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Cadernos de Saúde Pública

Print version ISSN 0102-311XOn-line version ISSN 1678-4464

Cad. Saúde Pública vol.14 n.4 Rio de Janeiro Oct./Dec. 1998

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-311X1998000400027 












Lêda Maria da Costa-Macedo1

José Roberto Machado-Silva1
Rosângela Rodrigues-Silva2
Lúcia Maria Oliveira1
Maria Sylvia Ripper Vianna3

Enteroparasitoses em pré-escolares de comunidades favelizadas da cidade do Rio de Janeiro, Brasil  

Intestinal parasitoses in low-income children under five years of age in Rio de Janeiro, Brazil

 

1 Departamento de Patologia e Laboratórios, Faculdade de Ciências Médicas, Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Rua Teodoro da Silva 48, 5o andar, Rio de Janeiro, RJ 20551-001, Brasil.
2 Departamento de Helmintologia, Instituto Oswaldo Cruz, Fiocruz. Av. Brasil 4365, Rio de Janeiro, RJ, 21045-900, Brasil.
3 Coordenação de Educação Sanitária, Secretaria Municipal de Habitação, Centro Administrativo. Rua Afonso Cavalcanti 455, 5o andar, Rio de Janeiro, RJ 20211-110, Brasil.
  Abstract Prevalence of intestinal parasites was investigated in 1381 low-income children under five years of age from March 1990 to October 1991 in the city of Rio de Janeiro, Brazil. Stool tests were run using the Blagg et al method. Observed prevalence of infection was 54.5%. The most frequent parasites were Giardia lamblia and Ascaris lumbricoides (25.0% of the children). A significant statistical difference (p<0.05) was demonstrated between age and infection according to the species of parasite studied. Infection rates demonstrated the need for control of parasites in these children.
Key words Parasites; Child, Preschool; Poverty Areas; Epidemiology

Resumo A prevalência das enteroparasitoses foi verificada através de inquérito coproparasitológico realizado de março de 1990 a outubro de 1991, em 1.381 pré-escolares provenientes de quatro comunidades faveladas da cidade do Rio de Janeiro, Brasil. Por meio da técnica de Blagg et al. (1955), foi encontrada uma positividade geral de 54,5. Os parasitos mais freqüentes foram Giardia lamblia e Ascaris lumbricoides, em cerca de 25,0% das crianças investigadas. Correlação estatisticamente significativa foi observada entre idade e positividade nas crianças menores de três anos. Sugerimos que tratamento antiparasitário e modificações ambientais sejam implementados para o controle das infecções parasitárias nesta população.
Palavras-chave Parasitos; Pré-Escolar; Áreas de Pobreza; Epidemiologia

 

 

Introdução

 

No Brasil, grandes inquéritos coproparasitológicos foram realizados até a década de 70. Nos últimos anos, contamos apenas com trabalhos isolados, que, pela diversidade geográfica, social, econômica e cultural do País, nem sempre podem ser comparados. Entretanto, nas regiões com infra-estrutura urbana deficiente, os inquéritos mostram que pelo menos a metade das crianças lá residentes encontra-se parasitada (Gross et al., 1989; Ferreira et al., 1994; Santana et al., 1994).

No Município do Rio de Janeiro, pouco se conhece sobre a situação atual das enteroparasitoses em comunidades de baixo nível sócio-econômico. Este trabalho teve como objetivo estabelecer a prevalência de enteroparasitoses em crianças menores de cinco anos de idade, residentes em áreas faveladas que seriam alvo de intervenções para melhorias urbanas, realizadas pela Secretaria de Habitação da Prefeitura do Rio de Janeiro.

 

 

Material e métodos

 

Inquérito coproparasitológico foi realizado de março de 1990 a outubro de 1991 em pré-escolares residentes em quatro áreas de baixa renda localizadas nas seguintes Regiões Administrativas (RA) da cidade do Rio de Janeiro: Morro da Formiga (VIII RA ­ Tijuca); Comunidade Nelson Mandela (X RA ­ Manguinhos); Comunidade de Vila Nova Cruzado (XVI RA ­ Jacarepaguá) e Favela do Jacarezinho (XXVIII RA ­ Jacarezinho).

Através de demanda espontânea, foi analisada uma amostra de 1.381 crianças menores de cinco anos de idade. Nas próprias comunidades foram distribuídos potes coletores de fezes com solução de MIF. Após serem instruídos, os responsáveis coletavam de cada criança três amostras de fezes, de dias diferentes, colocando-as num mesmo pote. Esse material era posteriormente recolhido e encaminhado à Disciplina de Parasitologia da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, para a realização de exames parasitológicos pelo método de Blagg et al. (1955).

Análise estatística foi realizada utilizando-se o teste Qui-Quadrado com nível de significância de 95,0% (Siegel, 1975).

 

 

Resultados

 

Foram cadastrados cerca de 78,0% do total de pré-escolares estimado pela Secretaria de Habitação em 1990 e 1991. A relação entre as crianças examinadas e o total de crianças residentes nas comunidades mostrou uma cobertura em torno de 62,0% no Morro da Formiga e na Comunidade de Vila Nova Cruzado; de 43,0%, na Comunidade Nelson Mandela, e de 16,0% na Favela do Jacarezinho.

A prevalência geral encontrada para o parasitismo intestinal foi de 54,5%, com o poliparasitismo variando de 32,5% no Jacarezinho a 63,4% em Vila Nova Cruzado. As positividades obtidas por comunidade foram semelhantes, exceto para o Jacarezinho, que diferiu estatisticamente das demais (Tabela 1). Giardia lamblia e A. lumbricoides foram as espécies mais freqüentes e responsáveis pelo parasitismo de 25,0% das crianças (Figura 1). Ancilostomídeos (0,3%) e Enterobius vermicularis (0,2%) foram as menos prevalentes.

