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Acta Botanica Brasilica

Print version ISSN 0102-3306On-line version ISSN 1677-941X

Acta Bot. Bras. vol.19 no.4 São Paulo Oct./Dec. 2005

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-33062005000400020 

Flora de um brejo de altitude na escarpa oriental do planalto da Borborema, PE, Brasil1

 

Floristics of an upland forest in the oriental slope of the Borborema plateau, Pernambuco State, Brazil

 

 

Maria Jesus Nogueira RodalI, 2; Margareth Ferreira SalesI; Marcos José da SilvaI; Alexandre Gomes da SilvaII

IUniversidade Federal Rural de Pernambuco, Departamento de Biologia, Rua Dom Manoel de Medeiros s/n. Dois Irmãos, CEP 52171-900, Recife, PE, Brasil
IIUniversidade Federal Rural de Pernambuco, Herbário Professor Vasconcelos-Sobrinho, Rua Dom Manoel de Medeiros s/n, Dois Irmãos, CEP 52171-900, Recife, PE, Brasil

 

 


RESUMO

Os estudos nas florestas montanas nordestinas (brejos de altitude) indicam que as ombrófilas apresentam elevada riqueza de espécies e são mais relacionadas com a floresta ombrófila de terras baixas. Considerando o desconhecimento sobre as florestas ombrófilas sub-montanas, foi realizado o levantamento do Brejo de Bonito, Pernambuco, com o objetivo de conhecer seu perfil florístico. São apresentadas informações sobre o coletor/número, hábito e padrão de distribuição de cada espécie. Os resultados foram comparados a 22 levantamentos da Floresta Atlântica (latu sensu) nordestina. No brejo de Bonito foram coletadas 217 espécies, distribuídas em 65 famílias. Dessas, cerca de 50% são citados em outras florestas montanas de Pernambuco e de terras baixas de Pernambuco e da Bahia. A maior parte das espécies encontradas tem distribuição na América do Sul, ocorrendo desde a porção norte, penetrando na costa leste brasileira e também na porção central do Brasil e, às vezes, no domínio do semi-árido, nos Brejos de Altitude. Outra porção representativa distribui-se desde a América Central até a porção centro-norte da América do Sul, com poucas ocorrendo também na parte sul da América do Norte (Estados Unidos e México).

Palavras-chave: floresta ombrófila sub-montana, nordeste do Brasil, brejo de altitude, padrão de distribuição


ABSTRACT

Studies in the northeastern upland forests (brejo de altitude) indicate that the humid ones show higher richness of species and have more floristic simalarity with the lowland humid forests. Considering the lack of data about humid sub-montane forests, a survey was carried out in the upland forest of Bonito, Pernambuco, aiming to identify their floristic composition. Voucher, habit, and pattern of distribution of each species are presented. The results were compared with 22 surveys in the northeastern Atlantic Rainforest (latu sensu). Two hundred and seventeen species, distributed in 65 families, were sampled at the study area. Among those, 50% were cited in other upland forests and lowland forests in Pernambuco and Bahia States. The majority of species are scattered along South America, occurring from the north portion, penetrating through the Atlantic coast, as well as in the Brazilian central plateau, and sometimes reaching the semi-arid regions within the upland forests. Another important group of species are distributed starting at Central America to the middle region of South America, with a few occurring also in the south of North America (United States and Mexico).

Key words: sub-montane ombrophilous forest, Northeastern Brazil, upland forest, distribution pattern


 

 

Introdução

A Floresta Atlântica brasileira se estende ao longo da costa, de 07ºS a 23ºS, e é composta por mosaico de diferentes fisionomias e floras sobre grande diversidade ambiental. Baseado no critério de endemismo específico e grau de degradação, aquela floresta foi identificada como um dos pontos mais críticos (hottest hotspots) para prioridades de conservação por Myers et al. (2000), apresentando número estimado de 20.000 espécies de plantas.

