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Cadernos de Saúde Pública

Print version ISSN 0102-311XOn-line version ISSN 1678-4464

Cad. Saúde Pública vol.15  suppl.2 Rio de Janeiro  1999

https://doi.org/10.1590/S0102-311X1999000600016 

NOTA RESEARCH NOTE

 

 

 

 

Fernando Lefèvre 1
Ana Maria Cavalcanti Simioni 1


Maconha, saúde, doença e liberdade: análise de um fórum na Internet

Marijuana, health, disease, and freedom: analysis of an Internet forum

 

1 Faculdade de Saúde Pública, Universidade de São Paulo. Av. Dr. Arnaldo 715, São Paulo, SP 01246904, Brasil. flefevre@usp.br   Abstract This paper takes a Health Education perspective to analyze a debate forum on the Brazilian Internet site entitled "Universo On-Line", in which the following questions were addressed: "Do you believe that marijuana is harmful to one's health?" "In your opinion, should marijuana use be decriminalized?" By applying qualitative discourse analysis techniques to responses from the forum, we were able to identify six main types of discourse, reflecting the opinions of six "collective subjects" concerning drugs, health, disease, and freedom and existing as social representations in the current Brazilian collective imagination. Research on these social representations allows one to establish criteria for intervention in the field of Health Education
Key words Health Education; Cannabis; Street Drugs; Computer Communication Networks; Communications Media

Resumo Sob a perspectiva da educação em saúde, analisa-se, no presente trabalho, o fórum aberto pelo site Universo On-Line que propunha o debate da seguinte questão: "Você acredita que a maconha faz mal à saúde? Seu uso deveria ser descriminado". A partir da aplicação de instrumentos e técnicas qualitativas de análise e tabulação de discursos aos depoimentos contidos nesse fórum, chegou-se à definição de seis grandes tipos de discurso do sujeito coletivo sobre a temática das drogas, da saúde, da doença e da liberdade, presentes, na qualidade de representações sociais, no imaginário brasileiro atual. De acordo com uma dada visão da Educação, o enunciado dessas representações permite o estabelecimento das pré-condições necessárias para qualquer intervenção educativa na problemática em questão.
Palavras-chave Educação em Saúde; Canabis; Drogas Ilícitas; Redes de Comunicação de Computadores; Meios de Comunicação

 

 

Introdução

 

Tem-se assinalado como constituindo uma das principais características da internet o fato de ela ser um instrumento de facilitação da emergência de um pensamento coletivo (Levi, 1994), que vem acompanhada da correlata sensação de se pertencer à famosa 'aldeia global'.

Com efeito, sem sair de sua casa ou escritório, mediante a tela do monitor (Baudrillard, 1992), indivíduos de variadíssimos lugares e/ou condições sociais e ideológicas parecem ter a possibilidade de acessar um mundo com tudo que é possível encontrar dentro dele, estando este concentrado e viabilizado pelas dimensões muito individuais da tela do monitor, que fica física e espacialmente bem próxima, ou seja, ao alcance das pessoas e na altura de seus olhos de 'homens sentados' (isto é, poderosos, já que, imageticamente, o poder é quase sempre representado por homens sentados). Além disso, é oferecida aos homens a possibilidade (por certo altamente fantasiada) de agir sobre este mundo acessado, por meio do simples toque da ponta dos dedos no teclado/mouse.

Um novo pensamento emergirá desse mundo aproximado? Parece uma pertinente questão a ser colocada, que não pode, ainda, por certo, ser adequadamente respondida, mas que ajuda a tornar viável, ou pelo menos formulável, essa promessa positiva da modernidade (Levy, 1994).

Enquanto isso, podemos certamente afirmar que a existência de sites do tipo do Universo On Line (UOL) como produtos da Internet constituem um valioso facilitador da pesquisa sobre representações sociais envolvendo discursos coletivos de todo gênero e, por certo, aqueles que tenham como temas os constantes da agenda atual da saúde coletiva, como, por exemplo, a maconha como droga 'leve' e toda a polêmica associada à liberalização ou não (ou liberação parcial) de seu consumo.

Com isso, acreditamos estar contribuindo para o melhor entendimento do que se pensa (ou do que o senso comum pensa) sobre a maconha e seu consumo, e, mais genericamente, sobre a questão das drogas, ajudando a enfrentar esse importante problema de saúde pública.

