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Cadernos de Saúde Pública

On-line version ISSN 1678-4464

Cad. Saúde Pública vol.34 no.3 Rio de Janeiro  2018  Epub Mar 08, 2018

http://dx.doi.org/10.1590/0102-311x00037317 

ARTIGO

Cadernetas de saúde e trabalho: diários de professores de universidade pública

Notebooks on health and work: diaries of public university professors

Cartillas de salud y trabajo: diarios de profesores de universidad pública

Katia Reis de Souza1  * 

Verônica Silva Fernandez2 

Liliane Reis Teixeira1 

Ariane Leites Larentis1 

André Luis de Oliveira Mendonça3 

Eliana Guimarães Felix1 

Maria Blandina Marques dos Santos1 

Andrea Maria dos Santos Rodrigues1 

Marisa Moura1 

Regina Helena Simões-Barbosa4 

Walcyr de Oliveira Barros4 

Mariza Gomes de Almeida1 

1 Fundação Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, Brasil.

2 Universidade Federal Fluminense, Niterói, Brasil.

3 Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil.

4 Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil.


RESUMO

Este artigo tem como objetivo principal apresentar e analisar o instrumento de pesquisa designado como “cadernetas de saúde e trabalho”, com foco na produção de conhecimento sobre o trabalho de docentes de universidade pública. Trata-se de uma técnica de investigação de caráter qualitativo e participativo, adequada ao aprofundamento do estudo das relações entre a saúde e o trabalho, reavendo os locais de trabalho como lugares privilegiados de observações para o exercício de uma efetiva ação de defesa da saúde e a experiência do trabalho como matéria principal de análise. A qualidade especial das cadernetas como técnica de investigação refere-se ao papel protagonista atribuído ao trabalhador no processo de pesquisa, autor do diário e coparticipante do estudo. Participaram oito docentes pertencentes ao mesmo instituto de uma universidade federal de ensino superior (IFES), localizada no Rio de Janeiro, Brasil. Quanto à análise dos materiais empíricos, procedentes das anotações das cadernetas e de encontro com os trabalhadores, adotou-se a técnica de análise temática, chegando-se a quatro categorias principais de discussão, a saber: o tempo de trabalho e as múltiplas atividades de trabalho do professor; precarização das condições de trabalho em universidades; saúde docente entre limites e cadernetas sob o olhar dos seus autores. No que concerne aos resultados, sobressaiu o tema alusivo à sobrecarga de trabalho e pressão do tempo para cumprimento de metas. Ao fim, considerou-se que as cadernetas de saúde e trabalho mostraram-se como ferramenta de pesquisa com potencial para se gerar conhecimento em perspectiva coletiva.

Palavras-chave: Docentes; Saúde do Trabalhador; Pesquisa Qualitativa

ABSTRACT

The main objective of this article is to present and analyze the research instrument called “health and work notebooks”, focusing on the production of knowledge concerning professors’ work at a public university. The notebooks serve as a qualitative and participant research technique that is appropriate for the in-depth study of relations between health and work, viewing workplaces as privileged spaces for exercising effective action in the defense of health and the work experience as the principal material for analysis. The notebooks’ special quality as a research technique lies in worker’s role as protagonist in the research, as the diary’s author and co-participant in the study. Eight professors participated, all from the same institute in a federal university (IFES) in Rio de Janeiro, Brazil. As for analysis of the empirical materials from the notebooks and consistent with the workers, the thematic analysis technique was adopted, producing four main discussion categories: time on the job and professors’ multiple work activities; precarization of working conditions at universities; faculty health at limits; and the notebooks viewed from the authors’ perspective. As for the results, the theme that stood out was work overload and time pressure to meet targets. Finally, the health and work notebooks proved to be a potential research tool for generating knowledge from a collective perspective.

Keywords: Faculty; Occupational Health; Qualitative Research

RESUMEN

El objetivo principal de este artículo es presentar y analizar el instrumento de investigación denominado “cartillas de salud y trabajo”, centrándose en la producción de conocimiento sobre el trabajo de docentes de universidad pública. Se trata de una técnica de investigación de carácter cualitativo y participativo, adecuada a la profundización del estudio de las relaciones entre la salud y el trabajo, reincorporando los lugares de trabajo como lugares privilegiados de observación para el ejercicio de una efectiva acción de defensa de la salud, y la experiencia laboral como materia principal de análisis. La cualidad especial de las cartillas como técnica de investigación se refiere al papel protagonista, atribuido al trabajador en el proceso de investigación, autor del diario y coparticipante del estudio. Participaron ocho docentes pertenecientes al mismo instituto de una universidad federal de enseñanza superior (IFES), localizada en Río de Janeiro, Brasil. En cuanto al análisis de los materiales empíricos, procedentes de las anotaciones de las cartillas y de encuentros con los trabajadores, se adoptó la técnica de análisis temático, llegándose a cuatro categorías principales de discusión, a saber: el tiempo de trabajo y las múltiples actividades de trabajo del profesor; precarización de las condiciones de trabajo en universidades; salud docente entre límites y cartillas bajo la atenta mirada de sus autores. En lo que concierne a los resultados, se resaltó el tema alusivo a la sobrecarga de trabajo y presión de tiempo para el cumplimiento de metas. Al final, se consideró que las cartillas de salud y trabajo se mostraron como herramientas de investigación con potencial para generar conocimiento desde una perspectiva colectiva.

