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Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia

Print version ISSN 0102-0935On-line version ISSN 1678-4162

Arq. Bras. Med. Vet. Zootec. vol.71 no.1 Belo Horizonte Jan./Feb. 2019

http://dx.doi.org/10.1590/1678-4162-9965 

Zootecnia e Tecnologia e Inspeção de Produtos de Origem Animal

Resíduo de acerola em dietas para codornas

Acerola residue in feed for quails

T.S. Ferreira1 

S.R.V. Lana2  * 

G.R.Q. Lana2 

J.A. Madalena3 

L.C.L. Silva2 

E.C. Torres2 

1Universidade Federal da Paraíba ˗ UFPB ˗ Areia, PB

2Universidade Federal de Alagoas ˗ UFAL ˗ Maceió, AL

3Instituto Federal de Alagoas ˗ IFAL ˗ Satuba, AL

RESUMO

Objetivou-se avaliar a inclusão do resíduo da acerola em dietas de codornas de corte sobre o desempenho produtivo, rendimento de carcaça, biometria intestinal e viabilidade econômica das aves, aos 42 dias de idade. Foram utilizadas 400 codornas europeias, não sexadas, de um dia de idade, distribuídas em delineamento experimental inteiramente ao acaso, com cinco níveis de inclusão (0,0; 3,0; 6,0; 9,0 e 12,0%) de resíduo da acerola, com oito repetições e 10 aves por unidade experimental. Não foram observadas diferenças significativas (P>0,05) para o ganho de peso, o consumo de ração, a conversão alimentar, os pesos absolutos e os rendimentos de carcaça e os cortes nobres (peito, coxa e sobrecoxa). Houve efeito (P<0,05) linear para os pesos absolutos e relativos de fígado e moela. A biometria intestinal das aves não foi (P>0,05) influenciada pelos níveis de inclusão do resíduo de acerola. O resíduo de acerola pode ser utilizado como ingrediente alternativo nas dietas de codornas europeias, até o nível de 12% de inclusão, sem comprometer o desempenho produtivo, o rendimento de carcaça das aves e a viabilidade econômica.

Palavras-chave: coturnicultura; Malpighiagalbra; subproduto da agroindústria

ABSTRACT

The objective of this study was to evaluate the inclusion of the acerola residue in broiler quail diets on productive performance, carcass yield, intestinal biometry, and poultry economic viability at 42 days of age. Four hundred one-day unsexed European quail were distributed in a completely randomized experimental design with five inclusion levels (0.0, 3.0, 6.0, 9.0 and 12.0%) of residue of acerola, with eight replicates and 10 birds per experimental unit.No significant differences (P>0.05) were observed for weight gain, feed intake, feed conversion, absolute weights and carcass yields, and noble cuts (chest, thigh and sobrecoxa). There was a linear effect (P<0.05) for absolute and relative weights of liver and gizzard. The intestinal biometry of the birds were not (P>0.05) influenced by the inclusion levels of the acerola residue. The acerola residue can be used as an alternative ingredient in European quails diets up to a 12% inclusion level, without compromising productive performance, poultry carcass yield and economic viability.

Keywords: byproduction of agroindustry; Malpighia glabra; quail production

INTRODUÇÃO

No mercado consumidor, há crescente demanda por produtos alimentares provenientes de sistemas de produção que causam menos poluição ambiental (Santos et al., 2014). A investigação de novas tecnologias tem promovido, de forma significativa, o desenvolvimento da produtividade da indústria avícola. Em particular, estudos sobre alimentos alternativos permitiram a redução considerável nos custos de produção e, assim, têm contribuído para a redução da poluição ambiental (Albuquerque et al., 2014).

No sistema de produção de aves, o gasto com a alimentação corresponde a aproximadamente 80% dos custos de produção. Logo, na formulação de rações balanceadas, devem-se buscar novos alimentos em substituição àqueles tradicionais, priorizando a redução de despesas, a qualidade e a disponibilidade regional do produto. Dentre os alimentos alternativos, têm-se os oriundos do beneficiamento das indústrias alimentícias, os quais geram subprodutos que podem ser utilizados na alimentação animal. Entre os subprodutos mais utilizados, estão os oriundos das indústrias de fruticulturas, como caju, abacaxi, maracujá, goiaba e acerola.

