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Cadernos de Saúde Pública

On-line version ISSN 1678-4464

Cad. Saúde Pública vol.32 no.7 Rio de Janeiro  2016  Epub July 21, 2016

http://dx.doi.org/10.1590/0102-311X00055816 

RESENHAS

A DICTIONARY OF EPIDEMIOLOGY

Eduardo Faerstein1  * 

1Instituto de Medicina Social, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil

Porta, M. 6 th, , New York: Oxford University Press, 2014. 343p. ISBN: 978-01-99976-73-7.

Sobre dicionários em geral

Segundo uma das definições constantes do Dicionário Aurélio (https://dicionariodoaurelio.com, acessado em 27/Mar/2016), um dicionário é uma "coleção organizada, geralmente de forma alfabética, de um conjunto de palavras ou outras unidades lexicais de uma língua ou de qualquer ramo do saber humano, seguidas da sua significação, da sua tradução ou de outras informações sobre as unidades lexicais". Desconsiderando-se precursores remotos (por exemplo, sumério-acadiano, de escritas cuneiformes), cita-se A Table Alphabeticall (1, publicado em 1604, como o primeiro dicionário de inglês, monolíngue, ordenado alfabeticamente, descrito como sendo "for the benefit and helpe of Ladies, Gentlewomen, or other unskillful persons" (grifo nosso).

Após tais primórdios, dicionários foram gradualmente multiplicados, diversificados e popularizados, e crescentemente utilizados pela humanidade letrada. Na livraria virtual Amazon (http://www.amazon.com, acessado em 27/Mar/2016), foi possível identificar 12.856 registros. Alguns títulos exemplificam a amplitude da vida social já dicionarizada, incluindo iniciativas pitorescas (cf. o último exemplo): A Dictionary of Chemistry; The Oxford Dictionary of Architecture; Dictionary of Statistics & Methodology: A Nontechnical Guide for the Social Sciences; Technical Manual and Dictionary of Classical Ballet; American Sign Language Dictionary; Dictionary of Symbolism: Cultural Icons and the Meanings Behind Them; Dictionary of Cliches; Hip-Hop Rhyming Dictionary; The Dictionary of Corporate Bullshit: An A to Z Lexicon of Empty, Enraging, and Just Plain Stupid Office Talk.

Dicionarizar inclui esforços de decantação de conceitos e sua individualização, assim como esforços classificatórios associados. A respeito disso, podem surgir dificuldades e controvérsias, radical e deliciosamente ilustradas neste trecho do conto O Idioma Analítico de John Wilkins, de Borges 2 (p. 708): "sabidamente não há classificação do universo que não seja arbitrária e conjectural. (...) Essas ambiguidades, redundâncias e deficiências recordam as que o doutor Franz Kuhn atribui a certa enciclopédia chinesa intitulada 'Empório celestial de conhecimentos benévolos'. Em suas remotas páginas, está escrito que os animais se dividem em 14 categorias: (a) pertencentes ao Imperador (b) embalsamados (c) amestrados (d) leitões (e) sereias (f) fabulosos (g) cães vira-latas (h) os que estão incluídos nesta classificação (i) os que se agitam feito loucos (j) inumeráveis (k) desenhados com um pincel finíssimo de pêlo de camelo (l) et cetera (m) os que acabaram de quebrar o vaso (n) os que de longe parecem moscas".

Sobre A Dictionary of Epidemiology , em sua 6 a edição

Chegamos, então, ao objeto desta resenha: A Dictionary of Epidemiology, em sua 6a edição. Controvérsias acerca de definições e classificações em epidemiologia não chegam, evidentemente, ao patamar daquelas decerto suscitadas pela classificação imaginada por Borges para o reino animal. Entretanto, em seu denso (até poético) Prefácio, o editor Miquel Porta (Universitat Autònoma de Barcelona, Espanha) enfatiza que tanto a organização como as definições constantes do dicionário foram guiadas por enfoque pluralista e também pela crescente porosidade da disciplina na direção das ciências (micro)biológicas e (macro)sociais. O editor reconhece que há falta de consenso em diversas definições, em grande parte por se tratar de disciplina científica que vem sendo objeto de substanciais inovações conceituais e metodológicas no passado recente. Lexicógrafos assumem tarefa sabidamente difícil, envolvendo continua atualização sobre mudanças no uso de palavras e neologismos.

