SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.8 número3Representações sobre saúde e doença: agentes de cura e pacientes no contexto do SUDS índice de autoresíndice de assuntospesquisa de artigos
Home Pagelista alfabética de periódicos  

Serviços Personalizados

Journal

Artigo

Indicadores

Links relacionados

Compartilhar


Cadernos de Saúde Pública

versão On-line ISSN 1678-4464

Cad. Saúde Pública v.8 n.3 Rio de Janeiro jul./set. 1992

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-311X1992000300015 

RESENHA/REVIEW

 

 

Carlos E. A. Coimbra Jr.

Núcleo de Doenças Endêmicas Samuel Pessoa; Escola Nacional de Saúde Pública

 

 

Bodies, Pleasures and Passions: Sexual Culture in Contemporary Brazil. Richard G. Parker. Boston: Beacon Press, 1991. 203 p., bibliografia, index. (Capa Dura) ISBN 0-8070-4102-5 US$ 24.95

O livro de Parker traz importante contribuição à antropologia da sexualidade. Organizado em sete capítulos, Parker procede a uma detalhada análise sobre as formas de expressão da sexualidade do brasileiro a partir de dados etnográficos coletados principalmente no Rio de Janeiro e em São Paulo, na primeira metade dos anos 80. O texto é denso, toca em questões polêmicas e é riquíssimo em material etnográfico, incluindo poesias e letras de canções populares, fontes históricas variadas e fragmentos de entrevistas. A preocupação de Parker com aspectos de ordem metodológica é muito oportuna, já que, não raro, os antropólogos esquecem-se de detalhar ao leitor os procedimentos empregados na pesquisa. O apêndice 1 descreve os pontos mais importantes que nortearam os procedimentos de campo adotados pelo pesquisador, enquanto que o apêndice 2 apresenta os informantes que participaram do estudo.

O autor parte de ampla revisão crítica da literatura sobre erotismo e percepção de corpo e beleza física, incluindo documentos clássicos produzidos por viajantes do período colonial, até os trabalhos de sociólogos e antropólogos como Gilberto Freire, Paulo Prado e Roberto da Mata.

Parker chama a atenção para a força exercida, ainda em nossos dias, pela tradição patriarcal na definição e legitimação da hierarquia entre os sexos, marcada por rígida diferenciação dos papéis sexuais. Segundo este modelo, o homem insere-se no plano do "poder", da "força", enquanto a mulher ocupa posição secundária, caracterizada por "submissão" e "fragilidade". Tal diferenciação faz-se refletir na atribuição dos papéis sexuais e na organização da vida sexual do brasileiro. Segundo este modelo, a vida sexual seria estruturada em torno de duas polarizações básicas: masculinidade/atividade e feminilidade/passividade. É a partir deste modelo que Parker explica o fato do homem brasileiro não se perceber homossexual durante o intercurso anal com outro homem, desde que este assuma o papel de "ativo", isto é, seja ele quem "penetre". Tal situação não encontra paralelo em outras culturas, como, por exemplo, nos E.U.A., onde o envolvimento sexual de um indivíduo com outro de mesmo sexo biológico seria percebido como uma relação homossexual, independentemente do mesmo ter assumido um papel "ativo" ou "passivo" durante a relação.

No capítulo 4, o autor analisa a influência das instituições cristãs e da moderna ciência biomédica na construção do universo sexual do brasileiro. Para Parker, ambas tradições contribuíram para situar o entendimento sobre comportamentos e práticas sexuais na esfera do legítimo/ilegítimo, normal/patológico. Por um lado, a Igreja contribuiu para a atribuição de noções de pecado, culpa e vergonha aos atos que transgrediam a rígida tríade de conceitos reguladores da expressão da sexualidade — casamento, monogamia e procriação. A contribuição da medicina, por sua vez, fez-se no sentido de deslocar o discurso acerca das "transgressões sexuais" da esfera do pecado para a esfera das patologias, das enfermidades, dos "desvios" sexuais. Neste sentido, tanto a religião como a ciência exerceram e continuam a exercer importante papel na formação da cultura sexual brasileira através da imposição de práticas regulatórias e restritivas sobre a expressão da sexualidade.

