SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.33 issue10CENÁRIOS DA SAÚDE DA POPULAÇÃO NEGRA NO BRASIL author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Journal

Article

Indicators

Related links

Share


Cadernos de Saúde Pública

On-line version ISSN 1678-4464

Cad. Saúde Pública vol.33 no.10 Rio de Janeiro  2017  Epub Oct 26, 2017

http://dx.doi.org/10.1590/0102-311x00139317 

RESENHA

MÉDICOS INTÉRPRETES DO BRASIL

Tatiana Wargas de Faria Baptista1 

1 Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca, Fundação Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, Brasil.

Hochman, G; Lima, NT. São Paulo: Editora Hucitec, 2015. 666p. ISBN: 978-85-8404-028-5.

Há várias formas de se ler um livro. Médicos Intérpretes do Brasil possibilita um brincar com a leitura e diferentes viagens.

Uma viagem pelos autores lidos por outros autores, que não só apresentam o médico intérprete, mas também interpretam sua obra, trazendo nuances e questões que parecem fazer mais sentido que o autor sozinho, porque contextualizadas e ressignificadas.

Uma viagem pelos autores por eles mesmos, permitindo acessar textos (alguns perdidos nas bibliotecas e poucas vezes lidos) e formas de ler o mundo que hoje nos são estranhas, mas que construíram um sentido para o Brasil e para a saúde no momento em que foram escritos.

Uma viagem pela tessitura do livro, pelas escolhas feitas dos intérpretes e dos autores que os comentam, num formato que possibilita refletir sobre o próprio sentido do que é ser um intérprete do Brasil e o que sua obra oferta de ideias.

O livro é apresentado como um mosaico de leituras de 29 médicos, que viveram entre os séculos XIX e XXI no Brasil, e assumiram papel de destaque na história brasileira, homens de ideias, mas também “homens de ação” 1, com participação ativa na construção do projeto nacional. Pelas mãos dos médicos forjou-se uma política de Estado com legitimidade para intervir nos territórios, adentrar espaços privados e alcançar subjetividades.

Do final do século XIX à primeira metade do século XX no Brasil, os médicos revelam que o esforço de construção do projeto nacional se apresentou no desenvolvimento de teorias que articulavam majoritariamente dois núcleos de sentido: a doença e a raça. Num mundo marcado pela ótica colonialista imprimem-se padrões e formas de classificação racial e étnica da população, tendo no saber saúde o argumento central para a naturalização de conceitos e práticas. Foi pelo discurso da doença e pela associação com a raça que nosso imaginário de povo e de país foi constituído, e a doença passou a ser apresentada como obstáculo ao progresso e à civilização.

À saúde pública caberia a importante tarefa de aplicar soluções para a mudança do país com vistas a garantir uma nova civilização. A perspectiva médico-higienista adentrou a cultura e a política, provocando o debate entre diferentes intelectuais e outros atores sociais do período. Expressões como “país doente”, “imenso hospital”, “herança maldita”, “raça degenerada” circulavam nas análises produzidas à época, e os médicos, como agentes do Estado, difundiam uma imagem do povo e do país ofertando remédios contra os “males do Brasil”: higiene, profilaxia, saneamento e educação sanitária. Mas não foi sem controvérsias. O debate foi firmado entre abordagens culturalistas, que denunciavam as relações de dominação e o legado social e cultural produtor de doença; e abordagens biologicistas, que afirmavam a diferença entre as raças, a superioridade dos brancos e as desvantagens do clima tropical.

Novas nuances ganharam espaço de interpretação a partir dos anos 1930 e, em especial, no período pós-Segunda Guerra. O problema central já não era mais o estabelecimento da nação, mas o seu desenvolvimento. A agenda sanitária não podia mais restringir-se a orientações da saúde pública, e a associação doença e raça já não tinha mais a mesma força argumentativa. Com aportes da economia, da sociologia e da demografia, desmontou-se a tese de que a origem da pobreza é a doença, para mostrar que, ao contrário, a pobreza é consequência de um Estado atrasado e dependente, que mantém um “círculo vicioso” que ao não enfrentar a pobreza, reproduz a doença. A tese central passou a ser a defesa da superação da dependência estrutural do Estado, com desenvolvimento econômico, industrialização, modernização e infraestrutura. Somente nesse caminho seria possível romper o ciclo pobreza/doença/pobreza e superar a precariedade do estado sanitário.

