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Cadernos de Saúde Pública

Print version ISSN 0102-311XOn-line version ISSN 1678-4464

Cad. Saúde Pública vol.20 no.1 Rio de Janeiro Jan./Feb. 2004

https://doi.org/10.1590/S0102-311X2004000100010 

DEBATE DEBATE

 

Debate sobre o artigo de Delma Pessanha Neves

 

Debate on the paper by Delma Pessanha Neves

 

 

Cláudio Luiz Lottenberg; Anita Taub; Sergio Nicastri

Hospital Israelita Albert Einstein, São Paulo, Brasil

 

 

O alcoolismo e seus significados

O artigo Alcoolismo: Acusação ou Diagnóstico?, de Delma Pessanha Neves traz à tona uma discussão fundamental. Ao abordar o consumo de álcool e o uso problemático dessa substância do ponto de vista social, a autora explora uma série de regras e códigos que regulam sua utilização pelos indivíduos, bem como o significado e até mesmo a aceitação dos comportamentos relacionados à utilização de bebidas alcoólicas. Interessante observar o quanto o conjunto de regras não escritas pode ter força maior do que muitas regras formalizadas em termos legais. Tomemos, por exemplo, a legislação que determina a proibição formal da venda de bebidas alcoólicas a menores de idade e a realidade em nosso país, onde observamos que essa barreira legal não é efetiva.

Embora seja fácil constatar que o consumo de bebidas alcoólicas não é necessariamente um problema de saúde, também é inegável que parte dos usuários dessa substância apresentam problemas recorrentes relacionados ao seu uso. Diferentes compreensões dessa situação estiveram na base de diversas respostas da sociedade em relação aos problemas relacionados ao consumo de álcool. Uma visão moralista, que considera o consumo excessivo de álcool como uma falha de caráter, esteve na raiz de movimentos proibicionistas que conseguiram obter a aprovação de legislação que tornou a substância ilegal nos Estados Unidos (a chamada "Lei Seca"), o que trouxe resultados discutíveis. Para o profissional de saúde, a visão alternativa do uso problemático de álcool como uma doença abre a perspectiva de tratamento. É evidente, entretanto, que essa possibilidade não exclui automaticamente a carga de significados pejorativos associados ao diagnóstico dessa condição, preconceitos esses que existem na população geral e mesmo entre os profissionais de saúde 1.

O termo "alcoolismo" tem uma história relativamente longa, mas seu sentido é bastante variável. Até a década de 1940, ele era empregado para designar sobretudo as conseqüências físicas do consumo intenso e prolongado de álcool. Um outro conceito era o de "alcoolismo" enquanto uma doença em que se destaca a perda de controle sobre o comportamento de beber, causada por uma anormalidade biológica pré-existente, com uma evolução progressiva previsível. Na década de 1950, Jellinek e outros estudiosos começaram a utilizar o termo para denominar o consumo de álcool levando a qualquer tipo de prejuízo: físico, psicológico ou social. Devido à imprecisão do termo, a Organização Mundial da Saúde tem evitado sua utilização desde o final da década de 1970, preferindo a formulação mais exata de síndrome de dependência do álcool, como um caso específico dentre uma ampla gama de problemas relacionados ao álcool. Apesar disso, "alcoolismo" ainda é um termo bastante empregado popularmente e mesmo entre profissionais de saúde. Na década de 1990, a American Society for Addiction Medicine definiu "alcoolismo" como uma doença crônica primária, com fatores genéticos, psicossociais e ambientais influenciando seu desenvolvimento e manifestações, freqüentemente progressiva e fatal, caracterizada por um descontrole contínuo ou episódico do comportamento de beber 2. A Classificação Internacional das Doenças não inclui o termo em sua 10a Revisão 3.

A relação entre consumo de bebidas alcoólicas e saúde é complexa. Há muitas evidências de que quanto maior o consumo médio de álcool em uma população, maiores serão as taxas de ocorrência de problemas relacionados ao álcool (incluindo infrações de trânsito ao dirigir alcoolizado, mortalidade devida à cirrose hepática e crimes violentos). Essa associação também existe em nível individual, em que se observa que os riscos de desenvolver cirrose hepática, sintomas de abstinência e, no caso de mulheres, câncer de mama é proporcional ao consumo habitual de álcool do indivíduo 4. Por outro lado, existem também evidências de que o uso de álcool em quantidades moderadas está associado à redução de riscos de infarto agudo do miocárdio, aterosclerose, acidentes vasculares cerebrais e osteoporose (em mulheres menopausadas), embora haja discussão sobre quais seriam os níveis de ingestão alcoólica que poderiam ser denominados como "moderados" 5. Enfim, mesmo do ponto de vista da saúde, não é fácil a tarefa de delimitar o consumo de álcool numa categoria de "doença", embora essa possibilidade seja evidente em diversos casos.

Trabalhos como o de Delma Pessanha Neves são importantes para se entender melhor o fenômeno do consumo de álcool, sobretudo os aspectos culturais envolvidos nesse comportamento, que certamente extrapolam as competências de áreas de atuação ou de conhecimentos científicos específicos. Uma melhor compreensão do consumo de álcool e seus diversos contextos é tarefa que certamente exige contribuições de várias disciplinas.

 

1. O'Brien CP, McLellan AT. Myths about the treatment of addiction. Lancet 1996; 347:237-40.

2. World Health Organization. Lexicon of alcohol and drug terms. Geneva: World Health Organization; 1994.

3. Organização Mundial da Saúde. Classificação de transtornos mentais e de comportamento da CID-10: descrições clínicas e diretrizes diagnósticas. Porto Alegre: Artes Médicas Sul; 1993.

4. Edwards G, Marshall EJ, Cook CCH. As causas dos problemas com bebida. In: Edwards G, Marshall EJ, Cook CCH, organizadores. O tratamento do alcoolismo: um guia para profissionais de saúde. Porto Alegre: Artes Médicas Sul; 1999. p. 21-30.

5. Dufour MC. Defining "drinks" and drinking levels. Alcohol Res Health 1999; 23:5-14.

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