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Acta Botanica Brasilica

versão impressa ISSN 0102-3306versão On-line ISSN 1677-941X

Acta Bot. Bras. v.16 n.2 São Paulo abr. 2002

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-33062002000200007 

LEVANTAMENTO FITOSSOCIOLÓGICO EM UM FRAGMENTO DE FLORESTA ESTACIONAL SEMIDECÍDUA, NO MUNICÍPIO DE SÃO CARLOS, SP1

 

Luciana Álvares da Silva2
João Juares Soares3

 

Recebido em 16/02/2001. Aceito em 10/12/2001.

 

 

RESUMO (Levantamento fitossociológico em um fragmento de floresta estacional semidecídua, no município de São Carlos, SP). O presente trabalho teve por objetivo a análise de parâmetros fitossociológicos em um fragmento de floresta estacional semidecídua, no município de São Carlos – SP, situado entre 21o 55' e 22o 00' Sul e 47o 48' e 47o 52' Oeste. Para o levantamento da vegetação foram estabelecidas 50 parcelas de 10 m x 20 m (200 m2), distribuídas perpendicularmente a uma trilha existente no interior do fragmento. Em cada parcela foram amostrados todos os indivíduos com diâmetro à altura do peito (DAP) igual ou maior a 5cm, onde foi medido o diâmetro, a altura, anotado o nome da espécie e coletado material para herborização. Foram encontrados 1343 indivíduos por hectare. As espécies que apresentaram maior valor de importância (VI) foram: Metrodorea nigra (33,09%), Pachystroma longifolium (22,64%), Aspidosperma ramiflorum (20,41%), Actinostemon communis (17,38%), Croton floribundus (12,70%), Savia dictyocarpa (12,14%), Ocotea pretiosa (10,24%) e Machaerium stipitatum (10,01%), que juntas somaram 46,20% do VI total e as 92 espécies restantes somaram 53,80%.

Palavras-chave – Estrutura da comunidade, fragmento florestal, floresta semidecídua

 

ABSTRACT – (Phytosociological survey of arboreal vegetation of a mesophyllous semideciduous forest fragment, in municipality São Carlos, São Paulo State). The objective of was a to analise the phytosociological parameters of a semideciduous forest fragment in a secondary forest, São Carlos, São Paulo State (21o 55" S and 47o 48" W). Fifty plots of 10 m x 20 m (200 m2) were established and distributed perpendiculary to a path in the forest fragment. Trees with a breast height of at least 5 cm of diameter (DBH) were tagged, measured, and identified. 1,343 individuals were sampled in the phytosociologic study. The species with the highest importance value (IV) were: Metrodorea nigra (33.09%), Pachystroma longifolium (22.64%), Aspidosperma ramiflorum (20.41%), Actinostemon communis (17.38%), Croton floribundus (12.70%), Savia dictyocarpa (12.14%), Ocotea pretiosa (10.24%) and Machaerium stipitatum (10.01%), that together comprised 46.20% of total IV and while the 92 remaining species comprised 53.80%.

Key words – Community structure, forest fragment, semideciduous forest

 

 

Introdução

No Brasil pode-se considerar a ocorrência dos seguintes biomas: a Floresta pluvial (Amazônica e Atlântica), a Floresta temperada quente, a Floresta estacional (Semidecidual e Decidual), o Cerrado, a Caatinga, os Campos e o Pantanal, sendo que a localização geográfica destes biomas, segundo Ribeiro e Walter (1993), é condicionada, predominantemente, por fatores climáticos e edáficos.

Nas regiões sul e sudeste, as florestas tropicais vêm sofrendo um aumento constante de intensidade, freqüência e tamanho das perturbações antrópicas, mas, muitas vezes, é possível recuperar a cobertura florestal através da regeneração natural (Viana 1987).

No Estado de São Paulo, os ecossistemas florestais que antes cobriam mais de 80% da superfície, desde o início de seu processo de desenvolvimento, foram reduzidos, drasticamente, a menos de 5% da área do Estado (CONSEMA 1985).

A introdução da cultura cafeeira foi a principal bandeira de desenvolvimento do estado. Sendo exigente em clima e solo, com a sua expansão, ocorreu a ocupação de terras virgens e cobertas por matas (Victor 1975).

