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Cadernos de Saúde Pública

versão impressa ISSN 0102-311Xversão On-line ISSN 1678-4464

Cad. Saúde Pública v.20 n.4 Rio de Janeiro jul./ago. 2004

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-311X2004000400032 

RESENHAS REVIEWS

 

 

Mônica de Assis

Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil

 

 

ANTROPOLOGIA, SAÚDE E ENVELHECIMENTO. Maria Cecília de Souza Minayo & Carlos E. A. Coimbra Jr. (org.). Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2002. 212 pp.

ISBN: 85-7541-008-3

Desde o início dos anos 90, quando se consagra em lei uma concepção ampliada de saúde, a busca de construir práticas com orientação e base interdisciplinares, buscando articular uma perspectiva de integralidade e humanização das ações, tem sido um permanente desafio. Neste contexto, o diálogo entre as ciências da saúde e as ciências sociais é prerrogativa indispensável, assumida na proposta da coleção Antropologia e Saúde como horizonte a ser estimulado com a disseminação de estudos que consolidam e/ou exploram novas perspectivas de pesquisa em antropologia e saúde coletiva.

O livro Antropologia, Saúde e Envelhecimento que inaugura a coleção, organizado pelos próprios editores Carlos E. A. Coimbra Jr. e Maria Cecília S. Minayo, é bem-vindo por esta motivação de base e, sobretudo, pela atualidade e premência das questões que cercam a atenção ao idoso no Brasil. Os nove artigos enfocam aspectos diversos e trazem dados valiosos à compreensão dos sistemas simbólicos partilhados coletivamente, dimensão a ser contrastada com a realidade do envelhecimento em diferentes contextos e utilizada como referência no debate que informa os programas dirigidos a esse grupo populacional.

Numa primeira linha, as representações dos idosos sobre o corpo e a saúde problematizam estereótipos em torno da associação entre velhice e doença. Em estudo realizado em Bambuí, município de Minas Gerais, Uchôa e colaboradores mostram a discrepância entre a visão negativa de pessoas mais jovens acerca do envelhecimento e a percepção dos próprios idosos quando atribuem significado às suas experiências. Apesar da convivência com doenças e agravos, suas histórias de vida revelam ganhos e não apenas limitações, evidenciando a capacidade de enfrentamento e o apoio familiar e social como o diferencial na vivência dos idosos.

O questionamento aos estereótipos que se criam em torno do idoso é reiterado por Alda Brito da Motta, ao enfocar o sentimento do corpo e as ambigüidades na coexistência de diferentes visões sobre envelhecimento na sociedade capitalista contemporânea. A reprodução de estigmas e preconceitos quanto à velhice, reforçada pelos saberes constituídos nesse campo e pelos próprios idosos, dá-se em meio a resistências e aberturas a novas expressões, caracterizando uma época de transição de valores funcionalizada também pelo mercado por meio do estímulo a novos nichos de consumo. O texto traz uma instigante reflexão sobre a "máscara do envelhecimento", expressão usada no campo gerontológico para simbolizar uma vivência dicotômica entre a imagem do corpo desgastado pelas mudanças que acompanham a idade e o "verdadeiro eu", idealmente resguardado e ileso às mazelas do tempo. Na pesquisa da autora, muitos idosos assumem esta visão talvez pela perspectiva mais confortadora que aí se apresenta na construção da própria identidade. A vivência da sexualidade é também investigada e aponta com clareza a marcante influência de gênero nas expectativas e no comportamento distintos de homens e mulheres na velhice.

Temáticas contemporâneas são tratadas em dois estudos. O artigo de Cornelia Eckert evidencia a relação dos idosos de classes médias com o aumento da violência e da insegurança no contexto urbano, expressão da lógica violenta que estrutura o conjunto da organização social. As narrativas de velhos moradores de Porto Alegre revelam a estética do medo forjada na hostilidade e insegurança da cidade, assim como suas repercussões em termos de reforço do individualismo moderno e de restrições na busca de espaços de interações. Nas reminiscências dos idosos, a autora ressalta o valor do passado/memória para se pensar a condição de viver na cidade e, quem sabe, vislumbrar saídas para o sentimento de desencantamento e de esvaziamento dos sentidos coletivos, gerado pela vigilância permanente do perigo, cada vez mais requisitada e incluída na herança cultural dos mais velhos às novas gerações.

A relação da juventude com o envelhecimento populacional é a interrogação de Russel P. Scott em estudo que compara Brasil e Japão, com base em indicadores demográficos, sócio-econômicos e dos aspectos culturais que regem os arranjos familiares e as trocas intergeracionais. Embora diferentes, e por razões às vezes opostas, ambos contextos societários prevêem dificuldades na tarefa das novas gerações sustentar os mais velhos. Nos dados apresentados, chama a atenção o significado do aumento do número de idosos que moram sós nos dois países, entendido como signo de autonomia e liberdade mais do que de solidão. Compreender as condições em que esse arranjo familiar ocorre é fundamental nos programas para idosos e implica acompanhar as transformações em curso e as novas formas de relação que vão ocupando o lugar da família patriarcal.