O resíduo da acerola, constituído por semente, casca e polpa, representa 40% do volume total da produção, sendo,portanto, produzidos mais de 3,5 milhões de toneladas de coprodutos anualmente (Pereira et al., 2009). O Brasil ocupa o primeiro lugar na produção e exportação da acerola (Malpghia glabra), em razão da existência de condições bastante favoráveis de clima e solo, além da importância nutricional dos frutos, que fez da acerola uma fruta altamente requisitada no mercado mundial para o preparo de sucos e consumo in natura, em virtude do seu alto teor de vitamina C (Souza et al., 2014; Furlaneto e Nasser, 2015).

Estudos realizados por Zanetti et al. (2014) demonstraram que o desempenho de frangos de cortes alimentados com dietas contendo até 10,25% de inclusão do resíduo da acerola melhorou a conversão alimentar e o ganho de peso das aves. Pinto et al. (2014) avaliaram a inclusão de resíduo de acerola nas dietas de frangos tipo colonial e constataram que a inclusão de até 10% do resíduo de acerola não comprometeu o desempenho produtivo das aves. Nesse contexto, objetivou-se avaliar a inclusão do resíduo de acerola na alimentação de codornas europeias sobre o desempenho produtivo, as características de carcaça, a biometria intestinal e a viabilidade econômica durante o período de um a 42 dias de idade.

MATERIAL E MÉTODOS

Todos os procedimentos deste estudo foram aprovados pelo Comitê de Ética no Uso de Animais da UFAL, sob número de protocolo 48/2015.O experimento foi realizado no setor de Coturnicultura do Centro de Ciências Agrárias da Universidade Federal de Alagoas - UFAL, localizado no município de Rio Largo - AL.

Utilizaram-se 400 codornas europeias, não sexadas, com um dia de idade, com peso médio inicial 8,55± 0,93g, alojadas em gaiolas do tipo bateria,com 50cm de comprimento, 60cm de largura e 30cm de altura,em galpão com piso de concreto durante o período de um a 42 dias de idade. A alimentação foi fornecida em comedouros e bebedouros próprios para a fase de criação; a ração e a água foram fornecidasad libitum durantetodo o período experimental. O delineamento adotado foi inteiramente ao acaso, com cinco tratamentos (0,00; 3,0; 6,0; 9,0 e 12,0% de inclusão do resíduo de acerola), oito repetições e 10 aves por unidade experimental.

As rações experimentais foram formuladas à base de milho e farelo de soja, visando atender às exigências nutricionais das aves, segundo recomendações preconizadas por Rostagnoet al. (2011), sendo isocalóricas e isonutritivas(Tab. 1). Para a inclusão do resíduo da acerola nas rações formuladas, foram considerados os valores de composição bromatológica determinados por Pereira et al. (2009). O valor de energia metabolizável utilizado foi 754kcal/kg, preconizado por Zanetti et al. (2011). O resíduo da acerola, composto por sementes, cascas e polpa, foi oriundo do processamento agroindustrial da acerola, fornecido por uma indústria de sucos local. O processamento foi feito por meio de secagem ao sol por oito horas, durante cinco dias, e o resíduo foi moído em forma de farelo para a inclusão na ração das aves.

