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Acta Botanica Brasilica
versão impressa ISSN 0102-3306
Acta Bot. Bras. v.14 n.3 São Paulo set./dez. 2000
http://dx.doi.org/10.1590/S0102-33062000000300005
NOVOS REGISTROS DE APHYLLOPHORALES PARA O BRASIL1
Tatiana Baptista Gibertoni2
Maria Auxiliadora de Queiroz Cavalcanti2
Recebido em 07/02/2000. Aceito em 28/04/2000
RESUMO ¾ (Novos registros de Aphyllophorales para o Brasil). De coletas efetuadas em três remanescentes de Mata Atlântica de Pernambuco, no período de outubro/1997 a setembro/1998, foram identificadas, entre outras espécies de Aphyllophorales, duas espécies que estão sendo referidas pela primeira vez para o Brasil: Phellinus aureobruneus Wright & Blumenfeld e Trichaptum abietinum (Dicks.: Fr) Ryv. Descrições macro e microscópicas, distribuição geográfica, discussão e ilustrações das espécies são fornecidas.
Palavras-chave ¾ taxonomia, Aphyllophorales, Mata Atlântica, Pernambuco, Brasil
ABSTRACT ¾ (New records of Aphyllophorales for Brazil). Aphyllophorales was collected between October/1997 and September/1998 in three Atlantic Rain Forest remnants in the State of Pernambuco, northeast Brazil. Two species are new records for Brazil: Phellinus aureobruneus Wright & Blumenfeld and Trichaptum abietinum (Dicks.: Fr) Ryv. Macro and microscopic descriptions, geographyc distribution, discussion and species illustrations are provided.
Key words ¾ taxonomy, Aphyllophorales, Atlantic Rain Forest, Pernambuco, Brazil
Introdução
A Mata Atlântica é uma formação vegetal litorânea caracterizada principalmente pela alta diversidade específica. Devido à sua localização, foi o primeiro alvo do impacto causado pela colonização e posterior urbanização do litoral, o que quase levou ao seu desaparecimento. Isso pode ser constatado em Pernambuco, onde os remanescentes da Mata Atlântica estão reduzidos a apenas 8,44% da cobertura original (Ministério do Meio Ambiente, dos Recursos Hídricos e da Amazônia Legal 1998).
Apesar de inúmeros trabalhos envolverem os mais diversos aspectos da Mata Atlântica, escassos são os estudos sobre os fungos, observando-se algumas referências, especialmente aos pertencentes a Aphyllophorales no Nordeste do Brasil (Cavalcanti 1976; Lucena 1988; Góes-Neto 1994). Este é um fato preocupante, pois este grupo de fungos é o decompositor primordial na maioria dos ecossistemas florestais e o estudo destes macromicetos nessas áreas é de vital importância para o conhecimento de sua biodiversidade. Além da degradação de madeira e de outros restos vegetais, animais, microbianos e até mesmo da micota, apresentando papel fundamental na reciclagem de nutrientes, alguns fungos dessa ordem são comestíveis (Pegler & Spooner 1992), fitopatógenos (Stalpers & Loerakker 1982), nematófagos (Tzean & Liou 1993) e inibidores de térmitas (Grace et al. 1992).
O presente trabalho visa divulgar a primeira ocorrência de duas espécies de Aphyllophorales no Brasil, em áreas de Mata Atlântica do Estado de Pernambuco.
Material e métodos
Foram realizadas 12 coletas dos fungos Aphyllophorales em três áreas de remanescentes de Mata Atlântica de Pernambuco: Reserva Ecológica de Dois Irmãos, em área da Companhia Pernambucana de Saneamento (COMPESA), no município de Recife (8°15'30"S e 35°57'00"W); Mata de Gurjaú, em área da COMPESA, no município de Cabo (8°14'12"S e 35°03'00"W); e Estação Ecológica de Tapacurá, câmpus avançado da Universidade Federal Rural de Pernambuco, no município de São Lourenço da Mata (8°05'S e 35°13'W), pertencentes ao domínio da floresta ombrófila densa (Veloso et al. 1991). Os locais foram visitados de três em três meses, no período de outubro/1997 a setembro/1998.
No campo, os espécimes foram coletados manualmente com auxílio de faca e acondicionados em sacos de papel. No laboratório, foram feitas anotações relativas à cor das superfícies abhimenial e himenial, do contexto, dos tubos e da margem, utilizando-se a carta de cores de Maerz & Paul (1950), e anotações relativas à largura, altura e espessura do basidiocarpo. Na preservação e herborização seguiu-se Fidalgo & Bononi (1989), com modificações relativas à secagem do material, que era deixado, no mínimo, uma semana em estufa a 50ºC. As espécies foram depositadas no Herbário Padre Camilo Torrend (URM), do Departamento de Micologia da Universidade Federal de Pernambuco.
Para a observação microscópica do material, foram feitos cortes à mão livre de cada basidiocarpo, com lâminas de aço inoxidável. Os cortes foram acondicionados em lâminas de vidro e corados com hidróxido de potássio 3% e floxina 1%, segundo a técnica de Martin (1934). Paralelamente, os mesmos foram corados com azul de Amann, de acordo com Kotlaba & Pouzar (1964), que, além de demonstrar a cianofilia dos basidiosporos e das hifas, impede a dissolução de material cristalino (Reeves & Welden 1967). Também foi utilizado o reagente de Melzer, segundo Singer (1951), de modo a se observar a reação amilóide ou dextrinóide dos basidiosporos, hifas e outras microestruturas.
