(%)
Pastagem Silagem de milho Concentrado
Peso inicial, kg 24,7 25,2 24,7 10,3
Peso final, kg 29,4 30,9 32,5 9,2
GMD, kg/dia 0,08b 0,100ab 0,128a 29,4
GEC, pontos -0,25b 0,04ab 0,29a 30,2

Os cordeiros mantidos em pastagem exclusiva apresentaram ganho de escore corporal (GEC) negativo (Tab. 2) (P<0,05), enquanto a suplementação promoveu incremento no GEC. Na fase de terminação de animais, uma dieta com maior densidade energética favorece a deposição de gordura corporal, uma vez que os animais já completaram seu crescimento. Esse fato foi observado no presente estudo, pois, nos animais que receberam suplemento, a composição do ganho de peso foi diferente, ocorrendo maior deposição de gordura, o que provocou a melhora do estado corporal.

Heck et al. (2006) verificaram que a oferta de silagem de milho acima de 1,25% do peso vivo proporcionou elevação no escore corporal de vacas de descarte mantidas em pastagem de aveia preta+azevém. O escore corporal é uma medida subjetiva, observada por meio da palpação da região lombar ou da inserção da cauda do animal, e permite estimar a relação músculo/gordura (Osório e Osório, 2003). O seu incremento é desejável, pois favorece a comercialização antecipada dos animais, como visto no estudo de Cartaxo et al. (2009), os quais verificaram que o aumento da condição corporal melhorou o peso vivo ao abate, os pesos de carcaça quente e fria e os rendimentos de carcaça de cordeiros terminados em confinamento e abatidos em diferentes condições corporais.

Na Tab. 3, verifica-se que as características da pastagem não foram influenciadas pela suplementação.

Tabela 3. Massa de forragem (kg/ha de MS), oferta de forragem (kg MS/100kg de PV), taxa diária de acúmulo (kg/ha de MS) e perdas de forragem (kg/ha/dia de MS) da pastagem de aruana+aveia de acordo com os tratamentos. 

Variáveis
Massa de Forragem Oferta de forragem Taxa acúmulo
diário
Perdas de forragem
Pastagem 1761,1 9,7 61,7 34,7
------Suplementação------
Silagem 2393,2 12,5 64,3 29,6
Concentrado 2357,5 11,8 56,1 33,5
CV (%) 5,2 7,2 30,7 34,4

A massa de forragem (MF), a oferta de forragem (OF), a taxa de acúmulo (TA) e as perdas de forragem não foram influenciadas (P>0,05) pelo tipo de suplementação. O valor médio da massa de forragem observada na pastagem de aveia+aruana foi de 2.170,6kg/ha de MS, e a oferta de forragem ficou, em média, 11,3%, indicando que não ocorreu restrição ao consumo de pasto pelos animais (Hodgson, 1981).

O valor médio da taxa de acúmulo de forragem foi de 60,7kg/ha/dia MS, corroborando os resultados encontrados por Gerdes et al. (2005), que encontraram média de 50,45 e 48,62kg/ha/dia MS para pastagem de aruana solteira e pastagem de aruana consorciada com espécies forrageiras de inverno.

As perdas de forragem foram de 32,6kg/ha/dia de MS, semelhantes às perdas de forragem encontradas por Cecato et al. (2001), de 38,5kg/ha/dia de MS na pastagem de capim-tanzânia, manejada sob diferentes alturas sob pastejo. Estes mesmos autores relatam a importância de quantificar as perdas de forragem, pois parte considerável da matéria seca produzida é constituída de frações senescentes. Fatores como manejo da pastagem, estação de crescimento, adubação e sistema de pastejo influenciam a quantidade de perdas de forragem e podem ser manipulados com o objetivo de reduzir essas perdas.

A carga animal foi semelhante (P>0,05) entre os tratamentos avaliados (Tab. 4). Era esperado que a suplementação promovesse aumento na carga animal, resultado encontrado em várias pesquisas (Restle et al., 2000; Rocha et al, 2003; Farinatti et al., 2006). Da mesma forma que o presente estudo, Freitas et al. (2005) encontraram valores de carga animal semelhantes entre os diferentes níveis de suplementação energética para novilhas de corte em recria mantidas em pastagem cultivada de inverno. As mudanças na capacidade de suporte das pastagens ao longo do seu período de utilização dependem da estacionalidade de produção das espécies, provocada pelas variações climáticas (Freitas et al., 2005), portanto verifica-se que não ocorreu este efeito no presente trabalho, pois, da mesma forma, a oferta de forragem foi semelhante entre as suplementações. A pastagem suportou, em média, 1.454kg/ha de PV durante o período de pastejo, valor inferior ao relatado por Carnevalli et al. (2001), que foi de 1.790 a 2.520kg/ha/PV/dia durante o período de verão em pastagens de Tifton 85.