Tabela 1.Composição percentual, energética e químicadas rações experimentais para codornas  

Ingredientes (%) Níveis de inclusão do resíduo da acerola (%)
0,0 3,0 6,0 9,0 12,0
Milho 57,118 53,355 49,593 45,830 42,067
Farelo de soja (45%) 37,604 37,025 36,447 35,868 35,290
Resíduo da acerola 0,000 3,000 6,000 9,000 12,00
Fosfato bicálcico 1,394 1,413 1,432 1,451 1,470
Calcáriocalcítico 1,163 1,118 1,073 1,028 0,984
Sal comum 0,390 0,395 0,400 0,402 0,404
Óleo de soja 1,090 2,389 3,688 4,988 6,000
DL-metionina 0,172 0,190 0,208 0,226 0,244
L-lisina HCl 0,414 0,442 0,470 0,498 0,526
L-treonina 0,461 0,065 0,085 0,104 0,124
Suplemento vitamínico1 0,050 0,050 0,050 0,050 0,050
Suplemento mineral2 0,100 0,100 0,100 0,100 0,100
Material inerte 0,044 0,458 0,454 0,455 0,741
TOTAL 100,00 100,00 100,00 100,00 100,00
Custo/kg ração 1,68 1,64 1,65 1,38 1,38
Composição calculada
Energia met. aves (kcal/kg) 2.900 2.900 2.900 2.900 2.900
Proteína bruta (%) 22,00 22,00 22,00 22,00 22,00
Cálcio total (%) 0,900 0,900 0,900 0,900 0,900
Fósforo disponível (%) 0,375 0,375 0,375 0,375 0,375
Fibra bruta 2,98 3,68 4,39 5,09 5,79
Sódio (%) 0,176 0,176 0,176 0,176 0,176
Metionina total (%) 0,460 0,460 0,460 0,460 0,460
Metionina digestível (%) 0,420 0,420 0,420 0,420 0,420
Met.+cistina total (%) 0,844 0,844 0,844 0,844 0,844
Lisina total (%) 1,244 1,244 1,244 1,244 1,244
Lisina digestível (%) 1,120 1,120 1,120 1,120 1,120
Treonina total (%) 0,915 0,915 0,915 0,915 0,915
Treonina digestível (%) 0,790 0,790 0,790 0,790 0,790

¹Suplemento vitamínico/kg: vit.A 13.440,000UI; vit. D 3.200,000UI;vit.E 28.000mg/kg; vit.K 2.880mg/kg; tiamina 3.500mg/kg; riboflavina 9.600mg/kg; piridoxina 5.000mg/kg; cianocobalamina 19.200mcg/kg; ácido fólico 1.600mg/kg; ácido pantotênico 25,000mg/kg; niacina 67.200mg/kg; biotina 80.000mcg/kg; selênio 600ppm; antioxidante 0,40g/kg.2Suplemento mineral/kg: Mg 150.000ppm; Zn 140.000ppm; Fe 100.000ppm; Cu 16.000ppm; I 1.500ppm.

O monitoramento da temperatura e da umidade relativa do ar foi realizado por termo-higrômetro digital, situado na altura das gaiolas, realizando-se as leituras diariamente nos horários de oito e 16 horas. O programa de luz adotado foi o contínuo, 24 horas de luz, utilizando lâmpadas incandescentes de 40W. As médias das variáveis foram: temperatura máxima 27,61°C, temperatura mínima 26,01°C, umidade relativa 77% e o índice de temperatura de globo negro e umidade 76,84, calculado de acordo com a fórmula proposta por Buffingtonet al. (1981).

As variáveis avaliadas durante o período experimental foram: ganho de peso, consumo de raçãoe conversão alimentar, rendimento de carcaça, de cortes e visceras, e a biometria intestinal. As aves, a ração fornecida e as sobras de ração foram pesadas semanalmente para o cálculo dos índices de desempenho.

Aos 42 dias de idade, as aves foram pesadas após jejum alimentar de seis horas, sendo selecionadas duas aves por unidade experimental, com peso vivo próximo da média de peso observado para a referida gaiola, para posterior realização dos procedimentos normais de abate (atordoamento, sangria e depenagem), conforme preconizados pelo Regulamento de Inspeção Industrial e Sanitária dos Produtos de Origem Animal (Brasil, 1997). As aves foram evisceradas, as carcaças e as vísceras foram pesadas, paraposteriormente proceder-se àavaliaçãodo rendimento de carcaça. Os parâmetros avaliados foram: pesos absolutos (g) e relativos (%) da carcaça, de cortes nobres (peito e pernas) e das vísceras comestíveis (coração, fígado e moela).

