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Cadernos de Saúde Pública

Print version ISSN 0102-311XOn-line version ISSN 1678-4464

Cad. Saúde Pública vol.5 no.2 Rio de Janeiro Apr./June 1989

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-311X1989000200013 

ANÁLISE

 

A importância da abordagem antropológica em estudos na área de saúde

 

 

Carlos Everaldo A. Coimbra Jr.*

 

 

Anthropology and Epidemiology: Interdisciplinary Approaches to the Study of Health (Craig R. Janes, Ron Stall & Sandra M. Gifford, Organizadores), Dordrecht, Holanda: D. Reidel Publishing Company, 1986, ix + 349 pp., tabelas, bibliografia (US$ 64.00 capa dura; US$ 24.00 brochura).

"Anthropology and Epidemiology" é mais um volume da série "Culture, Illness, and Healing", editada por Margaret Lock e Allan Young. O livro é dividido em quatro partes, totalizando onze capítulos, e a intenção é demonstrar a importância da abordagem antropológica em estudos na área da saúde.

O capítulo introdutório, escrito por F. Dunn e C. Janes, enfatiza a importância de estudos multidisciplinares em pesquisas em saúde. Os autores chamam a atenção para as limitações da epidemiologia em fornecer, por si só, subsídios para a elaboração de medidas preventivas, sem que se trace o contexto social e cultural em que se verificam os comportamentos de risco.

Os dois capítulos de J. Trostle são de cunho histórico e revêem a literatura concernente a pesquisas colaborativas entre a epidemiologia e as ciências sociais. No primeiro capítulo, as contribuições de Snow, Quetelet, Durkheim, Virchow e Dubos, dentre outros, são sumarizadas, ficando para o segundo capítulo a cobertura dos estudos mais recentes. Neste, no entanto, o autor não é bem-sucedido, pois concentra-se muito nos trabalhos de poucos autores, como os de S. Kark e de J. C. Cassell. Vários outros nomes igualmente importantes, ligados principalmente a estudos sobre aculturação e saúde entre sociedades não ocidentais, não são mencionados.

A parte sobre doenças infecciosas é constituída por três capítulos. Dentre eles destaca-se o de M. Nations, baseado em trabalho de campo realizado no nordeste brasileiro. Lançando mão dos pressupostos teóricos e metodológicos da etnociência, a autora procura mostrar a existência de uma série de causas e/ou fatores de ordem cultural que interagem na produção do quadro de morbi-mortalidade regional, e que passariam desapercebidos caso fossem aplicadas apenas técnicas convencionais da epidemiologia. Neste artigo, Nations demonstrou com uma riqueza de exemplos o potencial da contribuição da antropologia médica em geral, e da etnomedicina em particular, para a epidemiologia e a saúde pública.

P. Kunstadter assina um interessante artigo onde são discutidas as tendências de mortalidade em uma região da Tailândia. Em sua análise, o autor leva em consideração uma série de variáveis, destacando-se, dentre outras, filiação étnica e sua relação com a distribuição e freqüência de doenças infecciosas.

Ainda na parte sobre doenças infecciosas, o artigo de E. Gorman revê a evolução da epidemia de AIDS na cidade de São Francisco, Califórnia. O tema é atual e a contribuição de Gorman reveste-se de originalidade pela ênfase nos aspectos de cunho social e antropológico relacionados com a transmissão da infecção.

A terceira parte do livro destina-se às doenças de caráter não infeccioso. O artigo de Janes trata da epidemiologia da hipertensão arterial em migrantes das ilhas Samoa na Califórnia. O autor aplica modelos de regressão multivariada para inferir quanto à importância de uma série de variáveis sócio-econômicas e biométricas sobre a pressão arterial. Ainda nessa mesma sessão, S. Gifford discute o significado de quistos dos seios entre leigos e médicos, e a ambigüidade em torno da idéia de risco associada à condição. A autora apresenta uma interessante discussão acerca da maneira como os estados de "bem-estar" e ''doença" são definidos, dependendo de quem os define (isto é, se o paciente ou o médico).

Finalmente, a quarta e última parte tem por tema a saúde mental. O capítulo de J. O'Neill discute os efeitos do stress advindo do processo de colonização sobre as populações nativas do Ártico canadense. O autor procura mostrar que não é propriamente a mudança cultural que produz stress, mas os desdobramentos advindos do processo. O capítulo de R. Stall apresenta os resultados de uma pesquisa sobre alcoolismo, visando relacionar distúrbios psicológicos advindos da condição e mudanças no padrão de consumo de bebidas alcoólicas. O último capítulo, assinado por R. Rubstein e J. Perloff, discute distúrbios psicológicos em crianças. Os autores criticam os problemas advindos da medicalização dos "distúrbios" e propõem um esquema para integrar as visões epidemiológica e antropológica numa tentativa de melhor compreender tal problemática.

Minha opinião é que o livro merece ser lido. A diversidade de assuntos e áreas geográficas tratadas, aliadas às abordagens por vezes polêmicas de alguns autores, só adiciona ao volume, tornando sua leitura ainda mais interessante. Portanto, a obra é recomendável tanto para profissionais da área de saúde como para cientistas sociais interessados na temática.

 

* Bolsista do CNPq, Department of Anthropology, Indiana University, Bloomington, IN 47405 (U. S. A.)

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