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Cadernos de Saúde Pública

Print version ISSN 0102-311X

Cad. Saúde Pública vol.23 no.4 Rio de Janeiro Apr. 2007

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-311X2007000400027 

RESENHAS BOOK REVIEWS

 

 

Antonia do Carmo Soares Campos

Centro de Ciências da Saúde, Universidade de Fortaleza, Fortaleza, Brasil. toniacampos@unifor.br

 

 

HUMANIZAÇÃO DOS CUIDADOS EM SAÚDE: CONCEITOS, DILEMAS E PRÁTICAS. Deslandes SF, organizadora. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz; 2006. 416 pp.

ISBN: 85-7541-079-2

Sob o título Humanização dos Cuidados em Saúde: Conceitos, Dilemas e Práticas, essa obra dá seguimento à coleção editada pela Editora Fiocruz sobre a saúde da mulher e da criança, dentro de uma visão crítica e reflexiva, com ênfase na humanização da assistência.

Organizado pela socióloga Suely Ferreira Deslandes, o livro possui conteúdo de excelente natureza, sobretudo porque, nele, os autores se apresentam como investigadores e profissionais de saúde dotados de forte sentido existencial e humano, ao mesmo tempo. Demonstra a preocupação com a humanização da assistência e a sensibilização da equipe e das instituições de saúde que assistem a mulher e a criança, tendo como alvo do cuidado a família e a saúde dos trabalhadores da saúde, que, como cuidadores, também demandam atenção.

Refletir sobre os conceitos, dilemas e condutas que embasam o cuidado humanizado à tríade mulher-criança-família, enfocando o discurso e a prática efetiva, fomentada pela Política Nacional de Humanização (Humaniza/SUS), leva-nos a considerar a necessidade de cada vez mais aprofundar a discussão acerca da saúde dentro de uma visão holística e humanística, visto que o respeito à individualidade das pessoas, da escuta atentiva, da valorização das crenças e da comunicação, da presença genuína, são ingredientes básicos da humanização.

O corpo do texto é composto de três partes e 16 capítulos, precedidos por uma apresentação crítica e reflexiva de Deslandes acerca dos conteúdos de cada capítulo. O prefácio de Maria Cecília Minayo, que retoma a questão Humanismo e a Humanização, faz-nos refletir sobre o eixo central da obra: "Seria possível humanizar as técnicas? Convencer a todos no sentido da intersubjetividade das relações?". Conforme Minayo, os autores acreditam nessa possibilidade. Eu me incluo nessa crença, sobretudo quando a prefaciadora refere que "a humanização necessita de uma proposta de sensibilização das pessoas". Diante disso, minha imaginação alça vôos e trago à memória o pensamento de Silva 1 quando afirma: porque o homem sempre sonhou e sonha, hoje é capaz de atravessar os mares, os ares, as doenças, as perdas. E porque sonham, os autores nos brindam com seus textos. A primeira parte, Humanização dos Cuidados Explorando Conceitos e Conexões Disciplinares, é composta por oito capítulos. No capítulo 1, Humanização: Revisitando o Conceito a partir das Contribuições da Sociologia Médica, Suely Deslandes reporta-se a alguns dos mais importantes marcos da humanização, à luz da sociologia médica na década de 70 nos Estados Unidos, como base para a construção teórica do conceito da humanização no âmbito na saúde. De forma sutil, a autora aguça o debate e nos leva a determinadas reflexões, tais como: "em que consiste humanizar o cuidado de saúde? o que seria desumanizá-lo"?

O capítulo 2, Cuidado e Humanização das Práticas de Saúde, é assinado por José Ricardo Ayres, que se debruça sobre o conceito de Cuidado, enfocando algumas proposições teórico-práticas relevantes que desafiam o ideal da humanização. Ainda com base nas diversas correntes filosóficas, Ayres apresenta sua concepção de humanização como "um compromisso das tecnociências da saúde" e enfatiza: a "humanização passa pela radicalidade democrática do bem comum". Corroboro a opinião do autor, sobretudo por entender que o cuidado está presente no cotidiano do ser humano e faz parte da sua essência, pois todos necessitarmos ser cuidados. Nesse contexto, razão tem Collière 2, que se refere ao cuidado como "uma responsabilidade social", que não se limita a uma ação de reparação dos sintomas, porquanto engloba um universo de ações.

No capítulo 3, Relação Médico-paciente e Humanização dos Cuidados em Saúde: Limites, Possibilidades, Falácias, Andrea Caprara & Anamélia Lins e Silva Franco discutem com maestria a necessidade da comunicação mais efetiva na relação médico-paciente para uma assistência de qualidade no âmbito da saúde. Com aporte de vasto referencial teórico, trazem à luz os conceitos de "relação". O texto é enriquecido pelos depoimentos de profissionais de saúde da Bahia e do Ceará. Ao final, as autoras tecem considerações acerca da necessidade da incorporação das humanidades na formação médica para uma nova compreensão do ser que demanda cuidado e que deve ser considerado na sua realidade pessoal, social e individual como um ser único. O ser humano é visto a partir da sua individualidade, mas necessariamente relacionado com outros seres humanos, no tempo e no espaço 3.