Para avaliação da biometria intestinal, cinco aves de peso médio foram selecionadas de cada tratamento e abatidas após jejum de duas horas para realização dos procedimentos de pesagem, mensuração do comprimento intestinal. Os intestinos das aves foram pesados em balança de precisão e medidos com auxílio de fita métrica.

As variáveis estudadas foram avaliadas utilizando-se o software R Core Team (R Development..., 2016), por meio de análise de variância e, em caso de significância (P<0,05), modelos de regressão foram utilizados para avaliar o melhor nível de inclusão do resíduo de acerola.

A análise econômica foi realizada de acordo com a metodologia descrita por Lana, (2000). A avaliação econômica das rações experimentais foi baseada nos dados de desempenho das aves. O preço codorna viva/kg (R$11,50) e os valores das matérias-primas utilizadas para o cálculo dos custos das rações, referem-se aos valores vigentes no comércio local (março de 2016). Os preços dos ingredientes (kg) utilizados na elaboração dos custos das rações foram: milho R$ 0,90; farelo de soja R$ 1,28; resíduo da acerola R$ 0,25; fosfato bicálcico R$ 2,30; calcário R$ 2,30; sal R$ 0,75; óleo de soja R$ 2,90; DL-metionina R$ 50,00; L-lisina HCl R$ 35,00; L-treonina R$ 15,00; premix vitamínico R$ 15,00; premix mineral R$ 10,00; inerte R$ 0,14.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Não houve influência (P>0,05) dos níveis de inclusão do resíduo de acerola sobre o consumo de ração, o ganho de peso e a conversão alimentar das aves nos períodos de um a 21; 22 a 42 e um a 42 dias de idade (Tab.2).Esse resultado sugere que a utilização de resíduo de acerola não comprometeu o desempenho produtivo das codornas.

Tabela 2.Desempenho de codornas de corte alimentadas com diferentes níveis de inclusão do resíduo da acerola na dieta 

Parâmetros Níveis de inclusão do resíduo da acerola (%)ns
0,0 3,0 6,0 9,0 12,0 P-valor CV (%)
01 a 21 dias de idade
Consumo de ração (g/ave) 266,50 268,50 274,93 276,31 276,68 0,13 3,55
Ganho de peso (g/ave) 132,58 131,51 134,07 134,97 135,45 0,23 2,86
Conversão alimentar 2,01 2,04 2,05 2,05 2,04 0,78 3,64
22 a 42 dias de idade
Consumo de ração (g/ave) 546,20 547,06 560,94 599,61 562,89 0,81 6,58
Ganho de peso (g/ave) 108,18 106,28 111,71 106,79 111,82 0,63 8,64
Conversão alimentar 5,06 5,16 5,02 5,23 5,06 0,62 5,92
01 a 42 dias de idade
Consumo de ração (g/ave) 812,70 815,56 835,88 835,92 839,58 0,52 4,80
Ganho de peso (g/ave) 240,76 237,80 245,79 241,77 247,28 0,43 4,45
Conversão alimentar 3,37 3,43 3,40 3,45 3,39 0,60 3,09

nsnão significativo(P>0,05).

Embora não tenha ocorrido efeito (P>0,05) dos níveis de inclusão de resíduo de acerola, pode-se observar, em valores absolutos, aumento de 3,20%no consumo de ração e de 2,64%no ganho de peso das aves aos 42 dias de idade. Por outro lado, verificou-se piora de 0,59% na conversão alimentar à medida que se elevou o nível do resíduo de acerola nas dietas. O fato de o resíduo de acerola possuir alto teor de fibras contribuiu para essa resposta, visto que a elevada quantidade de fibras é um fator diluidor de outros nutrientes, atua como barreira física, impedindo que as enzimas endógenas tenham acesso ao conteúdo interno das células vegetais, causando a redução do processo digestivo e, consequentemente, a absorção dos nutrientes (Jansen e Carré, 1989), acarretando em aumento no consumo de ração das aves, a fim de compensar o aporte energético.