Palabras-clave: Docentes; Salud Laboral; Investigación Cualitativa

Introdução

São muitos os tipos de cadernetas e diários de campo de pesquisa encontrados na literatura. Alguns se tornaram clássicos e célebres, como o diário e as cadernetas de campo usadas por Charles Darwin, em sua viagem pelo mundo durante o século XIX 1. Em termos históricos, o diário pode ser considerado um gênero da literatura, com registros do período da Idade Média e da Renascença. Na época, era conhecido como “diário de bordo” ou “diário de viagem”, sendo o meio pelo qual os viajantes registravam as suas descobertas e experiências, como o fez Cristóvão Colombo em Diários da Descoberta da América, publicado em 1898 2. Já o “diário de campo”, constitui-se como conceito no século XX, principalmente no campo da etnografia e da antropologia social, tendo Malinowski como um dos seus principais precursores 3.

De fato, no âmbito das ciências sociais, ao se falar de cadernetas e diários de campo, não se pode deixar de mencionar o diário etnográfico. Trata-se de instrumento de pesquisa, com estatuto de técnica de investigação, e que tem por base a abordagem qualitativa de pesquisa. No plano epistemológico, a subjetividade é parte do processo de produção do conhecimento, opondo-se ao enfoque positivista de ciência 4.

Pires 5 chama a atenção para o valor do diário como técnica de pesquisa, porquanto estimula a autorreflexão e a formalização da experiência dos seus participantes por meio da observação direta do cotidiano. De acordo com essa perspectiva, as anotações fornecem elementos para se construir o objeto de conhecimento.

Foi nos primórdios do campo da saúde do trabalhador (década de 1970), mais especificamente na experiência do Modelo Operário Italiano (MOI) 6, que encontramos inspiração para desenvolvimento das “cadernetas de saúde e trabalho”. Nos registros do MOI, encontram-se documentadas duas modalidades: a “caderneta sanitária” e a “caderneta de risco”. A primeira, a caderneta sanitária individual, era utilizada para anotações pessoais relacionadas a distúrbios de saúde persistentes, como por exemplo, tosse e dispneia, servindo de base para avaliação de doenças. Quanto à segunda, a caderneta individual de risco, apresentava-se para registros de dados pertinentes à nocividade vivenciada nos ambientes de trabalho. Para Oddone et al. 6, as cadernetas são instrumentos de registros que servem como ferramenta para o trabalhador memorizar aspectos de sua saúde relacionados ao trabalho, a partir de sua própria perspectiva, atribuindo valor próprio às anotações. Ambos os modelos citados foram concebidos para o contexto fabril, diferentemente do cenário de nosso estudo.

A rigor, neste estudo, renova-se a ideia de cadernetas de saúde como diário de campo do trabalhador e como parte de uma técnica de investigação qualitativa de maior escopo, colocando o trabalho como centro das observações e registros em relação à saúde. Laurell 7 ressalta que os estudos sobre o tema devem adotar técnicas de cunho antropológico sobre a relação saúde e trabalho, de maneira a incorporar a experiência e subjetividade dos trabalhadores de um modo qualitativo mais profundo, acessando diretamente a vivência e os significados da saúde para eles.

Decerto, a reflexão acerca da necessidade da produção de novos tipos de instrumentos de investigação aplicados ao contexto de trabalho é preocupação antiga no campo de estudos sobre a relação saúde e trabalho, com especial destaque para a necessidade de se constituírem métodos que privilegiem a participação e a formalização da experiência dos trabalhadores a respeito da sua própria atividade laboral 8,9. Nessa vertente, confirma-se a necessidade de desenvolvimento e atualização de ferramentas da tradição operária, de maneira a se conhecer e responder a problemas reais, tratando com maior profundidade e extensão os cenários do mundo do trabalho em sua relação com a saúde.

Ressalte-se ainda que não foram localizados, na literatura, estudos que mencionassem o uso de cadernetas como base metodológica de pesquisas empíricas a respeito da relação saúde e trabalho, o que, acredita-se, confirma o ineditismo do presente instrumento. Tem-se, portanto, como objetivo deste estudo, apresentar e analisar o instrumento de pesquisa nomeado como “cadernetas de saúde e trabalho” com foco na produção de conhecimento sobre o trabalho de docentes de universidades públicas.

Caracterização das cadernetas de saúde e trabalho

Trata-se de um caderno de pequeno porte, com formato e tamanho de bolso. No que tange à sua composição, consiste em uma parte exterior de capa dura que serve como base para anotações ao longo de um dia de trabalho. Na parte interna, conta com trinta e seis páginas, sendo a primeira destinada ao texto de apresentação e de instruções para uso. Todas as demais páginas são reservadas a anotações, ou seja, cinco páginas por dia da semana.

