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Revista Brasileira de Estudos de População

Print version ISSN 0102-3098On-line version ISSN 1980-5519

Rev. bras. estud. popul. vol.36  São Paulo  2019  Epub Nov 04, 2019

https://doi.org/10.20947/s0102-3098a0082 

ARTIGO ORIGINAL

“Quem leva a pior?” Nordestinos e bolivianos no mercado de trabalho paulista

Who has it worse? Northeastern and Bolivian workers in the São Paulo job market

«¿Quién se lleva lo peor? Trabajadores nordestinos y bolivianos en el mercado laboral de São Paulo

*Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Belo Horizonte-MG, Brasil (claudiaayer@gmail.com; https://orcid.org/0000-0002-6536-0512).

**Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Belo Horizonte-MG, Brasil (emvilela@gmail.com; https://orcid.org/0000-0002-0342-0866).

***Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Belo Horizonte-MG, Brasil (mardencampos@gmail.com; https://orcid.org/0000-0002-7397-5453).


Resumo

O artigo compara os diferenciais de rendimento do trabalho de bolivianos e nordestinos no Estado de São Paulo, com base nos dados do Censo Demográfico de 2010. A estratégia de comparar migrantes internos com os internacionais é uma forma de tentar entender como operam os mecanismos de seletividade, adaptação e discriminação por origem. Foram utilizados modelos estatísticos para controlar as análises e saber se bolivianos e nordestinos com características as mais próximas possíveis em termos de variáveis censitárias apresentariam um diferencial de salário, deixando apenas o local de nascimento como variável discriminante. Verificamos, a partir da decomposição dos diferenciais de salário, que os atributos produtivos desses imigrantes são valorizados de maneira diferente. As análises demonstram que os bolivianos “levam a melhor” quando comparados com nordestinos, que se encontram em uma situação pior dada a menor valorização de seus atributos individuais.

Palavras-chave Imigração; Mercado de Trabalho; São Paulo

Abstract

The article compares income differentials of Bolivian and Northeastern workers in the State of São Paulo based on data from the 2010 Demographic Census. The strategy of comparing internal and international migrants is a way of trying to understand how mechanisms of selectivity, adaptation and discrimination by origin operate. Statistical models were used to control the analyses and to know if Bolivians and Northeastern people with characteristics as similar as possible in terms of census variables, would present a salary differential, leaving the place of birth as the only discriminant variable. From the decomposition of wage differentials, we verify that the productive attributes of these immigrants are valued differently. The analysis shows that Bolivians "do better" when compared to Northeasterners, who find themselves in a worse situation, given the lower valuation of their individual attributes.

Key words Migration; Job market; São Paulo

Resumen

El artículo compara los diferenciales de ingresos de los trabajadores bolivianos y del Noreste en el Estado de São Paulo según los datos del censo demográfico de 2010. La estrategia de comparación de migrantes internos e internacionales es una forma de tratar de comprender cómo funcionan los mecanismos de selectividad, adaptación y discriminación por origen. Se utilizaron modelos estadísticos para controlar los análisis y para saber si los bolivianos y las personas del Noreste con características lo más cercanas posibles en términos de variables censales presentarían un diferencial salarial, dejando solo el lugar de nacimiento como una variable discriminante. Desde la descomposición de los diferenciales salariales, verificamos que los atributos productivos de estos inmigrantes se valoran de manera diferente. El análisis muestra que los bolivianos «mejoran» en comparación con los del Noreste, que se encuentran en peor situación dada la menor valoración de sus atributos individuales.

Palabras clave Migración; Trabajo; São Paulo

Introdução

O Estado de São Paulo é o principal destino, no Brasil, de migrantes internos e internacionais. Com isso, aproximadamente 15% de sua população nasceu fora do Sudeste. Além disso, São Paulo também abriga 45% dos estrangeiros que viviam no país em 2010.

A inserção dos imigrantes nos locais de destino é uma questão complexa e dificilmente pode ser compreendida sem um esforço analítico continuado. A variedade de abordagens teóricas e estudos empíricos dedicados a seu estudo atesta a diversidade de perspectivas dedicadas à compreensão do fenômeno (BRETTELL; HOLLIFIELD, 2000; MASSEY et al., 1998). Entretanto, é impossível negligenciar, ao menos nas chamadas “sociedades modernas”, a importância da inserção dos migrantes no mercado de trabalho para compreender como se articulam com a sociedade hospedeira.

Os esforços empreendidos na presente análise partem dessa asserção. Buscamos comparar os diferenciais de rendimento entre o principal grupo de imigrantes internacionais do Estado de São Paulo em termos numéricos em 2010 – os bolivianos – com o mais volumoso grupo de imigrantes internos segundo a região de origem – os nordestinos. A estratégia de comparar migrantes internos com os internacionais é uma forma de tentar entender como operam os mecanismos de seletividade, adaptação e discriminação por origem nas regiões de destino. Pretende-se saber quem “leva a melhor” e quem “leva a pior” em termos de rendimento do trabalho entre os distintos grupos de imigrantes que o estado recebe. A escolha pelos grupos de migrantes analisados é reforçada pelo fato de eles competirem em alguns segmentos do mercado de trabalho local.

Partimos do pressuposto, amplamente documentado na literatura, de que as migrações são seletivas no que se refere a atributos individuais e de grupo (LEE, 1966; BILSBORROW, 1984; MASSEY et al., 1998). A seletividade opera tanto por questões de adaptação e condições de instalação no destino, como pela operação de redes sociais de migração, em que são feitos os recrutamentos de migrantes específicos nas áreas de origem. Por isso, utilizamos as origens interna e internacional como forma de verificar os diferenciais nos processos de seletividade em relação a atributos, como distância (física e ou social) dos migrantes em relação à sociedade de destino, por meio de seu impacto sobre os rendimentos do trabalho.

É preciso destacar, contudo, que a comparação simples entre os atributos desses grupos pode sofrer influência das diferenças entre características individuais dos migrantes, obscurecendo a influência da origem nos rendimentos do trabalho. Por isso, foram utilizados modelos estatísticos para controlar as análises e saber se bolivianos e nordestinos com características as mais próximas possíveis em termos de variáveis censitárias apresentariam um diferencial de salário, deixando apenas o local de nascimento como variável discriminante. Por fim, a partir da decomposição dos diferenciais de salário, avaliamos se os atributos produtivos desses imigrantes são valorizados de maneira diferente.

As análises demonstram que há grande diferença salarial entre os grupos de migrantes estudados e que tanto origem quanto atributos produtivos são aspectos importantes para compreender esses diferenciais.