Murakami et al.(1993) justificou esse fato quando afirmou que, para codornas, é possível aplicar a teoria quimiostática, ou seja, a de que os animais regulam seu consumo de acordo com a necessidade de energia, no entanto outros fatores também podem influenciar o consumo, como a necessidade da ave, o peso corporal, a fase produtiva, o crescimento, a mantença e o ambiente de criação.

Os resultados obtidos no presente estudo corroboraram os encontrados por Zanetti et al. (2014) ao avaliarem a inclusão do resíduo da acerola em dietas para frangos de corte. Resultados semelhantes foram obtidos por Ramos et al. (2006), que recomendaram a inclusão de até 15% de polpa de caju desidratada para frangos de corte. Da mesma forma, Lira et al. (2010) e Camelo et al. (2015) não encontraram efeitos significativos sobre o desempenho produtivo ao avaliarem os níveis de inclusão do resíduo de goiaba na alimentação de frangos de corte e de codornas, respectivamente. Por outro lado, Pinto et al. (2014) e Zanetti et al. (2014) encontraram diferenças significativas no ganho de peso, na conversão alimentar e na viabilidade de frangos de corte aos 42 dias de idade,com a inclusão do coproduto da acerola às rações.

Torna-se relevante considerar que, em razão de o resíduo de acerola ser um ingrediente com baixo conteúdo energético (754kcal de EM/kg), fez-se necessária a adição de óleo vegetal para suprir as exigências energéticas das codornas, uma vez que, com a elevação de níveis de inclusão do coproduto, ocorre a redução da fonte energética (milho)das dietas experimentais.Com o intuito de manter o balanço energético, Ramos et al. (2006) e Zanetti et al. (2014) recomendaram a adição de óleo vegetal às dietas contendo polpa de caju desidratada e resíduo de acerola, respectivamente, para frangos de corte.

O peso absoluto ao abate, os pesos absolutos e relativos de carcaça e os cortes nobres das codornas aos 42 dias de idade não foram (P>0,05) influenciados pelos diferentes níveis de inclusão do resíduo da acerola (Tab. 3), evidenciando que a inclusão do resíduo de acerola não interferiu negativamente sobre o rendimento de carcaça. Embora não tenha ocorrido efeito dos níveis de inclusão do resíduo de acerola, pode-se observar, em valores absolutos, que as aves alimentadas com12% apresentaram os maiores pesos quando estes foram comparados aos pesos daquelas que receberam rações contendo os demais níveis. Resultados semelhantes foram obtidos por Cameloet al. (2015), que recomendaram a inclusão de até 10% de resíduo de goiaba em dietas para codornas sem comprometer o desempenho produtivo e o rendimento de carcaça.

Tabela 3.Valores de pesos absolutos e relativos de carcaça, cortes e vísceras comestíveis de codornas europeias aos 42 dias de idade 

Variáveis Níveis de inclusão do resíduo de acerola (%)
0,0 3,0 6,0 9,0 12,0 P-valor CV (%)
Peso absoluto (g)
Peso ao abate 236,25 227,81 231,25 237,18 246,56 0,53 7,92
Carcaça 171,67 166,64 169,85 175,74 174,80 0,29 7,69
Peito 67,36 64,79 66,37 68,24 68,48 0,57 10,52
Dorso 50,27 47,08 50,41 49,99 50,22 0,52 12,68
Pernas 36,52 35,49 35,24 36,51 37,07 0,49 9,24
Asas 13,92 13,97 13,78 14,44 13,72 0,74 11,51
Coração 1,87 1,78 1,93 1,84 1,80 0,45 13,41
Fígado 4,48 4,30 4,24 4,05 3,75 0,04* 17,18
Moela 2,29 2,48 2,48 2,51 2,55 0,07 10,75
Peso relativo (%)
Carcaça 73,22 73,43 74,19 74,62 74,07 0,93 6,99
Peito 39,19 39,02 39,11 38,84 39,18 0,99 8,92
Dorso 29,30 28,19 29,65 28,44 28,67 0,44 8,65
Pernas 21,29 21,35 20,74 20,76 21,25 0,58 6,75
Asas 8,13 8,41 8,12 8,23 7,88 0,65 11,99
Coração 1,09 1,06 1,14 1,05 1,03 0,16 11,49
Fígado 2,60 2,60 2,51 2,19 2,14 0,01* 18,14
Moela 3,93 4,12 4,19 4,41 4,44 0,002* 9,13

*Efeito Linear(P<0,05).

