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Cadernos de Saúde Pública

versão impressa ISSN 0102-311Xversão On-line ISSN 1678-4464

Cad. Saúde Pública v.23 n.10 Rio de Janeiro out. 2007

https://doi.org/10.1590/S0102-311X2007001000027 

RESENHAS BOOK REVIEWS

 

Thaís Branquinho Oliveira Fragelli

Instituto de Psicologia, Universidade de Brasília, Brasília, Brasil

 

 

O CARÁTER OCULTO DA SAÚDE. Gadamer HG. Petrópolis: Editora Vozes; 2006. 176pp.

ISBN: 85-326-3345-5

O livro é uma tradução, realizada por Antônio Luz Costa, da obra do filósofo alemão Hans-Georg Gadamer, Über die Verborgenheit der Gesundheit. Gadamer foi aluno de Heidegger e é considerado o pai da hermenêutica contemporânea. Ficou conhecido por sua obra Verdade e Método.

Na presente obra, Gadamer faz uma reflexão sobre questões relacionadas à saúde e à ciência com a contextualização de aspectos da atualidade. É uma obra que relaciona a medicina e a filosofia com a retomada de conceitos de pensadores como Platão, Sócrates, Kant, dentre outros.

O livro é organizado em 13 ensaios e um prefácio. Os focos temáticos desenvolvidos pelo autor são: (1) Teoria, Técnica e Prática, no qual o autor reflete sobre o papel da ciência e do método e faz críticas quanto à dicotomização da teoria e da prática; (2) Apologia da Arte de Curar, contendo aspectos relacionados à saúde, como equilíbrio, à doença, como sua perturbação, e ao papel do tratamento; (3) Sobre o Problema da Inteligência, em que relata como ato inteligente o distanciamento do indivíduo em relação a si mesmo quando doente; (4) A Experiência da Morte, em que o autor reflete sobre o direito à morte; (5) Experiência Corporal e Objetivabilidade, no qual relata sobre aspectos do bem-estar e retoma alguns aspectos relacionados à saúde e à doença ; (6) Entre a Natureza e a Arte, em que reflete sobre o papel do tratamento no retorno à vida social e o papel do médico; (7) Filosofia e Medicina Prática, o autor reflete sobre a teoria e a práxis, o conceito de saúde, medidas dentro da área médica e o tratamento; (8) Sobre o Caráter Oculto da Saúde, em que reflete sobre qualidade de vida, a tendência à especialização, faz crítica quanto às medidas utilizadas na saúde e reflete sobre a psicossomática, dentre outros pontos; (9) Autoridade e Liberdade Crítica, o autor faz referências ao método e metodologia e à autoridade médica; (10) Tratamento e Diálogo, em que enfatiza o papel do diálogo como parte do tratamento; (11) Vida e Alma, reflexões sobre o corpo; (12) Angústia e Medos, retoma aspectos relacionados à morte e algumas das angústias humanas como a doença; (13) Hermenêutica e Psiquiatria, em que o autor reflete sobre o papel da hermenêutica e aspectos relacionados à psiquiatria moderna.

O autor, mesmo referindo não ser um especialista, levanta discussões e reflexões que estão bem presentes na prática não só médica, mas nas ciências da saúde. Tal aspecto pode ser ilustrado quando Gadamer discute a relação médico-paciente e o papel do diálogo como parte do tratamento. Faz considerações sobre o pensamento de Sócrates que afirma que não podemos saber nada sobre o corpo humano sem considerar o todo. Ainda quanto ao aspecto da prática em saúde, Gadamer considera que a saúde não pode ser produzida por não se configurar algo novo, o que ocorre é o restabelecimento do equilíbrio natural perturbado e não uma produção de equilíbrio, concepção herdada da cosmologia jônica. A atuação do tratamento seria no fortalecimento dos fatores formadores desse equilíbrio, e que o bem-estar é o equilíbrio que mantém a vida humana, a qual pode ser ameaçada pela doença.

