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Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia

Print version ISSN 0102-0935On-line version ISSN 1678-4162

Arq. Bras. Med. Vet. Zootec. vol.71 no.2 Belo Horizonte Mar./Apr. 2019  Epub June 06, 2019

http://dx.doi.org/10.1590/1678-4162-10168 

Zootecnia e Tecnologia e Inspeção de Produtos de Origem Animal

Perfil lipídico da carne de frangos de corte de diferentes cruzamentos criados em sistema alternativo

Lipid profile of broiler meat from different crosses raised in alternative system

1Universidade Federal de Lavras ˗ Lavras, MG


RESUMO

Objetivou-se avaliar o perfil lipídico da carne de frangos de diferentes genótipos. O delineamento foi inteiramente ao acaso (DIC), disposto em esquema fatorial (5x2), sendo cinco genótipos (New Hampshire ˗ NHS; Gigante Negra de Jersey ˗ GNJ; Índio Gigante ˗ IG; cruzamento entre as raças IG e NHS ˗ IG x NHS; e entre as raças IG e GNJ ˗ IG x GNJ) e dois sexos, com cinco repetições, sendo cada uma representada por três aves, totalizando 150 aves, abatidas aos 105 dias. As análises de perfil lipídico foram realizadas no peito e na coxa. Foram calculadas as estimativas das atividades enzimáticas, os índices de aterogenicidade e de trombogenicidade. Os genótipos IG e IG x NHS apresentaram maiores teores de ácido araquidônico e DHA. Foram observados maiores teores de ácidos graxos saturados e monoinsaturados no peito para os genótipos IG x NHS e NHS, respectivamente. Maiores médias de ácidos graxos poli-insaturados e ômega 3 foram observadas para os genótipos IG e IG x NHS. O genótipo IG x NHS e as fêmeas apresentaram melhores características de qualidade de carne, por oferecerem uma maior fonte de ômega 3.

Palavras-chave: aves; Índio Gigante; ácidos graxos; ômega 3; atividades enzimáticas

ABSTRACT

The objective was to evaluate the lipid profile of chickens from different genotypes. The design was completely randomized arranged in factorial scheme (5x2), being 5 genotypes (New Hampshire - NHS, Gigante Negra de Jersey - GNJ, Índio Gigante - IG; poultry from the cross between IG and NHS breeds - IG x NHS and between IG and GNJ breeds - IG x GNJ) and two genders, with five replicates and three poultry per replicate, totaling 150 birds, slaughtered at 105 days. Lipid profile analyzes were performed on the breast and thigh. Estimates of the enzymatic activities related to lipid metabolism were calculated, in addition to the atherogenicity and thrombogenicity indexes. The IG and IG x NHS genotypes showed higher levels of arachidonic acid and DHA. Higher levels of saturated and monounsaturated fatty acids were observed in the breast for IG x NHS and NHS genotypes, respectively. Higher averages of polyunsaturated fatty acids and omega 3 were observed for the IG and IG x NHS genotypes. The genotype IG x NHS and the females presented better characteristics of meat quality, for offering a greater source of omega 3.

Keywords: poultry; índio gigante; fatty acids; omega 3; enzymatic activities

INTRODUÇÃO

Devido à evolução dos meios de comunicação, o consumidor moderno tem se preocupado cada vez mais com a sua alimentação, atentando-se para a qualidade, a composição nutricional dos alimentos e seus efeitos na saúde humana.

Os lipídeos são nutrientes essenciais à dieta humana, sendo indispensável para a realização de funções específicas do metabolismo (French et al., 2000). No entanto, os efeitos dos lipídeos na saúde humana dependem do seu perfil de ácidos graxos, podendo ser benéficos ou maléficos. Nesse contexto, a carne de frango tem seu consumo aumentado por ser considerada de melhor qualidade devido ao menor teor de gorduras saturadas em relação às carnes vermelhas (Nascif et al., 2004).

Vários fatores podem alterar o perfil de ácidos graxos, como a nutrição, a genética, o sistema de criação, o sexo e a idade de abate das aves (Lara et al., 2006; Ribeiro et al., 2008). No entanto, os efeitos sobre o perfil de ácidos graxos da carne relacionados às características genéticas de frangos são pouco estudados, principalmente no que diz respeito às raças que atualmente são utilizadas para a criação semi-intensiva ou extensiva e ao efeito de sexo. Entre os diferentes genótipos comerciais, destacam-se as aves da raça New Hampshire, as quais apresentam boas características para a produção de carne, podem ser utilizadas em diversos cruzamentos e originaram muitos híbridos comercias de corte de uso atual, assim como as aves da raça Gigante Negra de Jersey, que apresentam maior porte e aptidão para a produção de carne (Albino et al., 2014). Por outro lado, uma raça recente que tem aumentado entre os criadores são as aves Índio Gigante, que, embora ornamentais, são utilizadas para produção de carne devido ao seu maior porte, apesar da menor precocidade (ABCIG, 2016).

Assim, objetivou-se avaliar o perfil lipídico da carne de frangos de corte de diferentes raças, cruzamentos e sexo, criados em sistema alternativo.