Os chamados sanitaristas-desenvolvimentistas foram os atores em diálogo para dentro da área da saúde, mas especialmente para fora, como partícipes do debate político e econômico, com proposições para pensar o papel do Estado na transformação da realidade.

No último quartel do século XX, uma nova inflexão foi apresentada no debate acerca do projeto civilizatório. A partir da crítica ao Estado autoritário, foram apresentados como aspectos-chave para uma nova política o combate às desigualdades e a garantia da democracia. Na saúde, a reforma sanitária ganhou contornos de uma reforma estrutural e socializante do Estado. Constitui-se a defesa de um projeto abrangente e equânime de proteção social, com vistas à construção de outro projeto civilizatório, como enunciava Sergio Arouca, um projeto de inclusão com redistribuição e participação social.

Desde os anos 1980, o campo da saúde ficou complexo tanto em práticas como em conhecimento. Os médicos deixaram de ser os principais analistas do campo e a institucionalização do Sistema Único de Saúde produziu efeitos no olhar sobre a atuação do Estado, deslocando o foco para a implementação do projeto político e menos para a interpretação das relações Estado/sociedade/saúde. Talvez por esse motivo a coletânea enfatize mais as interpretações produzidas até os anos 1970, ofertando apenas três olhares mais contemporâneos sobre a saúde e o Estado.

Reconhecer o Brasil com base no olhar desses médicos, é entrar em contato com o que não sabemos de nós mesmos, reconhecer percursos e admitir o passado para a compreensão do presente 2. Quando os organizadores ofertam interpretações sobre a obra dos intérpretes acionam um dispositivo de análise das produções, possibilitando desmistificar verdades históricas, refazer conexões e, com isto, também questionar a própria interpretação e “invenção” produzidas pelos médicos sobre o Brasil.

Da leitura podemos reconhecer...

Nascemos e nos afirmamos racistas e eugenistas. Mas essa não foi uma peculiaridade brasileira. Essa foi a história de dominação e expropriação imposta pela violência do Estado colonialista. É a história da modernidade e do capitalismo e não escapamos dela 3.

A medicina foi o braço de Estado que implantou tal projeto. Mas também foi a medicina que possibilitou a sobrevivência de outros milhares. O projeto de dominação apresenta contradições, pois ao mesmo tempo em que mata, salva 4.

Muitos silenciamentos e apagamentos foram produzidos, alguns, após um longo processo de idas e vindas, encontraram espaço para escuta, outros tantos ainda estão inaudíveis 5.

Com a invenção da modernidade veio o projeto de civilização e de bem-estar. Da instauração da ordem, passando pelos anos gloriosos de expansão da proteção, chegou-se ao século XXI com as perguntas que foram feitas nos diferentes momentos de crise do modelo: a quem serve o bem-estar? Qual o projeto de civilização? Que país queremos e para que povo?

Ou seja, voltamos às mesmas perguntas do início da trajetória e somente com novas interpretações será possível chegar a novas proposições. Interpretar o Brasil, reconhecer nossas linhagens de pensamento político e social não é uma tarefa fácil, mas necessária, em especial se desejamos ser autores de nossa própria história; se almejamos distinguir as ideias e projetos em disputa para traçar nossos próprios rumos 6.

REFERÊNCIAS

1. Weffort FC. Formação do pensamento político brasileiro: idéias e personagens. São Paulo: Ática; 2006. [ Links ]

2. Bloch M. Apologia da história ou o ofício de historiador. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editores; 2001. [ Links ]

3. Quijano A. Colonialidade do poder e classificação social. In: Santos BS, Meneses MP, organizadores. Epistemologias do sul. Coimbra: Edições Almedina/CES; 2009. p.73-117. [ Links ]

4. Foucault M. Crise da medicina ou crise da antimedicina. Verve 2010; 18:167-94. [ Links ]

5. Santos BS, Meneses MP, organizadores. Epistemologias do sul. Introdução. Coimbra: Edições Almedina/CES; 2009. p. 9-19. [ Links ]

6. Brandão GM. Linhagens do pensamento político brasileiro. São Paulo: Editora Hucitec; 2007. [ Links ]

Creative Commons License Este é um artigo publicado em acesso aberto sob uma licença Creative Commons