SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.22 issue1Cyperaceae species of the Centro de Proteção e Conservação da Natureza Pró-Mata, São Francisco de Paula municipality, Rio Grande do Sul State, BrazilKnowledge and use of coastal sand-dune plant resources by communities from Cardoso (São Paulo) and Santa Catarina (Santa Catarina) islands, Brazil author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Journal

Article

Indicators

Related links

Share


Acta Botanica Brasilica

Print version ISSN 0102-3306On-line version ISSN 1677-941X

Acta Bot. Bras. vol.22 no.1 São Paulo Jan./Mar. 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-33062008000100019 

Levantamento florístico no cerrado de Pedregulho, SP, Brasil1

 

Floristic inventory of cerrado at Pedregulho, São Paulo State, Brazil

 

 

Denise Sasaki2; Renato de Mello-Silva

Universidade de São Paulo, Instituto de Biociências, C. Postal 11461, 05422-970 São Paulo, SP, Brasil

 

 


RESUMO

Em Pedregulho, município do extremo nordeste do Estado de São Paulo, ocorrem fragmentos de cerrado considerados floristicamente distintos dos demais remanescentes paulistas. Nesse estudo, foi realizado um levantamento florístico em Pedregulho, abordando duas regiões geologicamente distintas: o Parque Estadual das Furnas do Bom Jesus e o distrito de Estreito. Em cada uma, delimitaram-se duas parcelas de 50×50 m, totalizando um hectare, onde foram encontradas 65 famílias e 379 espécies de angiospermas. Coletas em áreas adjacentes totalizaram 71 famílias e 443 espécies. As duas regiões estudadas têm baixa similaridade florística entre si. A distribuição geográfica das espécies é analisada e oito padrões são delimitados para aquelas cuja distribuição no Estado de São Paulo é restrita à região de Pedregulho.

Palavras-chave: Cerrado, levantamento florístico, Pedregulho, São Paulo


ABSTRACT

Pedregulho municipality in the far northeastern region of São Paulo state has fragments of cerrado vegetation thought to be floristically distinct from other cerrado remmants in the state. In this study, a floristic survey was carried out at Pedregulho, focusing on two geologically distinct regions: Furnas do Bom Jesus State Park and the Estreito district. In each region, 50×50 m plots were set up for a total sample area of 1 hectare, where 65 families and 379 angiosperm species were recorded. Collecting efforts in adjacent areas resulted in a total of 71 families and 443 species. The two study areas had low floristic similarity. Geographic species distribution was analyzed and eight patterns were defined for those species restricted to the Pedregulho region in São Paulo.

Key words: Cerrado, floristic inventory, Pedregulho, São Paulo


 

 

Introdução

O cerrado, com diferentes fisionomias, já cobriu cerca de 14% do território paulista (Brito 1997; Durigan et al. 2004). Entre 1962 e 1992 houve uma redução aproximada de 87% desta área (Kronka et al. 1998) e, atualmente, há somente fragmentos isolados que correspondem a menos de 7% de sua área original (Durigan et al. 2003a). Esforços para conservar estes remanescentes resultaram em projetos para conhecer e divulgar sua biodiversidade, estabelecer áreas prioritárias e diretrizes para conservação, e promover a exploração econômica sustentável do cerrado (Brito 1997; Kronka et al. 1998; Durigan et al. 2002).

Os cerrados de São Paulo apresentam maior similaridade florística com áreas do sul de Minas Gerais e do Paraná, formando um grupo à parte dos cerrados das demais regiões de Minas Gerais e do Centro-Oeste (Ratter & Dargie 1992; Ratter et al. 1996; Ratter et al. 2003). Dividem-se ainda em dois grandes grupos: um de áreas do centro para o nordeste-norte, onde predominam fisionomias campestres, e outro do oeste paulista, onde predominam os cerradões (Durigan et al. 2003a; b). Existem áreas menores, floristicamente distintas, relacionadas a condições ambientais particulares, como o extremo nordeste de São Paulo, nos municípios de Rifaina e Pedregulho (Durigan et al. 2002; 2003b). Nesses municípios ocorre alta proporção de espécies raras ou com distribuição restrita (Durigan et al. 2003a). É uma região de prioridade máxima de conservação por suas características ecológicas, político-sociais, e pelo tamanho e localização dos fragmentos nativos (Brito 1997), além de ter sido uma das áreas mais intensamente devastadas nos últimos 30 anos (Kronka et al. 1998).

