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Cadernos de Saúde Pública

Print version ISSN 0102-311XOn-line version ISSN 1678-4464

Cad. Saúde Pública vol.35 no.7 Rio de Janeiro  2019  Epub July 22, 2019

http://dx.doi.org/10.1590/0102-311x00153918 

ARTIGO

Fazer refeições com os pais está associado à maior qualidade da alimentação de adolescentes brasileiros

Comer con los padres está asociado a una mayor calidad en la alimentación de los adolescentes brasileños

Bianca Garcia Martins1  2 
http://orcid.org/0000-0002-2199-9111

Camila Zancheta Ricardo2 
http://orcid.org/0000-0003-3643-302X

Priscila Pereira Machado1 
http://orcid.org/0000-0003-4607-5094

Fernanda Rauber1 
http://orcid.org/0000-0001-9693-7954

Catarina Machado Azeredo2  3 
http://orcid.org/0000-0002-6189-4429

Renata Bertazzi Levy2 
http://orcid.org/0000-0001-5388-7002

1 Faculdade de Saúde Pública, Universidade de São Paulo, São Paulo Brasil.

2 Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo, São Paulo Brasil.

3 Universidade Federal de Uberlândia, Uberlândia, Brasil.

Resumo:

O objetivo foi investigar a frequência com que os adolescentes brasileiros realizam as refeições com os pais e verificar a associação deste hábito com a qualidade da dieta. Foram utilizados dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar - 2015 (PeNSE). A amostra foi composta por adolescentes matriculados no nono ano do ensino fundamental de escolas públicas e privadas, com idades entre 11 e 19 anos. A exposição de interesse foi realizar refeições com os pais (0-4 e ≥ 5 dias/semana) e os desfechos estudados foram consumo frequente (≥ 5 dias/semana) de alimentos marcadores de alimentação saudável e não saudável. Escores de alimentação saudável (variação 0-21) e não saudável (variação 0-35) foram elaborados com base no somatório dos dias que o adolescente relatou consumir cada um dos marcadores de alimentação. Foram usados modelos de regressão de Poisson e linear, ajustados por variáveis sociodemográficas. A realização frequente de refeições com os pais (≥ 5 dias/semana) foi observada em 74% (IC95%: 73,4-74,7) dos adolescentes. Aqueles que afirmaram ter esse hábito apresentaram maior probabilidade do consumo frequente de feijão (RP = 1,22; IC95%: 1,19-1,26), frutas (RP = 1,34; IC95%: 1,28-1,39) e hortaliças (RP = 1,39; IC95%: 1,34-1,44); e menor probabilidade de consumo frequente de guloseimas (RP = 0,91; IC95%: 0,88-0,94), ultraprocessados salgados (RP = 0,91; IC95%: 0,87-0,94) e salgados fritos (RP = 0,85; IC95%: 0,80-0,90). Realizar as refeições com os pais foi positivamente associado ao escores de alimentação saudável e inversamente associado ao escores de alimentação não saudável. O hábito de realizar refeições com os pais é frequente entre adolescentes brasileiros e está associado à melhor qualidade da alimentação.

Palavras-chave: Refeições; Família; Consumo de Alimentos; Adolescente

Resumen:

El objetivo fue investigar la frecuencia con la que los adolescentes brasileños comen con los padres y verificar la asociación de este hábito con la calidad de la dieta. Se utilizaron datos de la Encuesta Nacional de Salud del Escolar - 2015 (PeNSE). La muestra estaba compuesta por adolescentes matriculados en el noveno año de enseñanza fundamental de escuelas públicas y privadas, con edades entre 11 y 19 años. La exposición de interés fue realizar comidas con los padres (0-4 y ≥ 5 días/semana) y los resultados estudiados fueron consumo frecuente (≥ 5 días/semana) de alimentos marcadores de alimentación saludable y no saludable. Los marcadores de alimentación saludable (variación 0-21) y no saludable (variación 0-35) se elaboraron basándose en el sumatorio de los días en los que el adolescente informó consumir cada uno de los marcadores de alimentación. Se usaron modelos de regresión de Poisson y lineales, ajustados por variables sociodemográficas. La realización frecuente de comidas con los padres (≥ 5 días/semana) se observó en un 74% (IC95%: 73,4-74,7) de los adolescentes. Aquellos que afirmaron tener ese hábito presentaron una mayor probabilidad de consumo frecuente de frijoles (RP = 1,22; IC95%: 1,19-1,26), frutas (RP = 1,34; IC95%: 1,28-1,39) y hortalizas (RP = 1,39; IC95%: 1,34-1,44); y menor probabilidad de consumo frecuente de golosinas (RP = 0,91; IC95%: 0,88-0,94), aperitivos ultraprocesados (RP = 0,91; IC95%: 0,87-0,94) y aperitivos fritos (RP = 0,85; IC95%: 0,80-0,90). Realizar las comidas con los padres estuvo positivamente asociado al marcadores de alimentación saludable e inversamente asociado al marcadores de alimentación no saludable. El hábito de realizar comidas con los padres es frecuente entre adolescentes brasileños y está asociado a una mejor calidad de la alimentación.

