SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.22 número7Modos de conceitualizar e medir homossexualidade em pesquisas sobre sexualidade: uma revisão críticaAdolescentes e uso de preservativos: as escolhas dos jovens de três capitais brasileiras na iniciação e na última relação sexual índice de autoresíndice de assuntospesquisa de artigos
Home Pagelista alfabética de periódicos  

Serviços Personalizados

Artigo

Indicadores

Links relacionados

Compartilhar


Cadernos de Saúde Pública

versão impressa ISSN 0102-311X

Cad. Saúde Pública v.22 n.7 Rio de Janeiro jul. 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-311X2006000700003 

ARTIGO ARTICLE

 

A relação sexual como uma técnica corporal: representações masculinas dos relacionamentos afetivo-sexuais

 

Sex as body technique: male representations of affective and sexual relationships

 

 

Andréa Fachel Leal; Daniela Riva Knauth

Núcleo de Antropologia do Corpo e Saúde, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, Brasil

Correspondência

 

 


RESUMO 

Analisamos a iniciação sexual masculina como um momento de aquisição de conhecimento, com base em 62 entrevistas de cunho etnográfico com homens jovens (18-24 anos) residentes em Porto Alegre, Rio de Janeiro e Salvador, Brasil, numa etapa da Pesquisa GRAVAD. Adotando uma perspectiva antropológica e comparativa, o exame dos relatos da primeira experiência amorosa e sexual revela que a primeira experiência sexual dos homens é um aprendizado corporal e social, através do qual os jovens adquirem conhecimento técnico sobre o uso de seus corpos e habilidade para se relacionar com outros, especialmente as mulheres. Estes são importantes demarcadores no processo de passagem à vida adulta. Consideramos, além de diferenças em termos de pertença a diferentes segmentos sócio-econômicos, as relações de gênero, especialmente modelos de masculinidade, demonstrando que a primeira relação sexual de um jovem é um momento social e simbolicamente marcante, que não se limita a um evento isolado, sendo, pelo contrário, uma experiência que envolve aprendizados de diferentes ordens e que integra um processo de se tornar homem.

Saúde do Homem; Sexualidade; Relação Sexual


ABSTRACT 

The authors analyze male sexual initiation as a time of acquiring knowledge, based on 62 ethnographic interviews with young men (18-24 years) in the cities of Porto Alegre, Rio de Janeiro, and Salvador, Brazil, as a stage in the GRAVAD Research Project. Adopting an anthropological and comparative perspective, the reports show that men's first sexual experience is a process of physical and social learning by which they acquire technical knowledge on the use of their bodies and skill to relate to others, especially women. These are important milestones in the passage to adulthood. In addition to differences in belonging to various socioeconomic segments, the authors focus on gender relations, especially models of masculinity, demonstrating that a young man's first sexual intercourse is a socially and symbolically striking moment, not limited to a single event, but an experience that involves different levels of learning as part of the process of becoming a man.

Men's Health; Sexuality; Sexual Intercourse


 

 

Introdução

O presente artigo analisa a iniciação sexual masculina como um momento de aprendizado de uma técnica corporal, com base em entrevistas semi-estruturadas com homens jovens residentes em Porto Alegre, no Rio de Janeiro e em Salvador. As entrevistas integram a primeira fase da pesquisa Gravidez na Adolescência: Estudo Multicêntrico sobre Jovens, Sexualidade e Reprodução no Brasil (Pesquisa GRAVAD), desenvolvida pelo Instituto de Medicina Social, Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IMS/UERJ), pelo Núcleo de Antropologia do Corpo e Saúde, Universidade Federal do Rio Grande do Sul (NUPACS/ UFRGS) e pelo Programa Integrado de Pesquisa e Cooperação Técnica em Gênero e Saúde, Universidade Federal da Bahia (MUSA/UFBA).

Partimos da premissa de que a relação sexual, e tudo o mais que a envolve, isto é, a sexualidade no seu sentido mais amplo 1, é principalmente uma relação social envolvendo relações de poder, hierarquias, expectativas e significados sociais. A sexualidade se constitui num campo privilegiado para a análise do social, um microcosmo em que se atualizam identidades de gênero, pertencimentos de classe e trajetórias sociais. É, assim, uma forma de pensar e sentir, que se caracteriza por ter uma existência que está para além das consciências individuais; é um domínio da vida social em que o indivíduo é levado a agir de acordo com um conjunto de disposições previamente estabelecido e fundado nas representações sociais.

As relações afetivas e sexuais dos jovens são estruturadas e atualizadas por um sistema de significados, dado pela cultura, e, portanto, determinadas por padrões de gênero, diferenças de ordem sócio-econômica e especificidades regionais 2. Neste artigo, serão analisados os discursos masculinos acerca de práticas sexuais, especialmente no momento considerado como de iniciação sexual, salientando-se as determinações de gênero destas representações. Ao longo do texto será dada ênfase também aos contextos sócio-econômicos, procurando demonstrar que, ainda que todos esses jovens estejam inseridos no que poderíamos chamar de uma cultura sexual brasileira, cada contexto social define um universo de possibilidades e de significações próprio.

Serão examinadas as falas de 62 homens jovens entrevistados relativas às questões formuladas no roteiro de entrevista sobre a sua primeira experiência amorosa, tendo como base uma perspectiva de trajetórias afetivo-sexuais ­ perspectiva esta fundada nas idéias de juventude como processo 3,4 e de script ou roteiro sexual 5,6.

O conceito de juventude como um processo através do qual um sujeito torna-se adulto implica a consideração de outras dimensões para além do critério etário. Não apenas marcos biológicos, portanto, devem ser considerados, mas também demarcadores sócio-culturais, como o início da vida sexual, a constituição de uma família própria, o ingresso no mercado de trabalho, o fim dos estudos, a autonomia residencial. A transição para a vida adulta pode se dar de maneiras diferenciadas, de acordo com o gênero e o contexto social no qual um sujeito está inserido.