Breve diálogo com a literatura

Ao estudarem a inserção de imigrantes no mercado de trabalho brasileiro, pesquisadores encontraram evidências de desvantagens socioeconômicas desses trabalhadores, quando comparados com não migrantes (Silva, 1997, 2006; Jannuzzi, 2000; Sala, 2005; Souchaud, 2010, 2012; Vilela, 2011; Baeninger, 2012). Nesses estudos, verifica-se que determinados imigrantes latinos estão frequentemente em desvantagem na obtenção de bons trabalhos e rendimentos, em comparação aos naturais (Jong; Madamba, 2001; Roth, 2012). Outros estudos mostram que, dentre os imigrantes latino-americanos, os bolivianos estão em piores situações no mercado local e, em São Paulo, é o grupo que sofre maior intensidade de discriminação (Silva, 2006; Baeninger, 2012; Vilela; Collares; Ayer De Noronha, 2012). Com relação aos migrantes internos, os nordestinos, ao mesmo tempo que constituem a maioria entre os imigrantes do estado, são os que apresentam as piores condições de trabalho e rendimento (Baeninger, 2005; Schmidt Filho; Monte; Miceli, 2009; Brasil, 2011).

Desconhecem-se estudos, no entanto, que fazem uma comparação entre grupos de migrantes internos e internacionais. Esse fator torna-se ainda mais relevante, visto que, além da concentração de bolivianos e nordestinos no mercado paulista, eles ainda competem profissionalmente. Isso ocorre no setor de confecção, em pequenas oficinas espalhadas, principalmente, pela região metropolitana do estado (Silva, 2006; Gomes, 2006; Freitas, 2012; Souchaud, 2012).

Há farta literatura mostrando a associação da origem do imigrante à sua inserção no mercado de trabalho e a alta correlação dessa com a localização do indivíduo na estrutura hierárquica socioeconômica (Jong; Madamba, 2001; Van Tubergen; Maas; Flap, 2004; Vilela, 2011; Vilela; Collares; Ayer De Noronha, 2012).

Van Tubergen, Maas e Flap (2004), assim como Kesler e Hout (2010), mostram como o posicionamento dos imigrantes na estrutura hierárquica do mercado de trabalho depende de fatores tanto individuais quanto estruturais. No primeiro grupo incluem-se informações relacionadas ao chamado “capital humano”, especialmente em termos de escolaridade e experiência profissional, e variáveis de significado social, tais como sexo, cor/raça e origem étnico/nacional. Já os fatores estruturais referem-se às características dos locais de origem e de destino dos trabalhadores, como, por exemplo, o índice de desenvolvimento humano, índice de desigualdade, entre outros. De acordo com Van Tubergen, Maas e Flap (2004), por meio de pesquisas desenvolvidas nos Estados Unidos, Canadá, Bélgica, Alemanha, França e Israel, a origem do imigrante é um importante fator de impacto, ora positivo, ora negativo, dependendo do grupo de referência em análise. Por outro lado, algumas pesquisas não encontraram diferenças significativas entre imigrantes de mesma origem que se dirigiram para destinos diferentes (Van Tubergen; Maas; FLAP, 2004). Tais achados sugerem um impacto maior da origem do que do destino sobre a situação dos imigrantes no mercado de trabalho.

É destacada também a influência de atributos não produtivos no processo de discriminação dos migrantes (Borjas, 1994). Esse processo levaria à formação de estereótipos, o que Jacinto (2005) denomina de “discriminação estatística” ou por estereótipo, quando se associam características do grupo aos indivíduos em particular.

Em um exemplo específico do Brasil, o estudo de Vilela (2011) identifica que bolivianos, peruanos, uruguaios e chineses se encontram em desvantagem no mercado de trabalho se comparados a argentinos e coreanos. Por outro lado, Vilela, Collares e Noronha (2015) observam que o local de destino tem impacto sobre a situação socioeconômica dos grupos de imigrantes no Brasil, quando se comparam indivíduos de mesma origem.

No que se refere aos grupos específicos de análise desse artigo, há pesquisas que verificam uma situação de desvantagem dos dois grupos, nordestinos e bolivianos, quando comparados separadamente com outros grupos de imigrantes (Póvoa Neto, 1994; Bonassi, 2000; Jannuzzi, 2000; Vilela, 2011; Baeninger, 2012; Vilela; Collares; Noronha, 2015).

No caso particular dos nordestinos, há evidências de que eles são discriminados em São Paulo, onde encontram dificuldade de engajamento e progressão no mercado de trabalho (Jannuzzi, 2000). Outro estudo, realizado por Penna (1994), mostra como a identidade regional do nordestino é socialmente estigmatizada nos locais de destino. Póvoa Neto (1994) também demonstra como esses imigrantes são hostilizados nas sociedades hospedeiras, sendo relacionados com rótulos negativos e estereótipos, tais como indisciplinados, errantes e tendentes ao banditismo, por exemplo. Em relação aos rendimentos, o estudo de Schmidt Filho, Monte e Miceli (2009) mostra que os nordestinos recebem menores salários do que os paulistanos em São Paulo.

Em relação aos bolivianos, a literatura aponta que esses trabalhadores também são discriminados no Brasil e, com isso, acabam se inserindo em ocupações de baixo prestígio social e menor rendimento (Silva, 1997, 2005, 2006; Baeninger, 2012; Sala, 2005; Vilela, 2008, 2011). Sala (2005) identifica que o mercado de trabalho brasileiro paga menos pelos atributos produtivos dos bolivianos, embora estes sejam melhores do que os dos brasileiros em geral.

Um fato importante a ser destacado da literatura referente ao tema é que bolivianos e nordestinos têm um nicho econômico comum no mercado de trabalho paulista: a indústria de roupas e confecções. Contudo, há algumas diferenças quanto à sua inserção nesse ramo industrial. Os nordestinos, principalmente os homens, trabalham com coleta e envio de resíduos e retalhos, como balconistas, vigias e camelôs. Os bolivianos inserem-se, principalmente, como trabalhadores na produção das roupas e, mais recentemente, também como donos de oficinas (Penna, 1994; Gomes, 2006; Souchaud, 2012).

Embora essas referências apresentem a forma como ambos os grupos inserem-se no mercado de trabalho paulista, desconhecem-se estudos que fizeram uma análise comparativa entre eles, lacuna que pretendemos cobrir a partir do presente estudo.

Dados e método

Nesta análise utilizamos os dados do Censo Demográfico de 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Foram considerados migrantes aqueles com local de nascimento fora do Estado de São Paulo. O tempo de residência no estado foi incorporado ao estudo como forma de circunscrever a análise às migrações recentes.

