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Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia

On-line version ISSN 1678-4162

Arq. Bras. Med. Vet. Zootec. vol.68 no.4 Belo Horizonte July/Aug. 2016

https://doi.org/10.1590/1678-4162-8925 

Comunicação

Enalapril e captopril revertem o edema e a hiperplasia renais causados pelo antimoniato de N-metilglucamina em camundongos C57BL/6

Enalapril and captopril reverse edema and renal hyperplasia caused by N-methylglucamine antimonate in C57BL/6 mice

S.S. Oliveira1 

L.L. Lopes2 

A.S. Damazo3 

D. Albuquerque3 

1Univag/Indea - Cuiabá, MT

2Hovet - Universidade Federal de Mato Grosso - Cuiabá, MT

3Faculdade de Medicina - Universidade Federal de Mato Grosso - Cuiabá, MT


ABSTRACT

The aim of this study was to verify whether enalapril and captopril would reverse the renal damage caused by N-methylglucamine antimoniate in C57BL/6 mice. We used inbred C57BL/6 female mice, obtained from the Oswaldo Cruz Foundation (FIOCRUZ), Salvador, BA. The mice were divided into four groups as follows: Group1: received saline by the intramuscular (IM) route; Group 2: received N-methylglucamine antimonate (IM); Group 3: received N-methylglucamine antimoniate and captopril; Group 4: was treated with N-methylglucamine antimoniate and enalapril. Both enalapril and captopril were orally administered in drinking water (ad libitum). After 30 days of treatment, the animals were sacrificed and their kidneys were collected for histological analysis which showed that enalapril completely reversed the edema, the podocytes hyperplasia and nucleus of the epithelial cells in the proximal convoluted tubules caused by N-methylglucamine antimoniate. On the other hand, the captopril treatment partially inhibited kidney harmful effects caused by N-metilgucamina antimoniate. Taken together, we would conclude that enalapril and captopril reverse edema and renalhyperplasia caused by N-methylglucamine antimonate in mice.

Keywords: enzyme-converting inhibitors; glucantime; renototoxicidade

No Brasil e nos demais países de língua portuguesa, o antimoniato de N-metilglucamina (Glucantime(r)), um antimonial pentavalente (Sb+5), é a droga de primeira linha para o tratamento das leishmanioses (Manual..., 2014). As leishmanioses são um conjunto de doenças causadas por protozoários do gênero Leishmania, que podem ocorrer na pele, nas membranas mucosas ou nas vísceras. Embora o antimoniato de N-metilglucamina tenha sido introduzido em 1945 e ainda seja a droga de primeira escolha para o tratamento das leishmanioses (Frézard e Demicheli, 2010), o índice de sucesso terapêutico, usando o esquema preconizado pelo Ministério da Saúde, varia de 26% a 91,4% (Lima et al., 2007). Além disso, o uso de antimoniato de N-metilglucamina está associado a efeitos adversos, como, artralgia, cefaleia, reações cutâneas, mialgias, dores abdominais, alterações hepáticas, cardiológicas e renais (Rodrigues et al., 2007). No que tange aos efeitos adversos do antimoniato de N-metilglucamina, postula-se que a cardiototoxicidade seria o seu efeito adverso mais severo. Todavia, a literatura mostra que os efeitos tóxicos do antimoniato de N-metilglucamina sobre os rins podem ser severos, levando inclusive os pacientes a óbito (Amato et al., 1998). A elevada toxicidade e as variações no índice de sucesso terapêutico tornam o tratamento das leishmanioses com antimoniato de N-metilglucamina um desafio para o sistema único de saúde (SUS), inclusive com aumento de custos para os cofres públicos e geração de sofrimento para o paciente. Assim, as adversidades decorrentes do uso do antimoniato de N-metilglucamina têm impulsionado a realização de pesquisas na perspectiva de se obter um cenário mais promissor. Entre as alternativas terapêuticas de se reverter ou amenizar a cardiototoxicidade e a renototoxicidade do antimoniato de N-metilglucamina, sobressaem-se os inibidores da enzima conversora de angiotensina (ECA), como o captopril e o enalapril. Nesse sentido, foi verificado, em um estudo retrospectivo, que a administração concomitante de antimoniato de N-metilglucamina e inibidores da ECA, entre eles o captopril e o enalapril, parece corrigir a cardiotoxicidade causada pelo antimoniato de N-metilglucamina (Rodrigues et al., 2007). Já está bem estabelecido que o enalapril e o captopril, além de serem anti-hipertensivos, são também anti-inflamatórios e imunorreguladores (Cavanagh et al., 1995). Em um trabalho anterior, mostrou-se que o captopril reduz a nefrite no modelo murino BW[F1], predisposto ao desenvolvimento de lúpus (Albuquerque et al., 2004). Embora antimoniato de N-metilglucamina seja tóxico para os rins de humanos (Sampaio et al., 1997) e de ratos (Veiga et al., 1990), não há registros na literatura de estudos pré-clínicos avaliando o efeito do captopril ou enalapril sobre as lesões renais causadas pelo antimoniato de N-metilglucamina em camundongos. Portanto, no presente estudo, avaliou-se o possível efeito do captopril e do enalapril sobre os efeitos do antimoniato de N-metilglucamina em rins de camundongos e verificou-se que tanto o enalapril quanto o captopril revertem o edema e a hiperplasia renais causados pelo antimoniato de N-metilglucamina.