Teorias que tratam de comportamento sexual baseadas no conceito de script sexual são chamadas construtivistas 7; estas pressupõem que não existe qualquer instinto sexual inato. Outros pressupostos de tais teorias construtivistas são, resumidamente, os seguintes: (a) de que os padrões de comportamento sexual são adquiridos e expressos culturalmente, ou seja, o que se considera ser sexual varia de cultura para cultura; (b) de que estes padrões de comportamento são adquiridos individualmente em um processo de aculturação que tem a duração da vida do sujeito; (c) de que o processo de aquisição individual dos padrões de comportamento é um processo criativo, no qual os indivíduos fazem adaptações aos cenários sexuais que lhes foram originalmente fornecidos pela cultura na qual se encontram. Os scripts ou roteiros para a conduta sexual, que são culturalmente adquiridos, informam os sujeitos sobre com quem devem ter relações sexuais, quando e onde estas relações devem e podem acontecer, como agir sexualmente e, até mesmo, as razões pelas quais devem ter alguma atividade sexual. O conceito de script sexual, portanto, abarca as relações de gênero, de segmento social e de fase de vida, que podem ser analisadas com os dados da Pesquisa GRAVAD.

Apresenta-se aqui uma análise de discursos, o que implica considerar que há um processo de produção destes, influenciado por expectativas sociais como o gênero, a classe e a sexualidade; desta forma, há uma distância, que deve ser considerada, entre o que as pessoas fazem e o que as pessoas dizem que fazem. Esta análise de discursos enfoca representações sociais e é pertinente em se tratando de um estudo de práticas sexuais, cuja observação direta apresenta limitações para a pesquisa.

 

Discussão metodológica

Na etapa qualitativa da Pesquisa GRAVAD, foram coletadas 123 entrevistas semi-estruturadas com homens e mulheres jovens, tendo sido 41 entrevistas em cada uma das três cidades investigadas, no período que se estende do final do ano de 1999 aos primeiros meses de 2000. A fim de garantir a comparabilidade dos dados coletados em cada centro de pesquisa, as entrevistas seguiram um roteiro de entrevista etnográfica, o que permitiu a posterior sistematização dos dados, empregando-se focos temáticos para organizar o discurso de cada um dos informantes.

As entrevistas foram coletadas segundo um sistema de cotas, para apreender uma maior diversidade de situações que interessavam a esta pesquisa. Foram considerados o sexo do entrevistado (masculino ou feminino), o segmento social a que pertencia (popular ou médio/alto, critério aplicado com base num conjunto de variáveis, incluindo renda, escolaridade e localização da residência) e a sua experiência reprodutiva e de paternidade (se teve um filho antes de completar vinte anos ou não). Nas três cidades, realizaram-se 62 entrevistas com homens cuja idade variava de 18 a 24 anos, sendo 40 destes classificados como pertencendo a segmento popular e 22, a segmentos médios ou altos. Ainda com relação ao total de homens entrevistados, 39 já tinham pelo menos um filho e 31 tiveram a experiência de paternidade antes de completar vinte anos ­ quando ainda eram adolescentes segundo a Organização Mundial da Saúde 8.

As entrevistas realizadas seguiram procedimentos usuais de pesquisa etnográfica, sendo feitas face a face e em profundidade. Todas foram realizadas por pesquisadores treinados especialmente para a aplicação do roteiro de entrevista em cada um dos centros de pesquisa. Cada um dos três centros teve autonomia para decidir se os entrevistadores seriam ou não do mesmo sexo que os entrevistados; apenas o NUPACS, de Porto Alegre, fez a opção de apenas entrevistadores homens entrevistarem homens e apenas mulheres entrevistarem mulheres. Assim, em Porto Alegre, foram sete entrevistadores, todos homens, que entrevistaram vinte homens; no Rio de Janeiro, foram seis pesquisadores (homens e mulheres) que entrevistaram 21 homens e, em Salvador, foram sete que entrevistaram 21 homens. A congruência e coerência dos achados nos faz crer que o sexo do entrevistador não foi um fator determinante na etapa qualitativa da pesquisa, porém uma discussão mais aprofundada epistemológica e metodológica acerca deste ponto está para além dos propósitos deste texto. Observou-se que o entrevistador ter faixa etária próxima à do entrevistado foi mais importante do que o sexo daquele.

O presente artigo analisa as falas dos 62 jovens de sexo masculino entrevistados na primeira etapa da Pesquisa GRAVAD com relação ao um foco temático, indicado no roteiro de entrevista etnográfica da seguinte forma: "Quando e como aconteceu a sua primeira experiência amorosa? Que idade você tinha? [Foi um 'ficar', namoro, relação sexual?]". O uso da expressão "experiência amorosa" foi escolhido por esta ser suficientemente vaga para que o entrevistado pudesse interpretá-la de diversas maneiras. De fato, análise do material revelou uma riqueza de interpretações quanto ao significado dessa expressão lingüística, tendo sido relatada uma grande diversidade de eventos e parcerias.

A análise desse conjunto de dados só foi possível levando-se em conta a leitura da totalidade de cada uma das entrevistas, o que forneceu o contexto no qual a iniciação sexual, afetiva ou amorosa foi narrada. Quando se considerou que o entrevistador pudesse ter conduzido a entrevista de forma a induzir uma resposta, descartou-se o material para esta análise. É preciso ainda dizer que, dos 62 entrevistados, houve menção de alguma relação sexual homoerótica por parte de quatro jovens; entretanto, estes, quando descrevem a sua primeira experiência amorosa, mencionam suas primeiras relações sexuais com parceiras mulheres. Assim, optou-se por apresentar aqui o conjunto dos dados sem referir tal prática homoerótica.