MATERIAL E MÉTODOS

O estudo foi realizado por meio de delineamento experimental inteiramente ao acaso (DIC), disposto em esquema fatorial (5 x 2), sendo cinco genótipos (Índio Gigante ˗ IG, New Hampshire ˗ NHS, Gigante Negra de Jersey ˗ GNJ, geração F1 resultante do cruzamento entre galos da raça Índio Gigante e galinhas da raça New Hampshire ˗ IG x NHS, geração F1 resultante do cruzamento entre galos da raça Índio Gigante e galinhas da raça Gigante Negra de Jersey ˗ IG x GNJ) e dois sexos (macho e fêmea), totalizando 10 tratamentos. Cada tratamento foi composto por cinco repetições, sendo cada repetição representada por três aves, totalizando 15 aves por tratamento. Dessa forma, foram utilizadas 150 aves em todo o experimento. Todos os procedimentos descritos foram aprovados pela Comissão de Ética no Uso de Animais (Ceua) da Universidade Federal de Lavras (nº protocolo 017/14).

A dieta para os frangos de corte tipo caipira foi composta de três formulações de rações (Tab. 1), de acordo com a fase de criação, que foi estabelecida conforme a idade da ave em dias. A dieta foi formulada com base nas recomendações para frangos tipo caipira da Fundación Española para el Desarrollo de la Nutrición Animal (Necessidades..., 2008) e na tabela de composição dos alimentos, segundo Rostagno et al. (2011). As aves foram criadas em três fases: inicial (um a 30 dias), criadas em galpão de alvenaria, com ração e água ad libitum, sem acesso à área de pastejo; fase de crescimento (31 a 55 dias) e final (56 a 105 dias), criadas em área experimental com acesso ao pastejo, ração e água ad libitum; em cada unidade experimental, com área de 90m2, foram alojadas 30 aves do mesmo genótipo, sendo 15 de cada sexo, obtendo-se, dessa forma, uma densidade de uma ave para cada 3m² de área (Brasil, 1999). Em todas as fases de criação, não foram utilizados programas de luz. As áreas de pastagens, em cada unidade experimental, foram formadas com a gramínea Tifton 85 (Cynodon spp.)

Tabela 1 Composições e valores calculados das rações experimentais para frangos de corte tipo caipira, de acordo com a fase de criação e a faixa de idade em dias 

Ingrediente (kg) Inicial (um a 30 dias) Crescimento (31 a 55 dias) Final (56 a 105 dias)
Milho 57,91 63,69 68,54
Farelo de soja 31,48 25,94 24,03
Farelo de trigo 6,81 7,01 4,23
Fósfato bicálcico 1,59 1,36 1,31
Calcário 1,35 1,26 1,18
Sal comum 0,38 0,35 0,33
Premix mineral1 0,10 0,10 0,10
Premix vitamínico2 0,10 0,10 0,10
DL-metionina 99% 0,20 0,14 0,13
L-lisina 78% 0,03
Cloreto de colina 60% 0,05 0,05 0,05
Total (kg) 100 100 100
Valores calculados
Proteína bruta (%) 20,00 18,00 17,00
EM3 (kcal/kg) 2800 2870 2940
Cálcio (%) 1,00 0,90 0,85
Fósforo disponível (%) 0,42 0,37 0,35
Sódio (%) 0,17 0,16 0,15
M + C dig.4 (%) 0,74 0,64 0,61
Lisina digestível (%) 0,96 0,81 0,76
Triptofano digestível (%) 0,22 0,19 0,18
Fibra bruta (%) 3,32 3,14 2,86

1Premix mineral: manganês 75000mg, zinco 70000mg, ferro 50000mg, cobre 8500mg, iodo 1500mg, cobalto 200mg. 2Premix vitamínico: vitamina A 7000000UI, vitamina D3 2100000UI, vitamina E 50000mg, vitamina K3 2000mg, vitamina B1 2000mg, vitamina B2 4000mg, vitamina B6 3000mg, vitamina B12 3000mg, niacina 39800mg, ácido pantotênico 15620mg, ácido fólico 1000mg, selênio 200mg, biotina 100mg, antioxidante 100000mg. 3EM: energia metabolizável; 4M + C dig.: metionina mais cistina digestível.

Aos 105 dias de idade, as aves foram pesadas, identificadas e mantidas em jejum por oito horas. Após esse período, foram abatidas por deslocamento cervical seguido de sangria, respeitando-se o método humanitário de abate. As amostras para a determinação da composição lipídica foram extraídas das partes musculares dos cortes de peito e da coxa, isentas de pele, de acordo com metodologia de Folch et al. (1957). A esterificação para determinação da composição em ácidos graxos foi feita segundo metodologia de Hartman e Lago (1973). Em seguida, as amostras foram submetidas à cromatografia gasosa para a determinação do perfil de ácidos graxos. Para isso, foi utilizada uma coluna capilar de sílica fundida de 100m de comprimento, diâmetro de 0,25mm e 0,2µm de espessura do filme Supelco (SP-2560, Bellefonte, PA, US). A identificação e a quantificação dos ácidos graxos foram realizadas de acordo com o padrão Supelco 37 (Fame Mix).