Animais: os camundongos da linhagem C57BL/6, isogênicos, usados neste experimento, eram todos fêmeas, estavam com idade de 12 semanas no início do experimento, e foram adquiridos da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Salvador, BA. Durante o experimento, os animais foram mantidos em gaiolas de polipropileno com acesso livre a água e ração autoclavadas, com ciclos alternados de claro/escuro de 12 horas e temperatura a 25°C. A manipulação dos animais foi feita de acordo com os princípios de ética da experimentação animal (# 23108.039341/12-4). Os camundongos foram divididos aleatoriamente em quatro grupos, com 10 animais por grupo, como segue: grupo 1: recebeu salina a 0,9% por via intramuscular por 30 dias, e os animais foram deixados sem outro tratamento, servindo de controle; grupo 2: recebeu antimoniato de N-metilglucamina (100mg Sb+5/kg) por via intramuscular; grupo 3: recebeu antimoniato de N-metilglucamina como o grupo 2 e foi tratado com captopril; grupo 4: recebeu o antimoniato de N-metilglucamina como o grupo 2 e foi tratado com enalapril.

Medicamentos e tratamento: o captopril (Captotec(r)) e o enalapril (Enaprotec(r)) foram obtidos comercialmente (Hexal Laboratoty, São Paulo, SP, Brasil). O captopril e o enalapril foram dissolvidos em água potável autoclavada, na concentração de 0,12 mg/mL para o captopril e de 0,02 mg/mL para o enalapril. Os medicamentos, dissolvidos em água potável, foram oferecidos ad libitum, e a dosagem diária foi de 30mg/kg de peso corporal para o captopril e de 5mg/kg para o enalapril, assumindo-se uma ingestão diária de 5mL de água por animal. A dose do captopril foi previamente estabelecida para manter a pressão arterial normal (Albuquerque et al., 2004). Já a dose do enalapril está dentro das margens das doses desse medicamento normalmente usado para o tratamento oral de camundongos (Albuquerque et al., 2004/10). Além disso, a administração desses medicamentos por via oral e oferecidos ad libitum, está bem estabelecida na literatura pertinente (Albuquerque et al., 2010). Os medicamentos dissolvidos em água potável autoclavada foram repostos a cada 24 horas, e o tratamento foi realizado durante um mês, sem interrupção. O antimoniato de N-metilglucamina (Glucantime(r); Sanofi-Aventis, São Paulo, SP, Brasil) foi cedido pela professora Dra. Márcia Hueb, do Hospital Universitário Júlio Müller, da UFMT. Cada ampola de 5mL Glucantime(r) continha 1,5g de antimoniato bruto, o equivalente a 405mg de antimônio pentavalente (Sb+5) ou 81mg/mL de Sb5+. A dose do antimoniato de N-metilglucamina usado neste trabalho está descrita na literatura pertinente (Santos, 2008).