Por fim, é preciso esclarecer que a pesquisa atendeu a todos os requisitos éticos, tendo sido aprovada pelos comitês de ética dos três centros universitários que realizaram esta investigação.

 

Aprendendo uma técnica para se relacionar 

Quando homens e mulheres falam de sexo, não estão falando de sexo no mesmo sentido nem da mesma maneira. Enquanto os discursos femininos se centram na contextualização afetivo-romântica das suas relações, os discursos masculinos enfocam a capacidade técnica-corporal para o desempenho do ato sexual 2. No caso dos homens, a sexualidade aparece despida de expectativas românticas; a sexualidade masculina pertence ao domínio da corporalidade ou figura na representada subalternidade dos sentimentos aos desígnios e pulsões corporais ­ do sexo. O corpo masculino age de acordo com aquilo que é percebido como socialmente legítimo e constitutivo da própria identidade masculina.

Falando sobre as suas primeiras experiências amorosas, os jovens entrevistados centram suas narrativas em torno da primeira relação sexual. O conhecimento dos usos do corpo relaciona-se, com freqüência, em seus discursos, a uma idéia de competência para o desempenho. A primeira relação sexual masculina é pensada pelos jovens, simultaneamente, como um momento de aquisição de conhecimento, domínio de uma técnica corporal, passagem à vida adulta e um momento crucial de instauração do ser homem. Diferentemente da perspectiva usualmente adotada em estudos demográficos (como os estudos Pesquisa Nacional sobre Demografia e Saúde, realizados no Brasil em 1986 e 1996 9,10), que tendem a tratar a primeira relação sexual como um evento isolado, procuramos demonstrar que esta é parte de um processo através do qual, fundamentalmente, este jovem ingressa na fase adulta da vida.

Para muitos, a primeira relação sexual foi motivada pela busca de um conhecimento ­ como quando serve para saciar uma "curiosidade": "é, no caso, a primeira foi aos quatorze anos, a primeira, e foi uma coisa assim (...) dizem que a primeira vez você nunca esquece, mas acho eu já me esqueci. [risos] Em termo de curiosidade, né? A gente vai sentindo; aquela coisa de idade, curiosidade de saber como é, se é bom, se é ruim" (Salvador, 18 anos, segmento popular). A idéia de que esse aprendizado técnico-corporal, essa aquisição de conhecimento, é parte importante de um momento de passagem para a vida adulta está explícita nos depoimentos de homens oriundos de segmento popular: ser homem inclui um aprendizado e domínio de algumas habilidades, como a de um ofício, ter uma atividade remunerada 11 e as maneiras como podem e devem fazer uso de seus corpos. O aprendizado com relação aos usos deste instrumento que é o corpo humano nada mais é do que o aprendizado de uma técnica corporal 12.

Ademais, "nada é mais técnico", ensina Mauss 12 (p. 230), "do que as posições sexuais". O conhecimento técnico a ser dominado pelos jovens entrevistados é o aprendizado das próprias posições sexuais. Um conhecimento que, como todo conhecimento técnico, requer uma forma de transmissão social, o que nos remete ao modo como o social se reproduz nos próprios movimentos e atos dos corpos. O aprendizado é mimético, pois se dá mediante uma "imitação prestigiosa" 12 (p. 215). Os jovens entrevistados, para dominar as técnicas corporais que são as posições sexuais, devem imitar os atos bem sucedidos executados por outras pessoas ­ pessoas que têm alguma autoridade sobre os aprendizes.

Este valor social, dado pelo prestígio, é parte fundamental dessa noção de técnica corporal ­ é no prestígio da pessoa que se encontra todo o elemento social do aprendizado da técnica 12. Pode-se ver aqui uma situação que se assemelha a um dos dispositivos que, segundo Foucault, foi adotado para produzir uma verdade do sexo, a ars erotica, "dispositivo em que a verdade é extraída do próprio prazer, encarado como prática e recolhido como experiência" 1 (p. 57). Na ars erotica, é fundamental a relação com o mestre, que conhece os segredos e que inicia o aprendiz, orientando o discípulo; o iniciante deve ser transfigurado, ganhando o domínio do corpo e prazer sexual excepcional. A maneira pela qual os jovens descrevem e pensam a sua própria iniciação sexual revela como o dispositivo positivo de aprendizado de técnicas corporais produz saberes, induz a prazeres e institui relações de poder.

Nos relatos analisados, fica claro que, na primeira relação sexual, os homens têm, de modo geral, uma experiência com uma parceira mais velha ou mais experiente do que eles próprios. Um entrevistado explica, por exemplo, que a sua primeira parceira sexual era quatro anos mais velha e que se sente agradecido, pois foi a primeira vez e, principalmente, ela soube explicar e continuou com ele "para ir pegando o jeito da coisa". A maior idade ou experiência da parceira sexual a coloca na posição de mestre, detentora de um saber especial, a ser transmitido.

