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Acta Botanica Brasilica

Print version ISSN 0102-3306On-line version ISSN 1677-941X

Acta bot. bras. vol.15 no.1 São Paulo Jan./Apr. 2001

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-33062001000100007 

UMA NOVA ESPÉCIE DE BACOPA AUBL. (SCROPHULARIACEAE) DA AMÉRICA DO SUL1

 

Vinicius Castro Souza2

 

Recebido em 24/1/2000. Aceito em 14/9/2000

 

 

RESUMO ¾ (Uma nova espécie de Bacopa Aubl. [Scrophulariaceae] da América do Sul). Uma nova espécie de Bacopa (Scrophulariaceae) do Brasil e Argentina é descrita. Ilustração e descrição desta espécie são apresentadas, além de uma comparação com espécies afins do gênero.

Palavras-chave ¾ Bacopa, Scrophulariaceae, Flora do Brasil, Flora da Argentina

 

ABSTRACT ¾ (A new species of Bacopa Aubl. [Scrophulariaceae] from South America). A new species of Bacopa (Scrophulariaceae) from Brazil and Argentina is described. Description and illustration are included and a comparison with related species is presented.

Key words ¾ Bacopa, Scrophulariaceae, Flora of Brazil, Flora of Argentina

 

 

Introdução

Bacopa inclui aproximadamente 50 espécies, das quais 26 ocorrem no Brasil, sendo o maior gênero da família em termos de número de espécies neste país. Bacopa concentra-se na região neotropical, com algumas espécies na África Tropical.

Bacopa caracteriza-se pelas sépalas livres entre si e desiguais, sendo a sépala dorsal mais larga que as ventrais que, por sua vez, são mais largas que as medianas; estames 4 ou raramente 2 ou 5, anteras com tecas paralelas e conectivo pouco desenvolvido. O gênero é proximamente relacionado a Mecardonia Ruiz & Pav., possuindo ambos a mesma estrutura do cálice. Estes gêneros podem ser diferenciados pelo fato de que em Mecardonia as anteras apresentam conectivo muito desenvolvido, separando as tecas. Além disso, neste último as espécies apresentam corola amarela e geralmente os ramos enegrecem por ocasião da secagem, ao passo que as espécies de Bacopa geralmente possuem flores alvas, azuis, arroxeadas ou lilases e raramente enegrecem na secagem.

Durante o levantamento das espécies de Scrophulariaceae do Brasil (Souza 1996) surgiram algumas novidades taxonômicas que estão sendo paulatinamente publicadas (Souza 1997a; 1997b; Taylor et al. 2000), incluindo a nova espécie de Bacopa aqui descrita.

O gênero Bacopa é um dos mais complexos taxonomicamente entre as Scrophulariaceae brasileiras, o que está, em parte, associado ao seu hábitat aquático, que promove uma variação morfológica intra-específica considerável. Analisando cuidadosamente o gênero, foi possível verificar que diversos caracteres utilizados pelos diferentes autores, entre eles Pennell (1920), como a coloração da corola, e o comprimento e formato das folhas são bastante variáveis em uma mesma espécie. Considerou-se, assim, como mais consistentes na delimitação das espécies caracteres relacionados ao formato das sépalas e do estilete e indumento.

 

Material e métodos

Os dados apresentados neste trabalho são baseados em revisão bibliográfica e dos materiais disponíveis nos seguintes herbários: ALCB, BHCB, BM, BOTU, CEN, CEPEC, CESJ, COR, CPAP, EAC, EAN, ESA, ESAL, FUEL, GFJP, HB, HBR, HRB, HRCB, HUCS, HUEFS, HUFU, HURG, IAN, ICN, INPA, IPA, JPB, K, LINN, MBM, MBML, MG, OUPR, OXF, PACA, PAMPUC, PEL, PEUFR, R, RB, SMDB, SP, SPF, TEPB, UB, UEC, UPCB, URG, VIC e VIES. Além disso, foi também analisada a variabilidade das populações no campo.

 

Resultados e discussão

Bacopa australis V. C. Souza, sp. nov.

Fig. 1: A-C

 

 

Haec species affinis B. salzmanii (Benth.) Wettst. ex Edwall sed stylo profunde bifido, indumento appresso differt.

Caulis repens appresso-pubescente. Folia opposita, sessilia, supra glabra, subtus sparse pubescentia, orbiculata, suborbiculata vel ovato-elliptica, rotundata, integra, 4-10mm longa, 3-9mm larga. Flores axillares solitarii. Pedicelli subglabri vel sparse pubescentes, (1-)1,4-3,7cm longi. Calyx segmentis externis cordatis. Corolla caerulea ad alba, externe glabra, 4-5mm longa. Stylo profunde bifido. Capsula ovata, circa 3,5mm longa.

