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Cadernos de Saúde Pública

versão On-line ISSN 1678-4464

Cad. Saúde Pública v.14 n.2 Rio de Janeiro abr./jun. 1998

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-311X1998000200022 

CARTAS LETTERS

 

 

Investigação de um surto de intoxicação alimentar em Belo Horizonte, Brasil

 

Sandhi Maria Barreto 1
Maria Fernanda Lima e Costa 1, 2


1 Laboratório de Epidemiologia e Antropologia Médica, Centro de Pesquisas René Rachou, Fundação Oswaldo Cruz. Av. Augusto de Lima 1715. Belo Horizonte, MG 30190-002, Brasil.
2 Departamento de Medicina Preventiva e Social, Faculdade de Medicina, Universidade Federal de Minas Gerais. Av. Alfredo Balena 190. Belo Horizonte, MG 30130-100, Brasil.

 

 

As intoxicações alimentares resultam da ingestão de alimentos contaminados com microorganismos patogênicos, toxinas microbianas ou substâncias químicas. Entre 1973 e 1987, os Centers for Disease Control and Prevention (CDC) investigaram cerca de quinhentos surtos anuais nos Estados Unidos. A magnitude das intoxicações alimentares no mundo não é conhecida, mas estima-se que entre 6,5 e 81 milhões de pessoas sejam afetadas anualmente (Tauxe & Hughes, 1995). No Estado de Minas Gerais, foram registradas 1.476 internações hospitalares por intoxicações alimentares no ano de 1996 (SIH-SUS, 1996). Apesar da magnitude do problema, surtos de intoxicações alimentares são raramente investigados no Brasil.

O presente trabalho refere-se à investigação de um surto por intoxicação alimentar ocorrido após um almoço de confraternização de Natal em Belo Horizonte. O almoço realizou-se no dia 13 de dezembro de 1996 em um restaurante self-service, de grande porte, que serve comida típica mineira. A ocorrência do surto foi identificada no dia 15/12/96, quando foi obtido do restaurante o cardápio servido no referido almoço. Foi elaborado um questionário auto-aplicável contendo perguntas sobre os alimentos consumidos e sinais e sintomas apresentados até 72 horas após o evento. Foram considerados casos aqueles que apresentaram diarréia e/ou vômitos, e controles aqueles que não relataram esses sintomas. Casos e controles foram comparados em relação ao consumo de cada alimento (Armitage & Berry, 1987; Hosmer & Lemenshow, 1989).

Dos 102 participantes, 98 (96%) responderam ao questionário. Foram identificados vinte indivíduos que apresentaram diarréia e/ou vômito nas 72 horas seguintes ao almoço; destes, 19 apresentaram diarréia associada ou não a vômitos, e um apresentou vômito, mas não diarréia. A freqüência de evacuações entre os primeiros variou entre quatro e 15 vezes nas primeiras 24 horas (mediana = 8). A Tabela 1 mostra os principais sinais e sintomas apresentados pelos indivíduos classificados como casos. O período decorrido entre o início do almoço (13 horas) e o início da diarréia e/ou vômitos variou entre uma a 13 horas, sendo a mediana igual a cinco horas e meia.

 

 

Na Tabela 2, estão apresentadas as razões de chance para os seis alimentos associados (p<0,10) à ocorrência de diarréia e/ou vômitos na análise univariada. Após ajustamento por variáveis de confusão, permaneceram associados à ocorrência desses sintomas ambrosia (RC = 6,0; IC 95% = 1,8, 20,0), queijo minas fresco (RC = 6,9; IC 95% = 1,6, 29,4) e saladas com legumes crus (RC = 6,1; IC 95% = 1,5, 24,9).

 

 

A presente investigação registra a ocorrência de vinte casos de intoxicação alimentar em Belo Horizonte, após um almoço de confraternização. Em razão do tempo decorrido entre o evento e a detecção do surto (três dias) não foi possível obter amostras dos alimentos ou de material biológico para investigação laboratorial do agente responsável. Períodos de incubação curtos (até seis horas), como o observado neste estudo, falam a favor de contaminação alimentar por enterotoxinas pré-formadas, produzidas principalmente por Staphylococcus aureus ou Bacillus cereus (Benenson, 1990; Schecter & Marangoni, 1994; Tauxe & Hughes, 1995). Os alimentos suspeitos de contaminação foram ambrosia, queijo minas fresco e saladas à base de legumes crus. Os vegetais de uma maneira geral não são alimentos vulneráveis a esse tipo de contaminação, mas, na refeição suspeita, eles foram servidos com queijos e molhos.

O S. aureus é muito freqüente em todo o mundo. As intoxicações produzidas por suas enterotoxinas são geralmente conseqüentes à contaminação de leite ou de seus derivados (queijos não processados, cremes e molhos). Intoxicações alimentares provocadas pelo B. cereus são mais freqüentes na Europa, sendo geralmente associadas à ingestão de arroz cozido. Diarréia e vômitos predominam em ambas intoxicações (Benenson, 1990; Tauxe & Hughes, 1995).

Os resultados desta investigação sugerem que o surto foi provocado por enterotoxinas pré-formadas de S. aureus. Os alimentos suspeitos de contaminação foram ambrosia, queijo não processado e saladas. O isolamento do agente etiológico responsável pelo surto não foi possível; isso acontece freqüentemente nesse tipo de investigação. Apesar disso, os resultados são suficientes para a caracterização do surto, para levantar hipótese consistente quanto a sua etiologia e para determinar medidas de prevenção. As dificuldades para o isolamento do agente etiológico não devem constituir empecilho para a utilização desse tipo de investigação na rotina dos serviços de saúde pública.

 

 

Agradecimentos

 

As autoras agradecem à Diretoria da Asfoc, à Dra. Cecília Pereira de Souza e aos funcionários do Centro de Pesquisas René Rachou, da Fundação Oswaldo Cruz.

 

 


ARMITAGE, B. & BERRY, G., 1987. Statistical Methods in Medical Research. Oxford: Blackwell.

BENESON, A. S., 1990. Control of Communicable Disease in Man. Washington: American Public Health Association.

HOSMER, P. M. & LEMESHOW, S., 1989. Applied Logistic Regression. New York: Wiley.

SCHECHTER, M. & MARANGONI, D. V., 1994. Doenças Infecciosas, Conduta, Diagnóstico e Terapêutica. Rio de Janeiro: Editora Afiliada.

SIH-SUS, 1996. Ministério da Saúde/FNS/DATASUS.

TAUXE, R. V. & HUGHES, J. M., 1995. Food-borne disease. In: Principles and Practice of Infectious Disease (G. L. Mandel, R. G. Doutlas & R. Dolin, eds.), pp. 1012-1015. New York: Churchill Livingstone.

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