Note-se, a título de ilustração, que Oddone et al. 6, ao conceberem a ideia de cadernetas para os operários, também tinham a preocupação de elas serem um material de fácil transporte e manuseio, sendo possível levá-las no bolso do vestuário do trabalhador de chão de fábrica, ou seja, no bolso do uniforme dos operários, pois, desse modo, estando “à mão”, poderiam realizar anotações em qualquer momento durante a jornada de trabalho.

Considere-se, também, o fato de não serem incluídos campos para identificação dos trabalhadores participantes da pesquisa. Assim, de fato, prevalece a concepção de instrumento com ampla possibilidade de liberdade de observação e relatos.

Quadro teórico-metodológico

No campo da saúde do trabalhador, intenciona-se conhecer a relação saúde e trabalho em sua complexidade, com o propósito de gerar mudanças no ambiente de trabalho. No materialismo histórico, principal corrente de pensamento e referencial teórico do campo, interpreta-se que o contexto histórico e o modo de produção prevalente estão em estreita correlação dialética com o local de trabalho, com o “chão de fábrica” e a saúde dos trabalhadores 10,11.

Em termos concretos, o trabalho revela-se em múltiplas e complexas configurações na saúde, negativas e positivas. A rigor, o trabalho nunca é neutro. Como na acepção marxista, o homem, ao agir sobre a natureza (externa), modifica a sua própria natureza (interna) 12. Decerto, não se trata de uma dualidade entre o homem e o seu trabalho, visto que “não podemos transformar a nós mesmos sem transformar o que se passa a nosso redor13 (p. 114). Trata-se de uma interação dialética profunda, entre homem, natureza, trabalho e vida.

Assim sendo, é imperativo o desenvolvimento de metodologias que investiguem as articulações internas dessa relação e que permitam ao trabalhador perceber a profundidade dessa ligação na sua vida. Assegura-se que os processos de trabalho não são apenas contextos externos da saúde, mas, sim, fatores condicionantes, conforme preconizado pela medicina social latino-americana 10. Nessa perspectiva, deve-se lançar mão de metodologias emancipadoras, de modo a possibilitar que os trabalhadores se tornem protagonistas do conhecimento a respeito do trabalho e da saúde 14.

Este estudo foi desenvolvido no período compreendido entre janeiro de 2015 e setembro de 2016. Participaram da pesquisa oito docentes com vínculo de trabalho estável e com regime de trabalho de 40 horas semanais, sendo cinco professoras e três professores, na faixa de idade entre 30 e 50 anos. Todos contam com titulação de doutorado e pertencem ao mesmo instituto de uma universidade federal de ensino superior (IFES), localizada no Rio de Janeiro, Brasil. O critério de inclusão foi ser docente ativo e pertencer ao mesmo instituto, respeitando-se o pressuposto teórico alusivo à constituição de grupo homogêneo de trabalho 6.

Desse modo, baseados nos preceitos do MOI 6 de “Grupo Homogêneo”, “Observação Espontânea”, “Validação Consensual” e “Crítica Coletiva”, desenvolveu-se um método de investigação a respeito do trabalho e da saúde, combinando observações individuais dos trabalhadores (cadernetas) e discussão coletiva (reuniões com os trabalhadores). Observe-se que os princípios do MOI foram aqui tomados como etapas do método e adaptados ao propósito do estudo.

Primeiro momento - formação de grupos homogêneos de trabalho: imersão na realidade do estudo

Nesta etapa, procedeu-se à definição do grupo participante da pesquisa e da pessoa que seria a referência - o “ator-chave” -, o interlocutor direto com os pesquisadores, a fim de organizar o processo de estudo no local de trabalho (distribuição das cadernetas e acompanhamento do prazo para sua finalização). A aplicação dessa técnica requer um processo de abertura por parte dos pesquisadores, com idas e vindas ao campo do estudo, culminando com a formação do grupo homogêneo.

Ressalta-se que os trabalhadores, participantes do estudo, precisam estar submetidos à mesma organização do trabalho (sentido de grupo homogêneo), e, preferencialmente, estarem localizados no mesmo território de trabalho.

A formação dos grupos homogêneos, por meio da aproximação dos sujeitos submetidos à mesma experiência de trabalho, é essencial para o conhecimento e geração de consciência coletiva frente aos problemas laborais, bem como para a possibilidade de transformação da realidade 7. Convém lembrar que é um desafio criar estratégias de recuperação da experiência e de reflexão dos trabalhadores a respeito de seu próprio trabalho, transformando-a em conhecimento elaborado e sistematizado e, por ser coletivo, com potencial transformador.

Nesta etapa, realizou-se a primeira reunião com o propósito de apresentação das cadernetas com leitura coletiva das instruções de uso (expressas na sua contracapa e folha de apresentação) e esclarecimento de dúvidas no grupo. Além disso, realizou-se um acordo para devolução das cadernetas no prazo de dez dias, já que se pretendia conhecer uma semana na rotina de trabalho.