Foram calculados os índices de atividades das enzimas ∆9-dessaturaseC16, ∆9-dessaturaseC18 , elongaseC16-C18 e de tioesteraseC16-14, de acordo com metodologia de Metz et al. (2009), em que: índicedeatividadedeΔ9dessaturaseC16=100[(C16:1)/(C16:1+C16:0)] ; índicedeatividadedeΔ9dessaturaseC18=100[(C18:1ω9c)/(C18:1ω9c+C18:0)] ; índicedeatividadedeelongaseC16C18=100[(C18:0+C18:1ω9c)/(C16:0+C16:1+C18:0+C18:1ω9c)] ; e índicedeatividadedetioesteraseC16C14=100[(C16:0)/(C16:0+C14:0)] .

Foram determinados também os índices de aterogenicidade e de trombogenicidade de acordo com metodologia de Ulbricht e Southgate (1991), em que: índicedeaterogenicidade=[4(C14:0)+C16:0]/(SAT+POL) e índicedetrombogenicidade=(C14:0+C16:0+C18:0)/[(0,5xMON)+(0,5xΣω6)+(3xΣω3)+(Σω3/Σω6)] .

Os dados foram analisados com apoio do programa estatístico SISVAR® (Ferreira, 2000). As variáveis com respostas de efeitos significativos na análise de variância para os tratamentos e/ou interações foram submetidas ao teste de comparação de médias (teste de Tukey) (α= 5%).

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Houve influência do sexo sobre os teores de C10:0 do peito apenas para as aves da raça New Hampshire (NHS), que apresentaram os maiores valores para os machos (Tab. 2), enquanto para as aves do cruzamento IG x GNJ, foi verificada média superior desse ácido graxo para as fêmeas.

Tabela 2 Perfil de ácidos graxos do peito de frangos de corte criados em sistema alternativo 

Variável Genótipo (G) Sexo (S)
Ácido graxo NHS GNJ IG IG x NHS IG x GNJ Macho Fêmea G S GxS
C10:0 0,20aA 0,11aAB 0,05aB 0,040aB 0,03bB 0,09 - 0,088 0,947 0,009
0,08bA 0,04aA 0,14aA 0,03aA 0,16aA - 0,09
0,14 0,07 0,10 0,03 0,10 - -
C11:0 0,20aA 0,01aB 0,01aB 0,00aB 0,00aB 0,04 - 0,161 0,736 0,039
0,02bA 0,00aA 0,00aA 0,10aA 0,06aA - 0,04
0,11 0,01 0,01 0,05 0,03 - -
C12:0 0,09B 0,17AB 0,12B 0,41A 0,11B 0,18 0,18 0,003 0,918 0,127
C14:0 0,68 0,78 0,73 1,17 0,83 0,94 0,73 0,172 0,133 0,424
C14:1 0,06 0,06 0,04 0,03 0,04 0,05 0,05 0,469 0,791 0,553
C15:0 0,21 0,25 0,27 0,24 0,25 0,29A 0,19B 0,871 0,012 0,612
C16:0 23,57AB 22,52B 22,60AB 23,38AB 23,66A 23,19 23,10 0,011 0,711 0,220
C16:1 2,59A 2,11AB 1,37BC 1,11C 1,70BC 1,78 1,78 0,001 0,993 0,445
C17:0 0,48 0,51 0,56 0,46 0,52 0,59A 0,42B 0,936 0,033 0,649
C17:1 0,68 0,49 0,52 0,48 0,70 0,58 0,57 0,474 0,975 0,072
C18:0 10,54B 10,99AB 12,13AB 12,44A 11,53AB 11,71 11,34 0,019 0,349 0,932
C18:1ω9t 0,67 0,65 1,03 0,92 0,75 1,05 0,59 0,731 0,065 0,214
C18:1ω9c 32,77A 30,99AB 27,98BC 26,48C 28,97BC 29,21 29,66 0,001 0,564 0,357
C18:2ω6c 19,00 19,63 17,57 17,76 18,84 18,41 18,71 0,174 0,618 0,792
C20:0 0,06 0,07 0,07 0,07 0,09 0,08 0,07 0,191 0,120 0,334
C18:3ω6 0,08AB 0,09A 0,04B 0,05AB 0,06AB 0,07 0,06 0,012 0,424 0,993
C:20:1 0,15 0,17 0,15 0,14 0,16 0,16 0,15 0,470 0,412 0,458
C18:3ω3 0,43 0,77 0,68 0,86 0,70 0,77 0,61 0,571 0,351 0,119
C20:2 0,24 0,28 0,31 0,31 0,32 0,31 0,27 0,119 0,131 0,251
C22:0 0,10 0,11 0,10 0,10 0,07 0,08B 0,11A 0,248 0,019 0,670
C20:3ω6 0,48 0,65 0,54 0,68 0,54 0,52B 0,63A 0,049 0,029 0,314
C22:1ω9 0,02aAB 0,01bB 0,08aAB 0,09aA 0,09aA 0,06 - 0,001 0,501 0,008
0,00aB 0,08aAB 0,05aAB 0,11aA 0,01bB - 0,05
0,01B 0,04B 0,07AB 0,10A 0,05AB - -
C20:3ω3 0,03 0,02 0,01 0,00 0,00 0,02 0,01 0,129 0,120 0,334
C20:4ω6 6,58B 7,91B 11,54A 11,48A 9,19AB 9,01 9,66 0,001 0,378 0,368
C22:6ω3 0,29C 0,66BC 1,41A 1,25A 0,82B 0,83 0,95 0,001 0,210 0,291

¹Teste de Tukey (α= 0,05); médias seguidas por letras minúsculas (ab) na coluna indicam diferença entre sexo; médias seguidas por letras maiúsculas (AB) na linha indicam diferença entre genótipos e entre sexos; NHS ˗ New Hampshire; GNJ ˗ Gigante Negra de Jersey; IG ˗ Índio Gigante; IG x NHS ˗ cruzamento entre aves da raça Índio Gigante e New Hampshire; IG x GNJ ˗ cruzamento entre aves da raça Índio Gigante e Gigante Negra de Jersey.