O capítulo 4, Humanização e Qualidade do Processo de Trabalho em Saúde, de autoria de Francisco Antonio de Castro Lacaz & Leny Sato, tem como foco de discussão as propostas de humanização para os trabalhadores de saúde. Discorrem de forma crítico-reflexiva sobre a Qualidade de Vida no Trabalho (QVT), advogando a importância do trabalhador como agente ativo e participativo sobre o seu próprio trabalho, condição para a saúde profissional e qualidade do cuidado prestado à clientela.

No capítulo 5, Maria Cenzini Nogueira Martins relata detalhadamente experiências vivenciadas com profissionais de saúde ao longo de quatro anos nas Oficinas de Humanização: Fundamentação Teórica e Descrição de uma Experiência com um Grupo de Profissionais de Saúde. De certo modo, o rico conteúdo desse capítulo corrobora o anterior, pois denota a preocupação com o sofrimento e o desgaste físico e mental do trabalhador. As oficinas de humanização, mediante utilização de técnicas, dinâmicas de grupo e do teatro pedagógico, são, na verdade, estratégias que podem contribuir para a saúde do trabalhador.

No capítulo 6, Redes Sociais de Suporte e Humanização dos Cuidados em Saúde, Maria Cristina de Araújo Braga disserta sobre o conceito de redes de suporte social como forma de apoio e suporte para seus membros no enfrentamento de problemas de saúde tanto do cotidiano, quanto emergenciais, no seio familiar ou não. Exemplos podem ser citados, como o dos pais de crianças internadas em uma unidade pediátrica ou neonatal, ao se confortarem e apoiarem mutuamente. A autora conclui referindo que "as redes nem sempre estão à mostra em função de sua informalidade e plasticidade", mas, se consideradas pelas instituições de saúde, contribuem para a humanização da assistência conforme preconizada.

Humanização do Encontro com o Usuário no Contexto da Atenção Básica é o título do capítulo 7, assinado por Leny Alves Bonfim, que reflete criticamente sobre como se dá o encontro do usuário com o profissional de saúde na esfera da atenção básica de saúde. Este constitui um tema desafiador, com ênfase no encontro. São apresentados dois eixos de discussão: o primeiro aborda as tecnologias leves, o acolhimento, o vínculo e a autonomia. O segundo guarda relação com primeiro e diz respeito às necessidades dos usuários e às dificuldades inerentes a essa categoria.

No capítulo 8, o último da primeira parte, Elizabeth Artmann & Francisco Javier Rivera discorrem sobre Humanização do Atendimento em Saúde e Gestão Comunicativa, analisando e discutindo algumas bases epistemológicas da política da humanização preconizada pelo Ministério da Saúde. Reportam-se aos desafios para uma atenção humanizada, articulando tecnologia e comunicação, para estabelecer vínculos intersubjetivos entre usuários e profissionais de saúde. Apresentam propostas no âmbito da gestão que venham a contribuir na humanização dos serviços de saúde.

A segunda parte, Humanização nos Cuidados de Saúde da Criança, composta por quatro capítulos, abre o debate com vistas a contribuir para um despertar para o cuidado humanizado à criança hospitalizada, desde a mais tenra idade, com enfoque na família.

Com o título A Criança, sua Família e o Hospital: Pensando Processos de Humanização, o capítulo 9 é assinado por Denise Streit Morsch & Priscila Menezes Aragão, que, em virtude da larga experiência em UTI neonatal e pediátrica, revelam o cotidiano de ambientes de alta tecnologia em estreito contato com profissionais de equipe mutiprofissional, os pequenos pacientes e seus familiares. Com propriedade, abordam as rotinas hospitalares, quase sempre rígidas, e a expectativa dos familiares. Aprofundam a questão da humanização do cuidado envolvendo a família no intuito de apoiá-la, para vivenciar mais tranqüilamente as patologias agudas, sobretudo as doenças crônicas. A meu ver, a preocupação das autoras com a temática deve-se ao seu olhar ante a díade mãe-filho que no silêncio clama por uma atitude amorosa e compreensiva por parte dos profissionais de saúde, em especial, do pequeno ser recém-nascido que carece ser recepcionado em seu novo mundo pelo encontro traduzido por meio do olhar, do toque carinhoso e de palavras amorosas 4.

