SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.24 número8Epidemiologia da saúde mental no Brasil índice de autoresíndice de assuntospesquisa de artigos
Home Pagelista alfabética de periódicos  

Serviços Personalizados

Journal

Artigo

Indicadores

Links relacionados

Compartilhar


Cadernos de Saúde Pública

versão impressa ISSN 0102-311Xversão On-line ISSN 1678-4464

Cad. Saúde Pública v.24 n.8 Rio de Janeiro ago. 2008

https://doi.org/10.1590/S0102-311X2008000800025 

RESENHAS BOOK REVIEWS

 

 

Sueli Rezende Cunha

Fundação Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, Brasil. suelirez@uol.com.br

 

 

INOVAÇÃO EM SAÚDE: DILEMAS E DESAFIOS DE UMA INSTITUIÇÃO PÚBLICA. Azevedo N, Gadelha CAG, Ponte CF, Trindade C, Hamilton W, organizadores. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz; 2007. 424 pp.

ISBN: 978-85-7541-134-6

A magnitude do livro reapresenta os esforços de nossos cientistas e técnicos na busca de soluções comprometidas com a realidade social brasileira no que tange à produção de vacinas e imunobiológicos. Fato inquestionável tem sido o papel que o Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos (Bio-Manguinhos) da Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ) representa para a saúde no país.

O livro surge em momento histórico pertinente em que convivem a implementação e consolidação das políticas de ciência e tecnologia no país, fortalecidas pela criação do Departamento de Ciência e Tecnologia (DECIT) do Ministério da Saúde, as secretarias estaduais de C&T, a organização das conferências temáticas sobre o assunto e a publicação da Lei da Inovação, conhecida como a Lei do Bem, em 2 de dezembro de 2004.

A aproximação do setor acadêmico com o setor produtivo nacional e internacional por meio dos espaços gerados, como aponta a primeira parte da obra, intensificou, ampliou e reorganizou práticas na unidade técnica da FIOCRUZ, utilizando-se de intercâmbios de cooperação, fazendo a diferença, introduzindo novidades e revolucionando práticas pelo pioneirismo de seus gestores.

A compreensão histórica desse processo como analisa a primeira parte da obra, aprofunda e esclarece como as políticas governamentais, o investimento público e as necessidades de saúde da população convergem de forma positiva no processo de desenvolvimento tecnológico e implantação de ações inovadoras. Processo significativo no caso de Bio-Manguinhos, como aponta a obra, é a transferência de tecnologias mais adequadas e os convênios e parcerias realizados com outros países, por meio de aperfeiçoamento e treinamento de mão-de-obra. Todos esses elementos são significativos na cadeia inovativa e contribuíram na geração de auto-suficiência em vacinas.

Os autores também apontam com pertinência os entraves e desajustes que podem comprometer a implantação de processos novos, a partilha generosa dos pormenores do processo de auto-suficiência de Bio-Manguinhos evidencia caminhos a serem trilhados por instituições públicas e privadas que têm como meta a ousadia de investir nos processos de inovação, em especial na área de biotecnologia em saúde.

Outro mérito da obra é apresentar de forma clara os movimentos políticos que afetam os processos de desenvolvimento institucional e o seguimento de atividades de potencial para as áreas de saúde, apontando com franqueza como mecanismos gerenciais e operacionais podem comprometer o resultado final dos projetos.

O livro tem o poder de tornar humano, por meio de cada um de seus protagonistas, os sucessos e percalços que a instituição experimentou no processo de consolidação de novas tecnologias. Um grupo de cientistas, técnicos e gestores expõem seus caminhos dentro do processo, de forma coletiva, no qual cada um trouxe a diversidade que possibilitou construir a unidade: Bio-Manguinhos. A contrapartida para solucionar tais problemas vem das políticas institucionais, de mecanismos indutores para novos produtos, modernização de áreas de produção, do fortalecimento da estrutura interna institucional, e mais recentemente em âmbito nacional a modernização do INPI (Instituto Nacional de Propriedade Industrial).