Sob a perspectiva fitogeográfica, a Floresta Atlântica pode ser dividida em dois conjuntos, Sudeste/Sul e Nordeste, cada um com alta percentagem de endemismo (Rizzini 1979). Ainda sobre sua distribuição, a Floresta Atlântica pode penetrar no bioma Cerrado, localizado no Brasil central, através de cursos de água (Oliveira-Filho & Ratter 2000) e no bioma Caatinga, no topo de serras e planaltos do semi-árido nordestino (Tavares et al. 2000).

Das diferentes tipologias encontradas na Floresta Atlântica nordestina, as florestas situadas em serras e planaltos do semi-árido, localmente chamadas Brejos de Altitude, são ainda pouco conhecidas (Tavares et al. 2000). São ilhas florestais mais ou menos úmidas, em função de sua condição climática peculiar, já que o relevo cria uma barreira às massas de ar, que acabam depositando umidade nas vertentes à barlavento, grotões e vales de serras (Andrade-Lima 1982). Podem ser classificadas como montanas, quando situadas acima de 600 m, ou sub-montanas, entre 100 e 600 m (Veloso et al. 1991), variando de ombrófilas a estacionais.

Dos Estados nordestinos, Pernambuco apresenta o maior número de levantamentos quantitativos em formações florestais. Como resultado, sabe-se que há grande variação florística relacionada aos elementos climáticos (precipitação, temperatura, vento, etc.) e a diversos fatores fisiográficos (orografia e efeito da continentalidade). A precipitação decresce para o interior (para o oeste), diminuindo de 2.000 mm ano1 nas terras baixas próximas à costa Atlântica, onde predomina a floresta ombrófila, para 1.200-1.000 mm ano-1 nos níveis do cristalino que antecedem o planalto da Borborema, onde se destacam florestas estacionais e ombrófilas, que se diferenciam em função da altitude e exposição das encostas às massas de ar úmido vindas do litoral. No planalto da Borborema propriamente dito, a precipitação é variável, sendo possível encontrar desde Caatinga (Alcoforado-Filho et al. 2003) até florestas ombrófilas (Tavares et al. 2000). Finalmente, descendo o planalto em direção à oeste, a vegetação da Caatinga predomina em áreas mais baixas, situadas na depressão semi-árida, onde a precipitação está em torno de 500 mm (Jacomine et al. 1973; Rodal 2002). De modo geral, as temperaturas são muito elevadas nas áreas interioranas, exceto no planalto da Borborema que apresenta temperaturas ligeiramente mais baixas, especialmente durante a noite.

Os estudos quantitativos nas florestas montanas realizados por Tavares et al. (2000) e E.M.N. Ferraz (dados não publicados) indicam que as florestas ombrófilas montanas apresentam elevada riqueza de espécies e são relacionados com a floresta ombrófila de terras baixas. Todavia, pouco ou quase nada se sabe a respeito das florestas ombrófilas sub-montanas.

Considerando o desconhecimento das florestas ombrófilas sub-montanas da região, este trabalho tem por objetivo responder às seguintes questões: Qual a composição de uma floresta ombrófila sub-montana? Quanto dessa flora é compartilhada com outras florestas da região? e Quais os principais padrões de distribuição das espécies dessa floresta?

 

Material e métodos

A Mata do Brejão (08º29'40"S e 35º41'45"W) situa-se no chamado Brejo de Bonito (Fig. 1), série de remanescentes florestais localizados no município de Bonito, microrregião homogênea do Brejo Pernambucano (Rodal et al. 1998), a qual está inserida entre zonas fisiográficas distintas, a da Mata, mais úmida, e a do sertão, mais seca. Do ponto de vista geomorfológico, os terrenos estão situados na escarpa oriental do planalto da Borborema. A altitude varia de 450-500 m e a precipitação média anual é de 1.100 mm. Trata-se de um remanescente que sofreu exploração seletiva e que a aproximadamente cinco anos está sendo preservado, segundo informações dos moradores do entorno

 

 

De março/2001 a fevereiro/2002 foram realizadas excursões mensais para coleta de material botânico no remanescente da Mata do Brejão. Todo material foi processado e tombado no herbário Professor Vasconcelos Sobrinho (PEUFR), da Universidade Federal Rural de Pernambuco, seguindo as normas técnicas recomendadas por Mori et al. (1989). As identificações foram realizadas por meio de bibliografia especializada e por comparação com exsicatas identificadas por especialistas e depositadas no herbário PEUFR, onde também está depositada a coleção de referência dos Brejos de Altitude Pernambuco.