Para os teores de C11:0 do peito, diferenças entre sexos ocorreram apenas entre aves da raça New Hampshire (NHS), que se destacaram pela maior média, da mesma forma que os machos deste grupo genético (Tab. 2). As fêmeas da raça Gigante Negra de Jersey (GNJ) apresentaram valores superiores de C22:1ω9 no corte peito, enquanto no cruzamento IG x GNJ ocorreu resultado inverso com maiores médias para os machos. Entre os machos, as aves resultantes do cruzamento IG x NHS e IG x GNJ apresentaram maiores teores de C22:1ω9, e entre as fêmeas, as aves IG x NHS apresentaram as maiores quantidades.

Houve influência isolada do sexo sobre a composição dos ácidos graxos do peito, com maiores médias de C22:0 e C20:3ω6 para as fêmeas e de C15:0 e C17:0 para os machos. Eleroğlu et al. (2013), quando avaliaram o efeito do sexo sobre o conteúdo de ácidos graxos da carne de peito, observaram maiores teores de C16:0 e C20:0 para as fêmeas e reportaram que as diferenças em relação à composição lipídica para aves criadas em sistema alternativo podem ser devido ao comportamento alimentar entre sexos, levando em consideração principalmente o consumo de forragem fresca.

Em geral, trabalhos na literatura indicam que os teores de ácido graxo da carne de peito variam entre diferentes linhagens (Castellini et al., 2006; Tang et al., 2009; Sirri et al., 2010; 2011; Dal Bosco et al., 2012; Kuçukyilmaz et al., 2012). Para os ácidos graxos C12:0, as aves do cruzamento IG x NHS apresentaram a maior média; para C16:0, as aves oriundas de cruzamentos IG x NHS e IG x GNJ demonstraram os maiores valores, sendo, no entanto, semelhantes aos genótipos NHS e IG (Tab. 2), revelando, assim, que o uso de cruzamentos entre raças de diferentes origens pode promover modificação no teor de ácidos graxos saturados, bem como as aves IG x NHS, que apresentaram maiores concentrações de C18:0 (ácido esteárico).

Os principais ácidos graxos monoinsaturados encontrados na carne de peito das aves foram o C16:1 (ácido palmitoleico) e o C18:1ω9c (ácido oleico), com maiores médias para aves NHS e GNJ (Tab. 2). As diferenças entre genótipos nas concentrações desses ácidos graxos na carne podem ser em razão da maior atividade da enzima ∆9-dessaturase (Laborde et al., 2001).

O genótipo GNJ apresentou a maior média de C18:3ω6 (γ-linolênico), sendo semelhante aos genótipos NHS e IG x GNJ, enquanto para os ácidos graxos C20:4ω6 (ácido araquidônico) e C22:6ω3 (ácido docosa-hexanoico ˗ DHA), os genótipos IG e IG x NHS apresentaram os maiores teores no peito (Tab. 2). Como a raça IG é empregada mais para a ornamentação, esta, ao longo de sua formação, não foi utilizada para a produção de carne, apresentando, portanto, um desenvolvimento mais tardio quando comparada às outras raças, tais como a NHS e a GNJ. Sirri et al. (2010) também encontraram diferenças para os teores de DHA e ácido araquidônico entre aves de diferentes linhagens em função da taxa de crescimento e observaram que há uma tendência de as aves de crescimento lento apresentarem na musculatura de duas a três vezes mais conteúdo de ω3, tais como o EPA e o DHA. Segundo Dal Bosco et al. (2012), a alta eficiência de deposição destes ácidos graxos de cadeia longa em aves de crescimento tardio pode ser explicada por questões genéticas e pelo comportamento alimentar, sendo a maior intensidade de pastejo o fator responsável pelo aumento do consumo de forragens que são ricas em ácido linolênico e promoveriam, consequentemente, o aumento da conversão em EPA e DHA.

No corte do peito, para SAT, o genótipo IG x NHS apresentou a maior média e foi semelhante às suas raças formadoras (NHS e IG) e ao genótipo IG x GNJ (Tab. 3). Com relação ao MON, os genótipos NHS e GNJ apresentaram os maiores conteúdos e não houve efeito sobre o total de ácidos graxos ω6. Resultados na literatura mostram correspondência entre o grau de desenvolvimento dos genótipos para a produção de carne, a precocidade e o ganho de peso com o conteúdo de MON na carne de peito (Sirri et al., 2010; Dal Bosco et al., 2012).