Tipo: Brasil. Paraná: Rio Iguaçu (mun.Capanema), 23/XII/1966, J. Lindeman 3358 et H. Haas (Holótipo MBM; Isotipo: K).

Ervas, 7-15cm compr., rastejantes, simples ou pouco ramificadas. Ramos ascendentes, pubescentes, mais densamente no ápice, tricomas apressos. Folhas opostas, face dorsal esparsamente glanduloso-pontuada, glabra, face ventral glanduloso-pontuada, esparsamente pubescente, com base e nervuras densamente pubescentes, sésseis, orbiculares a suborbi-culares, raramente oval-elípticas, ápice e base arredondados, margem inteira, 4-10mm compr., 3-9mm larg. Internós 7-27mm compr. Flores axilares, solitárias; pedicelo subereto, subglabro, (1,0-)1,4-3,7cm compr., até 4,8cm compr. na frutificação; bractéolas ausentes; cálice esparsamente glanduloso-pontuado, sépalas externas com um tufo de tricomas no ápice e com tricomas mais esparsos na base, internas com tricomas concentrados nas margens e nervuras, sépalas externas ovais, ápice obtuso-arredondado, base subcordada na floração a distintamente cordada na frutificação, 3-5mm compr., ca. 2,5mm larg., até 6mm compr., 4mm larg. na frutificação, internas linear-lanceoladas, ápice agudo, 2-3mm compr., ca. 0,5mm larg.; corola azul-clara a alva, com tubo glabro externamente, 3-5mm compr., lacínios suborbiculares, 1,5-5mm compr.; estames 4, exsertos; estilete profundamente bifurcado. Cápsula ovóide, ápice agudo, ca. 3,5mm compr., ca. 2mm diâm.

Bacopa australis V. C. Souza pertence ao grupo de Bacopa com sépalas de base cordada na frutificação, que inclui também as espécies Bacopa caroliniana (Walter) Robinson, B. lanigera (Cham. & Schltdl.) Wettst., B. serpyllifolia (Benth.) Pennell, B. repens (Sw.) Wettst. e B. salzmanii (Benth.) Wettst. ex Edwall. A chave a seguir apresenta as principais diferenças entre B. australis e espécies próximas:

Chave para diferenciação das espécies próximas a Bacopa australis

1. Sépalas com base arredondada na frutificação (Estados Unidos a Argentina)...B. rotundifolia
1. Sépalas com base cordada na frutificação
2. Caule e pedicelo subglabros a pubescentes, com tricomas apressos
3. Estames 2; pedicelo na floração 0,15-0,2cm compr. (Estados Unidos ao Nordeste do Brasil) ................. B. repens
3. Estames 4; pedicelo na floração (1)1,4- 3,7cm compr.
4. Tubo da corola ultrapassando o cálice em 2-5mm (Paraguai) ......................................... B. dubia
4. Tubo da corola do mesmo tamanho ou um pouco menor do que o cálice (Mato Grosso do Sul ao Rio Grande do Sul e Argentina) ................................... B. australis
2. Caule e pedicelo vilosos com tricomas eretos ou emaranhados
5. Bractéolas ausentes; corola do mesmo tamanho do cálice ou não o ultrapassando em mais de 1mm; ovário não envolvido por um círculo de cerdas (México ao Sul do Brasil) ............... B. salzmanii
5. Bractéolas presentes (com freqüência ausentes em algumas flores); corola geralmente ultrapassando o cálice em mais de 2mm; ovário envolvido por um círculo de cerdas (podendo estar ausente em alguns exemplares de B. serpyllifolia).
6. Folhas orbiculares a suborbiculares (Sudeste e Sul do Brasil) ................................................ B. lanigera
6. Folhas elípticas a ovais
7. Folhas (1,2-)1,5-2,1cm compr.; corola com tubo 3,5-5,5mm compr. (Estados Unidos, Nordeste e Centro-Oeste do Brasil) ........................... B. caroliniana
7. Folhas 0,6-1,0cm compr.; corola com tubo 7-10mm compr. (Venezuela ao Sul do Brasil) ............. B. serpyllifolia

Bacopa australis ocorre no Mato Grosso do Sul, São Paulo, nos Estados do Sul do Brasil e na Argentina. Considerando que a maior parte das espécies de Bacopa ocorre acima desta área e esta é uma das poucas espécies de Bacopa que ocorrem no Sul do Brasil e Argentina, optou-se pelo epíteto "australis".