Os fragmentos florestais remanescentes são definidos como qualquer área de vegetação natural contínua, interrompidos por barreiras antrópicas ou naturais capazes de diminuir significativamente o fluxo de animais, pólen e/ou sementes (Viana 1990). Estes fragmentos apresentam sérios problemas, como um grande número de árvores mortas, alta ocorrência de cipós, um grande número de espécies raras e poucos indivíduos e espécies pertencentes a estádios mais avançados da sucessão (Almeida 1996, Viana 1990), porém, são fundamentais para a conservação da biodiversidade, devendo-se adotar técnicas apropriadas para a recuperação e o manejo.

Para um manejo sustentável efetivo existe a necessidade de desenvolvimento de sistemas de manejo adequados às florestas tropicais, sendo necessários conhecimentos de suas características biológicas e ecológicas, que possibilitem um bom manejo sob bases sustentáveis ambiental, econômica e social (Ferreira, 1997).

O presente trabalho teve por objetivo o levantamento da estrutura da comunidade arbórea em um fragmento de floresta estacional semidecídua da Fazenda Canchim, São Carlos, SP.

 

Material e métodos

O presente trabalho foi realizado na Reserva de Floresta Estacional Semidecídua, na Fazenda Canchim, de propriedade da Embrapa Pecuária Sudeste – CPPSE, localizada no município de São Carlos, São Paulo, entre 21o 55' e 22o 00' Sul e 47o48' e 47o 52' Oeste. O clima da região de São Carlos, segundo a classificação de Köppen, é do tipo de transição entre Cwai - Awi (clima quente de inverno seco para tropical com verão úmido e inverno seco) (Tolentino, 1967). A precipitação média anual foi de 1440 mm. A temperatura média das médias anual foi de 26,82o C e a média das mínimas 15,63o C. A reserva apresenta topografia plana, levemente ondulada e altitude média de 850 m. A unidade de solo predominante é a do Latossolo Vermelho Distrófico típico.

O fragmento apresenta uma área de aproximadamente 112 ha de floresta estacional semidecídua, segundo a classificação do IBGE (1993).

Para o levantamento fitossociológico foram utilizadas parcelas retangulares de área fixa de 0,02 ha (10 m x 20 m). Foram demarcadas 50 parcelas, totalizando uma área de amostragem de 1 ha. A demarcação das parcelas foi feita seguindo uma orientação perpendicular à trilha principal que corta o fragmento. A distância entre as parcelas foi de 10 m e entre cada linha 50 m. Em cada parcela foi feito o levantamento de todos os indivíduos arbóreo-arbustivos, vivos ou mortos em pé, com DAP igual ou superior a 5 cm. Os indivíduos foram marcados com plaquetas e identificados pelo nome científico, e quando não identificados, foram coletados para posterior identificação. Os indivíduos que apresentaram estruturas férteis foram depositados no Herbário do Departamento de Botânica da UFSCar. Foi medido o diâmetro com fita métrica e a altura total foi estimada visualmente por comparação com uma vara de 10 m (Silva 2001).

Os parâmetros da estrutura horizontal foram calculados por meio das expressões descritas por Curtis & McIntosh (1950), Mueller-Dombois & Ellenberg (1974) e Lamprecht (1990).

 

Resultados e discussão

Foram amostradas 50 parcelas envolvendo 1343 indivíduos, sendo 1239 vivos e 104 mortos ainda em pé. As espécies amostradas no levantamento fitossociológico estão apresentadas na Tab. 1. A análise estrutural, representada pelos parâmetros fitossociológicos, é apresentada na Tab. 2, a qual mostra a relação das espécies em ordem decrescente de valor de importância (VI) e seus respectivos parâmetros fitossociológicos.

 

 

 

 

Excluindo as árvores mortas, 21 espécies contribuíram com aproximadamente 75% da soma total do VI, sendo que apenas oito espécies apresentaram VI igual ou maior a 10.

Um grande número de espécies (55%) apresentou VI menor que 1%, e, segundo Martins (1979), é uma característica das florestas tropicais a presença de um grande número de espécies com baixo VI. Poucas espécies detêm altos valores relativos de densidade, de freqüência e de dominância, enquanto muitas espécies, com poucos indivíduos, têm baixo VI.

