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Cadernos de Saúde Pública

versão impressa ISSN 0102-311X

Cad. Saúde Pública vol.28 no.12 Rio de Janeiro dez. 2012

https://doi.org/10.1590/S0102-311X2012001400023 

RESENHAS BOOK REVIEWS

 

Categoria vida: reflexões para uma nova biologia

 

 

Sandra Caponi

Departamento de Sociologia e Ciências Políticas, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, Brasil

 

 

CATEGORIA VIDA: REFLEXÕES PARA UMA NOVA BIOLOGIA. Czeresnia D. São Paulo: Editora Unesp/Rio de Janeiro: Editora Fiocruz; 2012. 135 p.

ISBN: 978-85-393-0240-6 [Editora Unesp]
ISBN: 978-85-7541-234-3 [Editora Fiocruz]

 

A centralidade do biológico na sociedade do risco

O livro Categoria Vida: Reflexões para Uma Nova Biologia de autoria de Dina Czeresnia, recentemente editado em pareceria pelas editoras Fiocruz e Unesp, apresenta uma instigante e bem argumentada reflexão sobre os alcances e limites da centralidade que a categoria vida tem alcançado na sociedade contemporânea. A autora toma como ponto de partida para sua análise a caracterização da sociedade contemporânea como "sociedade de risco", seguindo a trilha aberta por autores como Giddens, Beck e Robert Castel dentre outros.

Neste livro, que é o resultado de uma pesquisa realizada num estagio de pós-doutorado, podemos observar certa continuidade temática com os trabalhos que a autora dedicou anteriormente aos conceitos de saúde e doença, à problemática do risco, e ao discurso epidemiológico. No entanto, as reflexões que aparecem nos cinco capítulos do livro permitem reelaborar tais questões de um modo absolutamente inovador, atual e desafiador.

Ocorre que os problemas que reaparecem ao longo dos diferentes trabalhos de Dina Czeresnia perseguem um mesmo objetivo: desmontar as certezas tranquilizadoras, as verdades aceitas, a reprodução muitas vezes irreflexiva de modelos metodológicos considerados inquestionáveis. Este novo livro problematiza esse arsenal técnico-metodológico sobre o qual se construíram as certezas daqueles que sonham com a conquistar da segurança, pela antecipação dos riscos. Trata-se de um convite para pensar de outro modo essas categorias sobre as quais se alicerça todo o edifício da segurança e da prevenção. Sucedem-se, assim, nos cinco capítulos que compõem o livro, discussões teóricas sólidas e muito bem argumentadas sobre o conceito de risco, a normatividade, os alcances e limites das ciências da vida, a relação indivíduo-população e sua vinculação com o problema da alteridade, para finalizar com a análise de um problema filosófico clássico como é a dualidade mente-corpo.

Logo, o primeiro capítulo denominado Ciência, Técnica e Cultura: O Conceito de Risco Epidemiológico, problematiza o reducionismo operado na categoria vida nos estudos dedicados à antecipação de riscos, de tal modo que todas as dimensões próprias da condição humana teriam ficado reduzidas a um registro considerado privilegiado: a dimensão biológica, corporal de nossa existência. É nesse primeiro capítulo que Czeresnia demarca seu campo de analise. Estabelecendo um diálogo com autores clássicos originários do campo da sociologia e da filosofia como Giddens, Beck, Robert Castel e Michel Foucault, constrói sólidos argumentos que nos permitem ressituar a problemática do risco e repensar as estratégias de produção desses discursos e saberes que recriam e multiplicam os medos e as ameaças próprios da sociedade de segurança.

Pois, como afirma a autora nesse primeiro capítulo, lembrando a Richard Sennett: "A lógica da defesa acima de tudo, que impera em uma sociedade que procura incessantemente controlar riscos, acaba por transformar-se no mais grave perigo, pois estes não desaparecem simplesmente porque procuremos evitá-los" (p. 23-4). Abre-se assim um diálogo entre ciências humanas, ciências da vida e estudos epidemiológicos que continuará ao longo dos sucessivos capítulos do livro.

