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Acta Botanica Brasilica

versão impressa ISSN 0102-3306versão On-line ISSN 1677-941X

Acta Bot. Bras. v.16 n.2 São Paulo abr. 2002

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-33062002000200006 

USO E DIVERSIDADE DE PLANTAS MEDICINAIS EM SANTO ANTONIO DO LEVERGER, MT, BRASIL1

 

Maria Christina de Mello Amorozo2

 

Recebido em 23/11/1999. Aceito em 27/12/2001.

 

 

RESUMO – (Uso e diversidade de plantas medicinais em Santo Antonio do Leverger, MT, Brasil). O presente trabalho tem como objetivo fazer o levantamento etnobotânico de plantas com usos terapêuticos no município de Santo Antonio do Leverger, MT, e estimar a diversidade de espécies usadas. Foram entrevistados residentes adultos de ambos os sexos, junto com os quais foram coletadas as plantas, depositadas no Herbarium Rioclarense (HRCB). Identificaram-se 228 espécies, pertencentes a 73 famílias; 56% delas crescem espontaneamente em ambientes naturais ou antropicamente modificados, 41% são cultivadas e 3% são compradas. Os índices de diversidade encontrados comparam-se aos mais altos registrados na literatura para plantas medicinais em outras áreas tropicais. A riqueza e diversidade das plantas espontâneas podem espelhar até certo ponto a riqueza e diversidade de espécies no ambiente, enquanto tais parâmetros para as espécies cultivadas estariam mais ligados a fatores sócio-culturais que promovam a introdução de novas plantas e informações de uso a partir de fontes externas. Sugere-se que quando comunidades tradicionais se tornam mais expostas à sociedade nacional, o número de espécies e o conhecimento acerca de seu uso podem sofrer inicialmente um acréscimo, por aportes externos; mas, com o aprofundamento do contato, e as mudanças sócio-econômicas decorrentes, a tendência será que as plantas usadas com fins terapêuticos restrinjam-se às espécies cultivadas e invasoras cosmopolitas.

Palavras-chave etnobotânica, plantas medicinais, índices de diversidade, Mato Grosso

 

ABSTRACT – (Use and diversity of medicinal plants in Santo Antonio do Leverger, MT, Brazil). This work describes an ethnobotanical survey of medicinal plants in Santo Antonio do Leverger Municipality, Mato Grosso State, Brazil and estimates the diversity of species with therapeutic use. Adult dwellers, male and female, were interviewed and plant gathering undertaken with their assistance. Voucher specimens were deposited at the Herbarium Rioclarense (HRCB). 228 species were identified, belonging to 73 families; 56% of the species grow spontaneously in natural and anthropically modified habitats, 41% are cultivated and 3% are purchased. Diversity indexes are among the highest ones reported in literature for medicinal plants in other tropical areas. Richness and diversity of spontaneous species may mirror to certain extent environmental richness and diversity, whereas for cultivated species, these measures could be linked to socio-cultural factors enhancing introduction of new plants and use information from outside the area. It is suggested that when traditional communities become more exposed to society at large, species number and knowledge about their use may at first increase, by foreign input; but, with the socio-economic changes that come about over time, plants used for therapeutic aims will be limited to the cultivated species and cosmopolite weeds.

Key words – ethnobotany, medicinal plants, diversity indices, Mato Grosso State, Brazil

 

 

Introdução

Muitas sociedades tradicionais ou autóctones possuem uma vasta farmacopéia natural, em boa parte proveniente dos recursos vegetais encontrados nos ambientes naturais ocupados por estas populações, ou cultivados em ambientes antropicamente alterados.

