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Cadernos de Saúde Pública

versão impressa ISSN 0102-311Xversão On-line ISSN 1678-4464

Cad. Saúde Pública vol.32 no.5 Rio de Janeiro  2016  Epub 17-Maio-2016

http://dx.doi.org/10.1590/0102-311X00215515 

RESENHAS

CRÍTICA PÓS-COLONIAL: PANORAMA DE LEITURAS CONTEMPORÂNEAS

Pedro Mourão Roxo da Motta1  * 

Nelson Filice de Barros1 

1 Universidade Estadual de Campinas, Campinas, Brasil

Miglievich-Ribeiro, A; Toller, H; Almeida, J. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2013. 404p. ISBN: 978-85-421-0114-0.

O livro Crítica Pós-Colonial: Panorama de Leituras Contemporâneas é uma coletânea de 19 capítulos, divididos em quatro partes que tratam das classificações e hierarquias vigentes na contemporaneidade, construindo, propositivamente, novos entendimentos das formas simbólicas de certa colonialidade global, cujas estratégias de poder marginalizam culturas e povos. As reflexões pós-coloniais apresentadas nos capítulos constroem uma retórica e contrapartida às interpretações culturais hierarquizadas provenientes da civilização ocidental eurocêntrica. Buscam, portanto, na pós-modernidade denunciar uma série de hierarquias herdadas do processo de colonização que praticamente atravessam todas as dimensões da sociedade contemporânea, incluindo os aspectos culturais relacionados a ideologias, formas de organização sociais, ética, etnia, raça, moral, assim como aspectos epistemológicos na hierarquização do conhecimento e da metodologia.

Possivelmente, o autor mais citado nos diferentes capítulos do livro é Frantz Fanon, psiquiatra francês e influente pensador sobre os temas da descolonização e da psicopatologia da colonização. Fanon instigou a mentalidade das metrópoles ocidentais ao dizer que "um país colonialista é um país racista" (p. 51), denunciando a violência do sistema, assim como se contrapôs a uma ala da esquerda ao questionar instrumentos ortodoxos da teoria Marxista. Por isso, causou indignação nos partidos operários ocidentais ao dizer que "a história das guerras de libertação é a história da não verificação das teses" (p. 51) relacionada aos interesses de classe operária, metrópole e colonizados. Sartre também é bastante referenciado, pois colocou em pauta o racismo na sociedade contemporânea, e nos anos de 1950 iniciou uma nova concepção do racismo pós-guerra: seria aquele que, apesar de veementemente negado, era vivido no contexto sociopolítico de colonizadores e colonizados. Além disso, Sartre também discorreu acerca da polarização que se dera entre intelectuais que defendiam os interesses camponeses e operários, com base no marxismo e outras ideologias, e aqueles que defendiam a ordem liberal e burguesa. Uma das colocações mais importantes de Sartre foi relacionada ao fato de que os interlocutores da militância antissegregação eram, em sua maior parte, brancos ou mestiços claros das classes médias e altas. Assim, Fanon e Sartre podem ser considerados as referências seminais do anti-imperialismo, antirracismo e descolonização.

Algo importante de se ponderar e bastante revivificado pelos autores do livro são as estruturas da cultura colonialista, que julga poder falar pelo outro e, assim, retirar-lhe sua alteridade, mantendo-os subalternos e oprimidos, reproduzindo estruturas de opressão e poder, usurpando seus espaços de fala e levando à interpretação errônea de que o subalterno não pode falar ou só poderia se recorresse ao recurso hegemônico. Essa perspectiva é comum entre todos os autores do livro, que defendem que não se deve falar por esses sujeitos, mas se combater a subalternidade, provendo ao subalterno espaço pra falar e ser ouvido.