Tabela 3 Somatório de ácidos graxos e índices enzimáticos da carne de peito 

Variável Genótipo (G) Sexo (S)
Soma NHS GNJ IG IG x NHS IG x GNJ Macho Fêmea G S GxS
aSAT 35,95AB 35,47B 36,69AB 38,34A 37,17AB 37,19 36,26 0,032 0,117 0,409
bMON 36,92A 34,51AB 31,23BC 29,27C 32,37BC 32,88 32,84 0,001 0,969 0,371
CPOL 27,13B 30,02AB 32,11A 32,40A 30,46AB 29,94 30,9 0,013 0,338 0,694
dΣω3 0,76B 1,47AB 2,11A 2,11A 1,52AB 1,62 1,56 0,001 0,783 0,221
eΣω6 26,14 28,28 29,69 29,97 28,62 28,01 29,07 0,074 0,245 0,419
RELAÇÃO
fΣω6/Σω3 53,59A 23,07AB 16,46B 16,27B 21,90AB 22,87 29,65 0,032 0,409 0,372
gPOL/SAT 0,76 0,85 0,88 0,85 0,83 0,81 0,85 0,225 0,203 0,775
Índice
h∆9-dessaturaseC16 75,59A 73,76AB 69,61BC 68,02C 71,37ABC 71,24 72,09 0,001 0,416 0,642
i∆9-dessaturaseC18 9,84A 8,55AB 5,58C 4,54C 6,67BC 7,04 7,03 0,001 0,982 0,325
jElongaseC16-C18 62,33 63,01 62,6 61,37 61,46 62,09 62,21 0,055 0,779 0,322
kTioesteraseC16-14 97,22 96,68 96,96 95,27 96,68 96,18 96,95 0,154 0,139 0,435
lAterogenicidade 0,42 0,39 0,37 0,40 0,40 0,40 0,39 0,245 0,275 0,372
mTrombogenicidade 1,03 0,96 0,97 1,03 1,03 1,02 0,99 0,234 0,240 0,880

¹Teste de Tukey (α= 0,05); médias seguidas por letras maiúsculas (AB) na linha indicam diferença entre genótipos; NHS ˗ New Hampshire; GNJ ˗ Gigante Negra de Jersey; IG ˗ Índio Gigante; IG x NHS ˗ cruzamento entre aves da raça Índio Gigante e New Hampshire; IG x GNJ ˗ cruzamento entre aves da raça Índio Gigante e Gigante Negra de Jersey; atotal de ácidos graxos saturados; btotal de ácidos graxos monoinsaturados; ctotal de ácidos graxos poli-insaturados; dtotal de ácidos graxos ômega 3; esoma de ácidos graxos ômega 6; frelação ômega 6/ômega 3; grelação poli-insaturado/saturado; híndice de atividade de ∆9-dessaturaseC16; iíndice de atividade de ∆9-dessaturaseC18; jíndice de atividade de elongaseC16-C18; kíndice de atividade de tioesteraseC16-C14; líndice de aterogenicidade; míndice de trombogenicidade.

Foram observados maiores teores de POL e ω3, além de melhor relação ω6/ω3 na carne do peito para os genótipos IG x NHS e IG (Tab. 3). Esses resultados demonstram um efeito positivo do cruzamento sobre a composição lipídica da carne das aves, uma vez que o consumo de dietas ricas em ácidos graxos ω3 promove uma diminuição no risco de ocorrência de doenças cardíacas (Jump et al., 2012).

Ao se comparar a composição lipídica de diferentes linhagens de frangos de corte em função do potencial de crescimento, em geral, observam-se maiores concentrações de POL, ω3 e ω6 do peito para as linhagens de crescimento lento (Castellini et al., 2006; Tang et al., 2009; Sirri et al., 2010). Segundo Castellini et al. (2006), a diferença nos valores de SAT, POL, MON e ω3 entre linhagens de frangos se deve ao comportamento em relação ao tempo de pastejo, consequentemente, à quantidade de gramíneas ingeridas, que são fontes de ácidos graxos ω3. Assim, verifica-se que linhagens mais precoces e com taxa de crescimento superior para produção de carne apresentaram um maior consumo de ração para expressar o seu potencial de produção e atender a necessidade proteica e, consequentemente, uma menor ingestão de forragens (Dal Bosco et al., 2012), o que se confirma ao observado neste estudo, em que as aves da raça Índio Gigante, apesar de maior porte, apresentam menor precocidade.

Segundo a World Health Organization (Diet..., 2003), a ingestão de dieta com relação de ω6/ω3 em torno de 4:1 auxilia na prevenção do desenvolvimento de doenças inflamatórias, alérgicas e cardiovasculares. Os resultados para a carne dos animais deste estudo variaram em torno de 16:1 até 53:1, com maiores médias para a linhagem NHS e menor para IG. De forma semelhante, Sirri et al. (2010) verificaram diferença na relação ω6/ω3 para frangos de diferentes grupos genéticos, com média de 4,34:1 para aves de crescimento lento e de 6,83:1 para as de crescimento rápido, indicando que o fator precocidade modifica o perfil lipídico e promove essa alteração, como verificado neste estudo, justificando as diferenças encontradas.