Nos resultados de caráter descritivo foram utilizadas variáveis demográficas, de composição domiciliar e as formas de inserção no mercado de trabalho. No caso da modelagem estatística, concentramos a análise nos homens de 25 a 65 anos de idade, ocupados e desocupados. A idade mínima de 25 anos foi definida porque, em geral, pessoas nessa faixa etária têm grande probabilidade de já terem concluído seus estudos, estando mais propensas a estarem inseridas no mercado de trabalho; a idade máxima de 65 anos deve-se ao fato de que a partir dessas idades o nível de atividade econômica cai significativamente, principalmente devido à aposentadoria. Outro ponto a ressaltar é que a amostra utilizada nos modelos foi apenas de homens, por considerarmos que a situação ocupacional das mulheres no mercado de trabalho é instável, complexa e bastante distinta dos homens (Ribeiro, 2005).

Foram comparados naturais da Bolívia com os brasileiros nascidos na região Nordeste, tomando como referência outros brasileiros nascidos fora da região Sudeste.

A partir de tais recortes, a amostra utilizada nos modelos continha 8.377 bolivianos, 1.303.102 nordestinos e 884.277 migrantes nativos de outras regiões do Brasil residindo no Estado de São Paulo.

As variáveis independentes foram divididas em dois grupos: a explicativa e as de controle. A primeira é aquela que constitui o foco de análise desse trabalho, isto é, o local de origem dos trabalhadores (bolivianos, nordestinos ou outras regiões do Brasil). Dentre as variáveis de controle, foram incluídas informações relacionadas ao capital humano do trabalhador, já consagradas pela literatura (Becker, 1962). Incluímos as seguintes informações: idade do trabalhador em anos centralizada,1 como proxy de experiência no mercado de trabalho; idade do trabalhador em anos centralizada ao quadrado;2 educação; e deficiência. Além disso, as variáveis de controle também referem-se à caracterização demográfica desses trabalhadores: responsável pelo domicílio e estado civil (Anexo 1).

Em relação ao rendimento, acredita-se que o alcance ocupacional e os rendimentos dos indivíduos no mercado de trabalho são determinados pelas características não só pessoais, mas também dos postos de trabalho. Dessa forma, incluímos as seguintes variáveis: empreendedor – que indica se os trabalhadores se inserem no mercado de trabalho como empresários, autônomos e proprietários de negócios; trabalho desqualificado – referente à inserção desses trabalhadores em ocupações desqualificadas; grandes grupos ocupacionais – variável composta por nove categorias correspondentes aos grandes grupos ocupacionais da Classificação Brasileira de Ocupações; e logaritmo das horas trabalhadas por semana.

A informação sobre horas trabalhadas foi incorporada sobre a jornada de trabalho dos imigrantes na equação de rendimentos, tal como indicado por Santos (2009) e Morgan e Arthus (2005). Os autores recomendam a inserção do logaritmo do rendimento como variável dependente e do logaritmo das horas trabalhadas como variável independente de controle.

Alguns estudos apontam que a distância social entre a sociedade hospedeira e a sociedade de origem do trabalhador, quando apresenta muitas diferenças socioculturais, dificulta a inserção no mercado de trabalho (Van Tubergen; Maas; Flap, 2004; Vilela et al., 2012). A distância social pode ser entendida como o grau de distinção em cultura, aparência física e background socioeconômico. Para medida dessa dimensão, tais estudos utilizam como proxies a religião e o tempo de moradia, esse último como um indicador da assimilação no local de destino. Para tanto, são incluídas as seguintes variáveis: tempo de moradia – variável contínua que identifica o tempo que o migrante mora no local de destino, no caso o Estado de São Paulo; e religião – variável que tenta servir como mais uma proxy da “distância cultural” entre os migrantes.

Quanto aos modelos de análise, foram utilizadas três técnicas: modelo Heckman (Heckman, 1979), propensity score matching (Dehejia; Wahba, 2002) e Oaxaca-Blinder (Oaxaca, 1973; Jann, 2008), além de testes estatísticos auxiliares para análise não controlada da associação entre as variáveis, como o teste T e o qui-quadrado, e para identificação do viés de seletividade da amostra.

Na primeira técnica estatística adotada – o modelo Heckman –, buscamos controlar possíveis vieses de seleção amostral dos dados, avaliando se a origem boliviana ou nordestina foi um fator explicativo, de impacto positivo ou negativo, para a determinação dos salários dos imigrantes no mercado paulista, comparativamente ao grupo de referência considerado (migrantes interestaduais de outras regiões do país). Nesse modelo, com o intuito de corrigir o viés de seletividade da amostra,3 foram utilizadas duas equações de regressão simultâneas, uma linear e uma logística.4

O segundo modelo utilizado refere-se ao propensity score matching, técnica que permite comparar indivíduos com seus semelhantes a partir do uso do contrafactual (Rosenbaun; Rubin, 1983). O método possibilita avaliar com maior precisão a existência de diferenciais de salários entre os grupos analisados. Inicialmente, foi gerada, para cada trabalhador nordestino do banco de dados, uma probabilidade condicional (propensity score) de ser semelhante aos bolivianos, com base nas informações socioeconômicas disponíveis (a partir de covariáveis observadas). Em seguida, foi realizado o pareamento (matching) entre indivíduos com características semelhantes e analisado, a partir do contrafactual, o efeito da variável origem sobre os rendimentos dos trabalhadores. Dessa maneira, foi possível comparar imigrantes com atributos mais próximos possíveis, tendo apenas a variável relativa ao local de nascimento como característica diferenciadora.

Após verificar se a origem foi um fator explicativo de diferenças salariais entre bolivianos e nordestinos, avaliou-se se os atributos produtivos desses imigrantes são valorizados de maneira diferente no mercado de trabalho paulista. Para tanto, a terceira técnica estatística utilizada consiste na decomposição dos diferenciais de salário por meio do método proposto por Oaxaca-Blinder.

Esse método realiza estimativas de regressões dos rendimentos dos grupos que se deseja comparar. Os diferenciais nos salários são decompostos em três fatores: uma parte que corresponde às diferenças nos preditores dos grupos (“endowments effect”); uma segunda parte referente às diferenças no intercepto (“coefficients effect”); e uma terceira parte relativa ao termo interativo dos efeitos nos preditores e do intercepto (“interaction effect”). Nosso interesse reside no primeiro termo da decomposição (“endowments effect”), visto que pretendemos avaliar o quanto os diferenciais de salários entre os imigrantes resultam de diferenças na valorização dos atributos desses trabalhadores.5 Uma discussão detalhada do ajuste dos modelos econométricos encontra-se no Anexo 2.

Resultados

Da população total do Estado de São Paulo em 2010, de 41 milhões de habitantes, 20% (8,2 milhões de indivíduos) nasceram fora do estado, o maior número de não naturais residentes em uma unidade da federação do país. Entre os não naturais, 7,9 milhões eram brasileiros, nascidos em outros estados, e 266 mil estrangeiros. Esse número representa o resultado acumulado das migrações para o estado nas últimas décadas, descontados os óbitos e a reemigração.