Outro aspecto abordado por Gadamer relaciona-se ao enfrentamento da doença. O autor trabalha tal tema quando afirma que a doença afasta o indivíduo do exterior, fazendo-o voltar-se ao interior. Esse distanciamento que o indivíduo faz em relação a si mesmo quando adoece é considerado, pelo autor, como uma atitude inteligente. O doente busca um equilíbrio produzido através de um equilíbrio perdido por meio de um não-querer-perceber a doença, pois a doença significaria exclusão da vida. Essa percepção seria observada em pacientes chamados "difíceis" segundo o autor.

As reflexões do autor também adentram no aspecto social do adoecimento. No que tange a esse aspecto, ao aprofundar-se sobre a doença, o autor refere que essa constitui um processo histórico de vida e um processo social. A intervenção busca recuperar o equilíbrio perdido não apenas do ponto de vista biológico, mas também da situação de vida, e que a arte médica estaria completa quando se retira dela mesma e libera do outro. A responsabilidade médica inclui o conjunto da inserção da pessoa na vida familiar, social e profissional. A "recuperação" seria a reintrodução do paciente em sua antiga posição na vida cotidiana.

Gadamer também defende que o médico, aqui se pode incluir profissionais das ciências da saúde, deve buscar sua atuação em conjunto com o paciente para o sucesso no tratamento das doenças. Essa postura pode ser ilustrada quando o autor reflete sobre o papel do diálogo que possibilita a cooperação do paciente e sobre a psicossomática, área que traz à consciência que o médico necessita da colaboração do paciente, ou seja, que existem fatores individuais.

A humanização é outro ponto muito forte dentro da obra de Gadamer. Aqui é retomada a questão do diálogo com a afirmação do autor que esse humaniza a relação médico-paciente. Essa posição também é demonstrada ao referir que o tratamento ultrapassa as técnicas modernas, que seria necessário um ouvido sensível e um olho observador e cuidadoso. Nessa perspectiva, o autor faz críticas sobre o uso das medidas empregadas nas áreas da saúde, em que não se olha a doença com os olhos, nem se ouve através da voz e, sim, faz-se sua leitura a partir de valores padrões. O ponto que ilustra é quando se refere ao tratamento de um doente crônico ou acompanhamento de paciente terminal, em que se lembra "que o paciente é uma pessoa e não um 'caso'" (p. 106).

Considerando todas as discussões, Gadamer não deixa de considerar, em suas reflexões, o papel da ciência dentro das práticas em saúde. Discorre sobre a relação entre teoria e experiência, criticando essa dicotomização, e cita Kant que afirmou que o início do conhecimento se dá através da prática. O autor relata que tem observado que, de um lado, estão os achados científicos e, de outro, o saber pautado na experiência. E que o método científico faz com que a experiência cientifica seja segura independente da situação e do contexto. Assim, o papel da ciência seria o de aliar a experiência a um método, possibilitando um saber direcionado e o domínio do cientista sobre a técnica, constituindo um ser-capaz-de-fazer seguro (techne). O que o autor relata é que a ciência necessita de aplicação prática por intermédio de um ser-capaz-de-fazer orientado, em que as informações de pesquisas devem ser selecionadas, interpretadas e avaliadas e reelaboradas hermeneuticamente à medida que o saber prático do ser humano se torna objeto da ciência. Reflete também sobre a co-responsabilidade da ciência frente às conseqüências de sua aplicação. Outro ponto considera que os avanços tecnológicos atuais tornaram possíveis um adiamento da morte.

Essa obra de Gadamer constitui uma grande contribuição para as ciências da saúde à medida que reflete sobre temas atuais com um olhar filosófico e hermenêutico. Por meio de uma linguagem acolhedora, o autor chama o leitor para uma reflexão pautada nas práticas em saúde. O autor também traz um diálogo com grandes pensadores da filosofia, reavivando antigos discursos que podem ser aplicados à prática atual.

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