Os genótipos NHS e GNJ apresentaram valores superiores para ∆9-dessaturaseC16 e ∆9-dessaturaseC18; IG e IG x NHS valores intermediários; e IG x GNJ inferiores (Tab. 3), o que pode ser justificado pelas maiores quantidades de ácidos graxos C16:1 e C18:1ω9 para essas aves. Dal Bosco et al. (2012) também encontraram diferenças entre linhagens sobre os índices de atividade dessas enzimas, tendo as aves de crescimento lento apresentado valores inferiores. Segundo Kouba et al. (2003), a atividade das enzimas ∆9-dessaturases diminui com o aumento da ingestão de ácido linolênico, o que pode estar associado a uma maior intensidade de pastejo e ao consumo de forragens frescas (Castellini et al., 2006). Dessa forma, as aves com menor precocidade, como IG, manifestariam uma maior tendência a apresentarem redução nos índices de atividade das enzimas ∆9-dessaturases.

Os machos das aves NHS apresentaram maiores médias de C11:0 e C22:1ω9 em relação aos demais grupos genéticos para coxa (Tab. 4). Para os teores de C22:1ω9 da coxa, houve diferenças entre sexos apenas para aves do genótipo GNJ, em que os machos apresentaram a maior média, enquanto para as aves GNJ e IG x NHS, os machos apresentaram os maiores teores.

Tabela 4 Perfil de ácidos graxos da coxa de frangos de corte criados em sistema alternativo 

Variável Genótipo (G) Sexo (S)
Ácido graxo NHS GNJ IG IG x NHS IG x GNJ Macho Fêmea G S GxS
C10:0 0,05 0,03 0,09 0,03 0,02 0,06 0,02 0,471 0,136 0,789
C11:0 0,07aA 0,00aB 0,00aB 0,00aB 0,00aB 0,01 - 0,034 0,323 0,012
0,00bA 0,00aA 0,03aA 0,00aA 0,00aA - 0,01
0,04 0,00 0,01 0,00 0,00 - -
C12:0 0,04 0,15 0,25 0,17 0,05 0,14 0,13 0,034 0,898 0,137
C14:0 0,70 0,88 0,60 0,79 0,62 0,70 0,70 0,064 0,342 0,142
C14:1 0,10A 0,09AB 0,04C 0,05BC 0,09A 0,08 0,07 0,001 0,483 0,306
C15:0 0,18 0,19 0,19 0,16 0,16 0,21A 0,14B 0,894 0,024 0,235
C16:0 23,23A 22,72A 19,97C 21,36B 22,15AB 21,84 21,93 0,001 0,756 0,583
C16:1 3,51A 3,04A 1,71B 1,88B 3,41A 2,66 2,76 0,001 0,598 0,662
C17:0 0,38 0,40 0,42 0,31 0,33 0,44 0,30 0,841 0,059 0,205
C17:1 0,30 0,33 0,42 0,22 0,25 0,32 0,28 0,154 0,438 0,165
C18:0 9,45C 10,48BC 12,95A 11,77AB 9,53C 11,18 10,49 0,001 0,079 0,709
C18:1ω9t 0,43 0,42 0,75 0,44 0,53 0,55 0,48 0,456 0,604 0,098
C18:1ω9c 34,95A 32,42AB 28,77C 30,19BC 33,78A 31,09B 32,96A 0.001 0,006 0,513
C18:2ω6c 21,12 21,33 21,79 23,24 22,97 22,43 22,42 0,074 0,242 0,496
C20:0 0,09 0,09 0,10 0,08 0,09 0,09 0,09 0,471 0,159 0,405
C18:3ω6 0,11AB 0,14A 0,08C 0,07C 0,10BC 0,10 0,10 0,001 0,587 0,505
C:20:1 0,23 0,18 0,23 0,25 0,23 0,23 0,22 0,199 0,738 0,415
C18:3ω3 0,58 0,86 0,68 0,78 0,67 0,65 0,78 0,392 0,174 0,361
C20:2 0,19B 0,23AB 0,28A 0,29A 0,22AB 0,26A 0,22B 0,001 0,009 0,249
C22:0 0,07AB 0,08A 0,05AB 0,04AB 0,04B 0,43B 0,68A 0,032 0,012 0,871
C20:3ω6 0,28AB 0,37AB 0,38A 0,33AB 0,24B 0,32 0,32 0,024 0,915 0,900
C22:1ω9 0,06aA 0,02bA 0,05aA 0,07aA 0,03aA 0,05 - 0,057 0,786 0,037
0,00aB 0,09aA 0,02aAB 0,09aA 0,01aAB - 0,04
0,03 0,05 0,04 0,08 0,02 - -
C20:3ω3 0,00 0,02 0,04 0,00 0,03 0,16 0,18 0,120 0,859 0,540
C20:4ω6 3,78C 5,12BC 9,26A 6,82B 4,15C 6,01 5,64 0,001 0,455 0,685
C22:6ω3 0,16B 0,34B 0,90A 0,66A 0,32B 0,47 0,48 0,001 0,876 0,624

¹Teste de Tukey (α= 0,05); médias seguidas por letras minúsculas (ab) na coluna indicam diferença entre sexo; médias seguidas por letras maiúsculas (AB) na linha indicam diferença entre genótipos e entre sexos; NHS ˗ New Hampshire; GNJ ˗ Gigante Negra de Jersey; IG ˗ Índio Gigante; IG x NHS ˗ cruzamento entre aves da raça Índio Gigante e New Hampshire; IG x GNJ ˗ cruzamento entre aves da raça Índio Gigante e Gigante Negra de Jersey.