 

Tecnicalidades do ato sexual

Os homens, tanto do segmento popular quanto dos segmentos médio e alto, centram-se na descrição técnica, por assim dizer, do ato: local, duração, posições. O tipo de vínculo estabelecido com a parceira de um modo geral é mencionado brevemente ­ uma namorada, uma amiga, uma prostituta ­, mas há pouca ênfase no estatuto da relação ou na descrição da parceira. As narrativas femininas, ao contrário, enfatizam a descrição do contexto afetivo em que se deu a iniciação sexual, falando do relacionamento, do namoro, do afeto e do parceiro 2. As narrativas masculinas, por sua vez, como a transcrita abaixo, entram em minúcias do ato: "...daí ela tirou a blusa, tava com uma mini-saia, daí ela pegou, daí eu comecei a puxar a calcinha dela e fui puxando, puxando, puxando devagarinho até tirar toda, daí eu tirei a minha roupa também, só que eu fiquei nervoso também, fiquei com medo de não ter (...) de brochar. Daí eu fiquei com medo de ela contar para as amigas dela, porque ela me dizia que era virgem, mas já é normal de todo homem de ter uma dúvida sempre, né? Porque ela já tinha ficado com outros caras, então a gente fica naquela dúvida. Daí tá, eu tirei a calcinha dela, fui botar o pênis nela e vi que ela não, que ela era virgem mesmo, sabe, porque quando tocou assim, não entrava todo, entrou só um pouquinho, uns quatro centímetros, a pontinha mesmo, daí ficamos uns 15 minutos tentando e ela gemendo..." (Porto Alegre, 20 anos, segmento popular)

Até mesmo as queixas masculinas com relação à primeira experiência amorosa são de ordem técnica. Elas dizem respeito à duração do ato, às condições precárias em que se deu, ao fato de que a parceira tinha pouca experiência ou experiência em demasia. Alguns entram em pormenores, explicando que houve penetração, mas não ejaculação, por exemplo.

De forma mais corrente entre os homens de segmento popular, há menção a uma iniciativa feminina na relação sexual, pois a falta de experiência masculina aliada à iniciativa feminina pode causar alguns embaraços. Parece evidente a esses homens que a situação ideal é a inversa. É assim que um entrevistado, por exemplo, revela seu acanhamento na primeira relação sexual: "O que mais marcou na minha experiência (...) foi (...) ah, nem tem como explicar. Foi (...) uma coisa muito genial. Uma coisa que nunca tinha acontecido. A primeira vez da gente, bah! O cara, o cara fica meio abobado com isso e aquilo. O cara fica até com vergonha na hora. Bah, vem aquele mulherão pelado na frente do cara. O cara fica até com, meio abobado até. Não sabe se vai subir em cima dela ou ela vai subir em cima do cara. Eu tava tão envergonhado que eu nem soube dar conta do recado direito. Ela que teve que fazer a maioria dos bagulhos para mim. Na maior cara de pau, não é querer falar" (Porto Alegre, 19 anos, segmento popular).

No caso dos jovens entrevistados, a primeira experiência sexual é um aprendizado que envolve uma diferença de idade em relação à parceira. A idéia expressa acima, de que era necessário que a parceira fizesse a maior parte das coisas, explica-se pela forma de transmissão das técnicas corporais segundo Mauss 12 ­ o aprendiz aprende a série de movimentos que compõem o ato quando justamente o ato é executado com ele pelos outros. É no prestígio que detém a primeira parceira sexual ­ quase sempre mais velha e mais experiente do ponto de vista sexual ­ que encontramos o elemento social do processo de aprendizagem por imitação do jovem que se inicia sexualmente (o aprendiz de uma técnica corporal).

A idade da primeira relação sexual dos homens entrevistados é em torno de 14 anos, e as suas parceiras têm cerca de dois anos a mais. Deve-se ressaltar que, no grupo dos 62 entrevistados, um jovem declara que é virgem quando da entrevista. Ainda que o foco deste artigo não seja a comparação entre homens e mulheres, é importante aqui mencionar que as mulheres jovens entrevistadas declaram uma iniciação mais tardia com relação aos homens, tendo sua primeira relação sexual aos 16 anos, com um parceiro que é cerca de três anos mais velho do que elas. No grupo das mulheres, quatro eram virgens no momento em que concederam a entrevista.

Para os homens, a idéia de que o conhecimento acerca do que fazer com o corpo no ato sexual é um conhecimento técnico a ser adquirido é muito clara e explicitada freqüentemente. Além disso, eles próprios problematizam o fato de a sua iniciação sexual ser com uma parceira mais velha ou mais experiente como algo que representa uma inversão da ordem, como algo diferente do que seria esperado usualmente numa relação entre homem e mulher. A ordem esperada, neste caso, segundo um padrão de relacionamento vigente, é a de que o homem seja o mais velho/mais experiente no casal. No caso específico da iniciação sexual, uma parcela dos homens no Brasil teve, historicamente, como possíveis parceiras sexuais, prostitutas ou empregadas domésticas; neste caso, encontramos na relação entre o homem e sua parceira uma outra forma de desigualdade, a de ordem sócio-econômica. O modelo que dita aqui também o padrão de relacionamento entre homens e mulheres é o da masculinidade hegemônica 13,14,15. O peso simbólico da iniciação sexual masculina não pode ser diminuído no que diz respeito à constituição de uma identidade masculina 2.

Uma análise antropológica dos usos que esses jovens fazem de seus corpos mostra a relação entre a sexualidade e outras estruturas sociais, como o gênero. As práticas sexuais ­ técnicas corporais ­ ocorrem sempre no contexto de relações sociais. A estrutura social dada pelas relações de gênero define os lugares e as posições que esses corpos ocupam; essa estrutura também aloca diferentes recursos, valores e interpretações para esses corpos numa relação sexual 15.

 

O que as mulheres podem ensinar aos homens

Analisamos até aqui a maneira como, para os próprios jovens entrevistados, a primeira relação sexual é um momento importante de aquisição de conhecimento quanto aos usos de seus corpos. Vimos ainda que este aprendizado mencionado se dá em uma relação que se estabelece, com freqüência, com uma parceira que é mais velha e/ou mais experiente do que eles próprios. Examinaremos agora em maior detalhe o que esses jovens pensam que uma mulher pode ensinar-lhes nessa iniciação.

