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Cadernos de Saúde Pública

versão impressa ISSN 0102-311X

Cad. Saúde Pública vol.27 no.1 Rio de Janeiro jan. 2011

https://doi.org/10.1590/S0102-311X2011000100022 

RESENHAS BOOK REVIEWS

 

 

Luciane Ouriques Ferreira

Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca, Fundação Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, Brasil

 

 

'NOSSO REMÉDIO É A PALAVRA': UMA ETNOGRAFIA SOBRE O MODELO TERAPÊUTICO DE ALCOÓLICOS ANÔNIMOS. Campos EA. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz; 2010. 192 p.

ISBN: 978-85-7541-190-2

Ao ser compreendido como um problema de saúde pública, o alcoolismo é definido pelas ciências biomédicas como uma doença que assola alguns indivíduos que possuem predisposição orgânica para tornarem-se dependentes do álcool. Por isso, ela se manifestaria igualmente em todas as sociedades. Entretanto, estudos antropológicos demonstram que o alcoolismo assume configurações particulares de acordo com o contexto sociocultural onde ele acontece. Se as causas do alcoolismo são múltiplas e determinadas por esses contextos, as terapias utilizadas para enfrentá-lo também são constructos culturais e precisam ser compreendidas no universo social em que são colocadas em prática.

O livro 'Nosso Remédio É a Palavra': Uma Etnografia sobre o Modelo Terapêutico de Alcoólicos Anônimos traz uma importante contribuição para a compreensão do fenômeno do alcoolismo no ponto de vista dos Alcoólicos Anônimos (A.A.). Ele é a edição da Tese de Doutorado de Edemilson Antunes de Campos defendida em 2005. A pesquisa etnográfica, realizada entre os anos de 2001 e 2002 junto ao Grupo Sapopemba da cidade de São Paulo, teve como objeto entender de que maneira o modelo terapêutico dos A.A. institui um processo de fabricação da "pessoa alcoólica" e de reconstrução subjetiva dos seus membros.

No universo sociocultural dos A.A., o álcool e o alcoolismo funcionam como operadores simbólicos a partir dos quais os seus membros constroem um sentido sobre suas experiências. É durante as reuniões dos A.A., quando os ex-bebedores narram uns para os outros as suas experiências com o álcool, que os sentidos atribuídos ao alcoolismo emergem. Essas narrativas, chamadas de partilhas, possuem efeito terapêutico por permitir a recuperação e a reordenação da vida social de seus membros.

Sendo assim, as reuniões dos A.A. são rituais terapêuticos que regulamentam atitudes, gestos e palavras de modo a instituir uma cultura de recuperação do alcoolismo. Nesses eventos comunicativos as pessoas revivem o mito de origem da irmandade expresso nos 12 passos e nas 12 tradições. Enquanto os 12 passos formam um conjunto de princípios que contribuem para controlar a compulsão pelo álcool e para construir a identidade de doente alcoólico, as 12 tradições consolidam o espaço institucional dos A.A.

Os A.A. disponibilizam aos seus integrantes uma linguagem da doença por meio da qual eles podem falar sobre suas experiências com o álcool. Uma das categorias estruturantes dessa linguagem e que orienta as ações dos seus membros é a de doença alcoólica. Enquanto doença crônica e fatal, o alcoolismo combina uma predisposição orgânica a uma obsessão mental pelo álcool. Ela também constitui uma doença espiritual associada à dimensão moral da pessoa por alterar seus comportamentos e comprometer suas relações familiares e profissionais. O alcoolismo tem sua origem no próprio indivíduo que tende a tornar-se dependente das bebidas alcoólicas.

Para alcançar a sobriedade, objetivo maior dos A.A., a pessoa necessita se abster do álcool e de todas as coisas a ele associadas: é preciso "evitar o primeiro gole!". Portanto, se o indivíduo não é responsável pela aquisição do alcoolismo, ele o é por sua recuperação. Nesse caso, o modelo terapêutico dos A.A. redimensionaria os valores do individualismo moderno da igualdade e da liberdade, estabelecendo que cabe ao indivíduo a decisão e a atitude de cuidar de si, mas, que ele precisa do auxilio da irmandade para se recuperar e restabelecer os vínculos sociais perdidos no tempo do alcoolismo ativo.