Foram observadas maiores médias de C16:0 e C22:0 para os genótipos NHS e GNJ, e de C18:0 para os genótipos IG e IG x NHS (Tab. 4). Sirri et al. (2010) observaram maiores teores de C14:0 e C16:0 na carne de coxa de linhagens de crescimento rápido, porém menores teores de C18:0. Segundo Castellini et al. (2008), as diferenças nos teores de ácidos graxos saturados na coxa podem estar relacionadas ao comportamento das aves, em que linhagens de crescimento lento apresentam maior locomoção e estariam utilizando esses ácidos graxos como fonte de energia.

Com relação aos conteúdos de ácidos graxos monoinsaturados da coxa, os genótipos NHS, GNJ e IG x GNJ apresentaram maiores valores de C14:1, C16:1 e C18:1ω9c (Tab. 4). Na literatura, são relatados maiores teores de C16:1 e C18:1ω9c na coxa, para aves de crescimento rápido (Tang et al., 2009; Sirri et al., 2010; 2011), o que é justificado pelos autores devido à maior atividade das enzimas ∆9-dessaturases.

Houve efeito do genótipo para o ácido graxo C18:3ω6 (ácido γ-linolênico) da coxa, em que as aves GNJ apresentaram a maior média, enquanto para C20:2 e C20:3ω6 deste corte, os genótipos IG e IG x NHS apresentaram os maiores valores (Tab. 4). Com relação ao C20:4ω6 e ao C22:6ω3 (DHA) na coxa, os genótipos IG e NHS apresentaram os maiores e menores teores, respectivamente (Tab. 4). Sirri et al. (2010) observaram maiores teores de DHA da coxa para a linhagem de crescimento lento, quando comparada às de crescimento médio e rápido. Os autores atribuíram esses resultados à atividade da enzima ∆6-dessaturase, que está diretamente relacionada à conversão de C18:3ω3 (ácido linolênico) em C20:5 ω3 (EPA) e C22:6ω3 (DHA). Isso demonstra um resultado desejável para o consumidor, pois o DHA é um dos mais importantes ácidos graxos ω3, uma vez que exerce funções essenciais no organismo, sendo fundamental para a formação do tecido nervoso e visual (Crawford et al., 1994), da mesma forma que o ácido araquidônico é considerado essencial ao organismo animal, ocorrendo a sua síntese a partir do C18:2ω6 (ácido linoleico) (Perini et al., 2010).

As aves de genótipos NHS e IG x GNJ apresentaram maiores valores de MON da coxa (Tab. 5). Trabalhos na literatura indicam uma tendência de que linhagens de crescimento rápido apresentem maiores teores de MON na coxa (Tang et al., 2009; Sirri et al., 2010; 2011), o que se deve principalmente aos teores elevados de C16:1 e C18:1ω9c e consequente maior atividade da enzima ∆9-dessaturase C18, como verificado neste estudo para essas linhagens.

Tabela 5 Somatório de ácidos graxos e índices enzimáticos da carne de coxa 

Variável Genótipo (G) Sexo (S)
Soma NHS GNJ IG IG x NHS IG x GNJ Macho Fêmea G S GxS
aSFA 34,22 35,03 34,62 34,71 33,00 34,77 33,86 0,147 0,090 0,345
bMON 39,54A 36,53AB 31,96C 33,11BC 38,31A 34,97B 36,81A 0,001 0,024 0,689
CPOL 26,23B 28,40B 33,42A 32,18A 28,69B 30,26 29,31 0,001 0,167 0,559
dΣω3 0,74C 1,22AB 1,63A 1,44AB 1,02BC 1,38 1,28 0,001 0,180 0,199
eΣω6 25,29B 26,96B 31,51A 30,46A 27,45B 28,86 27,81 0,001 0,102 0,638
Relação
fΣω6/Σω3 35,10A 22,24BC 20,97C 22,41BC 28,12AB 28,21A 24,13B 0,001 0,013 0,158
gPOL/SAT 0,77B 0,82B 0,97A 0,93A 0,87AB 0,88 0,87 0,001 0,690 0,381
Índice
h∆9-dessaturaseC16 78,66A 75,46AB 68,91C 71,84BC 77,95A 73,44B 75,69A 0,001 0,031 0,673
i∆9-dessaturaseC18 13,10A 11,81A 7,83B 8,05B 13,30A 10,67 10,96 0,001 0,648 0,613
jElongaseC16-C18 62,42C 62,46C 65,83A 64,35AB 62,87BC 63,37 63,80 0,001 0,269 0,866
kTioesteraseC16-14 97,08 96,31 97,14 96,45 97,27 96,7 97,00 0,105 0,290 0,111
lAterogenicidade 0,43A 0,42A 0,33C 0,37B 0,40AB 0,38 0,39 0,001 0,298 0,958
mTrombogenicidade 0,97 0,97 0,92 0,94 0,90 0,96A 0,92B 0,186 0,042 0,342