Segundo momento - formalização da “observação espontânea” no trabalho: aplicação das cadernetas

Esta etapa da pesquisa diz respeito à aplicação e ao uso propriamente dito das cadernetas pelos trabalhadores, como seus portadores e autores. Trata-se da valorização de registros espontâneos por parte dos trabalhadores, seus olhares e interpretações. Estimula-se a análise reflexiva, por meio da escrita e anotações, advinda da vivência cotidiana. Souza & Mendonça 15 chamam a atenção para a similaridade entre os conceitos de “observação espontânea” do MOI 6 e o de “filosofia espontânea” de Gramsci 16. Para Gramsci, é necessário que coexista, junto à valorização da filosofia espontânea, um trabalho de formação crítica com os trabalhadores, uma vez que, em verdade, não existe uma “evolução espontânea”, sendo necessária uma luta ideológica, uma “batalha no campo das ideias”, e pô-la em prática é determinante ao movimento de emancipação humana. Porém, é preciso tomar como ponto de partida o “senso-comum”, que é a “filosofia espontânea” dos trabalhadores 16.

Terceiro momento - validação consensual e crítica coletiva: encontro para debate sobre os resultados das cadernetas

Nesta etapa, realizou-se um encontro com os trabalhadores participantes para restituição dos resultados das cadernetas e sua validação, quando se debateu a experiência de participação no processo. Trata-se da confrontação entre as observações espontâneas e as críticas de cada sujeito envolvido. A validação consensual refere-se ao julgamento coletivo, quando os integrantes do grupo homogêneo trocam ideias e experiências. Assim, o grupo legitima a experiência de cada um, relativa às condições de trabalho, privilegiando-as e tornando o processo de produção de conhecimentos com maior potencial de intervenção 17. Sendo assim, distingue-se nessa etapa do estudo a ideia de crítica coletiva e de socialização dos elementos de conhecimento relativo à organização do trabalho por meio de processo pedagógico, de troca entre trabalhadores e pesquisadores 6. Para Gramsci 16, a crítica coletiva a respeito da realidade contribui para a desnaturalização dos problemas e é parte do processo de formação sobre o trabalho. Coloca-se em prática a ideia de “trabalho como princípio educativo”.

Resultados e análise

No tocante à análise dos materiais, advindos dos registros das cadernetas e da reunião entre docentes e pesquisadores, adotou-se a vertente da análise temática, modalidade da técnica de análise de conteúdo 18. O corpus de análise foi composto pelas anotações das cadernetas e materiais gravados e transcritos do encontro com os trabalhadores (terceiro momento do método), sendo submetido ao procedimento da referida técnica, a saber: pré-análise, exploração do material e interpretação dos dados obtidos. Foram identificados temas por meio da classificação de excertos, tomando como base de categorização os seguintes critérios: similaridade ou proximidade de sentido, frequência ou repetição de ideias e, ainda, relevância em relação ao objeto do estudo. Ao fim, foram constituídos quatro temas principais de discussão: o tempo de trabalho e as múltiplas atividades de trabalho do professor; precarização das condições de trabalho em universidades; saúde docente entre limites; e, por fim, cadernetas sob o olhar dos seus autores.

Para apresentação dos resultados dos materiais de campo, as cadernetas foram numeradas de 1 a 8. Da mesma forma, os professores participantes do encontro foram designados por numeração de 1 a 8.

Observe-se ainda que as transcrições da reunião e das anotações das cadernetas foram realizadas de modo literal. Este estudo obteve aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca, Fundação Oswaldo Cruz (ENSP/Fiocruz), sob o número CAAE: 19501813.5.0000.5240, e contou com o apoio de financiamento do Edital Inova ENSP/Fiocruz, do ano de 2013.

O tempo de trabalho e as múltiplas atividades de trabalho do professor

O tema que mais sobressaiu dos registros das cadernetas foi, precisamente, a organização do tempo de trabalho dos docentes. A caderneta como ferramenta de pesquisa favoreceu que as anotações apontassem diversas tarefas que ultrapassam, e muito, a jornada formal de trabalho dos professores, o que os induz a trabalhar após o expediente, finais de semana e feriados. Pelo ângulo de compreensão da história, Harvey 13 assevera que as lutas dos trabalhadores em torno da jornada de trabalho foram, e são até hoje, importantes movimentos de resistência da classe trabalhadora, porquanto o tempo de trabalho tornou-se universalmente extenso e intenso. As anotações de final de dia ilustram bem o cansaço e a frustração:

Hoje o dia foi difícil... Cheguei em casa exausta, pensativa e com a sensação de que poderia fazer muito mais do que eu, de fato, consegui fazer...” (Caderneta 1).

Consegui almoçar a primeira vez essa semana [quinta-feira] às 13hs, em frente ao meu computador trabalhando no preenchimento do relatório... Dou uma olhada na aula de amanhã, de 0h às 0:40h” (Caderneta 3).

Esse dia foi tão pesado que não consegui escrever [no diário]. Desmaiei no sofá, mas trabalhei até 1 da manhã” (Caderneta 5).