No capítulo 10, Os Desafios da Humanização em uma UTI Neonatal Cirúrgica, Maria de Fátima Junqueira, Denyse Lamego, Denise Streit Morsch & Suely Deslandes trabalham a questão da humanização do cuidado ao neonato no âmbito de uma UTI-Neonatal Cirúrgica, enfocando a relação dos profissionais da equipe de saúde com os neonatos e familiares. O enfoque se dá com base em estudo teórico-prático, com abordagem qualitativa, cujo fio condutor foi o conceito de cuidado integral articulado ao de humanização.

O lúdico como estratégia de cuidado humanizado à criança hospitalizada é tema do capítulo 11, O Brincar no Processo de Humanização da Produção de Cuidados Pediátricos, assinado por Rosa Maria de Araújo Mitre. Para a autora, "o brincar no hospital deve se fazer presente tanto nas atividades da criança quanto nas intervenções dos profissionais de saúde". O estar com a criança hospitalizada propiciando um espaço de livre expressão por meio do lúdico pode ser entendido como um dos componentes no processo de humanização. Mitre salienta a necessidade de as instituições de saúde articularem discurso e prática do lúdico como recurso para a humanização do cuidado.

O capítulo 12, de Suely Deslandes & Ana Cristina Wanderley da Paixão, Humanização da Assistência às Vitimas de Abuso Sexual Infantil: Retomando o Debate da Relação Médico-paciente, reporta-se à violência contra crianças e adolescentes, que, segundo a OMS, é um problema social e de saúde pública. As autoras relatam a importância da relação médico-cliente no cuidado a crianças e adolescentes vítimas de abuso sexual e enfatizam que o projeto comunicacional entre cuidador e paciente vai ao encontro da proposta de humanização.

A terceira e última parte do livro, Humanização nos Cuidados de Saúde da Mulher, é composta por um conjunto de textos que levam a uma reflexão sobre a humanização da assistência à saúde da mulher. O capítulo 13, de Regina Helena S. Barbosa, Humanização da Assistência à Saúde das Mulheres: Uma Abordagem Crítica de Gênero, aprofunda a discussão acerca do tema da humanização da saúde da mulher, norteada pelo princípio da integralidade, e apresenta as contradições entre o que é proposto e o efetivamente possível de ser implementado, especialmente na saúde reprodutiva de mulheres portadoras do HIV.

No capítulo 14, Humanização da Assistência ao Parto no Serviço Público: Reflexão sobre Desafios Profissionais nos Caminhos de sua Implementação, Marcos Augusto Dias & Suely Deslandes detêm-se criticamente sobre os desafios para a atenção humanizada ao parto e nascimento nas instituições de saúde, em relação aos aspectos estruturais, políticos, capacitação de recursos humanos, variáveis sociais e culturais das mulheres e famílias assistidas.

O capítulo 15, Assistência à Mulher em Abortamento: A Necessária Revisão de Práticas de Má Conduta, Preconceito e Abuso, de Leila Adesse, aguça o debate sobre a necessidade de revisão de procedimentos e atenção humanizada às mulheres em situação de abortamento que sofrem a violência institucional.

O último texto da coletânea, capítulo 16, de Sandra Filgueiras, Eu Não Sou o HIV que Eu Tenho: Humanização, Acolhimento e Escuta no Atendimento a Mulheres que Vivem com AIDS, evidencia as reflexões sobre o significado de ser mulher vivendo com AIDS, com base no depoimento de uma mulher sobre o atendimento no SUS e a vivência dessa experiência. A autora enfatiza a importância do acolhimento dessa clientela e aponta para a necessidade da "parceria profissional-usuário pensando estratégias para lidar com o sofrimento e buscar a saúde".

Pela notoriedade dos autores e o nível do conteúdo, recomendo a leitura desse livro a tantos quantos estejam envolvidos com a sensibilização para a humanização dos cuidados em saúde, com ênfase na criança e mulher. Incluem-se aqui também a família, os profissionais de saúde e estudantes dessa área, entre outros, pois, como propõe a obra, a humanização deve ser praticada nos serviços de saúde, com os profissionais e usuários, de forma dialógica, em busca da construção de novos caminhos capazes de propiciar um novo paradigma de gestão da saúde pública para todos. Portanto, esta é uma referência obrigatória para os estudiosos da área da saúde.

 

 

1. Silva MJP. O amor é o caminho: maneiras de cuidar. São Paulo: Gente; 2000.

2. Collière MFC. Promover a vida. Lisboa: Lidel Edições Técnicas/Sindicato dos Enfermeiros Portugueses; 1999.

3. Paterson JG, Zderad LT. Humanistic nursing. New York: National League for Nursing; 1988.

4. Maldonado MT. Como cuidar de bebês e crianças pequenas. 3ª Ed. São Paulo: Saraiva; 1996.