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Revista da Faculdade de Educação

Print version ISSN 0102-2555

Rev. Fac. Educ. vol.24 n.2 São Paulo July/Dec. 1998

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-25551998000200013 

Em memória da Professora Aparecida Joly Gouveia

 

Elba Siqueira de Sá Barreto*

 

 

No dia 15 de outubro de 1998, a Professora Aparecida Joly Gouveia nos deixou. Sua presença permanece, porém, viva na lembrança das várias gerações que com ela conviveram, bem como deixa marcas significativas na própria trajetória da pesquisa educacional do país.

Ao final dos anos 50 e início dos 60, os sistemas de ensino conheceram grande expansão na América Latina. Era um período em que se apostava que a educação teria grande impacto no desenvolvimento da sociedade e ocasião em que os Estados nacionais começaram a fomentar o apoio e a criar condições institucionais necessárias à multiplicação dos estudos e pesquisas na área. Visavam com isso subsidiar o crescimento dos sistemas educacionais.

No Brasil, o Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos (INEP) cria o Centro Brasileiro de Pesquisas Educacionais (CBPE), no Rio de Janeiro, então capital do país, e os Centros Regionais de Pesquisas Educacionais (CRPE) nas capitais de vários estados. É precisamente como pesquisadora desses centros que Aparecida Joly Gouveia, bacharel pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo (1950) e posteriormente doutora pela Universidade de Chicago (1962), aparece no nosso cenário educacional.

Em 1961, como resultado das pesquisas que realizou por intermédio do CBPE e dos CRPEs, publica Milhares de normalistas milhões de analfabetos, e, em 1965, Professoras de amanhã, reeditado pela livraria Pioneira em 1970. Entre 1963 e 1967 coordena grande pesquisa nacional sobre o Ensino médio e estrutura sócioeconômica, também sob o patrocínio do CBPE e dos centros regionais, agora com a colaboração do Centro de Educação Comparada da Universidade de Chicago.

Pioneira na formação de pesquisadores na área, em 1962 a professora Aparecida participa como docente do I Seminário para Treinamento do Pessoal em Pesquisas Educacionais, promovido pelo Centro Regional de Pesquisas Educacionais de São Paulo, sob os auspícios da UNESCO e do Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos. A proximidade desse CRPE com o Departamento de Educação da Universidade de São Paulo, estreita a convivência e a colaboração da socióloga com os educadores aí formados e em formação. Essa convivência se prolongaria posteriormente ao longo de toda a sua carreira trazendo frutos profícuos.

Como professora da Cadeira de Sociologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP desde 1966, além de ter formado um grande número de doutores e mestres e, dentre eles, vários professores da Faculdade de Educação, ela passa a ser uma referência necessária a todos aqueles interessados na investigação dos fenômenos educacionais sob o prisma da interpretação sociológica.

Sempre atenta às questões de método, ela contribui também, com a sua aguda capacidade de análise, para aclarar tendências, criticar modismos e apontar caminhos no que se refere ao desenvolvimento da investigação na área durante várias décadas. Inaugura a revista Cadernos de Pesquisa, da Fundação Carlos Chagas, em 1971, fazendo um balanço sobre A pesquisa educacional no Brasil, posteriormente reproduzido pela Revista del Centro de Estudios Educativos do México. Sobre o tema publica também em Pesquisa e Planejamento, em 1974, e novamente nos Cadernos de Pesquisa, em 1976. A pedido do CNPq faz, em 1977, uma apreciação da produção científica da área em Avaliação e perspectivas: educação. Reflete sobre Pesquisa e desenvolvimento em administração da educação, por solicitação da Associação Nacional de Administradores do Ensino, e pondera acerca das orientações teórico-metodológicas da sociologia no que respeita à pesquisa sobre educação no Brasil, nos Cadernos de Pesquisa em 1985, e no Tempo Social, revista de sociologia da USP, em 1989.

Sua competência e respeitabilidade a conduzem aos Comitês ou Conselhos de Pesquisa dos órgãos responsáveis pela política científica do país, como o CNPq (1976-78) e o INEP (1982-84), e do Estado de São Paulo, como a FAPESP (1986).

Nos anos de 1986 e 1987 participa ainda como membro da Comissão Assessora do Conselho de Editores da Revista da Faculdade de Educação da USP.

Possuidora de grande sabedoria, mas muito modesta e disponível e sempre atenciosa com todos, a professora Aparecida Joly Gouveia, mesmo aposentada pela compulsória, continuou participando de encontros científicos e emprestando a muitos deles a sua contribuição inestimável.

Ela ficará sempre na memória daqueles que tiveram o privilégio de conhecê-la.

 

* Professora do Departamento de Metodologia do Ensino e Educação Comparada da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, pesquisadora da Fundação Carlos Chagas