Lira et al. (2010)), ao estudarem a inclusão do resíduo de goiaba para frangos de corte, também não constataram efeito significativo sobre o rendimento de carcaça. Do mesmo modo, Freitas et al. (2011), quando estudaram a substituição do farelo de soja pelo farelo de coco em rações contendo farelo de castanha do caju para frangos de corte, não observaram efeito significativo para o rendimento de carcaça dessas aves.

Houve efeito (P<0,05) dos níveis de inclusão do resíduo de acerola sobre os pesos absolutos e relativos do fígado e da moela (Tab.3). Os níveis de inclusão do resíduo de acerola não influenciaram (P>0,05) os pesos absolutos e relativos do coração das aves. Foi observado efeito linear (P<0,05) nos pesos absoluto e relativo do fígado, em que cada 1% de inclusão do subproduto da acerola conferiu uma redução de 0,06g/ave no peso absoluto e de 0,04g/ave no peso relativo do fígado, segundo as respectivas equações: Y^=4,5158-0,0558X(R²=0,94);Y^=2,6825 - 0,0415X(R²=0,90)

A redução do tamanho do fígado foi ocasionada, provavelmente, pelo aumento do teor de gordura nas dietas contendo maior nível do resíduo da acerola, resultando em redução da lipogênese e, consequentemente, menor desenvolvimento do órgão. Resultados semelhantes foram obtidos por Pinto et al. (2014), que observaram redução no peso do fígado e aumento no peso da moela de frangos de corte alimentados com resíduo da acerola. Contrariamente, Lira et al. (2010)) e Camelo et al. (2015) não constataram efeito da inclusão de resíduo de goiaba sobre o rendimento de fígado das aves.

Constatou-se efeito linear dos níveis do resíduo da acerola sobre o peso relativo da moela, em que severificou um aumento de 0,04g/ave a cada 1% de inclusão do resíduo da acerola, conforme a equação: Y^= 3,9628 + 0,0360X(R²=0,95) . O aumento do tamanho da moela ocorreu pelo aumento do teor de fibras nas dietas de maior nível do resíduo da acerola, que pode ser justificado, possivelmente, pela maior granulometria e quantidade de fibra das rações, pois o resíduo de acerola é constituído por casca, polpa, e sementes, o que pode ter provocado maiores contrações dos músculos da moela, promovendo, assim, maior massa muscular (González et al., 2007). Resultados semelhantes foram obtidos por Pinto et al. (2014), que observaram aumento da moela entre os níveis testados com resíduo de acerola para frangos de corte. Lira et al. (2010) constataram aumento no peso relativo da moela de frangos de corte à medida que se elevou o nível de subproduto da goiaba para 10% de inclusão.

Dentro do contexto, pode-se inferir que a composição química do resíduo de acerola não influenciou de forma negativa a digestibilidade dos nutrientes e consequentemente o desempenho e o rendimento de carcaça das aves até o nível de 12% de inclusão.

Os resultados para peso (g) e comprimento (cm) intestinal das codornas de corte abatidas aos 42 dias de idade não apresentaram diferenças significativas (P>0,05) entre os níveis de inclusão do resíduo da acerola (Tab.4). Resultados semelhantes foram encontrados por Saaret al. (2015), que não encontraram efeitos sobre o peso e o tamanho dos intestinos grosso e delgado de codornas alimentadas com dietas à base de sorgo.

