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Cadernos de Saúde Pública

versão impressa ISSN 0102-311Xversão On-line ISSN 1678-4464

Cad. Saúde Pública v.20 n.4 Rio de Janeiro jul./ago. 2004

https://doi.org/10.1590/S0102-311X2004000400031 

RESENHAS REVIEWS

 

 

Maria Helena P. Mello Jorge

Faculdade de Saúde Pública, Universidade de São Paulo, São Paulo, Brasil. hpjorge@usp.br

 

 

VIOLÊNCIA SOB O OLHAR DA SAÚDE: A INFRAPOLÍTICA DA CONTEMPORANEIDADE BRASILEIRA. Maria Cecília de Souza Minayo & Edinilsa Ramos de Souza (org.). Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2003. 284 pp.

ISBN: 85-7541-028-8

Ao comemorar os 15 anos de existência do Centro Latino-Americano de Estudos sobre Violência e Saúde (CLAVES), Maria Cecília de Souza Minayo & Edinilsa Ramos de Souza oferecem, aos pesquisadores brasileiros, Violência Sob o Olhar da Saúde: A Infrapolítica da Contemporaneidade Brasileira.

Falar sobre o CLAVES é vê-lo, desde o seu nascimento, participar com relevância, do diagnóstico e da análise do problema da violência no país, bem como da formulação de políticas para o atendimento das necessidades geradas por esse panorama.

Falar das autoras é superpor suas figuras à imagem do CLAVES, já que ambas se constituem em referência nacional e internacional sobre a violência, suas causas e sua inter-relação com os numerosos campos do conhecimento.

Quanto ao livro, segundo as organizadoras, é o reflexo do percurso do CLAVES nesse período, trazendo a marca do que foi construído e, a partir daí, delineando propostas para o futuro. Trata-se de contribuição importante que as professoras citadas trazem ao debate social e da saúde sobre o tema. Escrito pelas próprias organizadoras, outros importantes pesquisadores do cenário nacional e contando com a participação de pós-graduandos e bolsistas do CLAVES, o livro se afigura como de leitura obrigatória para todos aqueles que se interessam pelo assunto da violência.

Apresenta-se dividido em duas partes.

A primeira trata da contextualização do problema: conceitua a violência sob diferentes aspectos e estabelece o mapeamento quantitativo e qualitativo de sua morbimortalidade, apresentada dos pontos de vista geográfico e temporal.

Para aqueles que se preocupam com a saúde e o bem-estar das populações é apresentada a evolução da mortalidade por acidentes e violências, entre nós, principalmente quando é mostrado aos leitores que, dos anos 80 para a década de 90, o perfil dessas causas de morte passa do quarto para o segundo lugar. O capítulo apresenta o sexo masculino e algumas idades específicas como os grupos mais vulneráveis a essa mortalidade. Deixa clara, ainda, a tendência das taxas de mortalidade por causas externas nas diferentes macrorregiões brasileiras e mostra os homicídios e os acidentes de transporte como seus principais tipos.

A análise da morbidade hospitalar por lesões e envenenamentos é referida no capítulo 4. A evolução das internações por essas causas no país, de 1984 a 2000, menciona que esse grupo, mesmo representando, globalmente, apenas 5,8% do total de hospitalizações, constituiu-se na principal causa de internação no sexo masculino, nas idades de 10 a 19 anos. Os autores apresentam ainda a distribuição dessas internações segundo tipo de lesão e seu custo médio no país. Esse aspecto é ressaltado como importante na medida em que, em todas as áreas, ocorre um sobre valor do custo das lesões e envenenamentos em relação a todas as causas.

Na segunda parte, ao analisar o comportamento da manifestação da violência sobre alguns grupos populacionais específicos, a publicação traz à luz um conjunto de informações relativas aos diferentes tipos de violências que atingem crianças e adolescentes, mulheres e idosos.

O tema da violência contra crianças e adolescentes é talvez o que tem merecido maior atenção e investimento dos pesquisadores. Tarefa desafiante e complexa, o assunto é comentado sob as diferentes formas de seu enfoque: desde a década de 70, onde o menor institucionalizado se constituía na cerne do problema, passando para a delinqüência juvenil nos anos 80. Na década de 90 e nos primeiros anos do novo século destacam-se os estudos sobre violência familiar contra crianças e adolescentes, exclusão e violação de direitos (menores de rua) e juventude em conflito com a lei, como sendo os assuntos mais importantes e que sobressaem em artigos publicados em periódicos e, principalmente, em dissertações e teses.

Na parte relativa à violência contra a mulher, o autor procura analisar discursos acerca da mulher em situação de violência e ressalta, aqui, a grande produção nacional no fim da década, oriunda também de trabalhos de dissertações e teses.

Quanto à violência contra os idosos, os autores chamam a atenção para o fato de que, apesar da multiplicidade de sentidos da violência nesse grupo populacional, a questão tem ainda baixa visibilidade. Em razão disso, apresentam uma cuidadosa revisão da bibliografia nacional e internacional sobre o assunto, além de promoverem análise exploratória sobre os dados brasileiros da morbimortalidade por violência na faixa de sessenta anos e mais.

O livro mostra, ainda, em capítulo especifico, o desafio representado pela associação drogas e violência, analisando as tendências da produção cientifica dos autores brasileiros na área, com base em 145 textos.

Aspecto importante da obra é a apresentação do "panorama atualizado do estado do conhecimento" sobre o impacto da violência no setor saúde. Trata-se de um apanhado feito sobre a produção intelectual brasileira ­ em livros e revistas indexadas, bem como dissertações e teses ­ publicados nos anos 90, sobre o assunto. Nesse particular é necessário salientar que as organizadoras dão continuidade a um trabalho anteriormente apresentado e que abrangia os trabalhos publicados até fins da década de 80. Comparativamente, o novo levantamento mostra não só o grande incremento da produção científica na área, mas também um aprofundamento da temática.

O trabalho apresentado, em seus diferentes capítulos e com sua abordagem interdisciplinar, constitui-se, para os pesquisadores e profissionais da saúde e áreas correlatas e da sociedade em geral, não só motivo de aprendizado e reflexão, mas importante subsídio para ações específicas que objetivem a minoração do problema da violência entre nós.

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