No caso das migrações internas, 2,3 milhões de indivíduos imigraram para o estado paulista na década anterior ao Censo. O Nordeste foi a principal região de origem desses indivíduos, representando 62% dos fluxos ou 1,4 milhão de imigrantes. Com relação à imigração internacional, 83.223 indivíduos chegaram ao estado na década anterior ao Censo, sendo que os bolivianos representam o principal grupo, com 20.080 imigrantes, correspondendo a 24% do total.

Os imigrantes apresentaram elevada concentração em torno das idades laborais, principalmente de 20 a 39 anos, entre os nordestinos em relação aos demais migrantes e ainda mais pronunciada para os bolivianos. Enquanto para a população total do estado o percentual de crianças (0 a 14 anos de idade) atingia 21,5% da população e o de idosos (60 anos ou mais) 11,6%, os mesmos valores foram de, respectivamente, 13,2% e 5,7%, para os Nordestinos, 14,0% e 1,5%, para os bolivianos, e 16,4% e 7,7%, para o restante dos imigrantes da década, não naturais do estado (Gráfico 1).

Fonte: IBGE. Censo Demográfico 2010. Elaboração dos autores.

GRÁFICO 1 Distribuição dos imigrantes, por grupos de idade quinquenalEstado de São Paulo – 2010 

Tratando da formação domiciliar, entre os nordestinos, 34,5% eram responsáveis pelo domicílio, 25,3% cônjuges e 18,3% filhos do responsável e/ou do cônjuge. O núcleo familiar pai-mãe-filho abarcava 78,2% dos nordestinos e 55,5% dos bolivianos (22,8% responsáveis, 19% cônjuges e 13,8% filhos). Por outro lado, 22,2% dos bolivianos foram declarados como “outro parente” e 8,9% como convivente. Entre os nordestinos, esses percentuais foram de 7,0% e 2,7%, respectivamente.

Em relação à participação no mercado de trabalho, os principais grupos de ocupação entre os nordestinos foram serviços e comércio (19,4%), ocupações elementares (18,9%) e profissionais da ciência e intelectuais (13,1%), categoria que inclui professores e trabalhadores da educação. No caso dos bolivianos, a inserção foi quase exclusiva no setor têxtil e de confecções, sendo as principais ocupações operadores de máquinas e equipamentos (78,6%) e operários e artesãos (7,6%). Dos bolivianos em atividade na data do Censo (19.779 indivíduos), 12.493 (63,2%) eram operadores de máquinas de costura. Interessa observar que essa atividade empregava 212.189 indivíduos no Estado de São Paulo e, além dos bolivianos, 61.023 eram nordestinos.

Quanto aos nordestinos, verificamos grande parcela inserida nos grupos ocupacionais trabalhadores qualificados, operários, artesãos da construção, das artes mecânicas e de outros ofícios (28,7%) e ocupações elementares (19,3%), bem como prevalência de migrantes exercendo a atividade especificamente de “pedreiro” (12%). Os nordestinos estavam alocados em cargos de operadores de instalações e máquinas e montadores, representando 50,5% dos imigrantes inseridos nesse grupo ocupacional, no Estado de São Paulo.

No que diz respeito aos migrantes das outras regiões do Brasil, 23,1% estavam no grupo ocupacional trabalhadores qualificados, operários, artesãos da construção, das artes mecânicas e de outros ofícios e 16,1% no de operadores de instalações e máquinas e montadores, sendo que 9% exerciam a atividade de “pedreiro”.

Esses resultados mostram que bolivianos e nordestinos competem nas oficinas têxteis e confecções.

A Tabela 1 apresenta algumas medidas descritivas que sugerem a forma de inserção no mercado de trabalho paulista desses grupos de imigrantes. Foram realizados testes estatísticos para verificação da existência de diferenças entre as proporções e médias entre os grupos.

TABELA 1 Análise não controlada das diferenças das proporções de imigrantes empregados, empreendedores e em ocupações desqualificadas (Teste Z)Estado de São Paulo – 2010 

Origem Proporção de empregados Proporção de empreendedores Proporção em trabalho desqualificado
Imigrantes de outras regiões 0,971 0,253 0,158
Bolivianos 0,977 0,560*** 0,041***
Nordestinos 0,96*** 0,220*** 0,200***

Fonte: IBGE. Censo Demográfico 2010.** Significante ao nível de 5%; ***significante ao nível de 1%.

No que diz respeito às proporções de imigrantes empregados, verificamos que bolivianos e migrantes de outras regiões do Brasil apresentam níveis similares de participação no mercado local (não há diferença estatisticamente significativa entre os percentuais dos dois grupos), enquanto os nordestinos registram os menores percentuais de trabalhadores empregados. Investigamos, também, as proporções de imigrantes inseridos como empreendedores, já que, segundo Kesler e Hout (2010), casos de empreendedorismo de sucesso refletem melhorias salariais para os imigrantes coétnicos empregados. Dentre os três grupos analisados, mais da metade (56%) dos trabalhadores bolivianos empregados participava no mercado de forma autônoma, em contradição aos nordestinos, que apresentam as menores proporções (22%). Além disso, analisamos as proporções de imigrantes inseridos no mercado em posições desqualificadas e identificamos que os nordestinos detêm os maiores percentuais (20%) (Tabela 1).

No que se refere aos rendimentos médios desses imigrantes, observamos que bolivianos e migrantes de outras regiões não apresentam diferenças salariais estatisticamente significativas, em detrimento dos nordestinos, grupo identificado com os menores retornos salariais médios. Essas comparações indicam que os nordestinos estão em pior situação no mercado local, em comparação aos demais imigrantes. Interessa-nos identificar as diferenças de rendimentos entre os grupos, controladas pelas características individuais do trabalhador, com intuito de verificar se a origem do trabalhador explica tais diferenças, caso existam (Tabela 2).

TABELA 2 Análise não controlada das diferenças nos salários dos imigrantes ocupados (Teste T) Estado de São Paulo – 2010  

Origem Média salarial (em R$)
Imigrantes de outras regiões 1.809,63
Bolivianos 1.704,64
Nordestinos 1.205,19***

Fonte: IBGE. Censo Demográfico 2010.** Significante ao nível de 5%; ***significante ao nível de 1%.

As estimações realizadas por meio das regressões lineares indicam que a origem teve efeito apenas para os trabalhadores nordestinos, em comparação aos migrantes das outras regiões do Brasil. Isto é, no mercado paulista, ser migrante do Nordeste do país acarretou um impacto negativo de aproximadamente 7,5% nos rendimentos médios desses trabalhadores, comparados aos outros imigrantes interestaduais residentes em São Paulo. No caso dos bolivianos, por sua vez, não foi identificado efeito estatisticamente significativo (Tabela 3).