Os capítulos segundo e terceiro, denominados respectivamente Interfaces do Corpo: Integração da Alteridade no Conceito de Doença e Constituição Epidêmica, Physis e Conhecimento Epidemiológico Moderno, instalam uma perspectiva de análise histórica sobre a categoria "vida". Ambos os capítulos estão dedicados a situar em perspectiva histórica a abordagem contemporânea do processo saúde-doença, evidenciando o apagamento ou desarticulação desse modo de compreender a doença que era próprio do conceito clássico de Physis, em que a dimensão biológica era aliada e solidária a um questionamento mais amplo e complexo sobre as diferentes dimensões da existência humana.

O livro mostra que a supremacia concedida à ordem biológica própria da medicina moderna não é consubstancial ao saber médico e que é possível pensar organizações de práticas, de recursos humanos e de formação de profissionais em que possam ser integradas essas dimensões sociais e psicológicas do ser humano, hoje excluídas do campo da medicina. Um argumento convincente apresentado no livro: para a autora, o que possibilitou e legitimou a exclusão da alteridade do campo da medicina foi o reconhecimento e a integração da lógica da morte na experiência médica moderna. Em contrapartida, o reconhecimento da alteridade, que implica um momento essencial no reconhecimento de si, permitiria a nós repensar o processo saúde-doença desde uma perspectiva integradora. De modo que "a constituição de um organismo saudável dependeria, não de evitar o contato com causas ou riscos, mas de saber interagir, harmonizando quantidades, tempos, velocidades e forças" (p. 43).

O quarto capítulo denomina-se Canguilhem e o Caráter Filosófico das Ciências da Vida. Nesse texto, que toma como base os estudos que Roberto Machado dedica a Georges Canguilhem, a autora direciona seu olhar para a articulação entre filosofia e ciência. Mais especificamente, refere-se à operatividade das reflexões epistemológicas de Canguilhem, particularmente a sua proposta de uma história epistemológica dos conceitos, para problematizar as atuais dificuldades que percorrem o campo das ciências da vida. Para a autora, a maior contribuição da reflexão teórica e epistemológica que Canguilhem dedica às ciências da vida estaria na tematização da normatividade vital, diretamente vinculada às dificuldades implícitas na demarcação entre o Normal e o Patológico. O mesmo conceito de normatividade vital será problematizado no último capitulo do livro, mas agora por referência a outro dualismo clássico para a reflexão filosófica, já não a dualidade normal-patológico, mas a dualidade corpo-alma.

O problema central que percorre este capítulo é o debate com as teorias reducionistas para as quais seria possível explicar os processos complexos do pensamento, da imaginação ou da ética por referência à dimensão biológica de nossa existência, a isso que compartilhamos com os animais. Podemos resumir a problemática central desse capitulo nas seguintes perguntas enunciadas pela autora: "O homem seria uma emergência radicalmente distinta dos outros seres vivos? Considerando-o um ser vivo decorrente do processo de evolução biológica, como entender o surgimento de propriedades tão fantásticas como as que o define? Se existe mente humana, porque, guardando a relativização necessária, não seria possível uma ‘mente' celular?" (p. 93).

O livro finaliza com uma conclusão que é na verdade um sexto capítulo, ali são retomadas as questões desenvolvidas nos capítulos anteriores, estabelecendo um diálogo extremamente frutífero com Hannah Arendt e Michel Foucault. Ambos aparecem aqui como um auxilio teórico para derrubar as barreiras metodológicas ou teóricas existentes entre ciências humanas e ciências da vida. Paralelamente, essa reflexão levará Czeresnia a problematizar, já no interior do campo da vida, as atuais controvérsias suscitadas em torno à teoria da evolução de Charles Darwin, no que se refere à articulação entre indivíduo e médio, biologia funcional e biologia evolutiva.

Resta convidar os leitores a aceitar o desafio de leitura proposto por Czeresnia em seu novo livro. Trata-se, sem dúvida, de um auxílio inestimável para questionar as certezas desse saber biomédico que, para além de todas as conquistas reais atingidas, adquiriu em nossa modernidade um estatuto de verdade hegemônica, com a pretensão abusiva de resolver todos os problemas humanos.

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