O interesse acadêmico a respeito do conhecimento que estas populações detêm sobre plantas e seus usos tem crescido, após a constatação de que a base empírica desenvolvida por elas ao longo de séculos pode, em muitos casos, ter uma comprovação científica, que habilitaria a extensão destes usos à sociedade industrializada (Farnsworth 1988). Além disso, cada vez mais se reconhece que a exploração dos ambientes naturais por povos tradicionais pode nos fornecer subsídios para estratégias de manejo e exploração que sejam sustentáveis a longo prazo. Atualmente, vários autores têm proposto formas de se avaliar a interação destas populações com os recursos naturais de que dispõem. Begossi (1996), por exemplo, propõe a utilização de conceitos ecológicos, como o de diversidade de espécies, para auxiliar na compreensão das interações homem-ambiente; afirma que o emprego de índices de diversidade pode ser útil para comparar a exploração de recursos biológicos feita por diferentes populações humanas, com culturas diversas, ocupando diferentes ambientes. Outros autores propõem a elaboração de índices que possibilitem quantificar o uso de espécies ou famílias de plantas (por exemplo, Prance et al. 1987; Phillips e Gentry 1993 a, b), para avaliar sua importância como recurso para as populações locais. Estas ferramentas permitem estabelecer comparações tanto em relação à exploração dos recursos, quanto em relação às formas de seu uso, em diferentes locais e entre diferentes populações humanas.

Este trabalho tem por objetivos: a) fazer o levantamento etnobotânico das plantas com usos terapêuticos no Município de Santo Antonio do Leverger, MT; b) calcular os índices de diversidade das espécies citadas; c) comparar com os índices encontrados para outros locais e discutir seu comportamento em relação a fatores ambientais e sócio-culturais.

 

Material e métodos

Área de estudo - Situa-se na Baixada Cuiabana, no Município de Santo Antonio do Leverger, MT, entre 20 e 30 km ao sul de Cuiabá, nas margens do rio Cuiabá e ao norte dos Pantanais Matogrossenses (Fig. 1). Seu clima apresenta duas estações bem definidas, uma chuvosa (outubro a março), e outra seca (abril a setembro) (Alvarenga et al 1984). As precipitações médias anuais ficam em torno dos 1500 a 1700 mm e as médias anuais de temperatura são elevadas (23o a 25o C, Brasil, Ministério das Minas e Energia 1982). A formação vegetal predominante é o cerrado (desde campo limpo até cerradão), apresentando floresta decídua na encosta dos morros e floresta de galeria ao longo dos rios, além de, em alguns trechos, vegetação típica de áreas alagadas.

 

 

As principais atividades econômicas são a agricultura familiar, a pesca, a fabricação de farinha de mandioca para auto-consumo e comercialização; algumas atividades ligadas ao turismo começam a ser implementadas. Nos anos recentes, as influências externas vêm se tornando marcantes, aprofundadas pela implantação de infra-estrutura moderna, que permite a rápida penetração na área da ideologia urbano-industrial.

A coleta de dados foi feita em três comunidades rurais (Morro Grande, Barreirinho e Varginha) e na sede do município. Os dados foram coletados esporadicamente em várias ocasiões entre 1991 e 1994, e, sistematicamente, em fevereiro, março e junho de 1997, fevereiro, março, maio e junho de 1998. Utilizaram-se observação participante, entrevistas semi-estruturadas e estruturadas (Bernard 1988), visando a obtenção de características sócio-econômicas dos informantes, características botânicas e ecológicas das plantas usadas para fins medicinais e suas indicações terapêuticas.

Foram entrevistados vinte e quatro adultos, (quinze mulheres e nove homens), escolhidos com base no conhecimento com relação ao uso de plantas medicinais e procedimentos terapêuticos; com metade deles (quatro dos quais benzedores), manteve-se um contato prolongado, com entrevistas em várias ocasiões ao longo da pesquisa. Além disso, entrevistas e conversas ocasionais foram mantidas com cerca de mais vinte e quatro indivíduos. Os entrevistados têm idades acima de 50 anos, com exceção de duas mulheres, na faixa entre 30 e 40 anos. O grau de escolaridade é baixo, em geral não ultrapassando as quatro primeiras séries do primeiro grau, sendo que cerca de 24% da amostra não têm nenhuma escolaridade ou são analfabetos funcionais. A maior parte está ou esteve, durante a maior parte de sua vida, ligada a atividades agrícolas e, em alguns casos, também à pesca.

As plantas foram coletadas dos ambientes onde crescem, na presença e por indicação dos informantes. Os espécimes prensados e secos foram identificados pelos seguintes taxonomistas: A.L. Prado, UFMT, Cuiabá, MT; M.A. Assis, UNESP, Rio Claro, SP; J.R. Pirani e A. Zanin, USP, São Paulo, SP; I. Cordeiro; M.C..H. Mamede, Instituto de Botânica, São Paulo, SP e L.C.Ming, UNESP, Botucatu, SP. As exsicatas estão depositadas no Herbarium Rioclarense (HRCB). Para algumas plantas domesticadas, a identificação foi feita no local e com o auxílio da literatura.