É preciso, é claro, contextualizar e relativizar o aprendizado técnico possível em uma primeira relação sexual. É difícil imaginar que, na primeira relação sexual, o jovem aprenda uma variedade enorme de posições sexuais, isto é, de técnicas corporais. Daí a importância que ele dá à experiência da parceira. Afinal, a diferença etária entre os jovens que se estão se iniciando sexualmente em relação às suas parceiras se traduz aqui em uma diferença em termos de experiência de vida.

Um entrevistado explica que a sua primeira experiência sexual foi um momento em que a sua parceira lhe "ensinou tudo" o que ela sabia. Outro diz que ele se sentiu um homem a partir de sua primeira experiência sexual, tendo adquirido o conhecimento necessário para que ele próprio pudesse depois desempenhar o papel que a sua primeira parceira sexual ­ mais velha e mais experiente ­ havia desempenhado: "O que marcou [na primeira vez] é que ela era uma mulher mais experiente; eu não conhecia nada, eu só ouvia falar, então acho que eu aprendi por completo; pra mim naquela época, eu tinha aprendido tudo, eu me senti é (...) homem, né? Transei com aquela mulher que eu tava a fim de transar, na época eu fiquei apaixonado por ela, mas depois eu vi que não tinha nada a ver. (...) Depois transou, passou muito tempo; eu digo pô, eu tenho dezessete anos, ela tem vinte e três anos, ela supervivida, eu quero o que com essa mulher? Eu posso ter uma namorada mais nova e que eu agora vou ensinar a essa menina mais nova o que a menina me ensinou, a mais velha me ensinou" (Salvador, 22 anos, segmento popular).

Particularmente entre os homens aqui estudados, com efeito, o conhecimento adquirido com o evento da primeira relação sexual a que se referem não é apenas um conhecimento de ordem do sexual, mas sim a aquisição de uma certa "experiência" de vida. Este é um conhecimento sobre o modo como se relacionar com outras pessoas. A ênfase dos discursos destes jovens de segmento popular a respeito da sua primeira experiência sexual recai sobre o fato de que a mulher, mais velha, ensinou-os a se relacionarem de um modo geral, seja com outras mulheres, seja com o mundo.

Um dos jovens entrevistados, por exemplo, explica que o que mais o marcou na sua primeira experiência sexual foi adquirir mais "experiência": ele aprendeu a conversar, a se relacionar com outra pessoa e ganhou novos horizontes. O aprendizado pode ser ainda, para os homens de segmento popular, a aquisição de novas idéias. É o caso, por exemplo, do entrevistado que valoriza a parceira da primeira experiência amorosa pela forma como ela o ajuda a pensar, pois eles têm um tipo de conversa que "clareia a sua mente e que lhe dá força para se tornar uma pessoa totalmente diferente" do que ele era.

Essa capacidade, atribuída às mulheres, de ensinar os jovens a se relacionar com outras mulheres, não só em termos de práticas sexuais, mas também em termos de diálogo e negociação, é coerente com uma representação, nos segmentos populares, da identidade feminina como sendo mais relacional 16,17,18. Nesse sentido, pensa-se e constrói-se a identidade feminina com relação a práticas masculinas; as próprias expectativas femininas podem ser pensadas em relação ao sujeito masculino. Como diz Knauth 19 (p. 186), "a existência das mulheres tanto no plano material como no social está ligada à assistência masculina". A força que as mulheres têm é, principalmente, moral, e não física, estando fundada na sua maior capacidade ou habilidade de construir e acionar redes de relações sociais (familiares e com instituições religiosas ou públicas).

A concepção que está na base desta construção relacional das práticas e identidades masculina e feminina é a de que os homens e as mulheres são, no fundo, de naturezas diferentes, isto é, trata-se de uma distinção em termos de essência. Enquanto a força das mulheres está no plano moral, a força masculina reside na disposição sexual. No Brasil e em muitas sociedades latino-americanas, a construção de uma identidade masculina destaca a sexualidade, o que significa que ser homem é ser essencialmente sexual ­ ou parecer ser essencialmente sexual ­, desfrutando de sua sexualidade, manifestando-a, alardeando-a, sentindo-se orgulhoso dela e fazendo com que fique em evidência 20. Em um modelo em que a masculinidade se constrói por oposição, ou repúdio, à feminilidade, a masculinidade está ligada à sexualidade 21.

A força feminina no plano moral pode ser vista não só pelo fato de que as mulheres são capazes de lidar com essa potência sexual masculina, principalmente para os homens pertencentes ao segmento popular 2, como também por serem elas quem os ensinam, inicialmente, a ter e manter as relações sociais. O momento da iniciação sexual é descrito pelos jovens como sendo uma inversão da ordem, pois as relações usuais entre os gêneros, em que impera o padrão de masculinidade hegemônica, estão invertidas, isto é, as parceiras são mais velhas e mais experientes do que os homens, além de partir delas a iniciativa na relação sexual.

A inversão da ordem na iniciação sexual masculina pode ser pensada, ainda para os jovens de segmento popular, em termos da experiência necessária por parte da mulher para que esta seja capaz de domar uma força sexual inerente aos homens. Pode-se ainda pensar na "inversão" em termos de um desafio, e uma conseqüente prova de virilidade, pela dificuldade que a situação apresenta ao jovem 2. Talvez essa inversão seja permitida no momento da primeira relação sexual porque o que está em jogo não é meramente uma questão técnica, mas sim o caráter relacional da mulher. O que o homem está aprendendo na sua primeira experiência sexual é, antes de mais nada, a relacionar-se.

A iniciação sexual tem um peso muito grande na passagem para a vida adulta, no tornar-se um homem. É um momento marcante em que os jovens, especialmente aqueles oriundos de segmento popular, aprendem sobre sexo e sobre como se relacionar, sobre como lidar com mulheres. Sendo a iniciação sexual um momento de aprendizado de uma técnica corporal ­ quando o jovem aprende uma posição sexual ­ e dado o peso do exercício da sexualidade para a sua virilidade, aprender ou dominar essa técnica é também aprender a ser homem.