TABELA 3 Exponenciais dos estimadores (EXP(b)) do modelo de regressão linear do logaritmo do salário mensal do imigrante no trabalho principal Estado de São Paulo – 2010  

Origem (EXP(b))
Bolivianos 0,618
Nordestinos 0,924***

Fonte: IBGE. Censo Demográfico 2010.*** Significante ao nível de 1%.Nota: Para determinar o efeito de cada variável em termos percentuais, basta realizar o seguinte cálculo [Exp(b)-1]*100.

No que diz respeito aos resultados do propensity score matching, observamos que a comparação entre dois imigrantes com características produtivas "idênticas" (clones) e apenas local de nascimento diferente (boliviano ou nordestino) não apresenta diferenças nos salários, visto que o teste (T-stat) apresentado na Tabela 4 não foi estatisticamente significativo.

TABELA 4 Resultados do propensity score matching para o logaritmo de salário dos imigrantes, segundo a origem 

Origem T-stat
Bolivianos -2,60
Nordestinos

Fonte: IBGE. Censo Demográfico 2010.

Esse resultado evidencia que as diferenças salariais encontradas entre nordestinos e bolivianos, na estimação de regressões por meio do modelo Heckman, não ocorrem em razão direta da origem do trabalhador, mas por outros motivos. Isto é, ser boliviano ou nordestino não é a causa explicativa direta para os rendimentos diferentes existentes entre esses trabalhadores. É preciso verificar se atributos produtivos de tais imigrantes demonstram um efeito indireto da origem sobre as desigualdades salariais dos indivíduos. Disparidades na remuneração entre os dois grupos analisados devem-se a diferenças na valorização dos atributos produtivos dos imigrantes.

Nossa hipótese é de que os nordestinos têm suas características de capital humano menos valorizadas no mercado de trabalho paulista, em relação aos bolivianos. Tal hipótese é testada a partir do método de decomposição de Oaxaca-Blinder (1973) apresentado a seguir. A análise do endowments effect, um dos componentes resultantes da decomposição de Oaxaca-Blider, permite concluir que os nordestinos têm seus atributos produtivos menos valorizados do que os bolivianos no mercado de trabalho paulista, resultando em rendimentos menores. Os resultados indicam que o salário do nordestino aumentaria em 81,7% caso esse trabalhador tivesse suas características valorizadas como as dos bolivianos (Tabela 5).

TABELA 5 Resultado do Oaxaca-Blinder para o logaritmo de salário dos imigrantes 

Decomposição de Oaxaca-Blinder (EXP(b))
Endowments effects 0,183**

Fonte: IBGE. Censo Demográfico 2010.*** Significante ao nível de 1%.Nota: Para determinar o efeito de cada variável em termos percentuais, basta realizar o seguinte cálculo [Exp(b)-1]*100.

O efeito de origem sobre os rendimentos salariais dos indivíduos não seria direto, um efeito puro, mas sim indireto, via os atributos produtivos.

Discussão

No presente estudo realizamos uma comparação dos rendimentos recebidos por bolivianos e nordestinos no Estado de São Paulo, com base nos dados do Censo Demográfico de 2010 do IBGE. Os resultados indicam uma pior inserção dos nordestinos no mercado paulista, em comparação aos bolivianos e demais imigrantes.

No que diz respeito à forma de inserção desses trabalhadores, foram observadas menores proporções de imigrantes nordestinos empregados e, mesmo quando economicamente ativos, foi o grupo identificado com maiores percentuais de trabalhadores em ocupações desqualificadas. Ser nordestino teve efeito negativo para os salários dos trabalhadores, tendo como grupo de referência migrantes das outras regiões do Brasil. O impacto negativo foi estimado em aproximadamente 8,4% nos rendimentos médios dos trabalhadores, quando comparados aos imigrantes de outras regiões do país residentes no Estado de São Paulo.

Identificada a pior situação dos nordestinos no mercado paulista, foram investigadas as variáveis que aturaram como fatores explicativos para tal situação. Observou-se que, entre imigrantes com características produtivas idênticas (clones) e apenas a origem diferente, sendo um boliviano e outro nordestino, não há diferenças salariais. Portanto, esse resultado indica que os rendimentos diferentes não ocorrem em razão direta da origem do trabalhador, mas sim por outros motivos.

A partir desse cenário, foi realizada uma decomposição dos diferenciais de rendimento, o que indicou que as disparidades na remuneração entre os dois grupos analisados devem-se a diferenças na valorização dos atributos produtivos dos imigrantes. Ou seja, os nordestinos têm seus atributos produtivos menos valorizados do que os bolivianos no mercado de trabalho paulista, resultando em rendimentos menores para aqueles provenientes da região Nordeste do Brasil. Confirmou-se que o mercado de trabalho paulista é gerador de desigualdades, valorizando de maneira diferente os atributos produtivos do migrante nordestino e acarretando em uma inserção socioeconômica precária desses trabalhadores, conforme encontrado por Jannuzzi (2000) e Póvoa Neto (1994).

Não foi verificado efeito da variável origem para determinação dos salários dos bolivianos, indicando que esses imigrantes não apresentam salários estatisticamente diferentes do grupo utilizado como referência (migrantes de outras regiões do Brasil). Nesse aspecto, nossos resultados distanciam-se de parte da literatura, composta sobretudo por estudos qualitativos e com foco nos trabalhadores indocumentados, que enfatizam a precariedade dos trabalhadores bolivianos em São Paulo (Silva, 2006; Baeninger, 2012). Esse afastamento deve ocorrer, provavelmente, em face das diferenças na forma de obtenção das informações e nas fontes de dados dos estudos.

Conforme discutido ao longo do texto, diversos estudos sugerem discriminações e preconceitos surgidos por ambos os grupos (PÓVOA NETO, 1994; ALBUQUERQUE JÚNIOR, 2012; PUCCI; VÉRAS, 2017; BAENINGER, 2012, entre outros). A ambas populações são atribuídos estereótipos de atraso ou inferioridade cultural (PÓVOA NETO, 1994; ALBUQUERQUE JÚNIOR, 2012; MAGALHÃES, 2015). No mercado de trabalho esse fenômeno pode se transformar em discriminação pura, uma vez que os empregadores levam em conta atributos não produtivos, conforme destaca Borjas (1994).

Embora tal discussão ofereça embasamento para afirmar que esses migrantes se inserem em camadas baixas da estrutura social de São Paulo, a comparação dos tipos de discriminação sofridos por cada grupo assume apenas caráter nominal, sendo difícil seu ordenamento hierárquico. Ou seja, com base nesses argumentos não conseguimos explicar o desfecho mensurado em nossos modelos, que indicam a existência de diferenças (quantitativas) nos salários de bolivianos e nordestinos.

Acreditamos que as diferenças salariais entre os grupos explicam-se pelas diferenças nas estratégias migratórias de cada um deles.

