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Cadernos de Saúde Pública

Print version ISSN 0102-311X

Cad. Saúde Pública vol.25 no.3 Rio de Janeiro Mar. 2009

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-311X2009000300028 

RESENHAS BOOK REVIEWS

 

 

Felipe A. P. L. Costa

Viçosa, Brasil. meiterer@hotmail.com

 

 

DICIONÁRIO DE BIOGRAFIAS CIENTÍFICAS. Benjamin C, editor. Rio de Janeiro: Contraponto; 2007.2.696 pp.

ISBN: 9788585910921

NEW DICTIONARY OF SCIENTIFIC BIOGRAPHY. Koertge N, editor. New York: Thomson Gale; 2007. 3.400 pp.

ISBN: 978-0684313207

Dictionary of Scientific Biography: o velho, o novo e a edição brasileira

O American Council of Learned Societies (ACLS) é uma associação norte-americana fundada em 1919 e que reúne hoje dezenas de organizações acadêmicas. Entre as obras que organizou, cabe citar o Dictionary of Scientific Biography (DSB), coleção em 16 volumes (o volume 15 é o Suplemento I e o 16, o índice), publicada entre 1970 e 1980, contendo informações sobre o trabalho de cientistas de todo o mundo, da Antigüidade até o século XX.

O editor geral do DSB foi Charles C. Gillispie, professor de história da ciência da Universidade de Princeton (Princeton, Estados Unidos). Centenas de colaboradores de vários países participaram do projeto, escrevendo notas biográficas e fazendo um balanço crítico das contribuições científicas de cada biografado. As entradas - muitas ilustradas - vêm acompanhadas de uma pequena bibliografia. O critério inicial foi o de incluir apenas cientistas falecidos que tivessem contribuído de modo significativo para o desenvolvimento das ciências naturais ou da matemática.

A publicação foi um sucesso. Em 1981, apareceu uma versão concisa da coleção em um único volume. Em 1990, foi publicado o Suplemento II, em dois volumes (17 e 18), com biografias adicionais. Nesses dois volumes, cujo editor geral foi Frederic L. Holmes (1932-2003), então professor de história da medicina da Universidade de Yale (New Haven, Estados Unidos), foram incluídos, além de cientistas naturais e matemáticos, alguns nomes oriundos das ciências sociais e humanas - notadamente psicologia, antropologia, sociologia e economia. Em 2001, apareceu uma segunda edição da versão em volume único de 1981, contendo o material suplementar publicado em 1990.

O DSB era então uma coleção em 18 volumes, contendo notas biográficas e comentários sobre o trabalho de mais de cinco mil cientistas (notadamente cientistas naturais) e matemáticos, da Antiguidade até a década de 1980.

O novo DSB

Em dezembro de 2007, após um anúncio prévio divulgado com meses de antecedência, foi publicado o New Dictionary of Scientific Biography (NDSB), obra igualmente organizada pelo ACLS.

O NDSB é uma coleção em 8 volumes (o volume 8 é o índice), contendo aproximadamente 800 entradas adicionais em relação aos 18 volumes do velho DSB. Dessas 800 entradas, cerca de 500 tratam de cientistas que morreram nas últimas décadas. Alguns, na verdade, faleceram muito recentemente, como foi o caso de Stanley L. Miller, pioneiro no estudo da Terra pré-biótica, falecido em maio de 2007. (A agilidade dos editores não foi suficiente para incluir Leslie E. Orgel, outro renomado estudioso da Terra pré-biótica, falecido em outubro de 2007). Outras 75 entradas tratam de cientistas que faleceram há mais tempo, mas que foram "esquecidos" e ficaram de fora do DSB. Esse foi o caso, por exemplo, de Wladimir P. Köppen (1846-1940), fundador da moderna climatologia, Alfred C. Kinsey (1894-1956), pioneiro no estudo da sexualidade humana, e Jean Piaget (1896-1980), criador da epistemologia genética. As duzentas e tantas entradas restantes são acréscimos, correções ou variações a respeito de cientistas que já haviam sido tratados antes. Juntas, as duas coleções somam agora 26 volumes e quase 6 mil biografados.