Palabras-clave: Comidas; Familia; Consumo de Alimentos; Adolescente

Introdução

A obesidade é um problema de saúde pública que atinge crianças e adolescentes em grandes proporções em todo o mundo 1,2. No Brasil, a prevalência de obesidade nessa faixa etária é de 14% 3. Dados da pesquisa nacional realizada com adolescentes brasileiros em 2014 mostraram que um em cada quatro adolescentes estava com excesso de peso e 8,4% já apresentavam obesidade 4. Ao mesmo tempo, os hábitos alimentares de adolescentes têm sido caracterizados pelo alto consumo de alimentos ultraprocessados, que são ricos em gorduras, açúcares e sódio, e baixo consumo de frutas e hortaliças 5,6,7. Entre os fatores que contribuem para esse cenário está o ambiente familiar, que desempenha um papel importante na formação dos hábitos alimentares de crianças e adolescentes 8,9,10.

Estudos têm sugerido que as refeições em família podem agir como um fator de proteção para problemas relacionados a condições de saúde na infância e adolescência 11,12. Além disso, têm um enorme potencial como ambiente de aprendizagem, onde os pais podem demonstrar hábitos alimentares saudáveis e os filhos podem aprender sobre alimentos e suas preparações, comportamentos e atitudes alimentares 13.

Uma meta-análise publicada em 2018 incluindo 57 estudos mostrou que as refeições em família foram associadas com dieta saudável e menor índice de massa corporal em crianças e adolescentes 14. Contudo, esses estudos foram conduzidos em países com renda elevada, sendo a grande maioria nos Estados Unidos, seguidos pelos países europeus. Estudos que avaliam o ambiente familiar e sua associação com o padrão alimentar ainda são escassos no Brasil. As produções científicas existentes abordam aspectos antropológicos do comer em companhia e os impactos da globalização nas mudanças das práticas alimentares 15,16, ou trazem apenas a prevalência desta prática e sua associação com algumas características sociodemográficas da população 17. Assim, o presente trabalho teve como objetivo investigar a frequência com que os adolescentes brasileiros realizam as refeições com os pais e verificar a associação deste hábito com a qualidade da dieta.

Métodos

População de estudo, amostragem e coleta dos dados

Foram analisados os dados da terceira edição da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) realizada em 2015 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em parceria com os Ministérios da Saúde e Ministério da Educação. A PeNSE é um inquérito transversal, com uma amostra representativa de estudantes brasileiros do 9º ano do Ensino Fundamental (n = 102.072), com idades entre 11 e 19 anos, matriculados em escolas públicas e privadas (n = 3.040 escolas).

As escolas foram selecionadas considerando-se o número de turmas e a dependência administrativa. Em cada escola da amostra as turmas do 9º ano foram selecionadas aleatoriamente e com probabilidades iguais entre aquelas existentes em 2015, da seguinte forma: uma turma em cada escola que informou ter até duas turmas do 9º ano, e duas turmas em cada escola com três ou mais turmas do 9º ano. Todos os estudantes das turmas selecionadas foram convidados para participar da pesquisa.

Os estudantes responderam a um questionário autoaplicável inserido em smartphone, contendo questões sobre características sociodemográficas, de contexto familiar e escolar, e de práticas relacionadas à alimentação. Mais detalhes sobre o processo de amostragem podem ser obtidos na publicação da PeNSE 18.

Variáveis do estudo

O hábito de fazer as refeições (almoçar ou jantar) em família foi avaliado usando-se a seguinte questão: “Você costuma almoçar ou jantar com sua mãe, pai ou responsável?”, tendo como opções de resposta: “Sim, todos os dias”; “Sim, 5 a 6 dias por semana”; “Sim, 3 a 4 dias por semana”; “Sim, 1 a 2 dias por semana”; “Raramente”; ou “Não”. Neste estudo foi adotado o termo “pais” para se referir a “mãe, pai ou responsável”, e a prática de fazer as refeições com os pais foi categorizada em 0-4 e ≥ 5 dias na semana, sendo esta última categoria considerada consumo frequente.

A qualidade da alimentação foi avaliada com base na questão: “Nos últimos 7 dias, em quantos dias você comeu...?”, para cada um dos alimentos marcadores de alimentação saudável (feijão, frutas, hortaliças) e não saudável (guloseimas, hambúrguer, presunto, mortadela, salame, linguiça, salsicha, macarrão instantâneo, salgadinho de pacote, biscoitos salgados, salgados fritos, refrigerantes e fast food). O termo ultraprocessados salgados foi usado para representar o grupo que inclui carnes processadas (hambúrguer, presunto, mortadela, salame, linguiça, salsicha), salgadinhos de pacote, macarrão instantâneo e biscoitos salgados. O consumo de alimentos marcadores de alimentação saudável e não saudável foi categorizado em frequente (≥ 5 dias na semana) e não frequente (0-4 dias na semana). Em seguida, para a análise contínua, foram criados dois escores. O escore de alimentação saudável foi elaborado com base no somatório dos dias da semana que o adolescente relatou consumir cada um dos três marcadores saudáveis, e poderia variar de zero (não consumiu nenhum alimento em nenhum dia) a 21 (consumiu todos os alimentos em todos os 7 dias). O escore não saudável foi criado da mesma forma, porém, somando-se a frequência de consumo dos cinco marcadores não saudáveis, variando de 0 a 35. Quanto maior o escore, maior o consumo desses alimentos marcadores. Os escores foram criados para que fosse possível avaliar o consolidado de indicadores saudáveis e não saudáveis e não apenas cada variável de forma isolada.