As espécies com aplicação terapêutica consideradas neste trabalho incluem, além daquelas indicadas para afecções que têm correspondência na medicina oficial, também aquelas espécies usadas para doenças e estados de desconforto que são identificados pela população local, mas não reconhecidos pela biomedicina, como, por exemplo, quebrante, inveja, feitiço, arca-caída, considerando-se que fazem parte do universo nosológico das comunidades estudadas (Bruneli 1987). As indicações foram agrupadas com base na classificação das doenças proposta pela Organização Mundial de Saúde (OMS 2000); as doenças ou estados que não puderam ser incluídos nesta classificação geral foram agrupados na categoria "doenças culturais".

Para se calcular diversidade, empregou-se o índice de Shannon-Wiener,

base 10 e e, onde: s = número de espécies e

(Krebs, 1989), onde ni é o número de citações por espécie (considera-se apenas uma citação por espécie por informante, mesmo que um informante tenha citado uma espécie várias vezes, para vários usos) e N é o número total de citações, conforme foi sugerido por Begossi (1996). Para estes cálculos, foi usado o programa Krebs para Windows (1997). Foi aplicado o teste t para se testar diferenças entre pares de índices de diversidade (Zar 1996).

Para se verificar a suficiência amostral, foram feitas as curvas de rarefação, através do programa Krebs para Ms-DOS (Krebs 1989).

 

Resultados e discussão

A área estudada caracteriza-se por uma situação sócio-econômica em transformação; o confronto entre modos de pensar e agir tradicionais e novas idéias e costumes trazidos com o contato intensificado nas décadas recentes com a sociedade nacional, reflete-se também nas questões ligadas à saúde e à doença. Hoje em dia, a população local conta com facilidades médicas, como um Centro de Saúde e um Hospital Municipal, e, embora o emprego das plantas com fins terapêuticos ainda seja parte importante do cotidiano da maioria, existem outras opções disponíveis de tratamento.

As espécies foram coletadas de ambientes diversos, como quintais, roças, áreas com vegetação em sucessão secundária, cerrados e áreas periodicamente alagadas. Pertencem a 73 famílias e 228 espécies; as famílias mais bem representadas foram Euphorbiaceae (17 espécies), Asteraceae (15 espécies), Caesalpiniaceae (13 espécies) e Lamiaceae (12 espécies), Fabaceae e Poaceae (9 espécies) e Solanaceae (8 espécies). Cerca de 56% das espécies crescem espontaneamente em ambientes naturais ou antropicamente modificados, enquanto 41% são cultivadas localmente; o restante é adquirido por compra. O Apêndice 1 apresenta as espécies citadas, suas características botânicas e ecológicas. O maior número de espécies foi indicado para doenças do aparelho digestivo e aparelho respiratório (Fig. 2). Resultados semelhantes têm sido registrados para outros locais, tanto no Brasil (Silva-Almeida & Amorozo 1998; Hanazaki et al 1996; Amorozo & Gély 1988), quanto em outras partes da América Latina (Bennett & Prance 2000; Trotter II 1981). Em seguida, vêm as doenças do aparelho genito-urinário e lesões e outras consequências de causas externas. A maior parte das espécies tem mais de uma indicação terapêutica. Todas as partes vegetais foram indicadas para o preparo de remédios; as mais utilizadas foram as folhas (incluindo ramos e brotos – 126 espécies), raízes (41), cascas (38) e planta inteira (31). É de se notar que o uso de raízes e cascas foi mais comum para plantas do cerrado. Frutos (25 espécies), sementes (16), flores (15) e latex ou seiva (11) foram indicados menor número de vezes. Diferentes partes da mesma espécie podem ser empregadas de diferentes modos, para a mesma afecção, ou para diferentes afecções. O modo de administração mais comum foi por via oral (161 espécies), principalmente sob forma de chás (infusão ou decocto – 124 espécies), seguido por maceração em água ou cachaça (25) e xarope (25); 83 espécies foram indicadas para banhos ou outro tipo de aplicação externa.