 

O que faz um homem

Os relatos dos homens de segmentos médio e alto remetem a um processo mais demorado e continuado de construção da masculinidade e, principalmente, da fase adulta. Lembramos que existe uma discussão corrente acerca da passagem para a vida adulta por parte dos segmentos populares, em que alguns autores argumentam que essa transição é muito mais abrupta do que a que se dá entre as classes média ou alta 2,22. A emancipação com relação à família de origem, a autonomia material, o fim da vida escolar e o estabelecimento de residência própria ­ todos elementos que participam da passagem infância/vida adulta ­ ocorrem mais tardiamente hoje em dia 3,23.

No caso dos jovens de segmentos médio e alto, o aprendizado da técnica corporal também requer, obviamente, que a parceira tenha certo prestígio social. Entretanto, neste conjunto de entrevistas, é clara a tentativa dos jovens de buscarem uma maneira de igualar os sujeitos deste par na relação sexual. Por exemplo, há maior número de depoimentos em que as parceiras têm a mesma idade (mesmo que não necessariamente a mesma inexperiência). Além disso, é possível encontrarmos o próprio entrevistado identificando elementos, que são atributos de sua condição social, que o tornem atraente aos olhos femininos, como no caso do seguinte depoimento: "Aí eu pedi pra namorar ela em casa (...), era um domingo, sabe aqueles dias em que a família fica toda reunida, eles eram bem humildes, e nós ali, a minha mãe tinha uma situação financeira muito melhor do que as pessoas que moravam ali, eles até achavam que a gente era rico, minha mãe tinha até um carro que era zero na época e ninguém tinha nem carro ali. Não sei se isso ajudou, não sei. Eu gostava dela e ela praticamente gostava de mim também..." (Rio de Janeiro, 20 anos, segmento médio).

Os homens entrevistados pertencentes aos segmentos médio ou alto fazem menor referência à idéia de um "aprendizado" mais geral: o conhecimento adquirido referido por estes é meramente de ordem técnica, sendo apenas parte de um processo. Não há menção neste segmento social de um aprender a se relacionar. Um entrevistado reclama que não aproveitou muito a sua primeira relação sexual por falta de conhecimento e explica que "depois você aprende, pega a manha". Já a primeira experiência amorosa relatada por outro é um "ficar", que, ele explica, como o sexo, é algo que você vai aprimorando à medida em que se aprende.

Ainda que entre os homens de segmento médio haja maior referência à igualdade entre o jovem e a parceira sexual, encontramos depoimentos que fazem alguma referência à situação em que a mulher era mais velha. Contudo, neste caso, os entrevistados oferecem explicações que fogem da idéia de um aprendizado a partir de uma maior experiência feminina, conforme referido para o caso dos homens de segmento popular. A mulher mais velha é descrita dentro do contexto da paixão, e não da iniciação sexual, utilizando-se de expressões como complexo de Édipo: "Eu era ridículo. Eu me apaixonava de querer chorar e tudo. Horrível. (...) E o mais engraçado, sempre me apaixonei por pessoas mais velhas. Aí é aquela onda do tal do complexo de Édipo, né? Sempre me apaixonei por pessoas mais velhas. (...) E, quando eu tive a minha primeira experiência, foi com outra pessoa mais velha" (Salvador, 24 anos, segmento médio/alto).

As narrativas masculinas enfatizam a experiência das suas parceiras, que usualmente é maior do que a deles, tanto nos segmentos populares quanto nos médio/alto, e narram um aprendizado técnico. Observe-se, todavia, a diferença nos discursos dos jovens de segmentos médio/alto, mesmo no caso em que narram que as parceiras ensinam tudo que o que sabem a eles. Isso está claro na descrição da primeira experiência sexual: "Fomos pro quarto, aí dali ela perguntou se eu já tinha feito alguma relação com alguém, alguma coisa, eu falei que não, era a primeira vez. Aí ela pegou e falou, 'então, eu vou te ensinar tudo que eu sei'. Bah, pegou e bah e o bicho pegou, né?" (Porto Alegre, 20 anos, segmento médio/alto). Não se esgotaram, por assim dizer, as lições em uma primeira relação sexual. A maior experiência da parceira é, de alguma forma, relativizada: ela não sabe tudo sobre sexo em geral, ela sabe algumas coisas e estas coisas transmite a ele.

Por fim, parece ser mais freqüente entre os segmentos médio e alto a idéia, explícita no discurso, de que se está velho demais, referindo uma expectativa social em termos da faixa etária e de comportamento sexual. Um entrevistado, por exemplo, acha que já estava velho demais para (ainda) ser virgem aos 17 anos: "Eu tava velho, já, tinha 17 anos". Para um padrão que tem estabelecido, achava que estava velho ­ e assim, numa festa de carnaval, ele tem sua primeira relação sexual com uma mulher de quem faz questão de dizer que não lembra mais o nome.

 

Conclusão

Essa "entrega" ao protagonismo feminino nas tecnicalidades da relação sexual parece não comprometer, em nenhum momento, a construção da masculinidade, em se tratando de uma iniciação sexual, em que a mulher é tacitamente identificada como mais velha. Ou seja, é possível que a alegação de "maior idade" e/ou de "maior experiência" por parte dos homens sobre as suas primeiras parceiras sexuais seja apenas uma estratégia para relativizar a situação em que o masculino, nesse momento, está exercendo um papel subalterno, de aprendizado.