As variáveis sociodemográficas estudadas foram: sexo; faixa etária (≤ 13 anos, 14 anos, 15 anos e ≥ 16 anos); nível de escolaridade materna (Ensino Fundamental incompleto, Ensino Fundamental completo, Ensino Médio completo e Ensino Superior completo); dependência administrativa da escola (pública ou privada); raça/cor (branca, preta, amarela, parda e indígena); região geográfica referente à localização da escola e residência do estudante (Norte, Nordeste, Sudeste, Sul e Centro-oeste); município de residência (capital e não capital); arranjo familiar (mora com mãe e pai, somente mãe, somente pai e nenhum dos dois); e escore de bens e serviço. A variável de escore de bens e serviços foi construída baseando-se nos seguintes itens relatados: posse de telefone fixo, telefone celular, computador, internet e automóvel, e presença de empregada doméstica em três ou mais dias por semana. Para cada item foi atribuído um peso que equivaleu ao inverso da frequência de posse ou presença no total da amostra estudada. A soma dos pesos originou o escore de cada indivíduo, que foi posteriormente dividida em terços 19.

Aspectos éticos

A PeNSE 2015 foi aprovada pelo Comitê Nacional de Ética em Pesquisa do Conselho Nacional de Saúde (CNS), pelo registro nº 1.006.467, de 30 de março de 2015. Os estudantes e as escolas foram informados da garantia da confidencialidade dos dados e não identificação.

Análise dos dados

Calculou-se as prevalências e os intervalos de confiança de consumo frequente dos marcadores alimentares estudados, bem como de consumo frequente de refeições com os pais, de acordo com as variáveis socioeconômicas.

Foi realizada imputação múltipla de dados com o método multiple imputation by chained equations para a variável escolaridade materna, que apresentou proporção de perdas de 26,9%. As variáveis sociodemográficas e alimentares foram usadas como variáveis preditoras na imputação porque fariam parte de modelos de análise subsequente 20. As demais variáveis apresentaram perdas inferiores a 0,3%.

A associação entre fazer as refeições com os pais e o consumo frequente de cada alimento marcador de alimentação saudável e não saudável foi avaliada por meio de razão de prevalência (RP), obtida por modelos de regressão de Poisson. Para avaliar a associação entre fazer as refeições com os pais e os escores de alimentação saudável e não saudável foram realizados modelos de regressão Linear. As covariáveis que apresentaram valor de p < 0,20 nos modelos univariados com o desfecho foram utilizadas como ajuste nos modelos múltiplos.

Todas as análises foram realizadas no software Stata 14.1 (https://www.stata.com), considerando-se a complexidade da amostra e adotando-se p < 0,05 como nível de significância estatística.

Resultados

As Tabelas 1 e 2 apresentam o consumo frequente de alimentos marcadores de alimentação saudável e não saudável, segundo as características sociodemográficas dos adolescentes brasileiros. Mais da metade (52,8%; IC95%: 51,8-53,8) apresentou consumo frequente de feijão e cerca de um terço consumiu frutas (32,7%; IC95%: 32,1-33,4) e hortaliças (37,7%; IC95%: 37,0-38,4) em pelo menos 5 dias da semana. Em relação aos marcadores de alimentação não saudável, 41,6% (IC95%: 41,0-42,3) dos adolescentes relataram consumo frequente de guloseimas, 31,3% (IC95%: 30,7- 32,0) de ultraprocessados salgados, 13,7% (IC95%: 13,2-14,2) de salgados fritos, 26,7% (IC95%: 26,0-27,3) de refrigerantes e 5,2% (IC95%: 4,9-5,4) de fast food. O consumo frequente de feijão foi maior em estudantes de escolas públicas, de cor ou raça preta, parda ou indígena, se comparados a brancos, entre aqueles que não vivem em capitais, e mostrou relação inversa com o escore de bens de consumo e escolaridade materna. Já o consumo de frutas e hortaliças apresentou associação direta com escore de bens e consumo e escolaridade da mãe. O consumo frequente de hortaliças ainda foi maior nos estudantes de escolas privadas e naqueles de raça ou cor branca, quando comparados com pretos, pardos e indígenas (Tabela 1). O consumo frequente de todos os indicadores de alimentação não saudáveis avaliados foi maior com a maior escolaridade da mãe e maiores terços de escore de bens e consumo. O consumo frequente de ultraprocessados salgados, grupo que inclui carnes processadas, salgadinhos de pacote e biscoitos salgados, foi maior também entre alunos de escolas privadas (Tabela 2).

Tabela 1 Consumo frequente de alimentos marcadores de alimentação saudável segundo características sociodemográficas de adolescentes brasileiros. Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), 2015. 

