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Revista da Faculdade de Educação

Print version ISSN 0102-2555

Rev. Fac. Educ. vol.24 n.2 São Paulo July/Dec. 1998

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-25551998000200012 

À Professora Aparecida Joly Gouveia

 

Teófilo de Queiróz Júnior*

 

 

Em nosso calendário civil, 15 de Outubro é o "Dia do Professor", data que os meios de comunicação assinalam com referências elogiosas e que, nos últimos tempos, os publicitários utilizam para criações promocionais diversas, enquanto no meio escolar chegam a ocorrer demonstrações de apreço, em clima festivo. Seus promotores são aqueles alunos que não perderam a noção do papel e da importância dos que se dedicam a lhes proporcionar avanços no campo do conhecimento e aprimoramento da personalidade. Mas é no seio do próprio magistério que essa data vem provocando resistência a comemorações, preferindo os professores aproveitá-la para denúncia do abandono e dos desmandos de que são vítimas a educação e os educadores no Brasil. É um esforço no sentido de conscientizar a população, em favor principalmente de sua infância e juventude, diante das lastimáveis conseqüências de um estado de coisas que a insensibilidade dos chamados poderes constituídos persiste em manter.

No "Dia do Professor" deste ano, faleceu a Professora Aparecida Joly Gouvea. Para quem a conheceu e acompanhou-lhe a trajetória, a data faz a perda mais lamentável.

A diplomação por Escola Normal, como eram chamados os estabelecimentos cujo curso formava Professores para os primeiros graus de ensino, fundamentou sua dedicação à escola e definiu seu esforço por conhecer a realidade educacional brasileira com o empenho em contribuir para sua melhoria. Na Sociologia, ela encontrou os instrumentos de que necessitava e que soube utilizar com eficiência, como equipamento teórico-operacional de qualidade científica, para o combate a que se dispôs.

Reluto em empregar o termo combate, considerando o modo de ser dessa cientista social e só o utilizo porque sua atuação se revestiu sempre da coragem de ser desafiada a conhecer o que estudou e a contribuir para solucionar os problemas, à medida que os detectava e conseguia equacioná-los. Mas se tudo isso foi feito com energia e tenacidade, nada ocorreu com grandiloqüência promocional ou arrogância dogmática. O que deu força à sua produção intelectual foram a sinceridade dos propósitos e a seriedade na sua execução. Por trás do que realizou, estava a convicção de que as falhas e desacertos que prejudicavam a educação escolar deveriam ser corrigidos e de que, sendo as correções possíveis, deveriam ser necessárias. E, para tanto, fez do magistério universitário seu espaço de atuação, divulgando, em aulas para graduandos e pós-graduandos, as contribuições da análise e interpretação sociológicas com que seus alunos pudessem, por sua vez, compreender melhor o papel do professor, seus recursos e limitações.

No quadro docente do Departamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, ela chegou, por concurso de provas e títulos, ao cargo em que se aposentou, o de Professor Titular, tope da carreira acadêmica. Foi orientadora de vários estudiosos da Sociologia da Educação, aos quais conduziu com objetiva serenidade na realização de pesquisas e redação de dissertação para título de mestre e de tese para a obtenção do grau de doutor. Solicitada a participar de mesas-redondas e a integrar bancas de concurso, dialogou sempre com convicção e arguiu com segurança e objetividade, levando em conta o interlocutor e respeitando a quem arguia, atenta àquilo que estivesse em pauta. Mas esse seu modo de agir nunca fez concessão ao rigor das teorias e ao grau de adequação com que fossem utilizadas. Por suas intervenções, em tais momentos, pelos livros que publicou e pelos artigos seus veiculados por prestigiosos periódicos científicos, ela difundiu idéias e estimulou estudiosos.

Aos que só vierem a ter dela essas contribuições, não faltará a impressão estimulante da estudiosa que, além de teorizar, foi atuante e presente. Mas aos que tiveram a sorte de conviver com ela, fosse em situações exclusivamente acadêmicas, fosse em momentos de agradável amizade e solidário coleguismo, ficou também a marca de natural sinceridade e simpática alegria, elementos de sua personalidade jamais ausentes.

 

* Professor aposentado da Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, Departamento de Sociologia.