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Cadernos de Saúde Pública

versão impressa ISSN 0102-311Xversão On-line ISSN 1678-4464

Cad. Saúde Pública v.23 n.10 Rio de Janeiro out. 2007

https://doi.org/10.1590/S0102-311X2007001000028 

RESENHAS BOOK REVIEWS

 

Luiz Jacintho da Silva

Faculdade de Ciências Médicas, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, Brasil

 

 

VÍRUS, MOSQUITOS E MODERNIDADE. A FEBRE AMARELA NO BRASIL ENTRE CIÊNCIA E POLÍTICA. Löwy I. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz; 2006. 427pp.

ISBN: 85-7541-062-8

Dois assuntos, entre outros, não faltam jamais em qualquer discussão sobre a história da saúde pública no Brasil, a febre amarela e o papel da Fundação Rockefeller.

O livro de Ilana Löwy traz uma contribuição significativa. Talvez não seja um livro para iniciantes, mas a quantidade de informação e as polêmicas levantadas são uma fonte inesgotável para discussões e futuras investigações.

O fato de a autora não ser brasileira lhe permite uma certa distância que a nós, brasileiros, muitas vezes, é difícil alcançar. A autora mantém isenção ao longo do texto, eximindo-se de dar valor a esta ou aquela interpretação. Muitas vezes, essa isenção é frustrante, pois se desejaria que a autora enveredasse por uma via mais interpretativa.

De maneira alguma, esse é apenas mais um livro sobre a febre amarela no Brasil, será a grande fonte para discussões em seminários e cursos. A febre amarela, ainda que personagem principal, serve como plataforma para discutir a política científica brasileira e das economias dominantes na primeira metade do século.

A quantidade de informação, no entanto, é surpreendente. A autora buscou informação de uma quantidade imensa de fontes, ainda que muitas não inéditas. Uma frustração, pelo menos para um paulista, é o fato de Emílio Ribas ter sido relegado a um papel secundário, apenas um entusiasta da teoria vetorial. Deve ser lembrado que a primeira epidemia de febre amarela a ser controlada através do controle do seu vetor no Brasil foi a de São Simão, no interior de São Paulo, e não a do Rio de Janeiro.

O impacto da Fundação Rockefeller na formação da saúde pública brasileira não é amplamente explorado: a autora não menciona o antigo Serviço Especial de Saúde Pública, depois Fundação SESP, formado nos anos da Segunda Guerra Mundial sob a cartilha da Fundação Rockefeller. Da mesma maneira, algumas ações inegavelmente significativas, como a erradicação do Anopheles gambiae no Nordeste brasileiro, são minimizadas. A influência da filosofia e da estratégia do controle de vetores desenvolvida na primeira metade do século XX calou fundo na saúde pública brasileira, podendo ainda ser identificada em alguns serviços do país, não obstante as transformações que se processaram nos últimos vinte anos.

São pouco mais de 400 páginas, divididas em sete capítulos, além de uma respeitável bibliografia. A narrativa não é sempre linear, a autora se repete um pouco e, muitas vezes, faz com que o leitor se perca à medida que a discussão se sobrepõe, indo e voltando no tempo. O resultado final, no entanto, é altamente positivo, a tradução é bem cuidada, e a leitura é agradável. Para o leitor já versado na história da febre amarela e seu controle, não há necessidade de ler o livro ordenadamente, mas saltando os capítulos e seções; para os iniciantes, o primeiro capítulo, Uma Ciência que Circula, a Medicina Tropical, é uma introdução muito boa, pois, além de colocar o problema no contexto, discute a abordagem adotada pela autora.

A discussão sobre a assim chamada medicina tropical que emerge no final do século XIX é particularmente interessante para os dias atuais em que a situação sanitária dos países que constituíam as colônias da época não mostra sinais de melhora significativa. Se no tempo da febre amarela a Fundação Rockefeller desempenhou um papel importante, ainda que controvertido, no tempo da aids, temos uma infinidade de organizações atuando sob os mais diversos propósitos, desde a Organização Mundial da Saúde até os Médicos sem Fronteiras e a Fundação Bill e Melinda Gates, e as doenças não são mais denominadas "tropicais", mas, sim, numa tentativa de ser politicamente correto, "negligenciadas".

A discussão sobre as teorias a respeito da febre amarela e as propostas delas decorrentes, no capítulo dois, são informativas, mas há alguns deslizes difíceis de explicar, como o de afirmar que Monteiro Lobato era médico. Não era, formou-se em Direito na Faculdade do Largo de São Francisco, em São Paulo. Esse deslize, no entanto, não compromete a qualidade da discussão e da pesquisa.

A discussão sobre a Fundação Rockefeller e sua atuação internacional e no Brasil, em particular, faz do terceiro capítulo um dos mais interessantes e informativos do livro, ainda que não inclua a atuação da "Missão Rockefeller" nos anos anteriores a 1920.

A impressão que se tem do capítulo sobre as viagens de reconhecimento feitas por sanitaristas brasileiros ao interior do país e, mais tarde, por especialistas da Fundação Rockefeller é que teria sido difícil para a autora resistir discutir o assunto, sem dúvida um dos temas mais interessantes da história da saúde pública brasileira, principalmente por ter recolhido seu material do acervo da Casa de Oswaldo Cruz, Fundação Oswaldo Cruz. A discussão sobre a origem do viscerótomo e dos direitos de propriedade intelectual sobre o seu desenvolvimento é extremamente atual. Se o leitor sente falta de alguma coisa ao longo da leitura é o fato de a autora não ter feito contraponto com a situação atual da saúde pública internacional.

O quinto capítulo, que discute os modelos de controle, é, talvez, o mais atual e pertinente para a discussão da saúde pública hoje. Dengue e febre amarela têm muito em comum, ao se ver a discussão que corria no início do século XX sobre as diferentes abordagens para o controle da febre amarela, é impossível não fazer uma analogia com o controle de dengue no Brasil hoje.

A história do desenvolvimento da vacina já foi contada anteriormente; no sexto capítulo, não há nada realmente novo, mas a discussão é boa, e os fatos, pertinentes, ainda que, algumas vezes, gerem um pouco de confusão. Esse não é um livro para se ler desatentamente.

O sétimo e último capítulo nos traz a uma época mais próxima e discute as políticas recentes de controle das doenças transmitidas por vetor, à luz da filosofia gerada na primeira metade do século XX, realmente faz uma excelente conclusão para o livro.

Em síntese, a obra de Ilana Löwy é de leitura imprescindível para quem se interesse pelo tema.

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