A partir da identificação, foi elaborada a lista das famílias e espécies, organizada de acordo com o sistema de Cronquist (1981) com informações do coletor, número e hábito. A essa lista foram adicionadas as espécies registradas por Sales et al. (1998) em diferentes remanescentes de floresta ombrófila do município de Bonito (Mata da Prefeitura, Mata da Maguary, Mata do Assentamento), todas com altitude e posição geográfica similar à Mata de Brejão. As espécies listadas foram classificadas quanto à sua distribuição empregando o sistema de Cabrera & Willink (1980). Adicionalmente, a distribuição das espécies foi investigada com a análise de bibliografias de grupos taxonômicos e levantamentos florísticos.

Os resultados da lista florística geral de Bonito foram comparados a 22 levantamentos da Floresta Atlântica nordestina (latu sensu), sendo cinco em floresta estacional montana de Pernambuco (Correia 1996; Ferraz et al. 1998; Moura & Sampaio 2001; L.M. Nascimento, dados não publicados; Rodal & Nascimento 2002); uma em floresta estacional de terras baixas da Paraíba (Lima 2002); uma em floresta estacional de terras baixas de Pernambuco (Andrade & Rodal 2004); uma em floresta estacional de terras baixas do Rio Grande do Norte (Cestaro & Soares 2004); duas em floresta ombrófila montana de Pernambuco (Tavares et al. 2000; E.M.N. Ferraz, dados não publicados); seis em floresta ombrófila de terras baixas de Pernambuco e Paraíba (M.R.V. Barbosa, dados não publicados; A.C.B. Lins e Silva & M.J.N. Rodal, dados não publicados; Guedes 1998; A.C.S. Ramos, dados não publicados; Siqueira et al. 2001; A.G. Silva, dados não publicados); quatro em floresta ombrófila de terras baixas de Bahia (NYBG 2004a, b, c, d); dois em restinga de Pernambuco (J.R. Cantarelli, dados não publicados; S.S. Lira, dados não publicados). Todos os levantamentos em florestas montanas de Pernambuco tiveram suas listas ampliadas de acordo com as espécies citadas por Sales et al. (1998).

 

Resultados

Florística de Bonito - Na Mata do Brejão foram coletadas 102 espécies distribuídas por 52 famílias (Tab. 1), com predomínio de arbóreas (44,1%), seguida por ervas (13,7%) e arbustos com 11,7% cada. Considerando também as espécies coletas por Sales et al. (1998) para outros remanescentes de Bonito, há registro de um total de 217 espécies, distribuídas por 65 famílias (Tab. 1).

As famílias com maior número de espécies foram: Asteraceae e Euphorbiaceae com 14 espécies cada, seguidas por Melastomataceae e Rubiaceae (13 spp. cada), Solanaceae (dez spp.), Fabaceae (nove spp.), Caesalpiniaceae, Mimosaceae, Poaceae, Myrtaceae (oito spp. cada) e Cyperaceae (seis spp.).

No componente arbóreo dos diferentes fragmentos de Bonito (Mata do Brejão e Sales et al. 1998) foram coletadas 53 espécies, distribuídas em 22 famílias, com destaque para: Mimosaceae e Myrtaceae com seis espécies cada, seguida por Melastomataceae (cinco spp.) e Sapindaceae e Fabaceae (quatro spp. cada), (Tab. 1). Pela maior altura pode-se citar: Tapirira guianensis e Thyrsodium spruceanum (Anacardiaceae), Schefflera morototoni (Araliaceae), Bowdichia virgilioides (Fabaceae) e Simarouba amara (Simaroubaceae). No componente arbóreo mais baixo pode-se destacar: Croton floribundus (Euphorbiaceae), Lacistema robustum (Lacistemaceae) e Myrcia tomentosa (Myrtaceae).

