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Cadernos de Saúde Pública

versão impressa ISSN 0102-311Xversão On-line ISSN 1678-4464

Cad. Saúde Pública v.24 n.6 Rio de Janeiro jun. 2008

https://doi.org/10.1590/S0102-311X2008000600026 

CARTAS LETTERS

 

Ocorrência de Lutzomyia longipalpis (Lutz & Neiva, 1912) (Diptera, Psychodidae) em Timóteo, Minas Gerais, Brasil

 

Occurrence of Lutzomyia longipalpis (Lutz & Neiva, 1912) (Diptera, Psychodidae) in Timóteo, Minas Gerais State, Brazil

 

 

Cristian Ferreira de SouzaI; Magno Augusto Zaza BorgesII

IPós-graduação/Especialização em Saúde Pública e Meio Ambiente, Centro Universitário do Leste de Minas, Coronel Fabriciano, Brasil
IICentro de Ciências Biológicas e da Saúde, Universidade Estadual de Montes Claros, Montes Claros, Brasil

Correspondência

 

 

Lutzomyia longipalpis (Lutz & Neiva, 1912) é o mais importante vetor da leishmaniose visceral no Novo Mundo 1. Na América Latina, a leishmaniose visceral está distribuída desde o México até a Argentina e possui como agente etiológico o protozoário Leishmania (Leishmania) infantum chagasi Cunha & Chagas, 1934 2.

A leishmaniose visceral é um grave problema de saúde nos países na América Latina, sendo que, somente o Brasil contribui com 90% dos casos registrados no continente 3. Inicialmente, o vetor se restringia às matas participando do ciclo primário de transmissão da doença 4, embora no final da década de 80 tenha sido verificada a adaptação da espécie aos ambientes urbanos, principalmente na Região Sudeste do Brasil 4,5. A espécie Lu. longipalpis pode ser encontrada em quatro das cinco regiões do país 5.

É uma doença predominante de zonas rurais que tem se tornado prevalente em grandes cidades brasileiras. A leishmaniose visceral é uma doença crônica, grave e de alta letalidade se não tratada. É considerada uma zoonose que acomete o homem e diversas espécies de animais silvestres e domésticos. Os primeiros relatos da doença foram obtidos nas regiões Norte e Nordeste 6. Desde então, a transmissão da enfermidade tem sido descrita em vários municípios de todas as regiões do Brasil 7.

Casos humanos de leishmaniose visceral vêm crescendo nos últimos anos em todo o país, e o Estado de Minas Gerais contribui para este quadro com 119 casos notificados no ano 2000 e 378 em 2005. Grandes cidades mineiras como Belo Horizonte 8 e Montes Claros 9 têm registrado casos da doença. Já no Município de Timóteo, situado na Microrregião do Vale do Aço, não há relatos de casos de leishmaniose visceral, mas apresenta casos esporádicos de leishmaniose tegumentar americana.

O presente trabalho teve como objetivo estudar a fauna de flebotomíneos de Timóteo onde foram registrados casos de leishmaniose tegumentar americana pela Secretaria Municipal de Saúde.

O Município de Timóteo está localizado na Microrregião do Vale do Aço com uma população estimada em 79.735 habitantes em 2005, sendo que destes, 99,76% vivem em área urbana e 0,24% em área rural. Ocupa uma extensão de 145,159km2, definido pelas coordenadas 19º30'36"S e 42º38'16"O. A temperatura média é de 24ºC, o clima predominante é do tipo tropical quente e úmido e possui uma das maiores reservas de Mata Atlântica do Brasil: o Parque Estadual do Rio Doce.

Os flebotomíneos foram capturados utilizando-se a armadilha do tipo New Jersey (Model 50; Light Trap, New Jersey, Estados Unidos), durante um período de trinta dias, entre os meses de dezembro de 2004 e janeiro de 2005. Todas as armadilhas foram instaladas em peridomicílio, no horário das 18:00 às 06:00, em sete bairros: Alvorada, Cachoeira do Vale, Funcionários, Macuco, Primavera, Recanto Verde e São José. Os insetos foram recolhidos diariamente, acondicionados em álcool a 70%, montados e identificados segundo a classificação proposta por Young & Duncan 2.

Dentre as espécies capturadas, o presente trabalho registra a primeira ocorrência de Lu. longipalpis para o Município de Timóteo, uma vez que a espécie não havia sido encontrada em estudo prévio realizado no município 10 ou mesmo nas coletas periódicas realizadas pela Secretaria Municipal de Saúde.

Foram capturados 2.327 espécimes (dados não apresentados) e sete destes pertencentes à espécie Lu. longipalpis. Duas fêmeas da espécie foram encontradas no bairro Cachoeira do Vale e quatro fêmeas e um macho no bairro Primavera. Esses bairros não estão situados próximos ao Vale do Rio Doce, onde estudos sobre a epidemiologia de leishmaniose tegumentar americana já foram realizados e a espécie Lu. longipalpis foi registrada 11.