 

 

Material e métodos

O corpus analisado é constituído por 129 depoimentos ou mensagens (segundo a terminologia do site) presentes no fórum cujo título é Descriminação da Maconha, ao qual está acoplada a seguinte questão: Você acredita que a maconha faz mal à saúde? Seu uso deveria ser descriminado?

O fórum é uma seção do UOL que figura ao lado de outras (como Universo, Menu, Correio, Bate-Papo, Busca, Serviço ao Assinante, Meu Universo e Saída). Nessa seção, os organizadores, com base em uma análise de demanda e em sugestões dos consumidores, escolhem certos temas que merecem ser objeto de um fórum de discussão e oferecem um enquadramento que a viabiliza e organiza.

As mensagens analisadas aqui correspondem ao período de junho e julho de 1997. Elas são discursos sintéticos de tamanhos variados, o maior deles girando em torno de trinta linhas e o menor, por volta de duas; ambos os casos apresentam dez palavras por linha. Buscaremos analisá-los utilizando alguns dos instrumentos de análise qualitativa de discursos que desenvolvemos anteriormente (Simioni et al., 1997) e que denominamos figuras metodológicas.

Os instrumentos em questão são a idéia central e o discurso do sujeito coletivo.

"Para efeito de análise dos depoimentos, a Idéia Central poderia ser entendida como a síntese do conteúdo discursivo explicitado pelos sujeitos. São as afirmações, negações e dúvidas a respeito da realidade fatual, bem como os juízos de valor a respeito da realidade institucional e do contexto onde os sujeitos estão envolvidos" (Simioni, 1996:23).

"O discurso do sujeito coletivo (dsc) é uma estratégia metodológica com vistas a tornar mais clara uma dada representação social. Consiste na reunião, num só discurso-síntese, de vários discursos individuais emitidos como resposta a uma mesma questão de pesquisa, por sujeitos social e institucionalmente equivalentes ou que fazem parte de uma mesma cultura organizacional e de um grupo social homogêneo na medida em que os indivíduos que fazem parte deste grupo ocupam a mesma ou posições vizinhas num dado campo social. O dsc é então uma forma de expressar diretamente a representação social de um dado sujeito social" (Simioni et al., 1997:24).

Estamos entendo que o elemento que aqui, neste caso, unifica e agrupa os vários sujeitos emissores de discurso, permitindo, em tese, que se coletivizem seus discursos, consiste no fato de eles estarem participando, voluntariamente, de um fórum na internet e, naturalmente, de terem acesso à rede.

 

 

Resultados

 

As questões em questão

 

Estas foram as questões propostas pelo fórum do UOL: Você acredita que a maconha faz mal à saúde? Seu uso deveria ser descriminado?

Caberia agora, antes da análise das respostas, alguns comentários sobre o assunto.

Trata-se, é claro, de uma (ainda que dupla) questão e não de duas questões separadas. Assim sendo, seus proponentes estão pressupondo que existe uma relação entre as duas, digamos, frases interrogativas. Mas, caberia a pergunta: de que tipo de relação se trata exatamente?

Em tese, existiriam as seguintes possibilidades:

1) A maconha faz mal/seu uso não deveria ser descriminado.

2) Faz mal/uso deveria ser descriminado.

3) Não faz mal/uso não deveria ser descriminado.

4) Não faz mal/uso deveria ser descriminado.

Foi este o espírito dos proponentes da questão, qual seja o de abrir o debate em torno dessas quatro possibilidades de resposta? O que de fato aconteceu, como veremos, é que a questão funcionou muito menos como uma pergunta propriamente dita a ser respondida e muito mais como um pré-texto para se discutir a problemática das drogas, da saúde, da doença e da liberdade. Além disso, as questões apresentam outros problemas:

• De um ponto de vista estritamente técnico, é cabível colocar-se em questão, através de um veículo de comunicação, o fato de a maconha fazer ou não mal à saúde como matéria de crença, implícita na presença do verbo acreditar? Ou, em outras palavras, deve-se, legitimamente, hoje em dia, acreditar (ou não) que algo - e sobretudo de algo como a maconha! - faça mal à saúde? Um dos debatedores ilustra bem isso quando declara: "Não estou aqui para dizer que a maconha faz bem ou mal, pois seria muita prepotência minha achar que posso falar de assunto que não conheço a fundo".