Observamos que, em sua configuração, a imigração boliviana é mais recente e menos familiar do que a dos nordestinos. Os bolivianos têm maiores percentuais de indivíduos residindo com outros parentes ou agregados, estão mais concentrados nas idades laborais e têm elevada participação na atividade econômica, caracterizando-se como uma migração especializada, majoritariamente voltada para trabalho na operação de máquinas de costura. A vantagem salarial de que desfrutam, inclusive num ramo em que competem com nordestinos, sugere uma espécie de “prêmio” à especialização.

Já os nordestinos possuem uma migração mais antiga, inserem-se em redes sociais mais amplas, menos voltadas para participação no mercado de trabalho. Além disso, há um número grande de famílias de nordestinos em São Paulo, com menor inserção laboral, o que pode resultar em outros tipos de estímulos para a migração, além do trabalho. Isso pode determinar uma participação menos dedicada no mercado de trabalho, uma menor especialização e, consequentemente, menor seletividade da migração.

Esses fatores podem estar associados à forma de inserção e ao comportamento dos migrantes no mercado de trabalho, gerando atributos produtivos que não aparecem explicitamente nas variáveis do Censo. Por isso afirmamos, com base nos modelos utilizados, que o efeito de origem sobre os rendimentos salariais dos indivíduos se daria indiretamente, via os atributos produtivos não captados pelo Censo.

Ser boliviano ou nordestino não é a causa explicativa direta para os rendimentos diferentes existentes entre esses trabalhadores, mas sim a forma como se articulam seus processos migratórios.

As análises indicam que a imigração de bolivianos apresenta uma seletividade muito alta se comparada aos nordestinos e demais migrantes. Cabe então tentar refletir sobre a inserção dos bolivianos no mercado de trabalho paulista e os impactos disso no processo de seleção dos imigrantes.

É importante frisar que, quando trabalhamos com dados dos censos, enxergamos resultados de processos sobre os quais esses dados não trazem informações. O alcance das explicações dos censos é limitado pelas variáveis e dimensões investigadas. A partir desse ponto eles não nos informam mais e, para avançar, é preciso percorrer outros caminhos.

Esse parece ser o caso em questão. Com base nos modelos estatísticos utilizados, conseguimos mensurar com elevada precisão o resultado de processos cujos mecanismos não iremos conhecer caso nos limitemos apenas ao que o Censo nos mostra. Para que não trabalhemos “no escuro” sobre aspectos explicativos importantes de nossa análise, será preciso ancorar as reflexões em trabalhos de outros autores. Desconhecem-se estudos, no entanto, que fazem uma comparação entre grupos de migrantes internos e internacionais. Com isso, coloca-se um desafio explicativo para o entendimento das diferenças salariais estimadas em nosso estudo. Como os resultados destacam um “prêmio” em favor dos bolivianos, faz-se mister buscar por especificidades em seu comportamento laboral e migratório.

Segundo Freitas (2012), a partir da segunda metade da década de 1990, percebe-se uma inflexão na operação das oficinas de costura de São Paulo, quando a tradicional ligação entre coreanos e bolivianos começa a se dissipar e os imigrantes bolivianos passam a aparecer também como “exploradores” do trabalho de seus compatriotas, participando do controle das oficinas de costura.

Tal processo faz parte das transformações sofridas no nicho econômico em que trabalham os bolivianos, relacionado às oficinas de costura de pequeno e médio portes. As transformações sofridas pela indústria do vestuário nas últimas décadas, caracterizadas pela difusão das oficinas de costura de pequeno e médio portes, com alto nível de informalidade e flexibilidade da organização das oficinas, facilitaram a integração no mercado de trabalho e estabelecimento de redes de migrantes pela organização empresarial familiar. Foram os migrantes internacionais, em resposta às dificuldades que o setor têxtil enfrentou a partir da década de 1990, que desenvolveram um tipo de estrutura de produção mais flexível.

Houve, então, a substituição de grandes empresas por pequenas firmas. Nesse processo, o setor deixou de ser um dos empregos privilegiados na população jovem e feminina da classe popular brasileira, a qual vem preferindo o setor dos serviços. Segundo Souchaud (2012), esses trabalhos atraem cada vez menos migrantes internos, enquanto cresce a participação de imigrantes internacionais.

A autora afirma que, do ponto de vista dos migrantes internos, vários elementos se combinam para explicar essa substituição: a reivindicação, nos setores populares nacionais, por salários mais altos, dado que o aumento dos níveis de qualificação educacional do trabalhador brasileiro possibilita buscar empregos diversificados; e a vontade de emancipação que, de certa forma, passa por uma negação da profissão de costureira e do trabalho tanto industrial quanto em domicílio, por representar formas de inserção social julgadas arcaicas e dominantes na geração de suas mães.

A depreciação do trabalho de costureira dentre as populações migrantes internas e a própria diminuição da migração interna contribuíram para abrir uma brecha no sistema produtivo da confecção, onde os imigrantes entraram. (SOUCHAUD, 2012, p. 83)

Nas oficinas subcontratadas de portes médio e pequeno e nas microempresas familiares informais passa a vigorar uma população estrangeira e masculina, sendo que nas empresas tradicionais e nas grandes unidades de produção ainda se encontra uma mão de obra nacional feminina, com forte participação de nordestinas. Como as unidades do primeiro tipo substituem cada vez mais as do segundo, há uma reposição dos tipos de migrantes empregados no setor.

Em suma, a competição dos migrantes está envolvida na competição entre os tipos de unidade produtiva que acontece no setor têxtil nacional.

Tal processo acompanha a transição do modelo migratório brasileiro, quando a imigração estrangeira, originária de países do Sul, com baixos níveis de qualificação educacional, vem substituindo a mão de obra nacional.

Souchaud (2012) destaca que há, no setor de confecções, uma pressão para que os salários não se situam em níveis muito baixos. Isso ocorre para que se evitem tensões e abandonos de trabalhadores, dado que, por trabalharem sem vínculo empregatício formal, os imigrantes podem trocar de oficina a qualquer momento. Tal dinâmica, fruto do excesso de demanda por trabalhadores, foi relatada em uma pesquisa de campo conduzida pela autora em 2010, mesmo ano em que se realizou o Censo Demográfico. Segundo ela:

Os salários de uma jornada de trabalho nem sempre são miseráveis, e os casos de mão-de-obra cativa acontecem geralmente com os migrantes recém-chegados, que ainda não perceberam as regras e possibilidades do mercado [...].