Variáveis Feijão Frutas Hortaliças
% IC95% % IC95% % IC95%
Total 52,8 51,8-53,8 32,7 32,1-33,4 37,7 37,0-38,4
Sexo
Masculino 57,3 56,1-58,5 33,3 32,5-34,0 37,1 36,3-38,0
Feminino 48,5 47,3-49,7 32,2 31,3-33,1 38,2 37,4-39,1
Raça/cor
Branca 50,2 48,8-51,6 32,9 31,8-34,0 40,1 39,0-41,3
Preta 58,8 57,0-60,6 33,1 31,6-34,7 34,9 33,3-36,6
Amarela 50,2 47,4-52,9 32,6 30,2-35,2 40,5 37,8-43,3
Parda 53,2 52,1-54,4 32,4 31,6-33,2 36,5 35,7-37,3
Indígena 54,0 51,0-57,1 33,0 30,4-35,8 34,0 31,3-36,8
Idade (anos)
≤ 13 53,6 51,5-55,7 33,4 31,7-35,1 39,8 38,3-41,4
14 52,7 51,5-53,9 33,5 32,6-34,4 39,3 38,3-40,2
15 52,5 51,0-53,9 31,2 30,2-32,3 35,0 33,9-36,1
≥ 16 52,4 50,7-54,1 30,6 29,2-32,0 31,7 30,3-33,2
p tendência 0,33 < 0,001 < 0,001
Nível de escolaridade materna
Ensino Fundamental incompleto 55,8 54,6-57,0 29,3 28,3-30,3 32,2 31,2-33,2
Ensino Fundamental completo 54,2 52,5-56,0 32,3 30,9-33,8 37,0 35,4-38,5
Ensino Médio completo 52,4 50,9-53,9 34,2 33,0-35,4 40,4 39,2-41,7
Ensino Superior completo 45,6 43,7-47,4 37,7 36,3-39,2 45,4 43,7-47,1
p de tendência < 0,001 < 0,001 < 0,001
Tipo de escola
Pública 54,9 53,9-55,9 32,6 31,9-33,3 36,8 36,1-37,5
Privada 40,6 38,1-43,1 33,3 31,5-35,2 42,8 40,8-44,9
Escore de bens e serviço
1º terço 52,7 51,5-53,9 29,4 28,6-30,3 32,2 31,3-33,1
2º terço 55,4 54,2-56,5 32,8 31,7-33,8 38,0 37,0-39,0
3º terço 50,4 48,8-52,0 35,7 34,6-36,9 42,5 41,3-43,7
p de tendência 0,01 < 0,001 < 0,001
Região geográfica
Norte 32,7 30,9-34,5 29,8 28,6-31,0 36,4 35,2-37,7
Nordeste 49,7 48,4-51,0 31,3 30,5-32,2 31,0 30,2-31,9
Sudeste 61,7 59,9-63,5 34,2 32,9-35,5 40,9 39,6-42,3
Sul 39,3 37,0-41,6 31,9 30,6-33,2 38,9 37,5-40,4
Centro-oeste 59,6 58,2-61,1 34,7 33,6-35,8 43,6 42,3-44,8
Município de residência
Capital 47,3 45,7-48,9 32,8 32,0-33,7 38,3 37,3-39,2
Não capital 54,4 53,2-55,6 32,7 31,9-33,5 37,5 36,7-38,4
Arranjo familiar
Mãe e pai 54,0 52,8-55,2 33,3 32,5-34,2 38,8 38,0-39,6
Somente mãe 50,9 49,5-52,2 31,9 30,9-32,9 36,3 35,2-37,3
Somente pai 54,2 51,6-56,8 32,3 29,9-34,8 37,3 34,8-39,9
Nenhum 50,0 47,8-52,1 31,1 29,2-33,1 34,4 32,3-36,4

IC95%: intervalo de 95% de confiança.

Tabela 2 Consumo frequente de alimentos marcadores de alimentação não saudável segundo características sociodemográficas de adolescentes brasileiros. Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), 2015. 

