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Cadernos de Saúde Pública

Print version ISSN 0102-311XOn-line version ISSN 1678-4464

Cad. Saúde Pública vol.34 no.12 Rio de Janeiro  2018  Epub Jan 07, 2019

http://dx.doi.org/10.1590/0102-311x00143318 

RESENHA

A expressão gráfica da criança como estratégia de investigação no campo da saúde coletiva

The graphic expression of the child as a research strategy in the field of public health

La expresión gráfica del niño como estrategia de investigación en el campo de la salud colectiva

Fernanda Serpeloni1 

1 Fundação Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, Brasil.

VIOLÊNCIAS E VULNERABILIDADES NOS DESENHOS INFANTIS.. Assis, SG; Avanci, JQ. , organizadoras., Niterói: :, Eduff, /, Rio de Janeiro: :, Editora Fiocruz, ;, 2017. ., 349p. p. ISBN, ISBN: 978-85-228-1246-2. .

O livro Violências e Vulnerabilidades nos Desenhos Infantis, organizado por Simone Gonçalves de Assis e Joviana Quintes Avanci, é fruto de um estudo longitudinal epidemiológico realizado com 446 alunos de escolas públicas de São Gonçalo (Rio de Janeiro) de 6 a 13 anos, em 2005, 2006 e 2008. O livro traz como objetivo principal investigar a expressão gráfica da criança por meio do desenho como um mecanismo de comunicação que traduz o modo como se relaciona com sua família, meio em que vive, bem como o seu desenvolvimento emocional e cognitivo. Teve como foco a exposição à violência, problemas de saúde mental (ansiedade e depressão) e comportamento (agressividade). Grande parte das crianças que participaram do estudo vivia em situação de pobreza e convivia com graves situações de violência doméstica e comunitária, com pouco estímulo cultural e educacional.

O desenho como expressão singular e original, bem como sua relevância para pesquisas com crianças e adolescentes vem sendo destacado na literatura 1,2,3. Trazer a perspectiva da criança para o primeiro plano implica um rompimento paradigmático, ressaltando a importância de suas vozes como sujeitos sociais ativos e produtores de cultura 1. Os autores do livro, além de trazer o olhar dos adultos (responsáveis e professores) sobre a criança, privilegiam compreender a criança por sua própria perspectiva, de modo a adaptar técnicas e abordagens. Segundo Goldberg & Frota 1 (p. 178), por meio da expressão gráfica “...a criança não só se conta, mas imagina, brinca, sonha e projeta seu futuro”.

Como perspectiva teórica foi priorizada a da saúde coletiva, possibilitando uma abordagem interdisciplinar na compreensão da saúde/doença como processo social. A abordagem da psicologia do desenvolvimento também foi empregada com destaque para a teoria bioecológica de Bronfenbrenner 4. A triangulação de métodos 5 foi a abordagem metodológica principal para a análise e interpretação dos resultados. O desenho que a criança fez de sua família foi utilizado como parte de uma estratégia de investigação para compreender seu desenvolvimento, contexto social e vulnerabilidades em conjunto com outras estratégias metodológicas, incluindo entrevistas estruturadas (quantitativo) e semiestruturadas (qualitativo) com seus responsáveis (em sua maioria as mães) e professores.

O livro é composto de nove capítulos e um anexo com informações detalhadas sobre a pesquisa original. Os capítulos são organizados de modo a conciliar os resultados quantitativos e qualitativos trazendo estudos de caso dos desenhos realizados pelas crianças.

O capítulo 1 situa o desenho da família como forma de expressão infantil. São apresentados os pressupostos teóricos e metodológicos norteadores bem como informações relevantes sobre a pesquisa que deu origem ao livro para a compreensão do contexto da obra.

O capítulo 2 privilegia a discussão sobre a situação de pobreza de crianças brasileiras e suas famílias. Com base em desenhos da família, investigou-se a existência de expressões gráficas que indicassem vulnerabilidades sociais vividas por elas.

O capítulo 3 procura identificar fatores escolares e comportamentais e vitimização por violência presentes nos meninos e nas meninas segundo informação fornecida pelas mães. Além disso, pela perspectiva de gênero, investiga a representação que as mães têm do comportamento de seus filhos e visa compreender como a mãe é representada por seus filhos.

O capítulo 4 abordada a representação mental da relação de apego por meio do desenho. O desenho da família foi utilizado como técnica gráfica para acessar aspectos subjetivos, pessoais e possivelmente inconscientes da criança na sua relação com a família, além de viabilizar avaliação da qualidade do vínculo.

O capítulo 5 teve como enfoque o desenvolvimento cognitivo infantil. Foram apresentadas diferenças desenvolvimentais de meninos e meninas por intermédio do desenho e, posteriormente, a adaptação da análise da figura humana como forma de aproximação ao desenvolvimento cognitivo. O desenvolvimento cognitivo foi investigado segundo características da gestação, nascimento, primeiros meses de vida, hábitos maternos e tipo de relacionamento da criança na escola e com os amigos. Foram realizadas correlações com os resultados do teste de inteligência WISC-III 6 e com o rendimento escolar.