E por fim, o capítulo dinâmica industrial e estratégias de inovação em vacinas nos apresenta um consistente referencial teórico sobre o tema, que conduz os leitores a um mergulho no mundo competitivo sob diferentes lógicas, aplicando este referencial teórico com muita propriedade à área das vacinas. O capítulo lança reflexões sobre o desafio de unir estratégias competitivas, industriais e tecnológicas à realidade social. Nesse sentido, não há como não pensar sobre a importância de buscar inovações radicais, associadas às mudanças de modelos organizacionais e gerenciais trazendo resultados significativos como retorno dos investimentos econômicos.

A comprovação dos resultados atingidos são visíveis através das análises mostradas em um conjunto de gráficos e tabelas, Bio-Manguinhos com certeza cumpre seu papel frente à sociedade brasileira, com um conjunto de quesitos, em especial o alto investimento realizado pelo governo federal para atender ao mercado de saúde do país.

O livro reforça resultados de outros estudos da área, amplamente discutidos em encontros como o I Seminário do Complexo Industrial em Saúde no Rio de Janeiro, encontros sobre inovação e propriedade intelectual desenvolvidos pela Rede de Propriedade Intelectual, Cooperação, Negociação e Comercialização de Tecnologia (REPICT), traduzindo sempre a desarticulação existente no país, entre o setor acadêmico e o setor produtivo.

Este modelo centrado na produção científica e na publicação de artigos tem se mostrado insuficiente para resolver os problemas nacionais e estimular o crescimento real do país. Já se sabe, por intermédio das discussões realizadas, que uma nação não se faz somente com homens e livros; sem a efetiva aplicação de soluções para sanar problemas nacionais, muito pouco se pode acrescentar às nuances deste mundo fértil de idéias, mas pobre em aplicações.

Existe, e isto é real, uma desconexão entre os vários segmentos da cadeia produtiva e do setor consumidor. Produtos que não queremos para as necessidades que não temos!

É sempre bom reforçar os exemplos de sucesso, por isto a obra estaria mais rica se um de seus capítulos fosse destinado à experiência do Instituto de Tecnologia em Fármacos (Far-Manguinhos) da FIOCRUZ, segmento de um mesmo esforço, para atender as demandas de saúde da nossa sociedade. Quem produz está em relação direta com os sistemas de pesquisa e desenvolvimento tecnológico. Num país de cobertor curto e de condições de saúde tão desfavoráveis, todo uso dos investimentos públicos deve ser religiosamente utilizado. Acrescer a experiência de unidades afins, otimiza os resultados a serem atingidos. O desenvolvimento dos processos de patente e transferência de tecnologia e a experiência da GESTEC-NIT seriam de grande valia para o público que terá acesso à obra.

Esses esforços são parte da história da construção política da cultura de inovação na FIOCRUZ e, portanto, protagonistas importantes poderiam ter sido ouvidos na coletânea dos depoimentos. A recente criação dos Núcleos de Inovação Tecnológica reforça a importância de processos administrativos e gerenciais na composição da rede de relações para o sucesso dos processos de Ciência, Tecnologia & Inovação.

A cultura do aprender a aprender e da ciência com consciência também se fazem presentes na leitura da obra. Para os futuros leitores atentos não faltarão perguntas e reflexões, algumas anuncio aqui após mergulhar no oceano que representa o tema de inovação em Saúde:

• Os investimentos em C&T no país nos últimos anos foram intensificados, a aquisição de uma fábrica para a construção do Centro Tecnológico de Medicamentos deve representar acima dos interesses políticos a manutenção dos investimentos. Como manter os altos custos da política de inovação no país ainda com tantas carências?

• Como trabalhar inovação frente aos impedimentos legais e burocráticos que dificultam a agilidade que exigem os processos de inovação?

• Frente ao recente surto de dengue no Rio de Janeiro, em especial em Jacarepaguá, e o enfrentamento de problemas antigos, como não pensar na abordagem social da doença?

• Quais são as outras necessidades de inovação que não vacinas e fármacos para promover saúde e evitar mortes? Sabe-se que muito se investiu em programas de indução na busca de vacina para a dengue.