Dessa forma, o modelo terapêutico dos A.A. seria informado por duas lógicas distintas: uma "terapêutica" centrada no indivíduo e associada à construção da identidade de doente alcoólico; e outra "cultural" ligada aos valores estruturantes do universo social que os seus membros estão inseridos - a "família" e o "trabalho".

Os A.A. instauram um regime de alteridade baseado na fabricação de um corpo e de um espírito doentes onde o alcoolismo é situado como um "outro" que a pessoa traz consigo. Para tanto eles operam com o "dispositivo de incorporação da doença como alteridade no próprio corpo", o que permite à pessoa internalizar a condição de doente alcoólico e aprender a conviver e a controlar esse "outro" que existe dentro de si. Esse regime contribui para delinear os contornos da pessoa alcoólica e é por meio das partilhas realizadas durante as reuniões que ele é continuamente reafirmado.

A memória coletiva construída a partir da troca estabelecida entre os ex-bebedores os auxilia em sua recuperação ao lembrá-los constantemente da condição de dependentes do álcool compartilhada por eles. Aqui, a palavra é o remédio utilizado para que os A.A. se protejam contra o alcoolismo que trazem dentro de si, mantendo-o sob controle.

Ao instaurar esse processo de construção da pessoa alcoólica, o programa de recuperação dos A.A. propiciaria então um deslocamento simbólico no que se refere tanto à redefinição do sentido do alcoolismo, que passa a ser entendido como doença, quanto à posição social ocupada pelo bebedor: de um lugar marginal e estigmatizado para o de doente alcoólico em recuperação. Essa passagem é permitida pela condição de anonimato assumida pelo indivíduo ao ingressar nos A.A. Nesse contexto, opera um modelo de gestão coletiva da saúde, em que os princípios são colocados acima das personalidades.

Apesar de o livro ser bastante repetitivo, a perspectiva adotada por Campos é bastante profícua. Entretanto, gostaria de pontuar tanto o que considero os pontos fortes quanto os que poderiam ter sido melhor dimensionados pelo autor.

O livro escrito por Campos demonstra que para se compreender o alcoolismo é preciso considerar as dimensões culturais e coletivas constitutivas deste fenômeno. A análise focada no processo de fabricação da pessoa de modo associado à construção cultural da doença alcoólica contribui para a compreensão situada do modelo terapêutico dos A.A. Ao reconhecer que esse modelo está inscrito em um universo sociocultural particular, o texto torna claro que ele não se aplica a contextos sociais que operam com noções de pessoas distintas da idéia de indivíduo moderno vigente na sociedade ocidental.

As reuniões da irmandade são eventos comunicativos que possibilitam tanto a emergência da definição do alcoolismo como uma doença crônica e fatal quanto instauram um processo de construção da pessoa alcoólica, instituindo as condições necessárias para a eficácia simbólica do próprio programa de recuperação. Em última instância, é esse modelo que emerge e se atualiza enquanto um sistema simbólico por meio das palavras proferidas pelos seus membros durante esses eventos comunicativos.

Nesse caso, o modelo terapêutico dos A.A., de fato, não opera com duas lógicas distintas - uma terapêutica e a outra cultural. A terapêutica também se constitui em um constructo cultural produzido pela irmandade, estando associada aos sentidos atribuídos ao alcoolismo e ao processo de construção da pessoa alcoólica. Sendo assim, para compreendermos a eficácia desse modelo é preciso tanto considerar as relações existentes entre os múltiplos aspectos que conformam a cultura instituída pelos A.A. quanto atentar para o poder simbólico que, ao informar a linguagem da doença acessada pelos seus membros, institui a realidade da recuperação, a identidade de doentes alcoólicos e faz da palavra um remédio utilizado no combate ao alcoolismo.

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