[...] as jornadas de trabalho diminuem e as condições de trabalho melhoram em comparação com períodos anteriores; a exploração da mão-de-obra, seja de maneira consentida ou forçada, tende, portanto, a diminuir, em grande parte em consequência da ação do Ministério do trabalho. (SOUCHAUD, 2012, p. 86, 90)

Nesse contexto de transição, é provável que alguns dos migrantes passem a auferir maiores ganhos e ter um retorno de seu projeto migratório. Surge inclusive a possibilidade de alguns poucos deles se tornarem donos de oficinas. Embora isso se concretize apenas para uma pequena minoria, a mera existência dessa possibilidade pode (re)articular todo o projeto migratório dos bolivianos. O estudo de Silva (2006) destaca claramente esse aspecto, enfatizando o “sonho” que move esses migrantes – nas palavras do autor – de serem donos de oficina e o impacto desse aspecto no comportamento dos migrantes no dia a dia das oficinas.

Segundo Silva (2006), à medida que os costureiros adquirem a habilidade da costura, seus rendimentos podem melhorar. Nas palavras do autor:

Imigrantes que trabalham no ramo da costura passam a apostar tudo na conquista de sua própria oficina de costura, cujo processo de produção se dá mediante a conjugação do trabalho familiar e da contratação de compatriotas. Esses trabalham no regime de produção por peças costuradas, exigindo dos trabalhadores uma dupla jornada de trabalho para se ganhar um pouco mais. (SILVA, 2006, p. 165)

Os processos de trabalho nas oficinas se dão com base em remuneração por produtividade, de acordo com a quantidade de peças que o trabalhador é capaz de costurar. Observa-se assim que a mobilidade econômica é possível entre os bolivianos, embora ainda em descompasso com o reconhecimento social. Souchaud (2012) afirma que há grande disposição dos migrantes para se submeterem a um trabalho intenso, em função de um objetivo prioritário e muito comum entre os migrantes de acumulação de um pecúlio em um tempo limitado. Isso gera um tipo de comportamento entre os bolivianos que pode diferenciá-los de outros tipos de migrantes. Uma vez estabelecida tal postura no mercado de trabalho, serão recrutados (ou sobreviverão à reemigração) apenas indivíduos que nela se enquadrarem.

Desse modo, há a formação de um sistema cada vez mais complexo e heterogêneo no interior da comunidade boliviana inserida na cidade de São Paulo, cujo dinamismo se reflete, por exemplo, nas possibilidades de mobilidade social.

Isso sugere que atributos produtivos dos bolivianos, não captados explicitamente pelas variáveis do Censo, estariam gerando benefícios salariais para esses migrantes. Tal seletividade decorre da dinâmica do setor econômico de confecções que, na época do Censo, recrutava um perfil restrito de imigrantes bolivianos e premiava positivamente esses trabalhadores. Desse modo, a forma como se articulam os processos migratórios de bolivianos e nordestinos explicaria, via seletividade da migração, os diferenciais de rendimentos entre esses trabalhadores.

Considerações finais

Diversos estudos têm encontrado evidências de desvantagens socioeconômicas de migrantes bolivianos e nordestinos em sua inserção no mercado de trabalho das regiões de destino. Apesar das evidências, não há pesquisas, de nosso conhecimento, que comparam esses grupos minoritários simultaneamente. O presente estudo realizou uma análise pioneira ao comparar a inserção desses dois grupos populacionais no mercado de trabalho paulista, além da comparação entre esses dois grupos e imigrantes de outras regiões do país.

Comparar migrantes internos e internacionais é comparar diferentes processos (e níveis) de seletividade. No caso em estudo, há maior seletividade na migração internacional, fazendo com que os bolivianos sejam premiados em alguma medida, enquanto os nordestinos “levam a pior” no mercado de trabalho paulista.

Notes

1Para solucionar o problema de autocorrelação da idade, foi realizada a centralização dessa variável, que consiste na subtração da idade pelo valor de sua média da amostra analisada.

2A variável é elevada ao quadrado como um procedimento estatístico para linearizar os valores para serem mais bem ajustados às regressões lineares. Mincer (1974) indica a inclusão dessa variável no modelo devido ao comportamento parabólico da curva da variável anterior.

3A seletividade da amostra, nesse caso, ocorre se selecionarmos apenas os casos de indivíduos que trabalham, excluindo os desocupados, na estimação dos modelos, visto que os indivíduos que estão fora do mercado de trabalho têm motivos não observados que, indiretamente, podem influenciar os salários daqueles que estão empregados.

4

Y=β 0+β 1X+...+β kXk,select(Log[P1P]=β 2+β 3X3+...+β nXn)+ε

Onde: Y = logaritmo do salário; β0 = salário do trabalhador quando todo X (variáveis independentes) for igual a zero (intercepto); β1X1+ ... + βkXk = o efeito das variáveis explicativas sobre o salário do trabalhador (inclinação da reta);

P = probabilidade de Y = 1 (do indivíduo estar empregado); 1 – P = probabilidade de Y = 0 (do indivíduo não estar empregado); β2 = probabilidade de ocorrência do evento quando todo X (variáveis independentes) for igual a zero (intercepto); β3X3+ ... + βnXn variação do efeito das variáveis explicativas sobre a probabilidade de ocorrência do evento (inclinação); ε = erro estocástico.

5

D=(β obβ oimj)+[X¯ imj(β kbβ kimj)]

Onde: D é a diferença do logaritmo dos salários médios;

β ob é o intercepto da equação estimada para bolivianos;

β oimj é o intercepto da equação estimada para os nordestinos;

(β obβ oimj) é a diferença nos rendimentos entre os grupos em comparação, quando se assume um mesmo valor para todas as variáveis explicativas.

[X¯ imj(β kbβ kimj)] é o termo que indica a existência de valorização desigual de um mesmo atributo (pessoal ou produtivo).

É realizado o somatório das médias das variáveis independentes, para cada grupo de imigrante, multiplicadas pela diferença entre os coeficientes dos estimadores das variáveis (independentes) do grupo de bolivianos e do grupo de nordestinos. Essa equação resulta na parcela não explicada do hiato salarial, atribuível aos valores diferentes dados aos atributos apresentados a partir das variáveis estabelecidas no modelo. Um valor positivo indica que os atributos e características dos bolivianos são mais valorizados do que dos nordestinos.