 

 

Os valores dos índices de diversidade encontrados comparam-se aos mais altos registrados para plantas medicinais em outras regiões tropicais (Begossi 1996; Figueiredo et al. 1993). A Tab. 1 apresenta os resultados para o presente trabalho e para um estudo feito em área de floresta pluvial tropical em Barcarena, no Pará (Amorozo & Gély 1988, Amorozo & Gély, dados não publicados e Amorozo 1993), para o total das espécies, para as espécies espontâneas e as cultivadas. Tanto a riqueza, quanto os valores dos índices de diversidade, em todos os casos, são maiores para Barcarena, do que para Santo Antonio. Também, para ambas as áreas, diversidade e riqueza são maiores em relação às plantas espontâneas - aí incluídas tanto as silvestres como as invasoras - do que em relação às cultivadas. A Tab. 2 apresenta os resultados do teste t para diferenças entre pares de índices de diversidade (Zar 1996). Todas as comparações foram estatisticamente significantes.

 

 

 

 

A equitabilidade na amostra total é alta em ambos os locais; Santo Antonio apresenta um valor um pouco menor, com relação às espécies espontâneas e cultivadas. Equitabilidade alta, como é o caso, mostra que o conhecimento sobre uso terapêutico de plantas tem distribuição relativamente uniforme entre os indivíduos da amostra estudada.

Comparando-se as curvas de rarefação para número de citações (Fig. 3), verifica-se que a curva para Barcarena tem inclinação mais acentuada do que a de Santo Antonio, apresentando maior número de espécies por unidade de esforço amostral; neste caso, é provável que um aumento no tamanho da amostra acarretasse ainda aumento na riqueza observada.

 

 

Um dos fatores que influencia o conhecimento e uso de plantas medicinais é a disponibilidade de espécies a serem utilizadas. A maior diversidade de espécies de Barcarena em relação a Santo Antonio, bem como os resultados das curvas de rarefação, estão congruentes com a riqueza florística dos ambientes ocupados pelas populações estudadas, já que, de modo geral, a floresta amazônica é mais rica em espécies do que o cerrado.

A diversidade de espécies espontâneas utilizadas medicinalmente reflete até certo ponto a riqueza florística local; a diversidade significativamente maior de plantas espontâneas em relação às cultivadas está ligada à disponibilidade de habitats (florestas, cerrado, vegetação secundária) e ao fato de que estas populações exploram efetivamente estes ambientes na procura de plantas medicinais. Em Santo Antonio, mais de um terço das espécies espontâneas é nativo do cerrado.

Quanto à diversidade de espécies cultivadas, que geralmente são exóticas, depende principalmente de aportes externos. Em ambas as áreas, pouco mais de 40% das espécies medicinais são cultivadas localmente. Bennett & Prance (2000) chamam a atenção para a importância das espécies introduzidas na farmacopéia vegetal de povos índigenas e mestiços do Norte da América do Sul. Muitas destas plantas, segundo estes autores, foram introduzidas na época da conquista européia, para fins alimentares e ornamentais, e seu uso acabou sendo estendido à cura de enfermidades. Gabriel Soares de Sousa, em 1587 (Sousa 1974), relata a aclimatação de muitas plantas trazidas de além-mar para a Bahia, como banana, cana-de-açúcar, romã, cítricos, gengibre, hortelã, couve, alface, cebola, alho e poejos, entre outras, que são atualmente usadas de forma extensiva como medicinais. Mais especificamente para a região de Mato Grosso, Riedel, botânico da Expedição Langsdorff, que percorreu a região entre 1827 e 1828, assinala o uso medicinal de algumas plantas cultivadas, como o fumo, a goiaba, a maravilha e o urucu (Saddi 1993).