¹Teste de Tukey (α= 0,05); médias seguidas por letras maiúsculas (AB) na linha indicam diferença entre genótipos e entre sexos; NHS ˗ New Hampshire; GNJ ˗ Gigante Negra de Jersey; IG ˗ Índio Gigante; IG x NHS ˗ cruzamento entre aves da raça Índio Gigante e New Hampshire; IG x GNJ ˗ cruzamento entre aves da raça Índio Gigante e Gigante Negra de Jersey; atotal de ácidos graxos saturados; btotal de ácidos graxos monoinsaturados; ctotal de ácidos graxos poli-insaturados; dtotal de ácidos graxos ômega 3; etotal de ácidos graxos ômega 6; frelação ômega 6/ômega 3; grelação poli-insaturado/saturado; híndice de atividade de ∆9-dessaturaseC16; iíndice de atividade de ∆9-dessaturaseC18; jíndice de atividade de elongaseC16-C18; kíndice de atividade de tioesteraseC16-C14; líndice de aterogenicidade; míndice de trombogenicidade.

A taxa de precocidade pode influenciar a composição lipídica (Tang et al., 2009; Sirri et al., 2010, 2011), o que pode ser observado nos produtos oriundos do cruzamento entre IG e NHS que produziu descendentes com maiores teores de POL, ω3 e ω6.

As aves da raça NHS apresentaram na carne da coxa maior valor na relação de ω6/ω3 e menor para POL/SAT, enquanto o grupo IG apresentou comportamento inverso. Esse comportamento está relacionado a sua maior precocidade e taxa de crescimento para produção de carne (Dal Bosco et al., 2012; Albino et al., 2014) em comparação aos outros genótipos, como as aves da raça IG, que têm características de crescimento lento, apesar do seu maior porte (Castellini et al., 2006; ABCIG, 2016).

Com relação ao índice de atividade das enzimas ∆9-dessaturaseC16 e ∆9-dessaturaseC18 na coxa, os genótipos NHS, GNJ e IG x GNJ apresentaram os maiores valores (Tab. 5), o que está relacionado ao maior conteúdo de MON. Segundo Kouba et al. (2003), o índice de atividade das enzimas ∆9-dessaturases é inversamente proporcional ao conteúdo de ω3 na carne, e isso faz com que as aves de crescimento mais acelerado, tais como NHS e GNJ, apresentem menor deposição desses ácidos graxos e, consequentemente, maior atividade dessas enzimas.

As aves da raça IG e do cruzamento IG x NHS apresentaram o maior índice de atividade da enzima elongaseC16-C18 na coxa (Tab. 5). Dal Bosco et al. (2012) observaram, em razão do potencial de crescimento, maiores valores desse índice para aves com menores taxas de crescimento e com aptidão para a produção de ovos, o que, segundo Alessandri et al. (2012), deve-se principalmente aos fatores hormonais.

Para o índice de aterogenicidade da coxa, os genótipos NHS e GNJ apresentaram as maiores médias, enquanto o IG apresentou o menor valor. Esse comportamento pode estar relacionado ao menor conteúdo de POL na carne dessas aves, uma vez que esses parâmetros são inversamente proporcionais. Por outro lado, aves com menores taxas de crescimento apresentaram maiores conteúdos de POL na carne, contribuindo para a diminuição nos valores de índice de aterogenicidade, como verificado na raça IG. Contudo, para o índice de trombogenicidade, não houve diferença entre os genótipos (Tab. 5). Sirri et al. (2011) encontraram aumento nos índices de aterogenicidade e de trombogenicidade em função da taxa de precocidade, o que confirma o observado decido às características de crescimento das aves deste estudo.

Com relação ao sexo, os machos apresentaram maiores teores dos ácidos graxos C15:0, C20:2, da relação ω6/ω3 e de índice de trombogenicidade da coxa, e, em contrapartida, foram observados maiores teores de C18:1ω9c, C22:0, MON e maior valor do índice de ∆9-dessaturaseC16 para as fêmeas (Tab. 4 e 5).

Estes resultados foram semelhantes aos observados por Poureslami et al. (2010) e Quaresma et al. (2016), que observaram maiores conteúdos de MON e C18:1ω9c na carne de fêmeas de frangos de corte e faisão, respectivamente, sendo essas diferenças devido aos fatores hormonais, que podem afetar diretamente as atividades enzimáticas, provocando, assim, alterações no metabolismo e deposição de ácidos graxos.

Diferenças encontradas na relação ω6/ω3 podem ser devido à atividade de β-oxidação dos ácidos graxos precursores da formação dos ácidos graxos de cadeia longa, uma vez que, em frangos de corte machos, há uma maior atividade de β-oxidação de C18:2ω6c e C18:3ω3, quando comparados às fêmeas (Poureslami et al., 2010). Isso pode levar a uma maior disponibilidade de C18:3ω3 e de seus precursores da série ω3 em fêmeas, provocando, assim, uma diminuição na relação ω6/ω3.

CONCLUSÃO

O cruzamento entre as raças IG e NHS proporcionou descendentes com melhor perfil lipídico na carne devido a maiores conteúdos de ácido araquidônico, DHA e ω3 em ambos os cortes. As fêmeas apresentaram melhor perfil lipídico da coxa, em razão da menor relação ω6/ω3.

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Recebido: 04 de Julho de 2017; Aceito: 22 de Agosto de 2018

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