A primeira experiência sexual aparece como uma aquisição de conhecimento, sugerindo uma analogia com um ritual de passagem para a vida adulta. A primeira relação sexual marca um momento de transição nas suas trajetórias de vida (para esta discussão, ver Leal & Boff 24).

A peculiaridade do aprendizado técnico no caso da relação sexual é que a transmissão do conhecimento parece envolver um outro elemento além daquele sujeito com prestígio que executa o ato, isto é, um outro elemento além da parceira sexual. Existe um elemento de transmissão de conhecimento por sujeitos que são pares, isto é, que são "iguais", porque são também homens jovens, por aqueles que já aprenderam. A primeira relação sexual é só um evento, mas é um conhecimento adquirido; como tal, no plano do discurso masculino, as experiências são partilhadas e comparadas e os conhecimentos, mensurados e avaliados.

A importância dessa socialização de experiências entre homens não deve ser subestimada. As masculinidades, segundo Kimmel 13, são construídas ao mesmo tempo em dois campos de relações de poder: nas relações de homens com mulheres e nas relações de homens com outros homens. Neste modelo hegemônico de masculinidade que o autor analisa, o do self-made man, a base está na competição homossocial, que requer uma provação e demonstração constantes. A definição de masculinidade que diz respeito aos brancos, de classe média, adultos, jovens, heterossexuais, é o modelo que estabelece os padrões para todos os outros homens e com relação ao qual eles se medem 21.

Reiteramos, neste ponto, a importância de este artigo tratar da iniciação sexual masculina. É claro que as posições sexuais são técnicas corporais para homens e mulheres, porém é a masculinidade que requer uma validação homossocial: um sujeito pode ser pensado como efeminado ou másculo por outros homens 21. A iniciação sexual só demarca um momento da passagem para a condição de adulto porque outros homens consideram a primeira relação sexual algo tão importante.

Pensar a primeira relação sexual a partir da noção de técnica corporal implica não só pensar nas habilidades necessárias ligadas a uma prática ­ no caso, uma prática sexual ­, mas também considerar que a prática corporal está associada às relações sociais daquele que a pratica e ao sistema simbólico que o estrutura e dá significado. O corpo tem lugar proeminente quando se trata da prática sexual, e a aquisição de certas habilidades no que diz respeito a práticas por parte de um corpo masculino foi analisada neste artigo.

As posições sexuais são técnicas corporais ­ habilidades adquiridas socialmente, através da cópia ou repetição de uma ação executada por alguém com prestígio. No caso dos homens, em particular, a aquisição dessa habilidade para a prática sexual, no exercício da sexualidade, tem uma importância simbólica ­ porque social ­ muito grande, justamente porque é um momento (dentre outros) crucial na instauração do ser homem. Os homens se constroem socialmente na sua relação com as mulheres e na sua relação com seus pares, isto é, com outros homens. A ênfase no ato sexual, e suas tecnicalidades, nos discursos masculinos sobre a primeira experiência amorosa aqui analisados, deve-se à construção de uma identidade masculina que destaca a sexualidade, traduzindo-se numa fórmula em que ser homem é ser essencialmente sexual.

A compreensão do papel da sociabilidade na análise de práticas sexuais pode revelar a forma com que o entrelaçamento dos corpos, mesmo no espaço mais privado, é dado pelas práticas e representações sociais. A análise comparativa revela que o evento da primeira relação sexual é um momento de aquisição de conhecimento técnico e social: os jovens aprendem algumas técnicas corporais e começam a dominar algumas habilidades importantes para a constituição de relações sociais, especialmente de relações com mulheres. A aquisição desse conhecimento é parte fundamental do processo pelo qual estão se tornando, social e culturalmente, adultos.

A formulação de uma política de ensino eficaz no que diz respeito à educação sexual deve levar em conta a idéia de que a primeira relação sexual de um jovem não é um evento isolado, mas parte de um processo por meio do qual, fundamentalmente, este jovem está ingressando em outra fase da vida, a fase adulta. No caso da sexualidade, trata-se de um aprendizado, havendo muitas dúvidas e curiosidade por parte dos jovens. Diante disso, as políticas públicas de saúde e de educação podem contribuir, abrindo espaço para discutir questões relativas à sexualidade, assumindo que estas envolvem relações de gênero, de classe social, de raça, de fase de vida, de expectativas diferenciadas quanto ao script sexual, entre outras estruturas sociais, não se limitando, assim, a uma perspectiva biomédica.

 

Colaboradores

A. F. Leal participou da revisão da literatura, coleta de dados, análise de dados, redação do artigo. D. R. Knauth colaborou na elaboração do projeto, análise de dados, redação do artigo.

 

Agradecimentos

A investigação Gravidez na Adolescência: Estudo Multicêntrico sobre Jovens, Sexualidade e Reprodução no Brasil (Pesquisa GRAVAD) foi elaborada por Maria Luiza Heilborn (Instituto de Medicina Social, Universidade do Estado do Rio de Janeiro ­ IMS/UERJ), Michel Bozon (Institute National d'Études Démographiques ­ INED, França), Estela M. L. Aquino (Programa Integrado de Pesquisa e Cooperação Técnica em Gênero e Saúde/Universidade Federal da Bahia ­ MUSA/UFBA) e Daniela Knauth (Núcleo de Antropologia do Corpo e Saúde/Universidade Federal do Rio Grande do Sul ­ NUPACS/UFRGS). O estudo foi realizado por três centros: Programa em Gênero, Sexualidade e Saúde (IMS/UERJ), MUSA/UFBA e NUPACS/ UFRGS. Os principais resultados do inquérito encontram-se publicados no livro O Aprendizado da Sexualidade: Reprodução e Trajetórias Sociais de Jovens Brasileiros (Rio de Janeiro: Garamond; 2006), onde podem ser obtidas informações sobre a composição detalhada da equipe de pesquisadores. Agradecemos também à Fundação Ford, ao programa de bolsas do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico e à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior.