Na identificação, foram usados, entre outros, trabalhos específicos como os de Gilbertson & Ryvarden (1987); Larsen & Cobb-Poule (1990); Overholts (1967); Ryvarden & Gilbertson (1993); Ryvarden (1976;1991); Teixeira (1993; 1994); Wright & Blumenfeld (1984).
Resultados e discussão
Dentre as 42 espécies de Aphyllophorales coletadas em três áreas de remanescentes de Mata Atlântica de Pernambuco, duas destacaram-se por constituírem a primeira ocorrência para o Brasil, sendo uma espécie da família Hymenochaetaceae e uma da família Polyporaceae.
Família Hymenochaetaceae
1. Phellinus aureobruneus Wright & Blumenfeld, Mycotaxon 21: 417 1984.
Basidiocarpo anual, dimidiado, 7,0x4,5x0,5-3,0cm. Superfície abhimenial velutina, azonada, amarelada, MP13J12 (Titian). Margem obtusa, inteira, marrom alaranjado, MP13L11 (Peruvian Br.). Contexto 0,3-1,0cm espesso, amarelo dourado, MP9L7 (Cavalary Deep Chrome). Superfície himenial poróide, marrom escura, MP16L12, 9-8 poros/mm, circulares a angulares. Sistema hifálico dimítico; hifas generativas com septo simples, hialinas, parede fina, 2,5-2,7µm diâm.; hifas esqueléteas marrons, não ramificadas, parede espessa, 4,5-5,0µm diâm. Setas e cistídios ausentes. Basídios clavados a subglobosos, 7,5µm diâm., tetraesporados. Basidiosporos marrom-dourados, globosos, parede fina, 2,7-4,5µm diâm.
Material examinado: BRASIL. Pernam-buco: Recife, Reserva Ecológica de Dois Irmãos, em angiosperma indeterminada em decomposição, X/1997, Gibertoni, (URM 76718).
Distribuição geográfica: P. aureobruneus só é conhecido de sua localidade-tipo, a Argentina, sendo esta a primeira citação para o Brasil e o segundo relato da espécie.
Os espécimes apresentaram caracteres idênticos aos da descrição original de P. aureobruneus, diferindo apenas na ausência de sulcos na superfície abhimenial e da linha preta na base do contexto. Esta espécie difere de P. rheicolor (Lloyd) Ryv. e de P. rhabarbarnus (Berk.) Cunn. pela ausência de setas.
Família Polyporaceae
1. Trichaptum abietinum (Dicks.: Fr.) Ryv., Norw. J. Bot 19: 237 1972.
Basiônimo: Polyporus abietinus Dicks.: Fr., Syst. Mycol. 1: 370 1821
Basidiocarpo anual, pileado, usualmente imbricado, píleo rígido a coriáceo, 0,4-2,5 x 0,6-1,5cm. Superfície abhimenial tomentosa a velutina, zonada, parda, MP12B4 (Long Beach+), margem sinuosa, branca, MP25A1. Contexto reduzido, 0,1cm espesso, marrom-claro, MP15A5 (Log Cabin+). Superfície himenial poróide, marrom escura, MP16A7 (Eagle/Clove Brown), 5 poros/mm, dissepimento denteado a lacerado. Sistema hifálico dimítico; hifas generativas hialinas, finas a levemente espessadas, com ansas, 2,5-3,7µm diâm.; hifas esqueléteas hialinas, com parede espessada, 2,5-4,5µm diâm. Cistídios numerosos, clavados, lisos ou encrustados no ápice, 11,8-13,7 x 3,6-4,5µm. Basidiosporos cilíndricos a alantóides, lisos, hialinos, 5,0-7,5 x 2,5-3,2µm.
Material examinado: BRASIL. Pernam-buco: Recife, Reserva Ecológica de Dois Irmãos, em angiosperma indeterminada em decomposição, X/1997, Gibertoni, (URM 76764); IV/1998, Gibertoni, (URM 76765).
Distribuição geográfica: Venezuela (Fidalgo 1968, como Hirchioporus abietinus (Dicks.: Fr.) Donk); comum na Europa, Ásia e América do Norte (Ryvarden 1976); restrito à Zona Temperada do Norte (Gilbertson & Ryvarden 1987; Ryvarden & Gilbertson 1993); Croácia (Tortic 1992); Sibéria central (Zhukoff 1995); China (Zhang 1997); Grécia (Zervakis et al. 1998).
Trata-se da primeira citação para o Brasil. Gilbertson & Ryvarden (1987) consideram a espécie como pioneira em troncos recém-caídos, além de poder variar de completamente ressupinada a pileada. O conceito de T. abietinum de Overholts (1967) incluía T. fusco-violaceum e T. laricinum, mas testes de interfertilidade (Macrae 1967) demonstraram que as três espécies são diferentes.
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1 Parte da Dissertação de Mestrado da primeira autora
2 Departamento de Micologia, Universidade Federal de Pernambuco, Av. Prof. Nelson Chaves, s/n., CEP 50760-420, Recife, PE, Brasil











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