A editora geral do NDSB foi Noretta Koertge, então professora de filosofia da ciência da Universidade de Indiana (Bloomington, Estados Unidos). Dezenas de colaboradores de várias partes do mundo participaram do projeto, como a historiadora brasileira Christina Helena Barboza, do Museu de Astronomia e Ciências Afins (Rio de Janeiro). Barboza é autora da entrada sobre o astrônomo francês Emmanuel-Bernardin Liais (1826-1900), que morou e trabalhou no Brasil durante vários anos.

Como obras de referências, o DSB e o NDSB podem ser muito úteis ao leitor interessado em conhecer o trabalho de um amplo e variado leque de cientistas. Como ocorre com toda enciclopédia, porém, ambas enfrentam um dilema: achar um meio-termo entre o número de biografados e a profundidade com que se pode tratar de cada um deles. Não é difícil perceber, por exemplo, que nomes importantes continuam sendo "esquecidos" - como foi o caso de Georgii F. Gause (1910-1986), fomulador do princípio da exclusão competitiva; John Maynard Smith (1920-2004), um gigante da biologia evolutiva do século XX; Clair Cameron Patterson (1922-1995), autor da estimativa atual para a idade da Terra e pioneiro na luta contra o uso de metais pesados; e Cesare [César] Lattes (1924-2005), descobridor do méson pi. Em todo caso, assim como o NDSB veio complementar o DSB, é provável que em futuro próximo surjam suplementos adicionais que façam a mesma coisa em relação ao NDSB.

Edição brasileira

Mais ou menos na mesma época em que o NDSB foi lançado, a editora brasileira Contraponto lançava aqui o Dicionário de Biografias Científicas, versão do DSB em português condensada em três volumes. Houve algum barulho na imprensa; de modo geral, no entanto, os comentários mais enalteciam do que ponderavam sobre a obra. Não chegou a ser dito, por exemplo, que o Dicionário de Biografias Científicas, a despeito de ser um empreendimento editorial louvável, representa uma versão desatualizada, parcial e tendenciosa em relação à obra original.

Desatualizada porque há um lapso considerável de tempo entre o material de onde foram retiradas as notas para a versão em português e o material hoje disponível. Na edição da Contraponto, por exemplo, a entrada mais recente diz respeito a um cientista que faleceu em 1984. (O editor se equivoca ao afirmar, na Apresentação, p. 31, que o biografado mais recente faleceu em 1981.) Além disso, nos casos de cientistas que aparecem tanto no DSB como no NDSB, o Dicionário de Biografias Científicas usa tão-somente a versão do primeiro.

Parcial porque os 329 nomes escolhidos para a edição brasileira equivalem a uma amostra diminuta em relação ao material original: algo entre 5% e 7%, dependendo do acervo usado para comparação (DSB e NDSB ou apenas DSB). Em todo caso, um percentual bem inferior ao que o leitor é levado a imaginar ao ler o seguinte trecho da Apresentação (p. 31): "Para oferecer o Dicionário ao leitor brasileiro, a Contraponto teve que realizar uma adaptação: selecionamos os 329 ensaios que consideramos mais importantes e os apresentamos na íntegra. Nossa edição, com aproximadamente 8.250 laudas de texto, corresponde a cerca de 25% da edição original, em tamanho, mas nenhum ensaio sofreu mutilação".

O editor está falando em percentual de laudas, uma informação meio descabida para os leitores; seria mais apropriado precisar o tamanho relativo da obra em percentual de entradas.

Por fim, é tendenciosa porque quase metade dos 329 nomes escolhidos é composta por matemáticos (101 nomes) ou filósofos (52). Distorção semelhante ocorre entre os cientistas naturais; são 56 físicos e 21 astrônomos, por exemplo, contra 17 químicos, sete geocientistas e apenas 34 biólogos (nenhum ecólogo!). Não é o caso de listar aqui os nomes que lamentavelmente ficaram de fora, mas cabe registrar que entre eles estão cientistas que viveram e trabalharam no país, como Fritz Müller (1821-1897) e Eugen Warming (1841-1924).

Nenhum desses problemas, porém, parece insuperável. Fica aqui, portanto, a expectativa de que os editores do Dicionário de Biografias Científicas continuem trabalhando duro e possam, em futuro próximo, oferecer ao leitor brasileiro material suplementar que venha reparar algumas das distorções encontradas nesses três primeiros volumes.