A nova ocorrência, aliada à baixa incidência da espécie, pode ser interpretada como uma introdução recente, sabendo-se que os bairros onde foram capturadas não estão próximos a áreas de mata e possuem um alto fluxo de automóveis que transitam pela BR 381, que faz a ligação entre Belo Horizonte e cidades da região leste de Minas, sendo a principal via de acesso ao sul da Bahia e às praias do norte do Espírito Santo.

Embora haja a possibilidade de subnotificação dos casos de leishmaniose visceral 12, o Município de Timóteo não apresenta, até o presente momento, nenhum caso humano dessa doença notificado. Por outro lado, a presença do vetor, confirmada no presente trabalho, chama a atenção para implantação de um sistema de vigilância da leishmaniose visceral no município. Entre as medidas preventivas que poderiam ser adotadas, incluem-se o controle de cães errantes e o monitoramento da entrada de cães provenientes de áreas endêmicas. Tais medidas podem diminuir o risco de a leishmaniose visceral vir a se tornar um problema de saúde pública para o Município de Timóteo.

 

Colaboradores

C. F. Souza participou em todas as fases do trabalho, pesquisa bibliográfica, levantamento, análise de dados e redação do artigo. M. A. Z. Borges fez a revisão do manuscrito.

 

Agradecimentos

A Andrey J. de Andrade (Departamento de Parasitologia, Universidade Federal de Minas Gerais) pela confirmação taxonômica das espécies; a Filipe Dantas-Torres (Departamento de Imunologia, Centro de Pesquisas Aggeu Magalhães, Fundação Oswaldo Cruz) pelas sugestões no manuscrito; a Mauro Lúcio N. Lima (Laboratório de Entomologia, Secretaria de Saúde de Minas Gerais) pela credibilidade e suporte técnico dados a esta pesquisa; e a Carlos Alberto Santos (Secretaria Municipal de Saúde de Timóteo) pela colaboração nos trabalhos de campo.

 

1. Forattini O. Entomologia médica: Psychodidae, Phlebotominae, leishmanioses, bartonelose. São Paulo: Editora Edgar Blücher/Editora da Universidade de São Paulo; 1973.         [ Links ]

2. Young DG, Duncan M. Guide to the identification and geographic distribution of Lutzomyia sand flies in Mexico, the West Indies, Central and South America (Diptera: Psychodidae). Memoirs of the American Entomological Institute 1994; 54:1-881.         [ Links ]

3. Soares RPP, Turco SJ. Lutzomyia longipalpis (Diptera: Psychodidae: Phlebotominae): a review. An Acad Bras Ciênc 2003; 75:301-30.         [ Links ]

4. Lainson R. Demographic changes and their influence on the epidemiology of the American leishmaniasis. In: Service MW, editor. Demography of vector-borne diseases. Boca Raton: CRC Press; 1989. p. 85-106.         [ Links ]

5. Aguiar GM, Medeiros WM. Distribuição regional e habitats das espécies de flebotomíneos do Brasil. In: Rangel EF, Lainson R, organizadores. Flebotomíneos do Brasil. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz; 2003. p. 207-56.         [ Links ]

6. Penna HA. Leishmaniose visceral no Brasil. Bras Med 1934; 48:949-50.         [ Links ]

7. Ministério da Saúde. Manual de vigilância e controle da leishmaniose visceral. Brasília: Ministério da Saúde; 2003.         [ Links ]

8. Silva ES, Gontijo CMF, Pacheco RS, Fiúza VOP, Brazil RP. Visceral leishmaniasis in the metropolitan region of Belo Horizonte, state of Minas Gerais, Brazil. Mem Inst Oswaldo Cruz 2001; 96:285-91.         [ Links ]

9. Monteiro EM, Silva JCF, Costa RT, Costa DC, Barata RA, Paula EV, et al. Leishmaniose visceral: estudo de flebotomíneos e infecção canina em Montes Claros. Rev Soc Bras Med Trop 2005; 38: 147-52.         [ Links ]

10. Andrade-Filho JD, Carneiro APS, Lima MLN, Santiago RM, Gama MA, Santos CA, et al. Flebotomíneos de Timóteo, Estado de Minas Gerais, Brasil (Diptera: Psychodidae). Cad Saúde Pública 1997; 13:767-70.         [ Links ]

11. Mayrink W, Williams P, Coelho MV, Dias M, Martins AV, Magalhães PA, et al. Epidemiology of dermal leishmaniasis in the Rio Doce Valley State of Minas Gerais, Brazil. Ann Trop Med Parasitol 1979; 73:123-37.         [ Links ]

12. Dantas-Torres F. Increasing case fatality rate of visceral leishmaniasis in Brazil. Revista Brasileira de Vigilância Sanitária 2005; 1:260-3.         [ Links ]

 

 

Correspondência:
C. F. Souza
Pós-graduação/Especialização em Saúde Pública e Meio Ambiente
Centro Universitário do Leste de Minas
Rua Café Filho 584, Timóteo, MG
35182-096, Brasil
biominas2004@yahoo.com.br

Recebido em 17/Set/2007
Versão final reapresentada em 01/Abr/2008
Aprovado em 09/Abr/2008

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