Variáveis Guloseimas Ultraprocessados salgados Salgados fritos Refrigerantes Fast food
% IC95% % IC95% % IC95% % IC95% % IC95%
Total 41.6 41,0-42,3 31,3 30,7-32,0 13,7 13,2-14,2 26,7 26,0-27,3 5,2 4,9-5,4
Sexo
Masculino 35,5 34,7-36,3 29,1 28,3-29,9 12,9 12,4-13,5 28,7 27,8-29,5 5,5 5,2-5,9
Feminino 47,4 46,5-48,4 33,4 32,5-34,3 14,4 13,8-15,1 24,7 23,9-25,6 4,8 4,4-5,2
Raça/cor
Branca 41,0 40,0-42,1 33,4 32,5-34,3 12,5 11,8-13,3 27,3 26,2-28,4 5,2 4,7-5,7
Preta 42,3 40,7-44,0 29,8 28,4-31,2 15,1 13,9-16,4 29,2 27,7-30,8 5,9 5,2-6,7
Amarela 40,6 37,8-43,5 33,6 31,2-36,0 16,0 14,0-18,3 26,9 24,7-29,2 6,6 5,4-8,0
Parda 42,1 41,2-43,1 29,9 28,9-30,8 14,0 13,4-14,7 25,2 24,4-26,1 4,7 4,3-5,0
Indígena 39,8 37,1-42,5 30,6 28,0-33,3 13,7 11,7-15,9 27,7 24,9-30,7 6,2 4,9-7,8
Idade
≤ 13 44,7 43,0-46,4 33,8 32,5-35,1 13,4 12,3-14,5 25,0 23,6-26,4 3,9 3,4-4,6
14 42,2 41,2-43,1 31,7 30,9-32,6 12,9 12,3-13,5 25,6 24,8-26,5 4,5 4,2-4,9
15 39,9 38,7-41,1 29,7 28,6-30,9 14,8 13,9-15,7 30,0 28,9-31,1 6,6 6,0-7,3
≥ 16 36,9 35,4-38,4 28,2 26,8-29,7 16,1 15,1-17,2 28,2 26,9-29,5 7,6 6,8-8,4
p de tendência < 0,001 < 0,001 < 0,001 < 0,001 < 0,001
Nível de escolaridade materna
Ensino Fundamental incompleto 39,6 38,6-40,6 27,3 26,3-28,4 12,4 11,7-13,1 23,9 22,9-24,8 4,0 3,6-4,5
Ensino Fundamental completo 42,4 40,9-43,8 32,3 30,9-33,6 13,8 12,7-14,8 27,8 26,3-29,3 5,4 4,7-6,0
Ensino Médio completo 43,1 42,0-44,2 33,4 32,4-34,4 14,5 13,7-15,4 28,7 27,6-29,8 5,6 5,1-6,1
Ensino Superior completo 42,8 41,2-44,5 35,1 33,8-36,5 14,9 13,7-16,1 27,6 26,0-29,1 6,4 5,8-7,1
p de tendência < 0,001 < 0,001 < 0,001 < 0,001 < 0,001
Tipo de escola
Pública 41,6 40,9-42,3 29,9 29,2-30,5 13,7 13,2-14,2 26,5 25,8-27,2 5,1 4,8-5,4
Privada 41,7 39,9-43,4 39,9 38,3-41,6 13,8 12,7-15,1 27,5 25,7-29,5 5,5 4,9-6,2
Escore de bens e serviço
1º terço 38,7 37,8-39,7 26,8 25,9-27,6 12,5 11,8-13,2 21,1 20,3-22,0 3,9 3,6-4,3
2º terço 42,3 41,3-43,3 31,3 30,4-32,4 13,8 13,1-14,5 27,1 26,2-28,0 4,7 4,3-5,1
3º terço 43,6 42,5-44,8 35,6 34,6-36,6 14,7 13,9-15,6 31,3 30,0-32,5 6,8 6,3-7,4
p de tendência < 0,001 < 0,001 < 0,001 < 0,001 < 0,001
Região geográfica
Norte 36,1 34,8-37,4 24,0 22,9-25,1 13,7 12,8-14,6 23,8 22,7-24,9 5,3 4,9-5,8
Nordeste 37,8 36,9-38,8 30,6 29,7-31,5 14,7 14,0-15,4 21,7 20,9-22,6 5,1 4,7-5,4
Sudeste 45,1 43,9-46,4 32,9 31,6-34,1 13,8 12,9-14,7 30,0 28,7-31,3 5,2 4,7-5,8
Sul 39,6 38,2-41,1 33,6 32,3-34,9 11,7 10,8-12,6 25,0 23,7-26,3 4,3 3,8-4,9
Centro-oeste 45,6 44,4-46,8 30,9 29,8-31,9 12,8 12,1-13,5 32,0 30,8-33,2 6,1 5,7-6,5
Município de residência
Capital 41,8 40,9-42,6 34,0 33,2-34,9 14,5 13,7-15,2 28,8 27,9-29,8 6,0 5,7-6,4
Não capital 41,6 40,7-42,4 30,5 29,7-31,3 13,5 12,9-14,1 26,0 25,2-26,8 4,9 4,6-5,2
Arranjo familiar
Mãe e pai 40,7 39,8-41,6 31,1 30,3-31,9 12,8 12,3-13,4 25,5 24,6-26,3 4,8 4,5-5,1
Somente mãe 43,7 42,6-44,7 32,2 31,2-33,1 14,7 14,0-15,5 28,0 27,0-29,0 5,6 5,1-6,1
Somente pai 41,1 38,6-43,6 30,4 28,0-32,9 15,7 13,9-17,8 31,5 29,2-33,9 5,7 4,6-7,0
Nenhum 41,1 38,9-43,3 30,2 28,5-32,1 15,7 14,2-17,4 28,0 26,0-30,0 6,2 5,3-7,3

IC95%: intervalo de 95% de confiança.

Aproximadamente 74% (IC95%: 73,4-74,7) dos adolescentes relataram o hábito de fazer as refeições com os pais em pelo menos 5 dias da semana, sendo esta prática mais frequente entre estudantes do sexo masculino, adolescentes mais novos, filhos de mulheres com menor escolaridade, que estudam em escolas públicas e que não residem em capitais (Tabela 3).

Tabela 3 Frequência de refeições com os pais segundo características sociodemográficas de adolescentes brasileiros. Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), 2015. 