No componente herbáceo dos diferentes fragmentos há registro de 48 espécies, distribuídas em 26 famílias, com destaque para Poaceae (oito spp.), Cyperaceae (seis spp.), Eupborbiaceae (quatro spp.) e Rubiaceae (três spp.) (Tab. 1). A maior parte das ervas da Mata do Brejão foi coletada na borda ou em clareiras no interior da floresta como: Costus spiralis (Costaceae) e Bomarea salsilloides (Alstroemeriaceae), etc. Outras como Habenaria obtusa e H. cf. cryptophylla (Orchidaceae) são típicas das áreas sombreadas do interior da floresta.

No estrato subarbustivo ocorreram 43 espécies, com maior riqueza em Asteraceae (oito spp.), Melastomataceae e Euphorbiaceae (quatro spp. cada) e Rubiaceae, Sterculiaceae e Solanaceae (três spp. cada) (Tab. 1). Os arbustos respondem por 40 espécies, sendo Solanaceae (6 spp. ) Rubiaceae (cinco spp.) e Caesalpiniaceae (quatro spp.), as famílias com maior riqueza de espécies.

A maioria dos arbustos e subarbustos da Mata do Brejão ocorreu no entorno ou trilhas da floresta como: Chamaecrista rotundifolia (Caesalpiniaceae), Vismia guianensis (Clusiaceae), Solanum asperum, S. baturitense e S. paniculatum (Solanaceae), Aegiphila sellowiana (Verbenaceae), entre outras.

Foram registradas 23 espécies de trepadeiras e lianas distribuídas por 15 famílias, sendo Cucurbitaceae com quatro espécies, das quais três pertencem ao gênero Gurania e Sapindaceae (três ssp.), as famílias mais representativas. As demais famílias ocorrem com uma ou duas espécies (Tab. 1). Finalmente, no componente das epífitas ocorreram quatro famílias, destacando-se Orchidaceae (4 spp.), Viscaceae (três spp.) e Araceae (duas spp.), respectivamente.

Entre as trepadeiras e lianas, pode-se observar que táxons como Momordica charantia (Cucurbitaceae) e Thunbergia alata (Acanthaceae) são bastante freqüentes, principalmente sobre indivíduos arbustivos e herbáceos de locais abertos enquanto Davilla nitida (Dilleniaceae), Gouania blanchetiana (Rhamnaceae) e as espécies de Gurania (Cucurbitaceae) em geral ocupam a copa de árvores de grande porte, especialmente da borda. Com relação às epífitas foram registradas Anthurium gracile (Araceae) e Epidendrum cinnabarinum (Orchidaceae).

Bonito e outras florestas da região - Das 217 espécies inventariadas, cerca de 50% ocorreram em outras florestas montanas de Pernambuco e de terras baixas de Pernambuco e Bahia, especialmente as úmidas ou ombrófilas (Tab. 1).

O total de 105 (48%) espécies são encontradas em duas florestas ombrófilas montanas de Pernambuco. Nas dez florestas ombrófilas de terras baixas analisadas, há 104 espécies em comum (Tab. 1). Em relação aos outros tipos de florestas do estado de Pernambuco, nota-se que 66 espécies (30%) são também registradas em cinco levantamentos de florestas estacionais montanas.

Considerando ainda as espécies referidas para os fragmentos ombrófilos de Bonito, observa-se que há poucas espécies compartilhadas com as listas provenientes de três florestas estacionais de terras baixas de Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte (59) e dois levantamentos em Restinga (26) (Tab. 1).

