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vol.30 número10BASTA APLICAR UMA INJEÇÃO? DESAFIOS E CONTRADIÇÕES DA SAÚDE PÚBLICA NOS TEMPOS DE JK (1956-1961). Muniz ES. Belo Horizonte: Fino Traço/Campina Grande: EDUEPB/Rio de Janeiro: Editora Fiocruz; 2013. 104 p. índice de autoresíndice de assuntospesquisa de artigos
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Cadernos de Saúde Pública

versão impressa ISSN 0102-311X

Cad. Saúde Pública vol.30 no.10 Rio de Janeiro out. 2014

https://doi.org/10.1590/0102-311XRE021014 

RESENHAS

OS SENTIDOS DA SAÚDE E DA DOENÇA. Czeresnia D, Maciel EMGS, Oviedo RAM. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz; 2013. 119 p. (Coleção Temas em Saúde).

Romeu Gomes1  2 

1Instituto Sírio-Libanês de Ensino e Pesquisa, Hospital Sírio-Libanês, São Paulo, Brasil.

2Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira, Fundação Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, Brasil. romeugo@gmail.com

Czeresnia, D; Maciel, EMGS; Oviedo, RAM. OS SENTIDOS DA SAÚDE E DA DOENÇA, Rio de Janeiro, Editora Fiocruz, 2013. 119p. 978-85-7541-433-0,


Os autores se propõem a promover uma discussão em que os conceitos de saúde e doença sejam problematizados, contribuindo para o desenvolvimento do espírito crítico em relação ao assunto. Para isso, ancoram-se nas abordagens histórica, filosófica e epistemológica e focalizam, em sua discussão, ao longo dos cinco capítulos, os seguintes temas: (1) relações entre os conceitos de saúde, doença e experiência; (2) construção histórica dos conceitos de saúde e doença; (3) prevenção de doença e promoção da saúde no século XX; (4) discurso acerca do risco e sua lógica de construção científica e (5) teorias de doenças no âmbito da biomedicina contemporânea.

Ainda que os autores formatem o seu texto em um espaço relativamente curto em termos de paginação, conseguem dar densidade à sua discussão, sem perder de vista o propósito de estabelecer comunicabilidade com os leitores.

A leitura da obra suscita outras discussões acerca do assunto. Um dos aspectos que pode ser aprofundado nessa discussão é a diferença entre sentidos e significado. Os autores observam: “Quando alguém sente um mal-estar, busca conferir a ele um significado e um sentido” (p.15). Em termos de processo de significação, em que diferenciaria conferir um sentido e um significado ao mal-estar? Vygotsky 1 considera que o sentido é o que uma palavra desperta em nossa consciência a partir da soma de todos os acontecimentos psicológicos. Ele é extraído do contexto em que a palavra surge; se o contexto muda, muda também o sentido. Segundo o mencionado autor, o significado é mais estável e preciso do que o sentido. Ele é a base dos sentidos, sendo uma potencialidade para a construção do discurso. Assim, ao mal-estar ou à doença são atribuídos diferentes sentidos pelas pessoas. Esses, embora possam ancorar-se em significados culturais mais amplos, refletem as percepções e as experiências vividas, configurando-se numa ampla polissemia. Parafraseando Vygotsky, podemos dizer que, no discurso das pessoas, predomina o sentido da doença e da saúde sobre o significado socialmente construído acerca dessas expressões.

Os autores da coletânea em questão destacam que a doença e a saúde relacionam-se às experiências das pessoas. Essas, por sua vez, são, ao mesmo tempo, estruturadas e estruturantes. Segundo Byron Good 2, a doença constitui-se numa síndrome de experiências e significados. Nesse sentido, tanto as experiências da doença quanto os sinais e sintomas que compõem um léxico médico inserem-se em antigas e resistentes redes semânticas que servem de ancoragem para que novas doenças ou categorias médicas adquiram significados.

E o que falar da saúde? Czeresnia, Maciel & Oviedo observam que ela não se constitui apenas na ausência da doença. Sobre isso, Gadamer 3 observa que a saúde não envolve apenas essa ausência, envolve tanto a prevenção e a cura da doença quanto a atenção e a promoção a ela destinada. Para o autor, por não chamar a atenção para si mesma, a saúde consiste num mistério a ser desvelado. Para ele, a ausência de saúde causa ofensa à totalidade, à integridade, ao todo do ser humano em sua relação com o mundo da vida. Nesse sentido, ser saudável é sentir-se bem, sentir-se como um ser no mundo, sentir-se como uma totalidade humana.

Em síntese, os sentidos da saúde e da doença, conforme assinalam seus autores, não envolvem apenas a elaboração da ciência. Envolvem, além dessa instância, articulações políticas, éticas, estéticas e filosóficas. Com base nessas considerações, é possível afirmar que a experiência da leitura da obra em tela também se constitui num elemento estruturante do conceito do processo saúde-doença.

REFERÊNCIAS

. Vygotsky LS. Pensamento e linguagem. São Paulo: Editora Martins Fontes; 1987. [ Links ]

. Good BJ. Medicina, racionalidad y experiencia: una perspectiva antropológica. Barcelona: Edicions Bellaterra; 2003. [ Links ]

. Gadamer HG. O Mistério da Saúde: o cuidado da saúde e a arte da medicina. Lisboa: Nova Biblioteca 70; 1993. [ Links ]

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