Observe-se que a anotação da Caderneta 5 faz alusão a um aspecto do instrumento de pesquisa que passa a ser considerado como atividade adicional do trabalhador. A exigência de mais uma tarefa na semana do professor deve ser um aspecto levado em consideração como possível limitação metodológica, mas que, ao fim, não se constituiu impeditiva da realização do estudo.

De fato, a atividade docente é marcada por um processo de intensificação, que, para Pina & Stotz 19, deve ser compreendido no âmbito de configurações específicas das práticas de trabalho, já que podem enfraquecer a capacidade coletiva do trabalhador de proteger sua saúde e, principalmente, de questionar as determinações dos problemas e dos agravos à sua saúde. Verifica-se que as pausas na jornada de trabalho dos professores e o descanso são raros:

Descanso? Na verdade essa pausa fica cada vez mais difícil, porque o nosso tipo de trabalho é um trabalho que a gente leva para casa. A gente vai para casa com ele e então não existe pausa” (Professora 5).

Estava exausta! Precisava parar! Enfim, sei que ao retornar [das férias] encontrarei novamente uma série de problemas, mas talvez volte um tanto quanto renovada e com vontade de continuar...” (Caderneta 4).

Pode-se afirmar, pelas anotações dos docentes nas cadernetas e falas no encontro, que existem vários modos (individuais) de se organizar a temporalidade a partir das muitas demandas e do fluxo contínuo de mais-trabalho. No entanto, foram recorrentes as anotações sobre ocupar o tempo que deveria ser dedicado ao lazer e ao descanso com atividades de trabalho. As horas da vida do professor são tomadas ao máximo pela intensificação laboral. Para Harvey 13, existe um sistema disciplinador e fiscalizador ativo que precisa ser debatido no modo de produção capitalista. A rigor, a temporalidade do capital não leva em conta a saúde e tampouco o bem estar dos trabalhadores. Deve-se ter presente que a jornada de trabalho continua em casa após o trabalho e é incorporada naturalmente à rotina dos professores, além de as horas extras não serem reconhecidas para fins de avaliação institucional:

A aula foi boa e isso me anima um pouco e vou para casa com esperança de conseguir cumprir parte dos meus compromissos diários no final da noite de hoje” (Caderneta 5).

Porque não consigo cadastrar as outras atividades que faltam. O sistema só permite o número de horas equivalente a 40 horas semanais, sem contar férias e fins de semana, o que não é nossa realidade” (Caderneta 7).

Decerto, os sistemas de avaliação em vigor nas universidades públicas estruturam-se, segundo Chauí 20, por uma nova visão organizacional que suscita o que a autora denomina por “universidade operacional”. Trata-se, segundo a autora, de um cenário ameaçador no que diz respeito à conquista da ideia de autonomia do saber em universidades, já que estão submetidas a um controle tecnocrático de cumprimento excessivo de metas quantitativas. Druck 21 denomina de precarização social do trabalho o tipo de gestão e organização do trabalho que tem levado a intensificação laboral sob condições extremamente precárias e sob injunções de polivalência, como assumir múltiplas tarefas que não são típicas de uma determinada atividade.

Precarização das condições de trabalho em universidades

Outro tema prevalente nos textos das cadernetas foi referente à precarização da infraestrutura do trabalho em universidades públicas. Considere-se o fato de que o atual quadro dessas instituições leva a um aumento da sobrecarga de trabalho dos professores, os quais são impelidos a assumir tarefas administrativas que, no ponto de vista do profissional, criam constrangimento e sentimento de frustração:

Sina de sala de aula... Esqueceu extensão? Volta para pegar. Precisa de adaptador. O controle do data-show não está bom... Mas a sala de aula de quinta-feira está com ar condicionado quebrado. Todos suando e sofrendo no calorzão. Às 11 horas dei intervalo e saí procurando uma sala para dar aula com ar condicionado. Consegui. Muda tudo de novo” (Caderneta 7).

Chego para aula e me deparo com a sala sem mesa do professor. A mesma estava desmontada e entulhada num canto da sala, junto com restos de uma outra mesa e carteiras quebradas. O canto do depósito. Fico desanimado com a situação lamentável da sala e sinto vergonha diante dos alunos” (Caderneta 3).

Por meio das anotações nas cadernetas, foi possível verificar que os docentes compram materiais de suporte para uso individual, improvisando, diante das adversidades, a falta de equipamento, de maneira a permitir que sua atividade aconteça. No estudo de Pizzio & Klein 22, afirma-se que as condições de trabalho e suporte organizacional da universidade têm sido fonte de mal-estar na atuação de professores. Os autores asseguram que a precarização objetiva do trabalho em muitas universidades públicas brasileiras constitui-se pela falta dos recursos básicos no que se refere ao ambiente físico e instrumental.