• Com toda certeza, uma parte significativa dos consumidores do fórum desconhecem a expressão "descriminar"; apesar disso, não houve por parte do UOL a necessária explicação de que o termo se refere à não criminalização do consumo da maconha e não à sua liberalização. O resultado (esperado) foi que muitos debatedores discutiram e se posicionaram diante da alternativa liberalização x não liberalização, e não diante de descriminalização x crimininalização.

 

Algumas idéias centrais e discursos do sujeito coletivo

 

• Introdução

 

Quando se examinam os depoimentos que aparecem no fórum, a primeira impressão é a de complexidade temática: um grande número de temas permeia os discursos, tornando difícil a definição de um pequeno número de agrupamentos temáticos que unifiquem tais discursos, a fim de facilitar seu entendimento.

Uma das razões disso, certamente, está na própria questão formulada pelo UOL, que, como se viu, é confusa e complexa. Outra razão está ligada à própria natureza do assunto, que envolve e articula, pelo menos, as mais que vastas e polêmicas questões da droga, da saúde (e da doença) e da liberdade.

Mesmo assim, e mesmo sabendo do caráter arbitrário e insuficiente dos agrupamentos propostos, cremos que a identificação das idéias centrais e dos discursos do sujeito coletivo, que propomos, ajudarão a 'limpar a área'. Isso permitirá isolar alguns tipos de representação efetivamente existentes entre nós (na medida em que este 'nós' se manifesta naqueles que têm acesso à internet), versando não exatamente sobre a questão proposta pelo UOL, mas, mais genericamente, sobre os problemas subjacentes à questão, ou seja, o tema das drogas (das chamadas leves e pesadas) em sua relação com a saúde, a doença e a liberdade.

 

• Resultados

 

Antes de detalhar os resultados, vale enfatizar que os discursos do sujeito coletivo apresentados a seguir foram confeccionados com trechos selecionados literalmente dos depoimentos individuais, aos quais se acrescentaram pequenos artifícios (como a presença de conectivos entre parágrafos, a correção de alguns erros ortográficos grosseiros etc.) apenas para efeitos didáticos.

 

1) Discurso da hierarquia dos vícios: a maconha contra o álcool, o cigarro, os calmantes, o sexo sem camisinha...

 

• Idéia central: "A maconha faz menos mal que outros vícios que não são proibidos; logo, também não deve ser proibida e a sua atual proibição é uma hipocrisia."

• Discurso do sujeito coletivo: "A maconha deveria ser liberada porque faz menos mal do que o cigarro. O cigarro, que comprovadamente é prejudicial à saúde, é liberado, nada de crime, porque a maconha deveria ser? O cigarro é muito mais prejudicial do que a maconha, o álcool nem se fala, calmantes pior ainda.

A pessoa que toma um whisky, uma cerveja, um conhaque, também está, de alguma forma, se drogando. E não está praticando crime algum.

Quem não gosta de chegar em casa depois de enfrentar o trânsito maluco desta metrópole e tomar um copinho de whisky. É muito natural, não? Pois é isto que acontece com a maconha. Há pessoas que preferem em vez de relaxar com wisky, relaxar com a maconha, que já foi provado não fazer tão mal como a bebida.

Em suma, beber faz mal, mas não é proibido, fumar faz mal e não é proibido, transar sem camisinha pode fazer muito mal mas não há nenhuma lei que puna tais 'desprevenidos'. A verdade é apenas uma: estamos nos tornando cada vez mais hipócritas."

 

2) Discurso do usuário feliz

 

• Idéia central: "A maconha não faz mal, não prejudica o viver cotidiano e promove o relaxamento."

• Discurso do sujeito coletivo: "Ela tem sido uma coisa ótima que aconteceu comigo e não tenho vergonha de dizer que fumo. Posso falar sobre vários amigos que fumam e isso não os impediu de conquistar certas posições na vida, depois de muito trabalho e planejamento. Também tenho uns amigos que não fumam maconha e não conseguiram chegar a lugar nenhum.

Eu não acredito que a maconha faça mal à saúde. Acho tudo isso uma tremenda balela. Acho que a maconha deve ser discriminalizada (sic), pois, além de não fazer mal, promove o bem estar, o relaxamento e amplia a capacidade de criatividade e pensamento. Ela me equilibra, me coloca pé no chão, me tira da inércia e me dá uma gula gostosa."

