SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.34 issue3The concept of vulnerability and its meanings for public policies in health and social welfare author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Journal

Article

Indicators

Related links

Share


Cadernos de Saúde Pública

On-line version ISSN 1678-4464

Cad. Saúde Pública vol.34 no.3 Rio de Janeiro  2018  Epub Mar 05, 2018

http://dx.doi.org/10.1590/0102-311x00025018 

EDITORIAL

Mulheres no mundo da ciência e da publicação científica

Marilia Sá Carvalho1 

Claudia Medina Coeli2 

Luciana Dias de Lima3 

1 Programa de Computação Científica, Fundação Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, Brasil.

2 Instituto de Estudos em Saúde Coletiva, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil.

3 Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca, Fundação Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, Brasil.


Nos últimos meses, vimos grandes mobilizações de mulheres em vários países e setores, com propósitos diversos. Lutas feministas que se expressaram nas passeatas quando da posse do presidente americano, explicitamente misógino, e na resistência das brasileiras em defesa do direito ao aborto já tão limitado. O movimento se capilarizou e permitiu que viessem à tona diversos casos de abusos sexuais. As mulheres se fortaleceram para denunciar, compartilhando suas experiências por meio do MeToo (https://twitter.com/hashtag/MeToo).

Também entre cientistas, como não poderia ser diferente, denúncias de abuso apontam relações de poder que se estabelecem entre orientador e orientanda, entre cientista sênior e jovem em início de carreira, que levam a situações tão graves como as já mencionadas, afastando inúmeras e promissoras jovens mulheres da carreira acadêmica 1. Tais situações fizeram com que Fundação Nacional de Ciências norte-americana passasse a exigir a notificação e a adoção de medidas de controle de assédio como condição para o repasse de recursos financeiros 2.

Mais sutil é o preconceito no dia a dia, que temos tendência a negar, assumindo que o gênero não deveria ter qualquer influência na avaliação. Em recente revisão sobre o viés de gênero nas publicações científicas, verificou-se sub-representação das mulheres não só entre autores, mas principalmente entre revisores e editores 3. O viés não é uniforme: na área de matemática as mulheres são somente 15% dos pesquisadores, sendo ainda menos representadas na editoria, apenas 10% 4. A situação é ainda mais grave quando se analisa revistas com maior prestígio acadêmico como a Science. Examinando o primeiro e o último autores de amostra dos artigos publicados em 2015, verificou-se que a proporção de mulheres, seja como autor júnior ou sênior, era um terço menor do que a sua participação nas instituições acadêmicas norte-americanas 5.

No Brasil, cerca de metade das publicações do quadriênio 2011-2015 foram de autoria de mulheres, um aumento expressivo comparado aos 38% do período 1996-2000. Entretanto, entre os pesquisadores que recebem bolsas de produtividade do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) cujo objetivo é valorizar a produção científica, as mulheres estão mais presentes nos níveis mais baixos 6. Em parte essa diferença pode ser explicada como resultante de um efeito coorte, mas também pode ser a reprodução de um padrão observado nas organizações em geral. Em cargos de chefia de alta hierarquia o número de mulheres é muito menor do que o de homens, mesmo em empresas com elevada presença feminina. Esse viés é reforçado pela posição da mídia: entre os cientistas citados em reportagens de um jornal, somente cerca de 25% eram mulheres. E não basta ao jornalista se justificar dizendo que os mais qualificados para responder eram homens 7.

Resultados de estudo recente, que compara a produtividade e o impacto de artigos publicados segundo gênero, revelam que: a produtividade das mulheres é cerca de 30% menor do que a dos homens; gênero não tem efeito sobre o impacto dos artigos no grupo de autores mais produtivos; a diferença na produtividade é explicada nos modelos pela posição de maior senioridade e mais idade dos homens (um efeito de coorte) 8. Ressalta-se que o trabalho considerou apenas artigos de autores suecos, país onde a regulamentação da licença maternidade está entre as mais igualitárias e extensas do mundo.

Algumas iniciativas para superar a desigualdade entre homens e mulheres na ciência vêm sendo propostas. Reconhecendo o viés de gênero, revistas do porte da Nature adotaram medidas que permitiram aumentar a proporção de mulheres revisoras de 14% para 22%, no período de 2011 a 2015 9. No Brasil, o último Congresso Brasileiro de Epidemiologia inovou ao promover a equidade de gênero em mesas e painéis 10, critério que também tem orientado a atuação da Comissão Científica do próximo Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva, a ser realizado em julho de 2018 11.

Mas ainda é muito pouco. Estimular a igualdade de gênero em CSP é nosso compromisso. Somos três Editoras-chefe mulheres, todas tivemos filhos e sabemos perfeitamente o esforço que foi necessário para chegar aqui. A participação de mulheres em nosso corpo editorial é de 50%, o que ainda é insuficiente considerando sua presença majoritária no campo da Saúde Coletiva. Ao pretendermos aumentar a participação feminina na ciência, precisamos dar visibilidade e posição destacada às mulheres. Essa é uma das melhores formas de atrair jovens para a carreira científica, contribuindo para um mundo mais justo, inclusivo e igualitário. Abracemos a diversidade de gênero!

REFERÊNCIAS

1. Williams JC, Massinger K. How women are harassed out of science: the discrimination young researchers endure makes America's need for STEM workers even greater. https://www.theatlantic.com/science/archive/2016/07/how-women-are-harassed-out-of-science/492521/ (acessado em 24/Jan/2018). [ Links ]

2. National Science Foundation. Important notice to presidents of Universities and Colleges and heads of other National Science Foundation Grantee Organizations. (Important Notice, 144). https://nsf.gov/pubs/issuances/in144.pdf (acessado em 21/Fev/2018). [ Links ]

3. Helmer M, Schottdorf M, Neef A, Battaglia D. Gender bias in scholarly peer review. eLife 2017; 6:e21718. [ Links ]

4. Topaz CM, Sen S. Gender representation on journal editorial boards in the mathematical sciences. PLoS One 2016; 11:e0161357. [ Links ]

5. Berg J. Looking inward at gender issues. Science 2017; 355:329. [ Links ]

6. Valentova JV, Otta E, Silva ML, McElligott AG. Underrepresentation of women in the senior levels of Brazilian science. PeerJ 2017; 5:e4000. [ Links ]

7. Yong E. I spent two years trying to fix the gender imbalance in my stories: here's what I've learned, and why I did it. https://www.theatlantic.com/amp/article/552404/ (acessado em 08/Fev/2018). [ Links ]

8. van den Besselaar P, Sandström U. Vicious circles of gender bias, lower positions, and lower performance: gender differences in scholarly productivity and impact. PLoS One 2017; 12:e0183301. [ Links ]

9. Lerback J, Hanson B. Journals invite too few women to referee. Nature 2017; 541. https://www.nature.com/news/journals-invite-too-few-women-to-referee-1.21337. [ Links ]

10. Veras MASM, Boing AF. 10º Congresso Brasileiro de Epidemiologia: uma construção solidária. Cad Saúde Pública 2017; 33:e00189517. [ Links ]

11. Campos GWS. A Saúde Coletiva em movimento: XII Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva (Abrascão 2018). Cad Saúde Pública 2018; 34:e00019418. [ Links ]

Creative Commons License Este é um artigo publicado em acesso aberto sob uma licença Creative Commons