Os registros dos docentes a respeito da deterioração da infraestrutura das universidades relacionam-se à falta de verba para ciência no país:

Desta forma, diante da precariedade dos recursos didáticos para ministrar nossas aulas e da produção de ciência muito comprometida pela ausência de verbas, o desânimo e a decepção tomam conta do nosso humor diário, influindo diretamente na nossa saúde” (Caderneta 4).

Ao chegar [na universidade] já fui ligando o computador e iniciando o pedido ‘do universal’ [modalidade de edital do CNPq]. Mesmo achando uma atitude inútil com o país nessa recessão, a última coisa que virá é verba para pesquisa básica, embarquei nessa empreitada” (Caderneta 6).

Cumpre recordar que a acepção de diário adotada pauta-se na perspectiva segundo a qual um instrumento de pesquisa não se constitui como um fim em si mesmo, devendo, ao contrário, servir de base para o estímulo ao espírito crítico, à problematização e à análise dialética entre a realidade investigada e a teoria 23. Desse modo, a descrença quanto à situação das universidades registrada nas cadernetas foi também tema de discussão e de análise crítica durante a reunião, o que evidencia que foi complementar e profícuo o processo de se realizar a aplicação das cadernetas, seguida de debate entre os seus autores:

Então eu acho que estamos nesse processo de precarização. Não é uma questão de dinheiro na universidade porque quando entrou o dinheiro, no início dos anos 2000, o processo diminuiu, mas não parou. Então eu acho que é uma coisa acima do dinheiro. É um projeto mesmo, de como deve ser o Ensino Superior no Brasil” (Professor 4).

Para Costa 24, a precarização do trabalho de docentes de Ensino Superior pauta-se pela reforma do Estado no neoliberalismo, sob a égide do modelo de Estado mínimo, fortemente avaliador e desprovido de recurso financeiro público. Segundo a autora, essa racionalidade organizacional leva muitos docentes à venda de produtos e serviços. A tese defendida pela autora é aquela de que a precarização do trabalho no Ensino Superior público relaciona-se, dialeticamente, à alienação do trabalho docente - atividade estranha à natureza laboral do ensino e da pesquisa. Lacaz 8 ressalta que a alienação e a sobrecarga são configurações da nocividade do processo de trabalho sob o capitalismo e expressam o desgaste impeditivo de potencialidades e criatividade humana, podendo levar ao adoecimento. Ademais, na acepção de “sobrecarga de trabalho”, distingue-se a noção de “cargas de trabalho”, procedente da medicina social latino-americana, que se refere aos diferentes elementos presentes no processo de trabalho que, interligados, suscitam efeitos sobre a saúde, como extensivamente desenvolvido por Laurell & Noriega, no clássico Processo de Produção e Saúde10.

Saúde docente entre limites

Os comentários realizados nas cadernetas especificam queixas e agravos à saúde, tais como palpitações, angústia, desânimo, irritação, cansaço, frustração, vontade constante de chorar, entre outros:

Acordei ansioso com a quantidade de tarefas - muitas - pra terminar até o fim da semana. Já é quarta-feira. Acordei disposto, mas pensar nisso me deixou tenso. Sinto palpitações” (Caderneta 3).

23:28h - Sinto o estômago embrulhado, sem motivo aparente, provável que seja estresse acumulado dessa semana terrível... No início do dia de trabalho, que começa quando abro os olhos, ainda na cama, me sinto estressada por não ter dado conta no dia anterior de fazer tudo que precisava para hoje” (Caderneta 5).

A modalidade de diário possibilitou o acesso à organização do dia de trabalho; em algumas cadernetas, seus autores incluíram horários, sendo frequentes os apontamentos no sentido de trabalharem após 23h e acordarem antes das 5h, relacionando-os a sinais de saúde.

Saltaram às vistas, ainda, os diversos registros alusivos às relações com a família. Os docentes referem-se a sentimentos de culpa por não terem tempo para a família e dedicação para os filhos. A significação de saúde aparece nas anotações como um ideal a ser alcançado, externo ao trabalho. Assim sendo, cumpre-se a observação prevalente no campo da saúde do trabalhador, segundo a qual existe uma ligação profunda entre o trabalho e a saúde das pessoas 10. Isso deve ser objeto de discussão entre os docentes, para que se construam modos de defesa coletiva de saúde no interior da própria jornada laboral, uma vez que foram identificadas, por meio das notas das cadernetas, somente saídas individuais como forma de proteção aos agravos gerados pelo trabalho:

Desejo sumir e aparecer em um sítio bem distante, com vacas, grilos e pássaros... Desejo, do fundo do coração, paz e tempo para resolver minhas questões pessoais. Cuidar da minha saúde, da minha filha e da família” (Caderneta 6).

Sinto que estresso minha filha [8 anos] que tem um ritmo ‘lento’, principalmente de manhã, e todos os dias acabo ficando culpada por ter criado um ambiente ansiogênico para ela também. É sempre uma correria” (Caderneta 7).