 

3) Discurso 'científico' contra a maconha

 

• Idéia central: "A maconha prejudica o sistema nervoso central, prejudicando o raciocínio e a concentração."

• Discurso do sujeito coletivo: "Segundo reportagem da Folha de São Paulo (1996), o uso da maconha causa danos irreversíveis às células do sistema nervoso central, provocando dificuldades de raciocínio e de concentração.

A maconha é um forte depressor do sistema límbico, que prejudica o raciocínio lógico e a conseqüente capacidade de aprendizagem. Além disso, predispõe para a utilização de drogas mais potentes.

É evidente também que o uso de substância em combustão quando inalada só acarretará prejuízo a qualquer ser vivo.

Com as novas técnicas de imagem do cérebro é possível demonstrar que sob o efeito da droga o indivíduo tem a parte frontal do cérebro sem irrigação sangüínea, ficando assim comparável aos animais.

É certo que outras substâncias usadas livremente e, principalmente, sem moderação, como o álcool e cigarro, também provocam sérios danos ao sistema nervoso e a outros sistemas orgânicos. Contudo, isso não pode ser justificativa para o uso da maconha e nem do álcool e cigarro."

 

4) Discurso 'científico' a favor da maconha

 

• Idéia central: "A Cannabis sativa e o THC são ótimos remédios contra uma série de males ou sintomas orgânicos e a planta da maconha tem uma série de utilidades."

• Discurso do sujeito coletivo: "O THC, princípio farmacológico da maconha (sic), é um ótimo remédio contra o glaucoma (hipertensão endocular) e contra a náusea; além disso, possui outras propriedades médicas.

Por certo, o THC é uma droga, ou seja, tem seu efeito; mas sendo uma droga afetará cada indivíduo de um jeito. O THC realça todos teus sentimentos. Por exemplo, se você gosta de música, ouvir música 'chapado' vai te permitir experienciar a música de modo muito mais profundo e espiritual.

Acho estranho o fato de que todos sabem do mal que faz, mas quase ninguém sabe do bem que poderia ser feito. Por exemplo, a maconha é um ótimo remédio contra a anorexia, que também é um problema que atinge a juventude. Sabe-se, por outro lado, que da planta se pode obter combustível, que é um anti-stress, que resolve problemas de insônia ou sono agitado, que a fibra que a planta fornece tem inúmeras utilidades, do tecido aos móveis, e que o óleo obtido da Cannabis é um ótimo desinfetante e cicatrizante."

 

5) Discurso em defesa do direito individual ao consumo da maconha

 

• Idéia central: "Os indivíduos devem ter assegurado o seu direito ao consumo da maconha, mesmo que esta possa, individualmente, lhes causar danos."

• Discurso do sujeito coletivo: "Usa quem quer, eu não usando tudo bem.

Sempre me faço as mesmas perguntas... tudo o que faz mal deve ser proibido? Tudo que vai contra os ideais estabelecidos deve ser proibido? Se não gostamos de algo, os outros não podem gostar?

Em um mundo onde cada cidadão espera ver o outro se ferrando e sendo mal sucedido, não podemos acreditar realmente que haja uma preocupação por parte das autoridades com a nossa saúde. Roubar, matar, estuprar, isto sim é crime. Não estou aqui para dizer que a maconha faz bem ou mal, pois seria muita prepotência minha achar que posso falar de assunto que não conheço a fundo. Mas posso alertar: esta é uma decisão pessoal, caso você se sinta seguro para defendê-la, que o faça imediatamente.

Sou contra o uso da maconha mas respeito o direito de suicídio de qualquer pessoa.

O problema é de quem faz uso, o indivíduo tem todo o direito sobre seu corpo: inalando, injetando, tatuando, cortando, decepando."

 

6) Discurso educativo contra os perigos e ameaças do vício da maconha

 

• Idéia central: "O problema da disseminação da maconha é muito sério, sobretudo entre a juventude. Deve ser encarado de frente e enfrentado pela educação."

• Discurso do sujeito coletivo: "Primeiro a educação, depois a liberação. Como falar em possibilidade de escolha em um país onde o indivíduo mal consegue sobreviver? Devíamos estar discutindo os rumos da educação.

Tudo o que causa dependência é profundamente lamentável. Sabe-se que todo viciado no auge de sua dependência humilha-se, perde a vergonha, a dignidade.