Segundo Parker, foi somente a partir de meados deste século que as discussões sobre temas relacionados à sexualidade tornaram-se mais públicas, fato que o autor associa ao aceleramento do processo de urbanização do país. De certo modo, esta modernização permitiu uma reorganização da hierarquia sexual tradicional, passando pela estrutura da família e a moral predominantemente religiosa. Até então pouco debatidos no cenário público, temas como a masturbação, o tabu da virgindade e a homossexualidade passaram a ser discutidos intensamente por diversos setores da sociedade. Porém, o autor observa que, apesar destas transformações, a essência da cultura sexual brasileira permaneceu inalterada, restringindo-se as inovações à parcela mais restrita da sociedade.

São nos capítulos 5 e 6 que Parker teoriza mais profundamente sobre o universo sexual do brasileiro. Partindo do entendimento das categorias "proibição" e "transgressão", e centrado na oposição entre público e privado, o autor parte para a análise da ideologia do erótico na cultura brasileira. De acordo com sua interpretação, o corpo, investido de erotismo, torna-se objeto e instrumento ilimitado de prazer. Na esfera do privado, sob a proteção do olhar público, o corpo tem o potencial de expressar-se sem limites, dando vazão às fantasias e desejos mais recônditos. Tal ideologia representa importante alternativa ao sistema social marcado por sanções médico-religiosas e familiares, reforçando a máxima popular segundo a qual "entre quatro paredes tudo pode acontecer" (p. 100).

Contudo, como o autor bem coloca, há no espaço ritual do carnaval a possibilidade de rebelar-se contra a ordem e a rotina do dia a dia. Neste espaço, onde a ordem estabelecida e as estruturas hierárquicas são dissolvidas ou invertidas, ocorre a supressão das proibições, permitindo a declaração da igualdade entre todos os seres humanos (pp. 139-140). Ao fazer a ponte entre a esfera da sexualidade e o carnaval, Parker mostra que o sexo realizado entre pessoas que não se conhecem e nunca voltarão a se encontrar, o sexo nas ruas e praias, sexo grupal, sexo entre indivíduos de diferentes raças e idades, assim como tantas outras práticas, deixam os limites impostos pelas quatro paredes e vêm a público num contexto em que, aos atores sociais, é permitido a expressão de suas fantasias.

Em sua análise, Parker trabalha com as categorias sacanagem e malandragem, ressaltando a importância simbólica das mesmas na construção de uma ideologia do erótico regida pela lógica da transgressão. Segundo o autor, o conceito de sacanagem embute, de forma simbólica muito complexa, uma série de noções aparentemente antagônicas, como hostilidade, entretenimento e excitação sexual, que, em última instância, envolvem a transgressão das normas sociais (pp. 101-103).

Em suma, o trabalho de Parker é uma etnografia bem sucedida onde o autor teoriza a respeito de tema da maior complexidade, em um país caracterizado por grande diversidade cultural, onde os estudos sobre representações sexuais são poucos e pontuais. Apesar de pretender ser um estudo amplo acerca das representações sexuais no Brasil, o próprio autor chama a atenção, em seu capítulo de conclusão, para as limitações intrínsecas da obra quanto a sua universalidade, já que a mesma baseia-se em um recorte bem definido do que se poder-se-ia chamar universo cultural brasileiro, marcadamente as cidades do Rio de Janeiro e São Paulo. Contudo, a análise não se deteve à apreensão da realidade da vida sexual de grupos específicos, mas sim à gramática sobre a qual indivíduos e grupos sociais se baseiam para construírem seus universos sexuais. Esta abordagem permitiu ao autor a identificação de categorias significantes elementares que perpassam as fronteiras do regionalismo e de grupos sociais.

Afora o conteúdo essencialmente antropológico, Corpos, Prazeres e Paixões lança possibilidades de reflexão sobre a questão das formas de expressão da sexualidade e transmissão da AIDS no Brasil. O autor chega a fazer algumas incursões neste campo, indagando sobre as possíveis implicações da cultura sexual brasileira na epidemiologia da AIDS, sem contudo aprofundar esta questão. Por sua originalidade e densidade, a importância da obra de Parker transcende os limites acadêmicos da área da antropologia e, a meu ver, é leitura básica para os profissionais em saúde interessados na investigação epidemiológica da AIDS e programas de prevenção e educação em saúde.

No final de 1991 foi lançada uma edição em português pela Editora Best Seller de São Paulo ("Corpos, Prazeres e Paixões: A Cultura Sexual no Brasil Contemporâneo").

Creative Commons License Todo o conteúdo deste periódico, exceto onde está identificado, está licenciado sob uma Licença Creative Commons