Tabela 4. Carga animal (kg de PV/ha), ganho de peso por área (GPV - kg de PV/ha), consumo de matéria seca (CMS - % PV) e taxa de adição do suplemento no consumo total de matéria seca (%) de cordeiros pastejando aruana+aveia, não suplementados ou suplementados com silagem de milho ou concentrado 

Variáveis
Carga animal GPV CMS Taxa de adição
Pastagem 1496,4 84,5b 1,64b -
------Suplementação------
Silagem 1436,0 98,5b 2,98a 59,6b
Concentrado 1428,5 129,0a 3,15a 74,2a
CV (%) 8,2 16,2 12,0 16,3

Médias seguidas de letras diferentes na coluna diferem entre si pelo teste t a 5% de significância. GPV= ganho de peso por área; CMS= consumo de matéria seca

A suplementação com concentrado proporcionou maior ganho de peso vivo/ha (GPV) do que a silagem de milho ou pasto exclusivo (P<0,05), porém, entre estes últimos, houve similaridade. O maior GPV para os animais recebendo concentrado foi reflexo do maior GMD apresentado por esses animais (Tab. 2).

O consumo diário de matéria seca expresso em 100kg de peso vivo (CMS) foi influenciado pela suplementação (P<0,05). Porém, o tipo de suplemento não influenciou o CMS.

O CMS foi menor nos animais mantidos exclusivamente a pasto, mas, como mostrado na Tab. 3, não houve limitação de oferta de forragem, que foi de 9,7% para esse tratamento. Todavia, a estrutura da pastagem variou durante o período de pastejo, ocorrendo mudanças morfológicas da pastagem, o que pode ter afetado o consumo. Outro fator que pode ter contribuído para o baixo consumo é a idade dos animais - cinco meses -, pois até esta idade os animais estavam sendo recriados em confinamento, portanto inexperientes no pastejo. Além disso, as espécies forrageiras utilizadas apresentam características físicas e químicas diferentes, o que reflete, segundo Genro et al. (2004), em alterações no comportamento ingestivo e na ingestão de forragem.

A suplementação estimulou o consumo dos cordeiros e provocou um efeito aditivo sobre o consumo total de MS, que foi de 59,6 e 74,2% (P<0,05) para a silagem e o concentrado, respectivamente, refletindo em maior ganho individual (Tab. 2). Restle et al. (2000) relatam que a suplementação com concentrado energético para animais mantidos em pastagem de inverno permite melhor balanceamento de nutrientes na dieta do animal, podendo resultar em efeito aditivo.

Segundo Milne et al. (1981), quanto menor o valor nutritivo da forragem, maior será o efeito aditivo da suplementação. A forragem consumida pelos animais apresentou teor de proteína bruta (PB) de 23,2% e fibra em detergente neutro (FDN) de 58,16%. No entanto, os teores de FDN foram elevados, o que pode ter provocado o baixo consumo de forragem, pois, segundo Mertens (1994), quando o consumo é limitado por fatores físicos, o consumo de FDN se mantém próximo de 12,0±1,0g/kg de peso vivo. No presente experimento, o consumo de FDN pelos animais mantidos a pasto foi de 47,6g/kg de PV, valor quatro vezes superior ao sugerido pelo autor para ocorrer a limitação.

O tempo de pastejo (TP) foi superior para os animais não suplementados quando comparado com os tempos de pastejo dos animais suplementados, sendo estes últimos semelhantes entre si (P<0,05; Tab. 5). Quando exclusivamente em pastagem, o TP dos animais foi superior 24,6 e 17,8% ao TP dos animais que receberam silagem de milho e concentrado como suplemento, respectivamente, correspondendo a 124,2 e 89,7min a mais de TP. Isso demonstra que a estrutura da pastagem afetou o consumo, pois quanto maior a heterogeneidade da pastagem, como nas pastagens tropicais, maior a seletividade animal (Stobbs, 1973), e este maior tempo despendido para o pastejo foi com o intuito de satisfazer suas exigências nutricionais. Ao se observar a Tab. 5, verifica-se que, para os animais mantidos exclusivos a pasto, as demais atividades, como ruminação e ócio, foram bastante reduzidas, indicando que os animais passaram a maior parte do tempo buscando alimento para sua manutenção. Bremm et al. (2005) também verificaram maior tempo de pastejo dos animais não suplementados do que dos animais suplementados com diferentes níveis de concentrado em pastagem de aveia+azevém.