Padrões de distribuição geográfica das espécies - A maior parte das espécies (cerca de 69,9%) encontradas nos fragmentos de Bonito tem distribuição exclusiva na América do Sul, ocorrendo desde a porção norte (Colômbia, Venezuela, Guianas, Equador, Peru, Bolívia, norte do Brasil), penetrando na costa leste brasileira e também na porção central do Continente, alcançando a Bolívia e Brasil central. Outra porção representativa (cerca de 26,2%) distribui-se desde a América Central (Belize, Guatemala, Honduras, Nicarágua, Costa Rica, Panamá) até a porção centro-sul da América do Sul, com raras ocorrendo também na parte sul da América do Norte (Estados Unidos e México). Aproximadamente 20,5% das espécies têm distribuição relacionada com a costa leste brasileira. Cerca de 7,9% são exclusivas desta porção; as demais, penetram para oeste ou na região semi-árida (ficando restritas às florestas montanas) ou até o Brasil Central, alcançando parte do Paraguai e leste da Bolívia. De maneira geral, estas plantas habitam principalmente as florestas úmidas a sub-úmidas das Américas central e do sul, algumas têm sua distribuição expandida para tipos vegetacionais mais secos, como Cerrados, florestas estacionais e bosques chiquitanos.

Assim, considerando as espécies de Bonito, foram identificados 20 padrões de distribuição, adotando-se os domínios e províncias propostos por Cabrera & Willink (1980) para a região neotropical. São apresentados no texto os mais representativos (sete); os demais, são citados apenas na Tab. 1. Padrão Pacífico-Amazônico-Atlântico: inclui 16 espécies com distribuição no domínio Amazônico (províncias Pacífica, Amazônica e Atlântica). Segundo Cabrera & Willink (1980), a província Pacífica estende-se pelas serras ocidentais baixas dos Andes equatorianos e colombianos, os vales inter-andinos e se prolonga pelas regiões baixas e costas litorâneas da América Central; a província Amazônica inclui norte do Brasil, grande parte das Guianas e Venezuela, leste da Colômbia, Equador, Peru e Bolívia e; a província Atlântica corresponde a faixa litorânea de 50 a 100 km de largura da costa leste do Brasil, do paralelo 7ºS a 30ºS. As espécies estudadas com este padrão têm distribuição ao longo das florestas costeiras úmidas dos países centro-americanos e das florestas amazônica e da costa brasileira, destacando-se Myrcia fallax e M. sylvatica (Myrtaceae), Siparuna guianensis (Myrsinaceae), Piper aduncum (Piperaceae), Coccocypselum lanceolatum e Psychotria carthagenensis (Rubiaceae).

Padrão Atlântico: 17 espécies parecem ter distribuição exclusiva nessa província, como Macroditassa laurifolia (Asclepiadaceae), Bomarea salsilloides (Alstroemeriaceae), Vismia martiana (Clusiaceae), Psychotria schlechtendaliana (Rubiaceae), Andira nitida (Leguminosae latu sensu), entre outras.

Padrão Amazônico-Atlântico: um total de 14 espécies apresenta padrão de distribuição descontínuo, ocorrendo nas florestas úmidas da região amazônica (Venezuela, Colômbia, Equador, Peru, Guianas e norte do Brasil) e da costa atlântica, e estando ausentes na faixa atualmente ocupada por vegetações mais secas, como o cerrado e a caatinga. Destacam-se Thyrsodium spruceanum (Anacardiaceae), Heliconia psitacorum (Heliconiaceae), Ocotea glomerata (Lauraceae), Inga bahiensis e I. striata (Leguminosae latu sensu), Monatagma laxum e Maranta pohliana (Marantaceae), Eugenia feijoi (Myrtaceae), etc. Entretanto, algumas espécies (sete), além de ocorrerem nas províncias Amazônia e Atlântica, penetram ainda na província do Cerrado como Miconia ciliata (Melastomataceae), Myrcia tomentosa (Myrtaceae), Scleria arundinacea (Cyperaceae) e Olyra micrantha (Poaceae).

Padrão Atlântico-Caatinga: 13 espécies têm distribuição principal na província Atlântica, porém penetram mais para oeste, até a região semi-árida, ficando restrita apenas aos Brejos de Altitude. Raras podem ser encontradas em outros tipos vegetacionais da província da Caatinga como: Cleome microcarpa (Capparaceae), Bauhinia spicata (Leguminosae latu sensu) e Calyptranthes dardanoi (Myrtaceae).