Variáveis Frequência de refeições com os pais
0-4 dias 5 ou mais dias
% IC95% % IC95%
Total 26,0 25,3-26,6 74,0 73,4-74,7
Sexo
Masculino 22,5 21,7-23,3 77,5 76,7-78,3
Feminino 29,2 28,4-30,0 70,8 70,0-71,6
Raça/cor
Branca 24,4 23,5-25,4 75,6 74,6-76,5
Preta 27,5 26,1-28,8 72,5 71,2-73,9
Amarela 30,2 27,7-32,7 69,8 67,3-72,3
Parda 26,2 25,4-27,0 73,8 73,0-74,6
Indígena 29,1 26,6-31,8 70,9 68,2-73,4
Idade (anos)
≤ 13 23,7 22,4-25,1 76,3 74,9-77,6
14 25,1 24,4-25,9 74,9 74,1-75,6
15 28,2 27,1-29,3 71,8 70,7-72,9
≥ 16 29,6 28,2-31,1 70,4 68,9-71,8
p de tendência < 0,001
Nível de escolaridade materna
Ensino Fundamental incompleto 25,2 24,3-26,2 74,8 73,8-75,7
Ensino Fundamental completo 25,6 24,3-27,0 74,4 73,0-75,7
Ensino Médio completo 26,1 25,0-27,3 73,9 72,7-75,0
Ensino Superior completo 27,4 26,1-28,8 72,6 71,2-73,9
p de tendência 0,012
Tipo de escola
Pública 25,2 24,5-25,9 74,8 74,1-75,5
Privada 30,4 28,8-32,1 69,6 67,9-71,2
Escore de bens e serviço
1º terço 27,6 26,6-28,5 72,4 71,5-73,4
2º terço 24,8 24,0-25,7 75,2 74,3-76,0
3º terço 25,6 24,5-26,8 74,4 73,2-75,5
p de tendência 0,011
Região geográfica
Norte 25,1 23,9-26,3 74,9 73,7-76,1
Nordeste 28,0 27,0-28,9 72,0 71,1-73,0
Sudeste 26,3 25,1-27,6 73,7 72,4-74,9
Sul 22,6 21,4-23,8 77,4 76,2-78,6
Centro-oeste 22,9 21,9-23,9 77,1 76,1-78,1
Município de residência
Capital 30,8 30,0-31,7 69,2 68,3-70,0
Não capital 24,5 23,7-25,3 75,5 74,7-76,3
Arranjo familiar
Mãe e pai 20,7 20,0-21,4 79,3 78,6-80,0
Somente mãe 32,5 31,4-33,5 67,5 66,5-68,6
Somente pai 34,4 31,9-37,0 65,6 63,0-68,1
Nenhum 39,8 37,8-41,8 60,2 58,2-62,2

IC95%: intervalo de 95% confiança.

A associação entre a frequência de realizar as refeições com os pais e o consumo frequente dos alimentos marcadores de alimentação saudável e não saudável está apresentada na Tabela 4. Fazer as refeições com os pais em pelo menos 5 dias da semana foi positivamente associado com o consumo frequente de feijão (RP = 1,22; IC95%: 1,19-1,26), frutas (RP = 1,34; IC95%: 1,28-1,39) e hortaliças (RP = 1,34; IC95%: 1,28-1,39); e negativamente associado com o consumo frequente de guloseimas (RP = 0,91; IC95%: 0,88-0,94), ultraprocessados salgados (RP = 0,91; IC95% 0,87-0,94) e salgados fritos (RP = 0,85; IC95%: 0,80-0,90). Não houve associação significativa para o consumo de refrigerantes e fast food (p > 0,05).

Tabela 4 Associação entre o consumo de marcadores de alimentação saudável e não saudável com a prática de fazer as refeições com os pais. Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), 2015. 

Marcadores Modelo bruto Modelo ajustado *
RP IC95% Valor de p RP IC95% Valor de p
Alimentação saudável
Feijão 1,26 1,22-1,29 < 0,001 1,22 1,19-1,26 < 0,001
Frutas 1,33 1,28-1,39 < 0,001 1,34 1,28-1,39 < 0,001
Hortaliças 1,39 1,34-1,44 < 0,001 1,39 1,34-1,44 < 0,001
Alimentação não saudável
Guloseimas 0,89 0,86-0,91 < 0,001 0,91 0,88-0,94 < 0,001
Ultraprocessados salgados 0,88 0,85-0,92 < 0,001 0,91 0,87-0,94 < 0,001
Salgados fritos 0,81 0,76-0,85 < 0,001 0,85 0,80-0,90 < 0,001
Refrigerantes 0,95 0,91-0,99 0,015 0,97 0,93-1,01 0,098
Fast food 0,85 0,77-0,94 0,001 0,91 0,82-1,00 0,051

IC95%: intervalo de 95% de confiança; RP: razão de prevalência.

* As covariáveis incluídas em cada modelo foram: (a) feijão: sexo, cor, tipo de escola, nível de escolaridade materna, escore de bens e serviços, região, tipo de município, arranjo familiar; (b) frutas: sexo, idade, nível de escolaridade materna, escore de bens e serviços, região, arranjo familiar; (c) hortaliças: sexo, cor, idade, tipo de escola, nível de escolaridade materna, escore de bens e serviços, região, arranjo familiar; (d) guloseimas: sexo, cor, idade, nível de escolaridade materna, escore de bens e serviços, região, arranjo familiar; (e) ultraprocessados salgados: sexo, cor, idade, tipo de escola, nível de escolaridade materna, escore de bens e serviços, região, tipo de município, arranjo familiar; (f) salgados fritos, refrigerantes e fast food: sexo, cor, idade, nível de escolaridade materna, escore de bens e serviços, região, tipo de município, arranjo familiar.