Tabela 5. Médias de tempo de pastejo, ruminação, ócio, tempo de permanência no cocho (Cocho), tempo bebendo água e os tempos totais de alimentação e mastigação (minutos/dia) de cordeiros pastejando aruana+aveia, não suplementados ou suplementados com silagem de milho ou concentrado 

Variáveis Suplementação
Pastagem Silagem Concentrado CV (%)
Pastejo, min.dia 504,3a 380,1b 414,6b 9,0
Ruminação, min.dia 23,5c 64,2a 46,1b 29,1
Ócio, min.dia 14,2b 64,4a 62,0a 55,6
Cocho, min.dia - 30,0a 16,5b 70,0
Bebendo, min.dia 3,0b 6,2a 5,8ab 45,7
Tempo de alimentação total, min.dia 504,3a 410,1b 431,1b 8,0
Tempo de mastigação total, min.dia 527,8a 474,3b 477,2b 5,2

Os animais suplementados com silagem de milho permaneceram mais tempo (P<0,05) na atividade de ruminação do que os animais exclusivamente a pasto ou recebendo suplemento concentrado. Tal resultado pode ser devido ao fato de a silagem de milho fornecida aos animais apresentar 57,9% de fibra em detergente neutro (FDN), e, além disso, estes animais consumiram uma pastagem com 58,16% de FDN, o que explica o maior tempo demandado para a ruminação desses animais. De acordo com Van Soest (1994), o tempo de ruminação é influenciado pela natureza da dieta e parece ser proporcional ao teor de parede celular dos volumosos. Bürger et al. (2000) verificaram que o tempo de ruminação diminuiu linearmente com o aumento do nível de concentrado nas dietas. O menor tempo de ruminação encontrado foi para os animais mantidos exclusivamente em pastagem (23,5min.dia), o que é esperado, pois, quando o tempo de pastejo é maior, há uma redução no tempo de ruminação, como verificado no presente experimento.

Os animais suplementados apresentaram maior tempo de ócio que os animais somente em pastagem (P<0,05). Esse resultado se deve ao fato de que os animais suplementados conseguiram alcançar o nível de consumo compatível com as suas exigências nutricionais em menor tempo, resultando em mais tempo para atividade de ócio. Os animais suplementados com silagem permaneceram 45% mais tempo no cocho (P<0,05) do que os suplementados com concentrado. Isto provavelmente ocorreu pela maior facilidade de apreensão do alimento concentrado pelos ovinos em comparação à silagem de milho, que apresenta tamanho de partículas maiores, dificultando o consumo pelo animal.

O tempo destinado à ingestão de água foi maior para os ovinos suplementados com silagem de milho, intermediário para os animais suplementados com concentrado e inferior para os ovinos mantidos exclusivamente a pasto (P<0,05). Os ovinos pastejando aruana+aveia ingeriram menor quantidade de água do que os ovinos suplementados com silagem, pois o pasto apresentou 19% de MS, e a água do alimento contribuiu para a redução na ingestão de água.

Os tempos de alimentação e de mastigação total foram superiores para os animais mantidos somente na pastagem (P<0,05) em comparação aos animais suplementados; já entre a suplementação, os tempos de TAT e TMT foram similares entre si. Para o cálculo dessas características, utiliza-se o tempo de pastejo. Como este foi superior para os animais mantidos exclusivamente a pasto, isso se refletiu no TAT e no TMT.

CONCLUSÕES

Cordeiros mantidos a pasto e suplementados com silagem de milho ou concentrado ganham mais peso do que os cordeiros não suplementados. Animais não suplementados apresentam maior tempo de pastejo em relação aos suplementados. Cordeiros suplementados permanecem mais tempo em ócio.

REFERÊNCIAS

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Recebido: 06 de Março de 2015; Aceito: 06 de Julho de 2015

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