Padrão Amazônico-Chaquenho-Atlântico: oito espécies compartilham estas três províncias como Anaxagorea dolichocarpa (Annonaceae), Schefllera morotononi (Araliaceae) e Casearia javitensis (Flacourtiaceae). Outras têm distribuição ainda mais ampla alcançando as províncias do Cerrado e da Caatinga como Miconia albicans e Marcetia taxifolia (Melastomataceae).

Padrão Atlântico-Cerrado: seis espécies, especialmente da família Asteraceae, são comuns as províncias do Cerrado e Atlântica como Bacharis oxyodonta, B. rivularis, B. serrulata, Verbesina macrophyla (Asteraceae) além de Cupania paniculata e C. racemosa (Sapindaceae). Outras espécies ainda alcançam a província da Caatinga, onde estão quase restritas aos Brejos de Altitude, como Platymenia foliolosa (Mimosaceae), Miconia rimalis e Tibouchina fissinervia (Melastomataceae) e Solanum baturitense (Solanaceae).

Padrão Atlântico-Cerrado-Chaquenho: são encontradas quatro espécies de ambientes abertos como Emilia forsbergii e Vernonia brasiliana (Asteraceae), Centropogon cornutus (Campanulaceae), Byrsonima sericea (Malpighiaceae).

Pode-se destacar ainda 14 espécies que ocorrem desde o México até a porção centro-sul da América do Sul, provavelmente em tipos vegetacionais mais secos nas províncias Pacífica, Chaquenha, Cerrado e Caatinga, como: Chamaeacrista diphylla, C. nictitans, Samanea saman, Macroptilium lathyroides (Leguminosae latu sensu), Lantana canescens e L. fucata (Verbenaceae), etc. Padrão de distribuição pantropical, com as espécies ocorrendo nas Américas e África e ou Ásia, são apresentados por Polygala paniculata (Polygalaceae), Tephrosia noctiflora (Leguminosae latu sensu), Sida linifolia (Malvaceae), Liparis nervosa (Orchidaceae), Piper marginatum (Piperaceae), Waltheria americana e W. indica (Sterculiaceae), Stachytarpheta cayennensis e Lantana camara (Verbenaceae).

 

Discussão

Comparando-se a riqueza de táxons arbóreos de Bonito com a de outras florestas do Estado de Pernambuco (Tab. 2), nota-se que neste trabalho, em Brejo dos Cavalos (Tavares et al. 2000) e em São Vicente Férrer (E.M.N. Ferraz, dados não publicados) há maior riqueza de famílias e espécies que nas ombrófilas de terras baixas, padrão semelhante ao registrado por R.R. Guedes-Bruni (dados não publicados) para o gradiente terras baixas - montanas das florestas ombrófilas do Rio de Janeiro.

 

 

Siqueira et al. (2001) salientaram que as famílias arbóreas importantes em florestas ombrófilas da região como: Anacardiaceae, Lecythidaceae, Moraceae, Sapotaceae e Burseraceae tendem a ser menos importantes a medida que as condições vão se tornando mais secas como as registradas nas áreas de florestas estacionais dos levantamentos de L.M. Nascimento (dados não publicados), Ferraz et al. (2003) e Rodal & Nascimento (prelo). Além disso, deve-se destacar famílias com elevada riqueza de espécies nas ombrófilas montanas como Sapindaceae e Melastomataceae (Tavares et al. 2000; E.M.N. Ferraz, dados não publicados; este trabalho) são pouco representadas nas estacionais montanas (M.E. Correia, dados não publicados; Ferraz et al. 1998; L.M. Nascimento, dados não publicados; Rodal & Nascimento 2002).