Descole & Borsini (1954) referiram esta espécie para a Argentina sob o nome de B. dubia Chodat & Hassl., espécie descrita anteriormente para o Paraguai. Tudo indica, entretanto, a partir da descrição e da excelente prancha apresentadas por estes autores, que não se trata de B. dubia, mas sim da espécie que aqui está sendo descrita. Estas duas espécies diferem especialmente pelo tamanho do tubo da corola que em B. dubia é maior do que o cálice e em B. australis é um pouco menor ou do mesmo tamanho deste. Além disso, B. dubia apresenta flores amiores e folhas mais espessas.

Verificou-se que nos herbários brasileiros esta espécie foi freqüentemente identificada como Bacopa tweedie Benth. A análise do holótipo desta espécie, presente no herbário de Kew (Inglaterra), evidenciou que B. tweedie deveria ser sinonimizada a B. rotundifolia (Michx.) Wettst. A principal diferença entre B. rotundifolia e B. australis diz respeito ao cálice que na frutificação apresenta base arredondada em B. rotundifolia, ao passo que em B. australis apresenta base cordada.

Parátipos: BRASIL. Mato Grosso do Sul: Corumbá, Baía do Búfalo, próximo ao Capão do Ingá, Faz. Leque (Murundu Alegre), subregião do Abobral, pantanal, 19o14'S, 57o03'W, 95 m. s. m., 3/IV/90 (fl., fr.), V. J. Pott & N. C. Bueno 1321 (CPAP, ESA). São Paulo: Paulo de Faria, X/94 (fl.), V. C. Souza 14000 & C. D. Sanches 116 (ESA). Santa Catarina: Canavieiras, 8/XII/50 (fl., fr.), A. P. Duarte 3391 (RB). Rio Grande do Sul: Itapoan, 22/XII/48 (fl., fr.), B. Rambo (39097) (PACA); Palmares, 8/I/52 (fl., fr.), B. Rambo (51727) (PACA); Porto Alegre, 31/XII/48 (fl., fr.), B. Rambo 39377 (PACA); 24/I/49 (fl., fr.), B. Rambo 40164 (PACA); Viamão, 26/I/84 (fl., fr.), M. Sobral 2893 (ICN); Município? Praia do Cego, 9/V/69 (fl.), L. Baptista & B. Irgang 5834 (ICN). ARGENTINA. Corrientes: Santo Tomé,4km E de Ruta Nac. No 14, caminho a Colonia Garabí, 3/XII/70 (fl., fr.), A. Krapovickas et al. 17067 (MBM).

 

Agradecimentos

O autor deseja manifestar seus agradecimentos ao CNPq, CAPES, British Council e Fundação Margaret Mee pelas bolsas concedidas, ao Prof. Gert Hatschbach e aos demais curadores dos herbários pelos empréstimos concedidos, a Samira I. Elias pela revisão do texto em latim e a Ana Maria Giulietti pela orientação.

 

Referências bibliográficas

Descole, H. R. & Borsini, O. E. 1954. Scrophulariaceae: Antirrhinoideae in Descole, H.R. Genera et Species Plantarum Argentinarum 5(1): 3-164.         [ Links ]

Pennell, F. W. 1920. Scrophulariaceae of Colombia. Proc. Acad. Nat. Sci. Philadelphia 72: 136-188.         [ Links ]

Souza, V. C. 1996. Levantamento das espécies de Scrophulariaceae nativas do Brasil. Tese de Doutorado. Instituto de Biociências. Universidade de São Paulo. 391p.         [ Links ]

Souza, V. C. 1997a. Uma nova espécie de Angelonia (Scrophulariaceae) do Estado de Tocantins. Bradea 8(7): 37-40.         [ Links ]

Souza, V. C. 1997b. Considerações sobre a delimitação de Mecardonia procumbens (Mill.) Small (Scrophulariaceae). Acta Botanica Brasilica. 11(2): 181-189.         [ Links ]

Taylor, P.; Souza, V. C.; Giulietti, A. M. & Harley, R. M. 2000. Philcoxia: A new genus of Scrophulariaceae with three new species from Eastern Brazil. Kew Bulletim. 55: 155-163.         [ Links ]

 

 

1 Trabalho financiado pelo CNPq, CAPES, Fundação Margaret Mee e British Council

2 Herbário ESA, Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, Universidade de São Paulo, C. Postal 9, CEP 13418-900, Piracicaba, SP, Brasil

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