Análise histopatológica: após 30 dias de tratamento, os camundongos foram sacrificados de forma assistida por uma médica veterinária (CRMV-MT 1698), e, imediatamente após, foram coletados os rins. Em seguida, os rins foram imersos em formalina a 10%, tamponada com fosfato durante 24h. Os tecidos foram processados e incluídos histologicamente em parafina, seccionados em 5μm de espessura, acondicionados em lâminas de vidro e corados por hematoxilina e eosina (HE) para a análise em microscópio de luz.

Análise estatística: os resultados foram tratados por análise de variância de uma via (ANOVA), seguida do teste de Bonferroni para comparações múltiplas (GraphPad Prism 5 for Windows). O nível de significância foi de P≤0,05 e os resultados foram expressos como a média±desvio-padrão.

Os resultados expressos na Tab. 1 e na Fig. 1 mostram que os rins dos animais tratados com antimoniato de N-metilglucamina apresentavam edema, hiperplasia nucleolar dos podócitos e hiperplasia nucleolar das células epiteliais nos túbulos contorcidos proximais. Os resultados também mostram que o enalapril reverteu completamente o edema e a hiperplasia nucleolar dos podócitos das células epiteliais nos túbulos contorcidos proximais causados pelo antimoniato de N-metilglucamina (Tab. 1 e Fig. 1). Por outro lado, os animais que receberam antimoniato de N-metilglucamina e foram tratados com captopril ainda apresentavam um pequeno edema renal comparados ao controle (Tab. 1 e Fig. 1). Os mecanismos pelos quais o enalapril e o captopril revertem as lesões renais causadas pelo antimoniato de N-metilglucamina não foram estudados no presente trabalho. Entretanto, pode-se especular que esses medicamentos podem ter inibido a síntese de biomoléculas inflamatórias, já que eles são reconhecidamente drogas anti-inflamatórias.

Tabela 1 Análise histológica dos rins de camundongos C57BL/6 injetados, por via intramuscular, com salina a 0,9% ou antimoniato de N-metilglucamina e tratados ou não com enalapril ou captopril, durante 30 dias 

Alterações histopatológicas Salina AM AM+CP AM+EP
Edema 0,1 ± 0,1 3,5 ± 0,17*** 0,8 ± 0,13### 0,8 ± 0,13###
Hiperplasia1 0,1 ± 0,1 3,4 ± 0,16*** 0,6 ± 0,16### 0,6 ± 0,16###
Hiperplasia2 0,1 ± 0,1 3,3 ± 0,15*** 0,7 ± 0,15### 0,7 ± 0,15###

1Hiperplasia nucleolar dos podócitos; 2hiperplasia nucleolar das células epiteliais nos túbulos contorcidos proximais. ***, P<0,01 para antimoniato de N-metilglucamina versus controle; ###, P<0,01 para antimoniato de N-metilglucamina versus captopril ou enalapril. AM, antimoniato de N-metilglucamina; CP, captopril; EP, enalapril.

Figura 1 Análise histopatológica dos rins de camundongos C57BL/6. 

No final do experimento, os animais foram sacrificados, e biopsias dos rins foram analisadas. (A) grupo controle evidenciando morfologia normal da região cortical do rim. (B) grupo tratado com antimoniato de N-metilglucamina apresentando hiperplasia nuclear dos podócitos (setas) e das células epiteliais dos túbulos contorcidos proximais (cabeças de setas) e edema (seta curva). (C) grupo tratado com antimoniato de N-metilglucamina e captopril evidenciando pequeno edema (seta curva). (D) grupo tratado com antimoniato de N-metilglucamina e enalapril evidenciando morfologia normal. Coloração HE. Barra = 100μm.

Com base nos resultados, pode-se concluir que o enalapril e o captopril revertem o edema e a hiperplasia causados pelo antimoniato de N-metilglucamina em camundongos C57BL/6.

AGRADECIMENTOS

Este trabalho foi financiado pelo Conselho Nacional de Pesquisa e Tecnologia ( CNPq (# 471234/2011-7).

REFERÊNCIAS

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Recebido: 10 de Dezembro de 2015; Aceito: 04 de Março de 2016

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