A composição de uma farmacopéia popular é, pois, um processo dinâmico, durante o qual podem ocorrer tanto aquisições como perdas. Nas situações onde o contato com a sociedade em geral ou com migrantes se intensifica, é possível que aumentem as oportunidades, tanto de entrada de novas espécies, antes inexistentes na área, que são testadas pela população local, quanto de novos usos para espécies já existentes. À medida que estas plantas e informações recém-introduzidas vão se disseminando, também o número de pessoas que as usam poderá aumentar. Desta forma, a riqueza e diversidade de espécies usadas medicinalmente podem aumentar, pelo menos durante um período. As comunidades de agricultores estudadas em Mato Grosso estão submetidas a um processo de mudança e exposição a fatores externos bastante acelerado; verificou-se, neste caso, a entrada de novas informações com relação à utilização de plantas para fins medicinais através de veículos de comunicação de massa, principalmente a televisão (por exemplo, o uso da pata-de-vaca (Bauhinia spp.) contra diabetes, relatado por um informante; a utilização da resina da ameciqueira (Protium heptaphyllum (Aubl.) March) como medicinal - antes usavam apenas casca, folha e brotos - relatada por outro) e contato com pessoas de fora das comunidades (por exemplo, o uso da coroa-de-cristo (Euphorbia milii des Moulins), uma espécie ornamental, para problemas do coração).

Por outro lado, vários fatores contribuem para que haja perda de espécies de valor terapêutico e de informações sobre elas; a alteração antrópica, ocasionada por mudanças nos padrões de uso local dos ambientes naturais, onde crescem muitas das espécies medicinais, irá, a médio prazo, acarretar uma diminuição na disponibilidade e no uso de plantas nativas e espontâneas para estes fins. Estas mudanças começam a ser sentidas em Santo Antonio, onde os entrevistados afirmavam que muitas das espécies nativas de cerrado estavam se tornando difíceis de encontrar, seja pela destruição dos habitats, para formação de pastagens ou uso urbano, seja pela sua inacessibilidade, devido à apropriação e cercamento das terras por indivíduos estranhos às comunidades. Também, a "modernização" traz consigo novas opções de cuidados com a sáude, e uma certa desvalorização da cultura local, à qual os jovens são o grupo mais sensível, reforçando a tendência à perda ou abandono das práticas tradicionais.

Tal processo encontra-se em estado já avançado em áreas inseridas há mais tempo na economia nacional, como é o caso do Estado de São Paulo. Em um estudo etnobotânico de um bairro rural no município de Conchas, SP, Dias (1999) registrou 80 espécies com usos medicinais, e índices de diversidade de 1,76 e 4,05 (Shannon-Wiener bases 10 e e, respectivamente), resultados menores, portanto, do que os aqui descritos. Ademais, a autora nota que cerca de 64% das espécies provêm de cultivo. Em outro distrito, próximo a Rio Claro, SP, Silva-Almeida & Amorozo (1998) encontraram 70 espécies de plantas com usos medicinais, ressaltando que a maioria delas era cultivada, sendo quase 79% obtidas de quintais e jardins (incluindo-se aí tanto as cultivadas como as toleradas); neste último local, os ambientes naturais haviam cedido espaço, em sua maior parte, para pastagens e terrenos de cultivo.

Sugere-se, desta forma, que quando comunidades tradicionais se tornam mais expostas à sociedade nacional, o conhecimento e o uso de plantas medicinais podem sofrer inicialmente um acréscimo, com o aumento das oportunidades de contato com espécies exóticas e informações sobre elas. Mas, à medida que este processo vai se aprofundando, ocasionando modificações nas formas de apropriação e uso da terra, com a substituição de ambientes naturais por artificiais, à medida que novos valores se sobrepõem aos antigos, e aumenta o acesso a cuidados institucionalizados com a saúde, a tendência é que a diversidade de plantas utilizadas com fins terapêuticos se torne restrita às espécies cultivadas e às invasoras cosmopolitas.

 

Agradecimentos

À FAPESP, pelo auxílio à pesquisa processo no 1996/8127-2. Ao povo de Santo Antonio do Leverger, MT, pela acolhida, pela colaboração irrestrita e pela amizade. Ao Miguel Petrere Jr. e Leila Cunha de Moura, pela leitura crítica do manuscrito e sugestões; a dois revisores anônimos, pelas correções e recomendações.

 

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1 Auxílio Pesquisa FAPESP.

2 Departamento de Ecologia, IB, UNESP. C.Postal 199, CEP 13506-900, Rio Claro, São Paulo, Brasil.

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