Tabela 4 Biometria intestinal de codornas de corte aos 42 dias de idade, alimentadas com resíduo de acerola 

Variáveis Níveis de inclusão do resíduo (%)ns
0,0 3,0 6,0 9,0 12,0 P-valor CV (%)
Intestino delgado (cm) 46,4 47,4 48,8 49,1 49,6 0,80 10,21
Intestino delgado (g) 2,777 2,860 2,871 2,974 3,263 0,22 11,58
Intestino grosso (cm) 10,0 9,8 11,5 11,0 11,2 0,23 12,69
Intestino grosso (g) 1,067 1,096 1,296 1,450 1,440 0,19 24,48
Comprimento total (cm) 56,5 56,8 60,3 60,2 60,8 0,53 8,87
Peso total (g) 3,845 3,922 4,168 4,424 4,703 0,07 11,59

nsnão significativo (P>0,05).

O maior peso do intestino das aves que receberam as dietas contendo maior nível de fibras insolúveis pode ser associado aos efeitos negativos da maior quantidade de fibra sobre a digestão e a absorção de nutrientes. Esses efeitos induzem maior atividade desse órgão na tentativa de melhorar a digestão e a absorção com dietas de alta viscosidade, acarretando maior desenvolvimento dos órgãos. De acordo com Gomes et al. (2007), uma forma de o metabolismo animal responder a uma melhor absorção de nutrientes do alimento ingerido seria um maior desenvolvimento do intestino delgado, ou seja, quanto maior o seu comprimento, mais extenso é a área de exposição dos nutrientes às células absortivas, resultando em melhor utilização dos nutrientes para formação de músculos. Furlan et al. (2001) afirmaram que a melhor utilização dos alimentos está diretamente relacionada com a estrutura do sistema digestório, em especial do intestino delgado. Diante disso, os nutrientes, bem como o programa nutricional, podem gerar mudanças no perfil de crescimento desse trato digestório.

O nível de 12,0% de inclusão do resíduo da acerola apresentou superioridade para a renda média bruta (R$ 2,84), que representa o montante recebido por codorna alimentada, em relação à comercialização das aves alimentadas com os demais níveis (Tab. 5).

Tabela 5.Análise econômica dos níveis de inclusão do resíduo da acerola em relação ao peso vivo das aves aos 42 dias de idade 

Variáveis econômicas
Níveis (%)¹ RBM MBM MBR RM IRR IBEP
0,0 2,77 1,40 100,00 101,90 100,00 0,1161
3,0 2,73 1,39 99,44 103,25 101,33 0,1155
6,0 2,83 1,44 103,32 104,42 102,48 0,1200
9,0 2,78 1,39 99,78 100,61 98,74 0,1157
12,0 2,84 1,45 104,13 104,80 102,85 0,1210

1Níveis de inclusão do resíduo da acerola;RBM = renda bruta média (R$/ave); MBM = margem bruta média (R$/ave); MBR = margem bruta relativa (%); RM = rentabilidade média (%);IRR = índice relativo de rentabilidade em relação ao tratamento 1 (%); IBEP = índice bioeconômico ponderado.

Houve superioridade dos níveis 12 e 6,0% de inclusão do resíduo da acerola para a margem bruta média e a margem bruta relativa, respectivamente. A rentabilidade média e o índice relativo de rentabilidade foram maiores para o nível de 12,0% do resíduo de acerola em relação aos demais níveis de inclusão avaliados.O uso do resíduo de acerola na alimentação de codornas pode ser vantajoso durante períodos de entressafra, quando os preços dos ingredientes tradicionais, como milho e farelo de soja, estão elevados. Dentro desse contexto, a utilização de ingredientes alternativos está diretamente ligada ao preço das matérias-primas, bem como o custo de uma possível suplementação necessária para manter níveis nutricionais adequados para o desempenho das codornas.

CONCLUSÕES

Recomenda-se a inclusão de até 12,0% do resíduo de acerola em rações de codornas de corte, sem comprometer o desempenho produtivo, durante o período de um a 42 dias de idade.

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Recebido: 15 de Abril de 2017; Aceito: 22 de Junho de 2017

*Autor para correspondência (corresponding author) E-mail: sandraroselilana@gmail.com

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