Seguindo essa linha de pensamento, faz-se uma ligação da assimetria predefinida pelas relações de poder vigentes e seus efeitos epistemológicos, as quais geram a marginalização de alguns tipos de conhecimentos devido ao fato de não poderem ser avaliados pelo aparato conceitual da ciência contemporânea. As consequências do momento em que a cultura europeia se desloca de seu lugar para estudar outras culturas são muito profundas, gerando a separação dos dois indivíduos da antropologia: o etnógrafo (civilizado) e o nativo (primitivo). A procura da compreensão de "como olha o primitivo" não foi a pauta, ficando implícito na teoria que o olhar do primitivo era irreflexivo, imediato, direto e pobre. Por isso, para alguns autores do livro, a etnologia se constitui como algo etnocêntrico, apesar de tentar combater o etnocentrismo, pois na tentativa de descentramento construiu a imagem de ser a única cultura capaz de realizar este movimento de autodesdobramento e abertura. O "primitivo", ainda que respeitado, é basicamente objetivado: não é pressuposto que o nativo esteja implicado na vida do próprio etnógrafo - o que demonstra a posição de privilegio do homem ocidental, que é capaz de olhar desse ponto de vista, pretensamente seguro, de verdade.

Destacam os autores que para manter a sua hegemonia epistemológica o texto colonizador incorpora signos do universo do colonizado, transformando o discurso num texto heteróclito, com uma incoerência que não fere apenas a estética, mas também a ética. Assim, não sendo capazes de eliminar o marginal, o desviante, o divergente, que ameaça corromper o núcleo constitutivo de uma certa episteme hegemônica, enfraquecem-no simbolicamente para que mantenham-se portadores da pretensa universalidade. Além disso, como não podem eliminar o rastro semiótico do colonizado devem marcá-lo com o sinal negativo, de decréscimo do ser, garantindo a hierarquia simbólica com a introdução do signo do dominado distorcido na sua lógica e valor, a partir da ordem completa em que naturalmente está inserido e reina. Assim, quando o dominado constrói uma contracoerência, percebe a inconsistência da moral prístina do dominador, uma vez que foi construída por intermédio da opressão e incorporação leviana de valores e símbolos divergentes à lógica hegemônica.

A epistemologia científica, identifica-se no livro, reflete essa colonização simbólica na medida em que legitima discursos de poder e estruturas de dominação, pois ao transformar processos sociais e culturais em objetos estáticos faz-se incapaz de compreendê-los. As práticas sociais impostas pelo ocidente geram uma organização epistemológica que não reflete os processos sociais das culturas marginalizadas, pois estão orientadas para uma mentalidade colonial. O ideal é construir um conhecimento com base nessas culturas periféricas promovendo o que os autores descrevem como border-thinking. Um modo de pensar que esteja para além das fronteiras impostas pela modernidade e pelas ciências humanas eurocêntricas.

É comum entre os capítulos a ideia de que não existe paradigma ou pensamento neutro, todos exercem alguma relação de poder simbólico e/ou econômico, porém, mesmo estando vinculado a algum grupo social, existem raciocínios que são mais emancipadores que outros. Um exemplo citado que tende a ser mais libertário é o dos Zapatistas, pois, para eles, estabelecer uma nova sociedade não requer a tomada de poder, mas a abolição das relações de poder. Assim, afastando-se do objetivo de conquistar o poder, os Zapatistas priorizam a construção da verdadeira democracia que leve em conta a construção de um poder comunitário alinhado com a história de vida de comunidades indígenas.

Argumenta-se, ainda, ser possível uma analogia na filosofia pré-socrática a respeito do que seria um pensamento reacionário e um pensamento revolucionário, uma vez que no conceito de vida como não movimento de Parmênides está assentado todo pensamento colonizador que visa a manter e fixar as normas e posições hegemônicas. Por outro lado, o pensamento de Heráclito, em que vida é movimento, pode ser utilizado pelas sociedades oprimidas como pressuposto de que a situação de oprimido não é fixa, pois nada o é. Ao se movimentar contra a fixação social o oprimido tem a possibilidade de desoprimir-se, sabendo que não pode fixar privilégios, pois construirá um novo horizonte reacionário, com a tendência de defender seus privilégios, negando o movimento revolucionário.

Conclusivamente, pode-se afirmar que o livro dá pistas de como construir um discurso a partir da periferia com o propósito de transformação nos conceitos e perspectivas sobre a modernidade, dando visibilidade à dinâmica social que povos e culturas marginalizados vivem. Assim, esse livro torna-se leitura fundamental para todos que pretendam explorar os caminhos abertos pelos estudos pós-coloniais, pois os autores não apenas esclarecem possibilidades da abordagem intercultural, como também sinalizam com riqueza alguns processos em construção que podem tornar possível quebrar as algemas que silenciam vozes.

* Correspondência: terapeutapedromotta@hotmail.com

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