A marcante presença feminina na velhice reflete-se no destaque à mulher idosa em três artigos. No estudo de Rita Heck & Esther Langdon, uma interessante etnografia sobre a construção dos papéis masculino e feminino, numa colônia de origem alemã no Rio Grande do Sul, mostra a rigidez com que estes são moldados em torno da cultura do trabalho e suas repercussões na vivência dos idosos. O recorte de gênero revela o maior isolamento dos homens na velhice, enquanto as mulheres, sobretudo após a aposentadoria rural, têm ampliado sua autonomia e espaços de participação. As autoras destacam a importância dos grupos de idosos na mobilização de iniciativas a partir da discussão sobre o cotidiano, favorecida pelo tempo mais disponível nesta etapa da vida.

Ao abordar histórias de vida de mulheres de distintos níveis sociais e que participam de grupos, Ana Zahira Bassit confirma a influência de gênero no processo de envelhecimento, ressaltando, porém, as diferenças de classe como agenda de pesquisa necessária à compreensão das vivências de maturidade e velhice. A autora aponta o acesso à informação e a grupos como um diferencial no percurso de vida das idosas, ao mesmo tempo em que mostra o valor dos espaços que se abrem hoje à participação e à sociabilidade como aberturas para resignificação da velhice por parte das mulheres que não tiveram oportunidades prévias.

A experiência feminina numa condição particular de fragilização é o tema tratado por Paulo César Alves, em estudo com mulheres das classes trabalhadoras, em bairro pobre de Salvador. Utilizando entrevistas em profundidade, o autor propõe recuperar a experiência do "nervoso", na forma como os sujeitos vivenciam e dão significado a esta condição. Como bem observado, trata-se de um processo de fragilização não apenas do indivíduo mas da família e do grupo social mais amplo, expressando um desgaste no curso de vida em contexto marcado por pobreza e violência.

Sob ponto de vista diverso, outra condição de fragilidade está no centro da questão tratada no estudo de Célia Pereira Caldas, voltado à compreensão do significado de cuidar de um familiar idoso que vivencia processo demencial. Com base em entrevistas com cuidadores, o texto dá visibilidade à carga de sofrimento e às necessidades de suporte institucional e comunitário a esta delicada situação, cuja tendência de expansão acompanha o envelhecimento populacional. O alto impacto para quem cuida e as exigências éticas de um cuidado humanizado impõem a publicização dessa temática, tanto na linha do fomento à solidariedade familiar e social, quanto de pressão pela implantação de estruturas e estratégias assistenciais previstas na política do idoso mas ainda pouco disponíveis no país.

Fechando a coletânea, o artigo de Souza e colaboradores traz ao debate questões acerca de como a sociedade retrata e assiste seus idosos, tomando por base a análise de matérias veiculadas na imprensa escrita do Rio de Janeiro e São Paulo. Na investigação realizada, a institucionalização aparece como temática recorrente em saúde do idoso, tratada via de regra de maneira superficial e sensacionalista, por ocasião de escândalos sobre maus-tratos em asilos. Embora seja essa uma situação conhecida, a comoção pouco se traduz em ações efetivamente transformadoras dessa realidade. Segundo os autores, é pequena ­ mas, deve-se reforçar, em expansão nos anos recentes ­ a presença na mídia dos idosos ativos, ocupando espaços e projetando-se como atores sociais no contexto político brasileiro. Revelar esse potencial é um papel relevante que a imprensa pode assumir no processo de mudança cultural do lugar da velhice, que favoreça seu deslocamento da ótica predominante de problema e ônus para a de fonte de riqueza e recursos para a sociedade.

Da leitura dos artigos em seu conjunto, observa-se com recorrência o valor das redes de solidariedade e dos grupos na experiência dos idosos, o que reafirma nossa necessidade primária de pertencimento, de "ter uma turma", em qualquer fase da vida. Por outro lado, é preciso cuidar para que novas imagens de velhice não incorram em novos estereótipos ou hipertrofiem a responsabilização individual, tão a gosto da cultura privatista contemporânea. Espaços de sociabilidade podem, então, ser promissores para trazer o envelhecimento ao debate público como questão de qualidade de vida, definida individual e coletivamente de modo indissociável da busca de garantia dos direitos fundamentais da pessoa humana. Ouvir os idosos e compreender melhor o processo de construção de uma identidade coletiva com maior expressão política, já demonstrado com o movimento dos aposentados, é uma interrogação a ser explorada. Em tempos de Estatuto do Idoso, mais que nunca, a participação poderá ser o caminho para minimizar os riscos de se consagrar a velha e incômoda distância entre direitos que se consagram em leis, e sua expressão no cotidiano da população brasileira.  

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