Os temas família e trabalho foram recorrentes nas cadernetas e nos debates com os professores. Trata-se de um tópico especial a ser considerado no âmbito das análises das relações entre saúde e trabalho dos docentes universitários. A família aparece como razão do limite entre o trabalho e o descanso. De acordo com Harvey 13, a variação da jornada de trabalho circunscreve-se dentro das limitações físicas e sociais dos trabalhadores. Constata-se, nos registros das cadernetas, que seus autores fazem menção a um limite mental, psíquico e social que os impede de continuar trabalhando, e a família desempenha importante papel para interrupção das atividades laborais:

Passeio com a família!!! Merecemos!!! Não trabalhei! Não li email! Não respondi mensagens no celular!!” (Caderneta 1).

Dia totalmente off de trabalho. Rio Water Planet com a família. Chegamos em casa exaustos de se divertir. Bem melhor do que ontem!” (Caderneta 5).

É digna de nota, também, a relação com os alunos. Os apontamentos tanto indicam satisfação quanto descontentamento na relação com os discentes, o que demonstra um sentimento ambíguo existente no cotidiano de trabalho:

Quando você dá aquela aula que a turma participa e você discute: Você sai professor!” (Professora 5).

Marco reunião com alunos da pós-graduação que ainda são muito dependentes de mim. Na verdade esta é uma sensação em relação a todos os alunos da PG [pós-graduação]... Parece que trazem para a universidade a mesma relação que eles têm com os pais. Isso me cansa muito” (Caderneta 6).

De acordo com Arbex et al. 25, há uma relação de ambivalência, de prazer e sofrimento, no trabalho de professores universitários que Mancebo 26 interpreta como um paradoxo, pois o trabalho docente constitui-se como uma atividade que suscita, a um só tempo, sobretrabalho e prazer. Em termos concretos, a principal resistência, como forma de defesa coletiva de saúde no cotidiano de trabalho, parece ser a relação de cooperação entre os docentes, a solidariedade, a motivação em grupo e os encontros que promovem pausas para almoço e café:

Consigo sair para almoçar na cantina e almoço com outros colegas. Finalmente. Papo descontraído, mas versando sobre os problemas da universidade. Excesso de trabalho, infraestrutura precária, problemas com alunos e disciplinas... Ou seja, tudo normal” (Caderneta 3).

O que salva parte do meu dia é almoçar com amigos que compartilham de aflições semelhantes as minhas” (Caderneta 5).

Eu acho que o nosso grupo é unido nesse sentido e se reforça nas coisas boas e vai para frente. E sozinho ia ser mais difícil” (Professora 2).

Verifica-se que o apoio do coletivo e os vínculos de companheirismo no trabalho constituem-se como importantes estratégias de resistência a favor da saúde, contra o adoecimento e o sofrimento, bem como conferem sentido ao trabalho.

Não obstante, ressalta-se, como lembra Sennet 27, que uma das consequências da atual configuração do capitalismo é a perda dos laços de proximidade e a valorização de cânones organizacionais, como a competitividade exacerbada e o individualismo. Não há tempo para o fortalecimento dos laços no trabalho. As pessoas ressentem-se de relações humanas constantes. Destarte, cabe a observação segundo a qual o êxito da presente experiência foi possível devido à ligação existente entre os participantes da pesquisa e autores das cadernetas. Constataram-se colaboração e confiança, como valores do grupo, o que deve ser considerado em experiências futuras que queiram adotar a mesma técnica de investigação.

Cadernetas sob o olhar dos seus autores

Dos comentários a respeito da experiência em ser portador e autor das cadernetas, ganhou destaque a referência a vencer o cansaço para realizar as anotações, conforme falas nas reuniões:

Eu acho que eu tive que vencer um pouco o cansaço e a preguiça de preenchê-la. Mas eu venci... Mas é uma tarefa e fiquei muito feliz de preencher. Mas ela é um instrumento que exige disciplina para preencher. Isso acho que afasta muita gente que poderia estar participando. Ou seja, eu acho a caderneta tem muitas coisas a favor dela e tem algumas contra” (Professor 4).

Vencer essa etapa de pegar para preencher, realmente foi complicada... Tanto que a gente leva bastante tempo para preencher... Então foi realmente difícil. Mas quando a gente começa a fazer é exatamente isso: Tem uma satisfação né!” (Professora 3).

Concorda-se com as afirmações dos docentes segundo as quais as cadernetas apresentam pontos favoráveis, mas também limitações. De todo modo, concernente à concepção original do instrumento de pesquisa, constitui-se como ponto capital a ideia não só de levantar dados, mas, sobretudo, de gerar reflexão para que o trabalhador relacione atividade de trabalho e saúde, a favor de mudanças 6.

Há de se considerarem referências dos participantes às cadernetas como “uma espécie de terapia”, já que o instrumento deixa aberta a possibilidade de uma narrativa espontânea, mobilizando aspectos relacionados à subjetividade dos trabalhadores:

Depois do almoço, desço as escadas para tentar tomar um café com alguns colegas, mas todos estão na correria. Percebo que o preenchimento das cadernetas tem se tornado uma espécie de terapia para alguns e, talvez, para mim também” (Caderneta 3).