O capítulo 6 compara desenhos da família de crianças que foram expostas à violência física familiar severa com o de crianças que não a sofreram. Objetiva investigar as particularidades que se manifestam nos desenhos e quais as possíveis relações com o comprometimento emocional. Sabe-se que tanto sofrer violência física quanto testemunhar violência entre os pais são fatores que potencializam o surgimento de comportamento agressivo, além de sintomas de depressão e ansiedade. No capítulo, é ressaltado que o desenho da família não seria um instrumento para identificação de crianças que sofrem violência, mas um método para conhecer as dificuldades emocionais das crianças estudadas.

Os capítulos 7, 8 e 9 buscam encontrar diferenças no traçado e no contexto dos desenhos das crianças que apresentaram problemas de saúde mental e de comportamento em comparação com outras sem nenhum outro problema emocional ou comportamental. O capítulo 7 foca nos sintomas de transtorno de ansiedade. O capítulo 8 intenta conhecer as peculiaridades gerais e mais específicas do desenho de crianças com sintomas de depressão, discutindo aspectos familiares, individuais e contextuais. O capítulo 9 investiga peculiaridades do desenho de crianças com problemas de comportamento externalizante, caracterizados com atitudes agressivas e violação de regras sociais.

É importante ressaltar que o livro traz um estudo interdisciplinar com uma amostra representativa única, tendo um número significativo amostral de crianças selecionadas aleatoriamente. Além disso, o caráter longitudinal do estudo permitiu o acompanhamento dessas crianças ao longo dos anos trazendo riqueza para a interpretação dos dados ao recuperar análise das histórias individuais das crianças contadas por elas mesmas ou por seus pais durante os anos de investigação.

O conteúdo da obra provoca reflexão sobre o uso do desenho como estratégia metodológica em uma pesquisa epidemiológica inserida no campo da saúde coletiva. Ao longo da leitura dos capítulos é possível observar a constante preocupação dos autores com o rigor metodológico do estudo. Os desafios metodológicos e teóricos para a compreensão da comunicação da criança sobre si e sua família por meio do desenho é bastante explorado no livro. Dessa forma, o desenho constitui um valioso recurso de pesquisa, podendo ser utilizado também como procedimento complementar à entrevista enriquecendo as fontes de informações 2.

Os capítulos trazem contribuição para o avanço científico na área da violência e saúde no entendimento da realidade e desenvolvimento de crianças em contexto de vulnerabilidade. Os autores ressaltam que compreender a importância da criança na família e das relações familiares é fundamental para a promoção da saúde biopsicossocial e bem-estar das crianças.

Um outro ponto forte do livro é a riqueza dos relatos de caso ao longo dos capítulos. Esses relatos permitem não só a exemplificação da análise com desenhos selecionados, mas também uma compreensão mais aprofundada do desenvolvimento da criança e suas vulnerabilidades valendo-se das informações coletadas ao longo dos anos. A compreensão do desenvolvimento humano em sua complexidade não se dá unicamente pela análise dos desenhos. No livro, o desenvolvimento é apresentado mediante uma perspectiva integral, abordando aspectos do desenvolvimento de modo a contemplar elementos da história de vida, contexto social, cognição bem como relações familiares que privilegiam a abordagem bioecológica do desenvolvimento de Bronfenbrenner 4.

A leitura da obra é acessível mesmo para aqueles que não são familiarizados com o uso do desenho como estratégia metodológica. A organização dos capítulos permite que o leitor se familiarize com a técnica e os pressupostos teóricos. No decorrer do livro, evidencia-se a contribuição do uso dos desenhos para a compreensão do desenvolvimento da criança em situação de vulnerabilidade.

O livro está inserido no campo da saúde coletiva e promove reflexão sobre violência e saúde, interessando diferentes áreas do conhecimento como educação, psicologia, assistência social e campo da saúde em geral. O livro é um convite para pensar novos caminhos e formas de integrar conhecimentos.

REFERÊNCIAS

1. Goldberg L, Frota AMMC. O desenho infantil como escuta sensível na pesquisa com crianças: inquietude, invenção e transgressão na elaboração do mundo. Revista de Humanidades 2018; 32:172-9. [ Links ]

2. Natividade MR, Coutinho MC, Zanella AV. Desenho na pesquisa com crianças: análise na perspectiva histórico-cultural. Contextos Clín 2008; 1:9-18. [ Links ]

3. Werle K, Bellochio CR. Protagonismo infantil, desafios éticos e metodológicos na pesquisa com crianças. Cad Pesqui 2017; 23:227-42. [ Links ]

4. Bronfenbrenner U. Toward an experimental ecology of human development. Am Psychol 1977; 32:513-31. [ Links ]

5. Minayo MCS, Assis SG, Souza ER. Avaliação por triangulação de métodos: abordagem de programas sociais. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz; 2005. [ Links ]

6. Wechsler D. WISC III - escala de inteligência Wechsler para crianças. 3ª Ed. São Paulo: Casa do Psicólogo; 2002. [ Links ]

Recebido: 16 de Agosto de 2018; Revisado: 06 de Setembro de 2018; Aceito: 02 de Outubro de 2018

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