Foram encontradas 104 árvores mortas, perfazendo um total de 7,74% dos indivíduos amostrados, o que parece ser normal em florestas brasileiras. Como apresentou elevada freqüência, ocorrendo em 84% das parcelas, indica que não está havendo uma perturbação localizada. Dentre o total de árvores amostradas, Cavassan (1982) encontrou 5,8% de árvores mortas, Struffaldi-De-Vuono (1985) 11,5%, Martins (1991) 7,4% e Tabanez et al. (1997) 11,3%. A morte das árvores pode estar relacionada a acidentes (ventos, tempestades, queda de grandes ramos), doenças, perturbações antrópicas, ou ocorrer naturalmente por velhice (Martins 1991).

Para Lopes (1998), as árvores mortas, ainda em pé, têm valor ecológico para a fauna silvestre, fornecendo abrigo, local de nidificação, fonte indireta de alimento, entre outros.

Em fragmentos recém-isolados, a morte de árvores deve-se, provavelmente, às mudanças microclimáticas que ocorrem por ocasião do isolamento e, em fragmentos isolados há muito tempo, um grande número de árvores mortas mostra que o aumento de mortalidade de árvores não ocorre só imediatamente após o isolamento, mas persiste por muito tempo (Tabanez et al. 1997).

Segundo resultados apresentados na Tab. 2, há 37 espécies com um indivíduo por hectare, o que representa 37% do número de espécies encontradas no fragmento. É um número muito elevado de espécies que ocorrem com apenas um indivíduo amostrado, indicando uma alta susceptibilidade à extinção local da espécie no fragmento, caso ocorra morte ou corte desses indivíduos. Pode ser devido à grande diversidade da flora, ao padrão de distribuição da espécie e a baixa densidade das populações, sendo que este número pode ser ainda maior, pois, segundo Tabanez et al. (1997), à medida que, provavelmente, todas as espécies mais comuns foram coletadas, muitas espécies raras podem ter passado despercebidas por problemas de amostragem.As dez espécies mais importantes com relação ao VI foram: Metrodorea nigra (33,09%), Pachystroma longifolium (22,64%), Aspidosperma ramiflorum (20,41%), Actinostemon communis (17,38%), Croton floribundus (12,70%), Savia dictyocarpa (12,14%), Ocotea pretiosa (10,24%) e Machaerium stipitatum (10,01%), que juntas somaram 46,20% do VI total e as 92 espécies restantes somaram 53,80%.

A espécie Metrodorea nigra apresentou maior VI (33,09%) em decorrência da grande abundância de sua população, com elevados valores de freqüência e densidade (Fig. 1). Já a espécie Pachystroma longifolium (22,64%) apresentou o segundo maior VI, devido principalmente pela dominância.

 

 

Para o VC a posição das espécies não alterou muito, a não ser para a espécie Holocalyx glaziovii, por apresentar maior valor de dominância que Ocotea pretiosa, ocupando a sua posição (Fig. 2).

 

 

A maioria dos fragmentos, encontram-se, atualmente, bastante degradada, com uma alta porcentagem de árvores mortas, alta ocorrência de lianas e algumas populações específicas instáveis, o que pode comprometer o futuro desses fragmentos. O estudo do manejo adequado do fragmento, de proteção contra incêndios, de análise da influência das lianas na queda de árvores e regeneração de clareiras e das populações de espécies instáveis, principalmente de secundárias tardias, deveria receber atenção especial para a recuperação e manutenção deste fragmento florestal.

Os resultados aqui apresentados fornecem subsídios para estratégias de recuperação e manejo de fragmentos de florestas estacionais semideciduais.

 

Agradecimentos

A Embrapa Pecuária Sudeste – CPPSE, pela permissão para a realização deste trabalho na Reserva de Floresta Estacional Semidecídua. Ao Dr. Odo Primavesi (CPPSE), pelas facilidades para realização do trabalho e informações obtidas. Ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico - CNPq, pelo financiamento do projeto.

 

Referências bibliográficas

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1 Parte da tese de doutorado do primeiro autor

2 Doutora do PPG-ERN – UFSCar – e-mail: lsilva@cenargen.embrapa.br

3 Departamento de Botânica – UFSCar e Prof. visitante da UEM. e-mail: juares@power.ufscar.br Rodovia Washington Luiz, KM 235, São Carlos – SP – Cep: 13565-905 – C.P. 676.

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