Decerto, a liberdade para realizar os registros nas cadernetas, por seu próprio arbítrio, possibilitou que os docentes fizessem uso de expressões variadas, tornando a tarefa de análise dos materiais mais leve e prazerosa:

Alívio no coração! Vamos que vamos!” (Caderneta 6).

Valeu a pena, mas estou mortinha com farofa!” (Caderneta 7).

Assim fica bem mais difícil de segurar a peteca [desenhos de carinha triste]” (Caderneta 5).

Sem lançar mão de tipologias para análise da presente experiência, verificou-se que as cadernetas mostraram-se como diários heterogêneos, ora com narrativas referidas à experiência do cotidiano laboral, ora com relatos de um diário pessoal em que são depositados os humores e as emoções de seu autor 28. Afinal não se trata de um pesquisador no sentido tradicional, mas de um trabalhador que observa a sua própria atividade laboral, efetuando autoanálise do trabalho, o que lhe permite desnaturalizar o seu cotidiano em relação à saúde.

Por fim, é válido mencionar Caprara & Landim 29, quando afirmam que os diários de campo que adotam caderno com capa dura, manuscritos, estão sendo superados com o crescente uso de laptops e notebooks, o que deverá ser considerado em experiências futuras.

Considerações finais

As anotações das cadernetas tornaram possível o acesso a um amplo repertório de questões alusivas à relação trabalho e saúde, em um grupo de docentes de universidade pública, com especial destaque para a sobrecarga de trabalho e pressão do tempo para cumprimento de metas. Essa situação acaba gerando intensificação da jornada laboral, que continua em casa, e invasão das horas de final de semana, as quais deveriam ser dedicadas ao lazer e descanso. Destacou-se também a precária infraestrutura de trabalho nas universidades, bem como um sentimento ambíguo no que se refere aos alunos. Ademais, foram registrados sintomas como palpitações, angústia, desânimo, irritação, cansaço, frustração, vontade constante de chorar, o que deverá ser aprofundado em novos estudos. Atinente à satisfação no trabalho, teve ênfase a relação com a família, com os amigos e as pausas. Esses resultados confirmam aquilo que outros estudos vêm mostrando a respeito da intensificação do trabalho e precarização do Ensino Superior em universidades públicas. O estudo prossegue, com aplicação de cadernetas em novos grupos de docentes de IFES, de modo a ampliarmos a discussão a respeito da relação entre o trabalho e as mudanças necessárias à saúde, incluindo outras abordagens metodológicas 30.

Vale mencionar que as diferenças de gênero não foram aqui analisadas, mas não são desconsideradas, tendo em vista a persistência da dupla jornada de trabalho das professoras mulheres.

Não obstante, a possível limitação metodológica no que se refere ao preenchimento da caderneta ser considerado como tarefa adicional do professor verificou-se, ao fim, não foi impeditiva à realização do estudo. A novidade que a caderneta apresenta como instrumento de pesquisa é o relato de observações espontâneas sobre o processo de trabalho, sob o ângulo de compreensão do próprio trabalhador, tal como um diário permite. Em termos gerais, considera-se que os instrumentos de pesquisa de caráter qualitativo devem focar nas vivências pessoais e na procura de significados 31, o que consideramos ter sido alcançado com as cadernetas. Lembremos, ainda, que as ideias e os sentimentos devem ser partilhados 7, o que também consideramos ter alcançado com a aplicação integral da presente técnica (combinação entre cadernetas e encontro de debates). Deve-se ter presente, ainda, que a metodologia aqui descrita pode ser aplicada a outros segmentos de trabalhadores, já que em sua origem está ligada a tradição de luta, em âmbito internacional, contra a nocividade dos ambientes de trabalho 6.

Afirma-se que as cadernetas mostraram-se como ferramenta adequada para o desenvolvimento de estudos sobre a relação trabalho e saúde, levando-se em consideração a experiência do trabalhador em seu próprio contexto de trabalho, permitindo que assuma o lugar de observadores e autores críticos de sua própria história, com potencial para a geração de conhecimento em perspectiva coletiva.

Agradecimentos

Agradecemos aos docentes participantes do estudo.

Referências

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Recebido: 03 de Março de 2017; Revisado: 20 de Junho de 2017; Aceito: 28 de Agosto de 2017

* Correspondência K. R. Souza Rua Henrique Fleiuss 155, apto. 303, Rio de Janeiro, RJ 20521-260, Brasil. katreis@ensp.fiocruz.br

K. R. Souza participou da concepção do estudo, análise dos dados, redação do manuscrito e aprovação da versão final do artigo. A. M. S. Rodrigues, M. B. M. Santos e E. G. Felix participaram da concepção do estudo, redação do manuscrito e aprovação da sua versão final. A. L. O. Mendonça e M. G. Almeida participaram da concepção do estudo, revisão crítica e aprovação da versão final do manuscrito. A. L. Larentis, L. R. Teixeira, V. S. Fernandez, M. Moura, R. H. Simões-Barbosa e W. O. Barros participaram da concepção do estudo, redação do manuscrito, revisão crítica e aprovação da versão final.

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