 

 

A distribuição dos parasitos por faixa etária mostra uma freqüência crescente de infecção, sendo esta relação estatisticamente significativa (p<0,05) até os três anos de idade. Entre essas idades, a significância dessa relação foi variável segundo o parasito estudado (Tabela 2). Exceto aos três anos, A. lumbricoides foi a espécie predominante nas outras idades.

 

 

 

Discussão

 

As enteroparasitoses são um importante indicador das condições de saneamento em que vive uma dada população. Segundo a Unicef (1995), a população menor de cinco anos reflete bem o grau de contaminação de uma região, por tratar-se de indivíduos com pouca capacidade de deslocamento e maior vulnerabilidade, espelhando, assim, as condições sociais da comunidade onde habitam. Consoante com tal afirmação, estão os dados que indicam que mais de 80,0% das crianças deste trabalho permanece na sua casa durante o dia.

Pouco se conhece sobre a prevalência atual de enteroparasitoses em pré-escolares da cidade do Rio de Janeiro. Entretanto, a prevalência geral encontrada (54,5%) reforça a dramática situação já vista em décadas passadas nos habitantes de outras favelas (Goulart, 1964; Pereira et al., 1972). Podemos concluir que não tem havido modificação nas taxas de infecção ao longo dos anos. Com exceção da favela do Jacarezinho, onde a prevalência foi a menor (Tabela 1), a freqüência de parasitoses nas outras comunidades (em torno de 60,0%) é um achado expressivo e pode ser relacionado, em parte, à cobertura alcançada nos locais pesquisados.

A inspeção dos dados relativos à distribuição das enteroparasitoses mostrou que G. lamblia, A. lumbricoides e Trichuris trichiura foram as mais freqüentes (Figura 1). Estes parasitos são os mais fáceis de se transmitir (via oral) e os mais encontrados nas investigações de populações urbanas residentes em áreas faveladas (Crompton & Savioli, 1993).

O progressivo aumento da prevalência de acordo com o aumento da faixa etária foi evidente nas crianças até os três anos de idade (Tabela 2). Consideramos que este aumento seja conseqüência das modificações comportamentais das crianças, que, à medida que crescem, acentuam o contato físico com o ambiente (Monteiro et al., 1988), e da forte pressão de contaminação fecal em ambientes desprovidos de saneamento básico adequado. Desta forma, nossos resultados demonstraram que as crianças menores de um ano de idade já estão infectadas por enteroparasitoses, coincidindo com outros estudos realizados no Brasil (Monteiro et al., 1988).

Segundo Camillo-Coura (1974), A. lumbricoides e T. trichiura são os helmintos mais comuns em crianças abaixo de seis anos de idade. Nossos dados confirmam este fato e corroboram outros achados, feitos em outros municípios (Monteiro et al., 1988; Gross et al., 1989; Santana et al., 1994; Guimarães & Sogayar, 1995). Verificamos, porém, que esses helmintos apresentaram diferenças no padrão de distribuição nas várias faixas etárias: exceto aos três anos, A. lumbricoides atingiu os valores mais elevados nas outras faixas etárias; por outro lado, o T. trichiura teve aumento expressivo da prevalência apenas a partir dos dois anos (Tabela 2). Apesar de estes geo-helmintos apresentarem o mesmo mecanismo de transmissão, a mesma distribuição geográfica, e de haver uma agregação quanto à sua distribuição, o mesmo padrão de freqüência foi encontrado somente a partir dos dois anos de idade. Este dado sugere que fatores ligados ao hospedeiro (idade) poderiam interferir na ocorrência dessas parasitoses. As observações feitas em escolares do Município de Guarulhos (São Paulo) indicam que a prevalência de T. trichiura sofre um decréscimo em escolares com 11 anos ou mais (Chieffi et al., 1988). Recentemente, Chan et al. (1994) detectaram que determinados grupos familiares apresentam uma maior predisposição para a infecção por A. lumbricoides e T. trichiura, estando envolvidos fatores endógenos dos indivíduos e/ou fatores exógenos (ambientais). Entendemos então que a diferença entre os nematóides pode estar relacionada com fatores ambientais, como a maior capacidade de produção de ovos pelas fêmeas de A. lumbricoides e/ou uma maior precocidade de aquisição deste helminto (Costa-Macedo & Rey, 1997).

No que se refere ao complexo E. histolytica, a prevalência de 3,0% foi concordante com outros dados da região Sudeste: Município de São Paulo (Monteiro et al., 1988; Chieffi et al., 1988; Ferreira et al., 1994) e Belo Horizonte (Gross et al., 1989).

Finalmente, constatamos que o estudo da ocorrência de enteroparasitoses em pré-escolares também é um dos indicadores adequados para avaliar as condições sócio-econômicas de uma comunidade e concordamos que a infecção por A. lumbricoides reflete adequadamente o grau de saneamento de uma região (WHO, 1985). Portanto, sugerimos que essas infecções devam ser consideradas alvos de controle, com o tratamento das crianças parasitadas e com mudanças nas condições ambientais nestas áreas faveladas, para que haja melhoria de vida dos habitantes dessas comunidades.

 

 

Agradecimentos

 

Agradecemos a Marilene Adão de Paula (Uerj) e às agentes de campo, Vera Lúcia V. de Souza, Gilda C. Gomes e Luciléa Pacheco (SH), a grande ajuda prestada na coleta, no transporte do material e na execução das técnicas parasitológicas.

 

 

Referências

 

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