A maconha em si não faz mal, mas ela é uma das portas que podem levar uma pessoa a experimentar drogas pesadíssimas.

Com efeito, o problema da maconha é muito sério. Ela está dentro das escolas, das faculdades, nos bares, afinal está disseminada por toda a cidade. O governo não consegue reprimir essa disseminação, que está arruinando nossa sociedade, principalmente a camada mais jovem, que se deixa levar muito facilmente pelo que é taxado de proibido. Quanto mais se discute, quanto mais se proíbe, mais ela atrai os jovens, que até dizem que a maconha não faz mal como o cigarro e até faz bem para a mente e o corpo.

A droga sempre existiu e não adianta querermos tapar o sol com a peneira; a única forma de evitá-la é encararmos o problema de frente através da educação nas escolas e no convívio familiar, pois este é muito mais um problema de saúde pública do que policial."

 

 

Conclusão

 

Cremos que a utilização dos instrumentos de análise qualitativa de discursos (Simioni, 1996; Simioni et al., 1997) permitiu identificar seis tipos de representação social sobre a temática sugerida pelo UOL para debate. Essas representações, por sua vez, também permitem identificar, a nosso ver claramente, as candentes e atuais questões da droga, da saúde, da doença e da liberdade, nas suas especificidades próprias e nos seus intrincados inter-relacionamentos, tal como ela se apresenta entre os brasileiros, digamos, mais urbanizados.

Como afirmam os autores (Simioni et al., 1997: 5): "Através deste modo discursivo é possível visualizar melhor a representação social na medida em que ela aparece (...) sob uma forma (mais viva e direta) de um discurso, que é o modo como os indivíduos reais, concretos, pensam".

O fato, porém, de as representações sociais só serem resgatáveis por meio de discursos sociais necessariamente reconstruídos - o que também aconteceu aqui -, já que não existe a possibilidade de uma coletividade emitir diretamente um discurso, implica, naturalmente, uma certa dose de artificialidade na elaboração desses discursos reconstruídos. Todavia, tal artificialidade é bem menor se comparada com aquela presente nas coletividades 'matematizadas', características das pesquisas quantitativas realizadas mediante questionários fechados. A razão é que, na pesquisa qualitativa que utiliza instrumentos discursivos de tabulação de dados (como é o caso do presente trabalho), a natureza eminentemente discursiva do pensar dos indivíduos é respeitada tanto no plano individual, quando cada indivíduo emite respostas discursivas a questões abertas, quanto no plano coletivo, quando estes discursos individuais são sintetizados sob formas igualmente discursivas, como as do discurso do sujeito coletivo (Simioni et al., 1997).

A Tabela 1 permitirá visualizar, sinteticamente, as seis representações sociais.

 

 

Há, por certo, opiniões e posicionamentos presentes no fórum que não cabem em nenhum desses seis tipos de representação. Assinalemos dois deles: o primeiro de origem religiosa, que resume toda a questão da droga e de seus desdobramentos ao afastamento do indivíduo de Jesus, de Deus, da religião; e o segundo, de origem, digamos, política, que tece, para explicar a questão da maconha, a teoria do complô do imperialismo ou da grande indústria, dona dos 'ricos' álcool e cigarro, contra a 'pobre' e 'ecológica' maconha.

Como conclusão, diríamos que a pesquisa cujos resultados foram apresentados neste artigo tem sua justificativa maior como contribuição para a educação em saúde no fato de ela permitir resgatar um dado universo ideológico que constitui o substrato das representações sociais sobre os temas aqui discutidos, ou seja, as drogas, a saúde, a doença e a liberdade.

Mas o que tem a ver, exatamente, o resgate da representação social com a educação em saúde?

A resposta prende-se ao fato de que a educação em saúde não deve ser, em nenhuma hipótese, a venda da verdade sanitária e sim o debate amplo das representações sociais relativas aos temas da saúde e da doença que afetam uma dada sociedade num dado momento histórico, e que cumpre resgatar.

Com efeito, para que a educação em saúde se insira na modernidade, é absolutamente necessário que supere, na prática, não só a higiene normatizadora, mas também todo tipo de pedagogia que tenha como pressuposto a 'verdade sanitária' a ser 'pedagogicamente embalada' para ser vendida às chamadas populações-alvo.