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ANEXO 1

TABLE  Descrição das variáveis usadas na estimação dos modelos estatísticos 

Variável Tipo Descrição
Variável dependente
LnSal Contínua Logaritmo do salário mensal no trabalho principal
Variável de teste
Origem
Boliviano Binária 1 = boliviano / 0= brasileiro migrante de outras regiões
Nordestino Binária 1 = nordestino / 0= brasileiro migrante de outras regiões
Variáveis de controle
Idade_cen Contínua Idade do indivíduo, em anos, centralizada
Idade_cen2 Contínua Idade do indivíduo, em anos, centralizada ao quadrado
Educação
Educ1 Binária 1= Fundamental completo ou médio incompleto/0 = Sem instrução ou fundamental incompleto
Educ2 Binária 1= Médio completo ou superior incompleto/0 = Sem instrução ou fundamental incompleto
Educ3 Binária 1= Superior completo/0 = Sem instrução ou fundamental incompleto
Lnhtrab Discreta Logaritmo horas trabalhadas por semana
Fatdef Binária 1= Possui deficiência / 0 = Não possui deficiência
Tempmora Discreta Tempo de residência no local, em anos
Responsável Binária 1= Responsável/ 0 = Outra posição no domicílio
Solteiro Binária 1 = Solteiro / 0 = Casado/separado/viúvo
Religião
Protestante Binária 1 = Protestante / 0 = Católico
Semrelig Binária 1 = Sem religião / 0 = Católico
Outrarelig Binária 1 = Outra religião / 0= Católico
Empreendedor Binária 1 = Trabalhador conta própria ou empregador/
0 = Não é trabalhador conta própria ou empregador
Trabdesq Binária 1 = Ocupado em trabalho desqualificado/
0 = Não está ocupado em trabalho desqualificado
Grandes grupos ocupacionais
Ggocup1 Binária 1 = Membros de forças armadas, policiais e bombeiros militares/ 0 = ocupações elementares ou mal definidas
Ggocup2 Binária 1 = Diretores e gerentes/0 = ocupações elementares ou mal definidas
Ggocup3 Binária 1 = Profissionais da ciência e intelectuais /0= ocupações elementares ou mal definidas
Ggocup4 Binária 1= Técnicos e profissionais de nível médio / 0= ocupações elementares ou mal definidas
Ggocup5 Binária 1 = Trabalhadores de apoio administrativo / 0= ocupações elementares ou mal definidas
Ggocup6 Binária 1= Trabalhadores de serviço, vendedores dos comércios e mercados / 0= ocupações elementares ou mal definidas
Ggocup7 Binária 1 = Trabalhadores qualificados da agropecuária, florestais, da caça e da pesca / 0= ocupações elementares ou mal definidas
Ggocup8 Binária 1 = Trabalhadores qualificados, operários, artesãos da construção, das artes mecânicas e de outros ofícios / 0= ocupações elementares ou mal definidas
Ggocup9 Binária 1 = Operadores de instalações e máquinas e montadores / 0= ocupações elementares ou mal definidas

ANEXO 2

A motivação do uso do PSM foi comparar com maior precisão a existência de diferenciais de salários entre nordestinos e bolivianos, complementando o estudo do Oaxaca-Blinder. Tínhamos um número imensamente maior de nordestinos comparados aos bolivianos. Portanto, buscamos com o PSM -método não experimental conhecido como pareamento baseado no escore de propensão - criar uma amostra de nordestinos que fosse o mais próximo possível das características observáveis dos bolivianos em análise. Essa técnica é muito utilizada em análises de avaliação de políticas públicas, mas nada nos impede de usá-la para outros fins. No caso do artigo em questão, o objetivo do pareamento foi encontrar um grupo de comparação o mais similar possível de bolivianos em relação ao grupo de referência (nordestinos).

Em seguida, estimaram-se os diferenciais de renda por grupo por meio da diferença entre os resultados médios dos grupos. O grupo de comparação foi emparelhado ao grupo de referência por meio de uma série de características observáveis ou por meio do propensity score (escore de propensão ou probabilidade predita de participação). Inicialmente analisamos os indicadores de ajuste do modelo, sobretudo o average treatment effect on treated (ATT), cujo resultado encontrou-se dentro dos parâmetros indicados na literatura.

Além disso, analisamos a existência de diferenças significativas entre os coeficientes do grupo de referência e do grupo de "tratamento", a partir do ps test. Em geral não houve diferenças significativas na amostra selecionada, indicando as similaridades entre as amostras construídas para comparação dos grupos. O p value de cada variável não apresentou significância estatística menor que 0,05 (exceto em uma categoria) e os valores do bias foram menores do que 5, exceto em três categorias. Isso demonstra um bom pareamento entre grupo controle e grupo tratamento.

Para análise dos diferenciais de rendimento, a primeira análise compreende a distribuição da variável resposta, referente àrenda proveniente do salário, dos indivíduos analisados. Inicialmente, verificamos que a distribuição da renda proveniente do trabalho não apresentou distribuição normal e teve assimetria de erros. Além disso, houve indicação de heterocedasticidade.

Para melhor ajuste da variável de interesse, as análises foram realizadas com o logaritmo da renda, conforme gráficos apresentados a seguir, evidenciando adequação do modelo em relação ànormalidade e homocedasticidade.

Uma questão relacionada que tem recebido muita atenção na literatura é o fato de os resultados da decomposição para preditores categóricos dependerem da escolha da categoria base omitida (JONES, 1983; JONES; KELLEY, 1984; OAXACA; RANSOM, 1999; NIELSEN ,2000; HORRACE; OAXACA, 2001; GARDEAZABAL; UGIDOS, 2004; POLAVIEJA, 2005; YUN, 2005b). O efeito de uma variável categórica é geralmente modelado pela inclusão de uma variável binária (formato 0/1) para as diferentes categorias na equação de regressão, em que uma das categorias (a categoria "base" ou de referência) é omitida para evitar colinearidade. No caso do presente estudo, a categoria base ou de referência foram os nordestinos. Nesse sentido, os resultados da decomposição dependem da escolha da categoria base, porque os coeficientes associados quantificam diferenças em relação à categoria base. Se a categoria base for alterada, os resultados da decomposição serão alterados. Portanto, a escolha dos nordestinos como categoria base deveu-se ao fato de serem o grupo com maior número.

É preciso acrescentar que não tivemos como pressuposto de que as diferenças se encontravam somente na média dos valores. Acreditamos que as diferenças estavam também ao longo da distribuição. Entretanto, a opção pelo modelo forçou-nos a realizar uma escolha entre ganhar em precisão ou em compreensão. Adotou-se essa última. Nossa escolha pela análise sobre a média foi baseada na maior facilidade de compreensão, inclusive para um leitor menos versado em modelos econométricos, o que nos levou a abrir mão de um pouco mais de precisão. Além disso, embora os valores estimados pudessem variar ligeiramente, não haveria reversão do efeito indicado. Ao trabalharmos com o logaritmo de salário, acreditamos que a média, que em geral é bastante influenciada por valores discrepantes, sofrerá pouco impacto de valores discrepantes.

Referências do Anexo

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Recebido: 16 de Abril de 2019; Aceito: 03 de Setembro de 2019

Claudia Ayer Noronha Rua Santa Helena, 91 apto. 101, Bairro Serra 30220-240 – Belo Horizonte-MG, Brasil

Claudia Ayer Noronha é doutora em Sociologia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Temas de interesse: imigração internacional, mercado de trabalho, estratificação social e desigualdade social.

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