• O complexo industrial de saúde, no segmento de dispositivos e equipamentos, ainda pouco explorado no Brasil pelos programas de inovação, deixa à margem crianças e idosos, apesar de muitos esforços terem sido empreendidos com os investimentos nos Institutos do Milênio.

• Quais os mecanismos que as instituições de pesquisa vão aplicar com a maior urgência para que o pesquisador possa estar no setor de produção, desenvolvendo a tecnologia apropriada e prontamente aplicada às necessidades de saúde? Quem dará o primeiro passo ao deixar o barco seguro da instituição e navegar nos mares das possibilidades de um produto chegar ao seu destino: o uso pelos consumidores? Como a Lei da Inovação se implantará no país?

Enfim, o livro no futuro pode ser desdobrado em pequemos fascículos, uma coleção, mais sintética e de alto impacto na sociedade acadêmica e setor produtivo, apresentando modelos bem sucedidos de idéias, protótipo, produtos e soluções, atendendo às necessidades de saúde e gerando riquezas, emprego e divisas para o país com tantos doutores qualificados.

A experiência na direção do NUPCTIS (Núcleo de Pesquisa em Ciência, Tecnologia e Inovação em Saúde) do Instituto Fernandes Figueira, FIOCRUZ, durante quatro anos, construindo junto com a discussão política do país, sua viabilidade, mostrou que devemos ter ouvidos abertos. Uma escuta sensível às necessidades e à prontidão para ação, que envolve ousadia para vencer velhos paradigmas. Uma ciência com consciência é essencial neste momento do país.

Velhos desafios que retornam, como o enfrentamento da dengue neste momento, a despeito de todos os investimentos realizados em áreas de C&T, denotam a necessidade de reflexões profundas, mudanças de rotas, mas acima de tudo, ampliar as lentes, olhar ao redor, buscar novas referências; não só preservar as conquistas como a de Bio-Manguinhos, mas especialmente investir também em outras áreas de Promoção da Saúde de forma efetiva.

Por onde começar a vencer a doença senão pela sensatez do uso de um conceito positivo de saúde? A Declaração de Alma-Ata em 1962, longe de ser alcançada, depende em muito por onde caminha o processo de inovação. A Organização Mundial da Saúde (OMS) criou o Dia Mundial da Saúde, 7 de abril, confirmando a necessidade de promoção da saúde e educação como pré-requisitos para o desenvolvimento e justiça social. Recentemente a saúde foi considerada um bem econômico.

Enfim, no espaço de reflexão e abertura de idéias, é significativo apontar dois sistemas tradicionais de saúde no mundo: Índia e China que optaram por sistemas de promoção da saúde, técnicas e tratamentos, utilizando alternativas para a abordagem de saúde que mantiveram seu povo saudável por milênios.

Nos estudos desenvolvidos sobre as crianças dependentes de tecnologia no Brasil, por exemplo, nos deparamos com a ponta de um grande iceberg, oculto por trás do processo de adoecimento, uma série de causas evitáveis, que a despeito do alto custo de toda tecnologia investida para sua recuperação, não era suficiente para manter suas condições de saúde.

Pontos diferentes do sistema de produção de soluções usando-se tecnologias (vacinas, dispositivos e equipamentos) se fundem num processo irmão: as condições de vida, agravos sociais, estilos de vida inadequados, hábitos pouco saudáveis.

Apresentar ao final essas considerações é como um estímulo e um desafio, para que nas futuras coletâneas sobre inovação, se faça uma mistura, incluindo a questão dos setores prestadores de serviço e as escolas de formação como partes essenciais na compreensão da dinâmica da cadeia do complexo industrial de saúde. A formação com a visão da cultura da inovação pode fazer toda a diferença no interior do sistema.

Desejar o sucesso da obra, o alcance que ela merece, e que realize na íntegra a difusão desta experiência para o maior número de pessoas possíveis, tornando a experiência de Bio-Manguinhos no setor de inovação adaptada e reproduzida para outros segmentos do setor saúde.

Creative Commons License Todo o conteúdo deste periódico, exceto onde está identificado, está licenciado sob uma Licença Creative Commons