A análise do consolidado de indicadores por meio dos escores de alimentação mostrou que realizar as refeições com os pais foi positivamente associado ao escore de alimentação saudável (β = 1,86; valor de p < 0,001) e inversamente associado ao escore de alimentação não saudável (β = -0,62; valor de p < 0,001) (Figura 1).

Figura 1 Associação entre os escores de alimentação saudável e não saudável com o hábito de fazer as refeições com os pais. Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), 2015. 

Discussão

Este trabalho buscou avaliar a associação entre fazer refeições com os pais, como uma característica do ambiente familiar, e a qualidade da alimentação de adolescentes brasileiros. Os nossos resultados mostraram que a prática de comer junto com os pais foi associada com a melhor qualidade da alimentação dos adolescentes, especificamente à maior frequência de consumo de feijão, frutas e hortaliças, e à menor frequência de consumo de guloseimas, ultraprocessados salgados e salgados fritos. Realizar refeições frequentemente com os pais foi positivamente associado com o escore de alimentação saudável e inversamente com o de alimentação não saudável.

O hábito de se alimentar junto com os pais foi bastante frequente entre os adolescentes brasileiros, sendo que mais de 70% relataram fazer as refeições com eles em pelo menos cinco dias da semana. Esse número foi bastante semelhante ao encontrado em outro estudo nacional que registrou uma prevalência de 68% dos adolescentes brasileiros realizando refeições quase sempre/sempre com os pais 17. Em nosso trabalho, essa prática foi mais frequente entre meninos, adolescentes mais novos, oriundos de escola pública e entre aqueles que moravam com a mãe e o pai.

O consumo de feijão foi frequente em mais da metade dos adolescentes, contudo, a frequência de consumo de outros marcadores de alimentação saudável (frutas e hortaliças) foi relatada por menos de um terço dos estudantes. Ao mesmo tempo, marcadores não saudáveis apareceram em destaque, com mais de 30% dos adolescentes relatando consumo frequente de guloseimas e ultraprocessados salgados. Esses resultados vão ao encontro de estudos anteriores que mostram que a dieta dos adolescentes brasileiros ainda é marcada pelo consumo de alimentos tradicionais como o feijão, mas observa-se a substituição destes alimentos pelo consumo de ultraprocessados, como doces, biscoitos, refrigerantes e fast food6,7,19,21. Um estudo recente também utilizando dados da PeNSE 2015 mostrou que, apesar de as quantidades consumidas por dia não serem avaliadas, é preocupante que quatro em cada dez adolescentes brasileiros já tenham relatado consumir diariamente alimentos ultraprocessados 22.

Diferenças socioeconômicas do consumo de alimentos marcadores de alimentação saudável e não saudável por adolescentes brasileiros foram exploradas em um estudo prévio conduzido por Azeredo et al. 21 usando dados da PeNSE 2012, cujas relações permaneceram semelhantes na pesquisa mais recente. Observamos que adolescentes mais velhos realizavam menos frequentemente a refeição com os pais, dado também verificado em um trabalho anterior de Barufaldi et al. 17, e consumiam mais salgados fritos, fast foods e refrigerantes. Uma possível explicação para isso é que, ao tornarem-se mais velhos, os adolescentes ganham maior independência e autonomia para comprar e consumir suas próprias refeições sem a presença dos pais 23. A relação entre a frequência de comer com os pais e os indicadores de vulnerabilidade social como escolaridade materna, escore de bens e serviços, raça/cor não está clara. Apesar de tais características favorecerem o consumo de refeições com os pais, elas também se associaram com menor frequência de consumo de frutas e hortaliças, mostrando que outros fatores, tais como o preço e a disponibilidade destes alimentos em regiões de menor nível socioeconômico, possivelmente influenciam o consumo de alimentos saudáveis nessa população 24,25.

A associação encontrada no nosso estudo entre a prática de fazer as refeições em família e a melhor qualidade da alimentação dos adolescentes é corroborada por outros trabalhos realizados em países de alta renda 26,27,28,29,30,31. Adolescentes americanos que fazem refeições com os pais tendem a consumir mais frutas e vegetais 26,27,28. Na Nova Zelândia, adolescentes que fazem as refeições em família percebem mais apoio dos pais para uma alimentação saudável, têm limites para o uso da televisão e são mais propensos a ter frutas e hortaliças disponíveis em casa todos os dias 30. Uma revisão sistemática da literatura identificou a disponibilidade domiciliar de frutas e hortaliças, refeições familiares frequentes e apoio dos pais para uma alimentação saudável como potenciais determinantes do consumo de frutas e hortaliças por crianças e adolescentes 31. Esses achados reforçam o papel crucial dos pais nos padrões alimentares dos filhos por meio de seus comportamentos, atitudes e estilos de alimentação 10.