 

Referências

1. Foucault M. História da sexualidade: a vontade de saber. v. 1. Rio de Janeiro: Graal; 1999.        [ Links ]

2. Leal AF. Uma antropologia da experiência amorosa: estudo de representações sociais sobre sexualidade [Dissertação de Mestrado]. Porto Alegre: Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal do Rio Grande do Sul; 2003.        [ Links ]

3. Aquino E, Heilborn M, Knauth D, Bozon M, Almeida M, Araújo J, et al. Adolescência e reprodução no Brasil: a heterogeneidade dos perfis sociais. Cad Saúde Pública 2003; 19 Suppl 2:S377-88.        [ Links ]

4. Heilborn M, Salem T, Rohden F, Brandão E, Knauth D, Víctora C, et al. Aproximações socioantropológicas sobre a gravidez na adolescência. Horizontes Antropológicos 2002; 17:13-45.        [ Links ]

5. Gagnon JH, Parker R. Introduction: conceiving sexuality. In: Parker R, Gagnon JH, editors. Conceiving sexuality: approaches to sex research in a postmodern world. New York: Routledge; 1995. p. 3-16.        [ Links ]

6. Gagnon JH. Les usages explicites et implicites de la perspective des scripts dans les recherches sur la sexualité. Présentation de Michel Bozon et Alain Giami. Actes Rech Sci Soc 1999; 128:73-9.        [ Links ]

7. Laumann E, Gagnon J. A sociological perspective on sexual action. In: Parker R, Gagnon J, editors. Conceiving sexuality: approaches to sex research in a postmodern world. New York: Routledge; 1995. p. 183-213.        [ Links ]

8. World Health Organization. Sexual relations among young people in developing countries. Evidence from WHO case studies. http://www.who.int/reproductive-health/adolescent/publications (acessado em 10/Dez/2002).        [ Links ]

9. Arruda JM, Rutenberg N, Morris L, Ferraz EA. Pesquisa Nacional sobre Saúde Materno-infantil e Planejamento Familiar ­ Brasil, 1986. Rio de Janeiro: Sociedade Civil Bem-Estar Familiar no Brasil/Instituto para Desenvolvimento de Recursos; 1987.        [ Links ]

10. Sociedade Civil Bem-Estar Familiar no Brasil. Pesquisa Nacional sobre Demografia e Saúde, 1996. Rio de Janeiro: Sociedade Civil Bem-Estar Familiar no Brasil; 1997.        [ Links ]

11. Víctora C, Knauth D. Trajetórias e vulnerabilidade masculina. Revista Antropolítica 1999; 6:23-8.        [ Links ]

12. Mauss M. Sociologia e antropologia (com uma introdução à obra de Marcel Mauss, de Claude Lévi-Strauss). v. 2. São Paulo: EPU/EDUSP; 1974.        [ Links ]

13. Kimmel M. A produção simultânea de masculinidades hegemônicas e subalternas. Horizontes Antropológicos 1998; 9:103-17.        [ Links ]

14. Connell RW. La organización social de la masculinidad. In: Valdés T, Olavarría J, organizadores. Masculinidad/es: poder y crisis. Santiago de Chile: Ediciones de las Mujeres; 1997. p. 31-48.        [ Links ]

15. Connell RW. Gender. Cambridge: Polity Press; 2002.        [ Links ]

16. Duarte LFD. Da vida nervosa nas classes trabalhadoras urbanas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor; 1986.        [ Links ]

17. Duarte LFD. Pouca vergonha, muita vergonha: sexo e moralidade entre as classes trabalhadoras urbanas. In: Leite-Lopes JS, organizador. Cultura e identidade operária: aspectos da cultura de classe trabalhadora. Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro/São Paulo: Marco Zero; 1987.        [ Links ]

18. Victora CG. As relações de gênero na Vila Divina Providência, ou o que elas esperam deles. Cadernos de Antropologia 1992; 7:15-28.        [ Links ]

19. Knauth DR. Morte masculina: homens portadores do vírus da AIDS sob a perspectiva feminina. In: Duarte LFD, Leal OF, organizadores. Doença, sofrimento, perturbação: perspectivas etnográficas. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz; 1998.        [ Links ]

20. Ramírez RL. Nosotros los boricuas. In: Valdés T, Olavarría J, organizadores. Masculinidad/es: poder y crisis. Santiago de Chile: Ediciones de las Mujeres; 1997. p. 102-12.        [ Links ]

21. Kimmel MS. 1997. Homofobia, temor, vergüenza y silencio en la identidad masculina. In: Valdés T, Olavarría J, organizadores. Masculinidad/es: poder y crisis. Santiago de Chile: Ediciones de las Mujeres; 1997. p. 49-62.        [ Links ]

22. Ariès P. L'enfant et la vie familiale sous l'Ancien Régime. Paris: Senil; 1973.        [ Links ]

23. Galland O. Sociologie de la jeunesse. Paris: Masson & Armand; 1997.        [ Links ]

24. Leal O, Boff A. Insultos, queixas, sedução e sexualidade: fragmentos de identidade masculina em uma perspectiva relacional. In: Parker R, Barbosa R, organizadores. Sexualidades brasileiras. Rio de Janeiro: Relume-Dumará; 1996. p. 119-35.        [ Links ]

 

 

Correspondência
A. F. Leal
Núcleo de Antropologia do Corpo e Saúde,
Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
Rua Dr. Mário Totta 221,
Porto Alegre, RS 91920-130, Brasil.
afleal@via-rs.net

Recebido em 05/Abr/2005
Versão final reapresentada em 17/Ago/2005

Aprovado em 24/Ago/2005