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Cadernos de Saúde Pública

versão impressa ISSN 0102-311X

Cad. Saúde Pública vol.30 no.10 Rio de Janeiro out. 2014

https://doi.org/10.1590/0102-311XED011014 

EDITORIAL

EpiVix: epidemiologia brasileira em transição


A recente realização do IX Congresso Brasileiro de Epidemiologia em Vitória, Espírito Santo, Brasil (EpiVix 2014) propicia reflexões sobre o desenvolvimento da epidemiologia brasileira e seus desafios. O EpiVix se destacou na tarefa de valorizar a história dos congressos de epidemiologia, prestando as devidas honras aos que se dedicaram a organizar os congressos anteriores dos quais este é legítimo subsidiário. Emblemática, nesse sentido, a criação da Conferência “Sergio Koifman”, Presidente do Congresso de Epidemiologia do Rio de Janeiro (1998), grande pesquisador e figura humana notável, que nos deixou precocemente.

Esse congresso foi um marco para a epidemiologia brasileira. A começar pela atualidade de seu tema: As Fronteiras da Epidemiologia Contemporânea: do Conhecimento Científico à Ação, reforçando o caráter científico da epidemiologia e sua conformação como um âmbito de práticas. A estrututação das atividades do congresso salientou um dos grandes desafios atuais da epidemiologia: conjugar o aprimoramento teórico-metodológico com uma maior e mais profícua articulação com as outras disciplinas constitutivas da Saúde Coletiva. Sem uma abordagem integrada que permita o fortalecimento das suas bases disciplinares e, simultaneamente, expressar seu compromisso com o aprofundamento do caráter interdisciplinar da Saúde Coletiva, não há futuro promissor para a epidemiologia brasileira.

Dentre tantos desafios passíveis de serem elencados, esse parece fundamental, justamente pela aparente dualidade dos movimentos necessários para superá-lo. No campo teórico-metodológico avançou-se muito, talvez mais no que diz respeito à disponibilidade e incorporação de ferramentas e técnicas, do que no desenvolvimento de concepções teóricas que fundamentem abordagens analíticas de fenômenos complexos de forma mais sistêmica. Nesse desbalanceamento reside o risco (para não fugir do jargão epidemiológico) de uma estagnação hiperprodutiva, isto é, a produção desenfreada de peças publicáveis sem inovação ou originalidade e com capacidade limitada de se traduzir em transformações sociais. No que tange às tensas relações entre a epidemiologia, políticas, planejamento e gestão em saúde, e ciências sociais e humanas em saúde, penso ser necessário, sem ignorar uma perspectiva histórica para este problema, a identificação e o enfrentamento de novas fontes de esgarçamento que, eventualmente, poderão afetar o próprio futuro da epidemiologia como espaço de construção de saberes e práticas no âmbito da Saúde Coletiva.

É claro que os vetores que fomentam tais questões não residem somente nos dilemas históricos que influenciaram a própria formação e desenvolvimento da epidemiologia, mas também estão no contexto em que as práticas estão inseridas. O produtivismo acrítico e conservador em suas bases teóricas e metodológicas, ou “o mais do mesmo” (Carvalho MS et al., Cad Saúde Pública 2013; 29:2141-3), encontrará raízes também nas estruturas de avaliação de pesquisadores e programas de pós-graduação que não lograram ainda um meio de valorizar a qualidade em detrimento da quantidade, e na própria dinâmica da formação pós-graduada que, no mais das vezes, contribui para a reprodução destes vícios.

Jogar luz nessas questões foi o principal legado do EpiVix, resta-nos aproveitar o momento para buscar soluções e instaurar as transformações necessárias para garantir a formação de uma geração que promova um novo ciclo virtuoso para a epidemiologia brasileira.

Guilherme L. Werneck
Editor Associado

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