As experiências de refeições compartilhadas também podem ter efeitos positivos em longo prazo. Dados de uma coorte de base populacional realizada em Minnesota, Estados Unidos, mostraram que refeições regulares em família foram associadas a padrões alimentares mais saudáveis na adolescência e, também, mais tarde na vida adulta 32,33. Análises recentes dessa mesma coorte, acompanhada ao longo de 15 anos, mostraram que práticas familiares relacionadas à alimentação foram levadas para a próxima geração 34. Os resultados evidenciaram que o ambiente familiar dos adolescentes pode moldar o que é praticado na idade adulta.

Refeições em família promovem não apenas a melhora na qualidade da alimentação 26,27 e nos níveis de excesso de peso entre adolescentes 29,30, mas são também uma oportunidade de educação alimentar (aperfeiçoamento das habilidades culinárias e hábitos saudáveis, por exemplo) 35 e de convívio social, promovendo a comensalidade 36 e o bem-estar psicológico 28. Portanto, realizar refeições em família representa um elemento sociocultural chave na promoção da saúde de adolescentes 23. Devido ao potencial impacto em curto e longo prazos das práticas dos pais na alimentação dos seus filhos, é importante investir em intervenções familiares que visem a incentivar refeições saudáveis em companhia, prática recomendada pelo Guia Alimentar para a População Brasileira36.

Algumas limitações e pontos fortes do trabalho merecem ser destacados. Este é o primeiro estudo de base populacional que faz uma análise da relação entre realizar refeições com os pais e a qualidade da alimentação de adolescentes brasileiros. Outro ponto forte é o uso da base de dados da PeNSE 2015, que é uma pesquisa de base escolar e de abrangência nacional, incluindo dados de estudantes de municípios do interior dos estados e também das capitais e do Distrito Federal. A elevada taxa de resposta da pesquisa (82,2%) e a elevada cobertura escolar nessa faixa etária (97 % entre 6 e 14 anos e 88 % de 15 a 19 anos) contribuem para a validade externa do estudo 37. Além disso, este trabalho avaliou tanto o consumo regular de alimentos de forma isolada quanto escores de alimentação saudável e não saudável, e observou a consistência nas associações. Entre as limitações, destaca-se que o questionário utilizado pela PeNSE 2015 não permite uma análise quantitativa mais detalhada da alimentação dos adolescentes, uma vez que engloba um número restrito de alimentos e não leva em consideração o tamanho da porção ou se o alimento foi consumido mais de uma vez no dia, mas sim o número de dias que o estudante comeu determinado alimento na última semana. Ademais, a ausência de dados sobre a alimentação dos pais impossibilitou analisar a associação da qualidade da dieta dos adolescentes com a de seus pais. Por fim, um confundimento residual de fatores de confusão ou mediação não mensurados pode explicar ao menos parte das associações encontradas. Apesar disso, os resultados foram consistentes para o consumo frequente e para os escores de alimentação. Além disso, a natureza transversal desta análise limita a capacidade de avaliar uma associação causal entre fazer as refeições com os pais e a qualidade da alimentação dos adolescentes.

Conclusões

Nossos resultados mostraram que fazer refeições com os pais está associado ao maior consumo de alimentos saudáveis e menor de alimentos não saudáveis, sugerindo, portanto, que esta prática reflete na melhoria da qualidade da alimentação de adolescentes brasileiros. Dessa forma, intervenções focadas na promoção de ambientes alimentares saudáveis devem considerar as barreiras para o compartilhamento das refeições em família, bem como reconhecer o papel desta prática como instrumento para a promoção da alimentação saudável.

Agradecimentos

Essa pesquisa foi financiada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq - número do processo 444794/2014-0) e está atrelado ao processo de número 426094/2018-2. B. G. Martins recebeu bolsa de iniciação científica do CNPq (número do processo 112083/2016-1). F. Rauber é bolsista de pós-doutorado da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP, número do processo 2016/14302-7). C. Z. Ricardo recebeu bolsa de mestrado (FAPESP, número do processo 2014/26711-3). P. P. Machado é bolsista de doutorado da FAPESP (número do processo 2016/13168-5).

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Recebido: 06 de Agosto de 2018; Revisado: 27 de Novembro de 2018; Aceito: 10 de Dezembro de 2018

Correspondência R. B. Levy Departamento de Medicina Preventiva, Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo. Av. Dr. Arnaldo 455, 2º andar, São Paulo, SP 01246-903, Brasil. rlevy@usp.br

Colaboradores

B. G. Martins e C. Z. Ricardo participaram no delineamento do estudo, redação e na análise e interpretação dos dados. P. P. Machado participou na redação e na análise e interpretação dos dados. F. Rauber e C. M. Azeredo complementaram a redação do manuscrito, colaboraram na análise de dados e revisão final. R. B. Levy trabalhou na imputação de dados faltantes e revisão final do artigo; participou no delineamento do estudo e na elaboração. Todos os autores aprovaram a versão final para publicação.

Informações adicionais

ORCID: Bianca Garcia Martins (0000-0002-2199-9111); Camila Zancheta Ricardo (0000-0003-3643-302X); Priscila Pereira Machado (0000-0003-4607-5094); Fernanda Rauber (0000-0001-9693-7954); Catarina Machado Azeredo (0000-0002-6189-4429); Renata Bertazzi Levy (0000-0001-5388-7002).

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