Gentry (1995) observou que dependendo do grau de deficiência hídrica, a flora das florestas neotropicais de determinada área pode ser um subconjunto empobrecido da floresta úmida. Observa-se que quando a deficiência hídrica é mais acentuada, a flora dos brejos de altitude pode representar um conjunto florístico mais empobrecido (Rodal & Nascimento, prelo) ou similar (Tavares et al. 2000; este trabalho) ao das florestas mais úmidas da região (Guedes et al. 1998; Siqueira et al. 2001). Assim, o fato de haver poucas espécies compartilhadas entre Bonito e fragmentos de florestas estacionais de terras baixas de Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte se justifica em função das diferencas de hábitat, especialmente climáticas.

O reduzido número de levantamentos englobando os componentes não arbóreos dificulta o entendimento dos padrões florísticos da Floresta Atlântica na região. Todavia, nota-se que nas florestas mais secas diminui a proporção de epífitas (Rodal & Nascimento 2002), provavelmente em função da menor umidade e pela maior penetração de luz, devido ao dossel ser mais aberto.

Dos 43 táxons citados apenas na lista de Bonito a maioria é representada por plantas herbáceas. O fato de uma parte das listas tratar apenas de levantamentos fitossociológicos dos estratos arbóreo e arbustivo justifica que essas espécies só sejam citadas em Bonito. É provável que essas espécies também ocorram em outros locais visto serem plantas comuns na região como: Conyza bonariensis, Emilia sonchifolia (Asteraceae), Cordia multispicata (Boraginaceae), Becquerelia cymosa e Scleria latifolia, (Cyperaceae), Chamaesyce hyssopifolia, Croton lobatus, Microstachys corniculata (Euphorbiaceae), Pavonia cancellata (Malvaceae), Borreria verticillata, Coccocypselum lanceolatum, Psychotria platypoda (Rubiaceae), Stachytarpheta cayennensis (Verbenaceae) e Polygala paniculata (Polygalaceae).

A maioria das espécies listadas nos fragmentos florestais de Bonito apresenta ampla distribuição, ocorrendo desde os países centro-americanos e porções norte e leste da América do Sul, em geral habitando as florestas úmidas a subúmidas. Quando se questiona a possibilidade da flora atual das florestas montanas terem porção significativa de elementos amazônicos, constata-se que das espécies que mostram padrão exclusivamente amazônico-atlântico, poucas habitam as florestas de terra firme como Thyrsodium spruceanum (Anacardiaceae), Monatagma laxum (Marantaceae), Gurania bignoniacea (Cucurbitaceae) (Ribeiro et al. 1999); as demais parecem ser plantas de ambientes mais secos e ou pertubados dentro da província Amazônica.

Outro conjunto parece ser formado por espécies (15,9%) com distribuição sul-americana, em ambientes mais secos como forestas semi-decíduas a decíduas, cerrados, bosque seco chiquitano e bosque serrano chaquenho (Killeen et al. 1993), nas províncias Chaquenha, do Cerrado e da Caatinga. As províncias da Caatinga e Chaquenha, de acordo com Cabrera & Willink (1980), fazem parte do domínio Chaquenho, que ocupa área atualmente disjunta, mas que em eras geológicas anteriores talvez estivessem unidas. Praticamente não foram encontradas espécies cuja distribuição principal fosse na porção sul do continente sul-americano (província Paranense, que ocupa a porção sul do Brasil, nordeste da Argentina e leste do Paraguai), com exceção de Croton verbenifolius (Euphorbiaceae), Cuphea racemosa (Lythraceae) e Myrsine venosa (Myrsinaceae).

Os resultados mostram que a flora angiospérmica de Bonito é compartilhada com outras florestas ombrófilas da região, quer sejam montanas ou de terras baixas. Isso revela clara unidade florística Atlântico-nordestina. Pode-se concluir ainda que as ombrófilas da região tem flora mais relaciona com o norte do continente sul-americano e América Central.

 

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Recebido em 17/11/2004. Aceito em 05/05/2005

 

 

1 Trabalho financiado pelo projeto "Flora e vegetação de um remanescente de floresta ombrófila sub-montana no nordeste do Brasil" (Fundação o Boticário de Proteção à Natureza - Processo 5920002)
2 Autor para correspondência: mrodal@terra.com.br

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