Vale resumir a história desse empreendimento editorial. Sempre contando com o respaldo institucional da International Epidemiological Association (IEA), as quatro primeiras edições (1983, 1988, 1995, 2001) foram editadas por John Last (Professor Emérito da University of Ottawa, Canadá); na 5a edição (2008), esse papel foi assumido por Miquel Porta, mantido nesta 6a edição, que contou com quatro editores associados: o pioneiro John Last, Sander Greenland (University of California, Estados Unidos), Miguel A. Hernán (Harvard University, Estados Unidos) e Isabel dos Santos Silva (London School of Hygiene and Tropical Medicine, Inglaterra).

Já na 5a edição, Miquel Porta havia expandido a busca de contribuições, via mecanismos colaborativos do tipo wiki. Essa participação coletiva foi intensificada na construção da presente edição, com 343 páginas. O editor lançou, em 2012, uma chamada pública para contribuições, e uma página na Internet foi criada para acolhê-las: 400 propostas foram registradas e avaliadas por mais de 300 colaboradores, listados no livro, entre os quais, três epidemiólogos brasileiros (Aluisio Barros, Cesar Victora, Mauricio Barreto).

A 6a edição traz mudanças mais profundas que as anteriores, refletindo a velocidade com que novos conceitos e métodos vêm sendo incorporados - por exemplo, randomização mendeliana, variáveis instrumentais, diagramas causais, modelos estruturais marginais, g-estimação, entre outros. A expansão dos campos temáticos da disciplina também levou à incorporação de termos aplicáveis a áreas contíguas, como pesquisa clínica, práticas de saúde pública e promoção da saúde, economia da saúde e bioética.

A bibliografia inclui outras obras de referência, os 125 livros de epidemiologia e bioestatística mais citados nos últimos 50 anos e 800 referências adicionais, entre livros e artigos. No capítulo Sobre Este Dicionário, são fornecidas orientações úteis sobre sua organização e uso eficiente, e, explicitados critérios utilizados, por exemplo, para frases compostas, referências cruzadas, acrônimos etc. Ao final desse capítulo, o editor estimula usuários a enviar sugestões para a próxima edição e assegura atenção a erros que possam vir a ser detectados.

Como já se afirmava em prefácio a uma edição anterior 3, dicionários não serão capazes de satisfazer a todos os leitores - e nem deveriam tentar. Persiste a dúvida: cabe estimular a continuidade de iniciativas já havidas de tradução do dicionário para outros idiomas? A tradução para espanhol, por exemplo, sofreu críticas de Tapia Granados & Nieto García 4. Ainda faz sentido resistir às tendências de considerar o inglês como língua franca da ciência?

Para este autor, a leitura de A a Z revelou-se estimulante intelectualmente; apenas a presença de um número restrito de termos pareceu-me fora do contexto da obra, como quimioterapia, coerção, criatividade, encontro, família, objetivo, rubrica, setor.

Trata-se de obra altamente recomendável para estar disponível no acervo de bibliotecas institucionais, assim como nas estantes de estudantes (em qualquer estágio de formação em epidemiologia) e de epidemiólogos, principiantes e veteranos, tanto vinculados à academia como aos serviços de saúde. É conveniente dispor sempre da edição mais recente, considerando o permanente refinamento e inovações conceituais em curso na disciplina.

REFERÊNCIAS

1. Siemens RG. The acorn of the Oak: a stylistic approach to lexicographical method in Cawdrey's A Table Alphabeticall. v. 4. Vancouver: CCH Working Papers; 1994. [ Links ]

2. Borges JL. El idioma analítico de John Wilkins. In: Borges JL, editor. Obras completas 1923-1972. Buenos Aires: Emecé Editores; 1974. [ Links ]

3. Porta M , editor. A dictionary of epidemiology. 5th Ed. New York: Oxford University Press; 2008. [ Links ]

4. Tapia Granados JA, Nieto García FJ. A propósito de la versión española del Diccionario de Epidemiología de J. M. Last. Gac Sanit 1994; 8:94-8. [ Links ]

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