Isso significa que a educação em saúde só tem sentido enquanto desenho de ambientes que tornem oportuna a aprendizagem oriunda da discussão totalmente livre de temas que permeiam o imaginário de uma dada formação social e que têm a ver, de algum modo, com a saúde e a doença. Ora, essa discussão só pode ser feita com base no resgate prévio das representações sociais que constituem, digamos assim, a matéria prima do imaginário anteriormente referido.

Numa abordagem tradicional dos temas presentes neste artigo, a educação em saúde seria sinônimo da melhor maneira de combater o vício da maconha para que ocorra o restabelecimento da saúde. Numa visão moderna, incorporada no presente trabalho, a educação em saúde seria o equivalente de colocar a maconha em cena para que isso possa ajudar a entender por que seu consumo é tão incidente e o que este consumo está a revelar sobre esta mesma sociedade e sobre os indivíduos que nela convivem.

Em A Transparência do Mal, Baudrillard (1992) apresenta a tese de que a modernidade se caracteriza pela perda generalizada de referência, seja no mundo das coisas (por exemplo, do dinheiro, que flutua ao sabor dos humores aleatórios do mercado), seja naquele dos valores (por exemplo, da saúde, que deixou há muito de se referir a uma qualidade dos seres humanos como um todo para se atomizar em uma infinidade de 'saúdes', que podem dizer respeito tanto aos fios de cabelo, quanto à intimidade da célula).

Ora, se tudo flutua, não há uma verdade (moral, científica, religiosa etc.) na qual aquilo que ainda se chama educação em saúde possa se referenciar. O que sobra são as diferentes verdades -também flutuantes e provisórias - presentes num dado momento, em uma dada formação sócio-cultural, sobre uma dada temática.

Foram essas verdades que se buscou aqui resgatar e descrever sob a forma de discursos coletivos, para que estes, como se assinalou, possam constituir a matéria-prima de uma educação que, em se tratando de drogas, só pode ser completamente dialógica. Se assim não for, corre-se o risco de se (re)cair em posturas do tipo "drogas, nem morto", segundo a qual qualquer discussão é totalmente abortada antes mesmo de começada, em nome de uma suposta transcendência do bem, que não serve mais para se entender um mundo, no dizer de Baudrillard (1992) generalizadamente "desancorado".

Enquanto educadores em saúde, dar-nos-emos por satisfeitos, pois, se tivermos conseguido, neste artigo, colocar a maconha em cena.

Como observação final, vale mencionar o fato de que a presença na internet de um fórum como o que se analisou é um indicador inconteste das possibilidades que a rede oferece de expressão de um pensamento coletivo. Levy (1994), estudioso que se caracteriza por uma visão marcadamente otimista sobre a chamada 'aldeia global', tem insistido muito no valor desse pensamento coletivo gerado na e pela rede. É preciso, porém, deixar claro - e o autor também pensa assim - que jamais coletivo poder ser entendido como sinônimo de homogêneo: a internet é uma possibilidade educativa justamente na medida em que se trata de um lugar comum da expressão do diferente e mesmo do divergente. Foi o que se viu aqui quando se tratou do tema das drogas, mesmo que consideremos o campo ainda restrito (mas em inegável ampliação) dos usuários da internet.

A net aparece, conseqüentemente, como um espaço, ainda que virtual, onde os educadores e educandos em saúde poderão e deverão encontrar farto material a respeito dos modos de manifestação do pensar de uma sociedade sobre as questões da saúde e da doença, pensar este que constitui a matéria-prima mais nobre do fazer educativo em saúde.

 

 

Referências

 

BAUDRILLARD, J., 1992. A Transparência do Mal. Ensaio sobre Fenômenos Extremos. Campinas: Papirus.         [ Links ]

LEVY, P., 1994. L'Intelligence Collective. Pour une Antrophologie du Cyberspace. Paris: La Decouverte.         [ Links ]

SIMIONI, A., 1996. O Gerenciamento de Recursos Humanos em Saúde como Processo Social. Dissertação de Mestrado, São Paulo: Faculdade de Saúde Pública, Universidade de São Paulo.         [ Links ]

SIMIONI, A.; LEFÈVRE, F. & PEREIRA, I. B., 1997. Metodologia Qualitativa nas Pesquisas em Saúde Coletiva: Considerações Teóricas e Instrumentais. São Paulo: Faculdade de Saúde Pública, Universidade de São Paulo.         [ Links ]

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