Sob este panorama, o presente estudo contribui para o conhecimento da flora do cerrado paulista, apresentando uma listagem florística de duas regiões Sasaki & Mello-Silva: Levantamento florístico no cerrado de Pedregulho, SP, Brasil no município de Pedregulho, o Parque Estadual das Furnas do Bom Jesus e o distrito de Estreito. Ainda, a fim de contribuir para a compreensão da dissimilaridade de sua flora em relação aos demais remanescentes de cerrado paulista, são investigados neste estudo padrões de distribuição geográfica das espécies cuja ocorrência no Estado de São Paulo é restrita à região de Pedregulho.

 

Material e métodos

O município de Pedregulho localiza-se no extremo nordeste do Estado de São Paulo, nas coordenadas aproximadas de 20º14'55" de latitude sul e 47º28'48" de longitude oeste (Fig. 1). O clima é do tipo Cwa de Köppen (1948), Temperado Moderado Chuvoso, com chuvas periódicas, inverno seco não rigoroso e temperatura mais quente superior a 22 ºC; ou do tipo Tropical Subquente Semi-Úmido, com período seco de 4 a 5 meses (Nimer 1989).

 

 

Pedregulho está situado em unidades geológicas distintas. A maior parte encontra-se sobre sedimentos paleozóicos e mesozóicos da Bacia Sedimentar do Paraná (Almeida 1964; Moreira & Camelier 1977; Ross & Moroz 1997), mais precisamente na porção norte da formação basáltico-arenítica mais ou menos contínua que separa a Depressão Periférica do Planalto Ocidental Paulista (Planaltos Cuestiformes ou Cuestas Basálticas) (Ross & Moroz 1997). Entretanto, uma faixa estreita marginal ao rio Grande, que inclui o distrito de Estreito e o município de Rifaina, situa-se sobre rochas pré-cambrianas do proterozóico médio, pertencentes ao grupo Canastra (Almeida et al. 1981; Gatto et al. 1983) (Fig. 1). Essas rochas, expostas devido à remoção de litologias jurássico-cretáceas pelo entalhamento do rio, constituem-se de litologias ocorrentes na região dos Planaltos da Canastra, localizados em Minas Gerais, e que se estendem até as imediações do Complexo Hidrelétrico de Furnas em São Paulo (Gatto et al. 1983).

O Parque Estadual das Furnas do Bom Jesus, criado em 1989, é a única unidade de conservação do nordeste de São Paulo. Sua área é de 2.069,06 ha e engloba parte da bacia do córrego do Pedregulho (Branco et al. 1991; Barbosa & Nunes 2001). A maior parte do Parque é coberta por capoeiras baixas e florestas estacionais semidecíduas primárias (Barbosa & Nunes 2001), que ocupam as escarpas das furnas e o fundo do vale do córrego do Pedregulho. Nas regiões mais elevadas, existem áreas de cerrado com diferentes fisionomias: campo sujo, campo cerrado e cerrado sensu stricto.

O distrito de Estreito situa-se na margem sul do lago da usina hidrelétrica Luiz Carlos Barreto Carvalho, no rio Grande. Em suas margens existem áreas de vegetação bem preservadas, ocasionalmente atingidas por incêndios, que cobrem encostas pedregosas, de declividade suave a bastante acidentada. A vegetação apresenta um gradiente de fisionomias de campo sujo, campo cerrado, cerrado sensu stricto e floresta estacional semidecídua. Estreito está localizado sobre a faixa marginal ao rio Grande onde estão expostas litologias de origem pré-cambriana, pertencente ao grupo Canastra (Almeida et al. 1981).

Foram amostradas quatro parcelas de 50×50 m, totalizando um hectare, duas no Parque Estadual das Furnas do Bom Jesus (áreas 1 e 2) e duas no distrito de Estreito (áreas 3 e 4). Cada parcela apresenta características distintas (Tab. 1). Para uma amostragem mais completa, coletou-se também em suas adjacências.

 

 

Foram realizadas 14 expedições de coleta mensais de aproximadamente quatro dias cada, entre abril/2003 e abril/2004, e em outubro/2004. As parcelas foram percorridas de forma assistemática, e coletaram-se e herborizam-se as angiospermas férteis. O material botânico testemunho encontra-se depositado nos herbários citados na Tab. 2. A classificação taxonômica segue APG II (2003). Em Compositae, optou-se pela classificação sensu lato dos gêneros Vernonia Schreb. e Eupatorium L.

 










 

As composições florísticas de cada área foram comparadas entre si e realizou-se uma análise de agrupamento por UPGMA (Unweighted Pair Group Method with Arithmetic Average) entre as quatro áreas. Para isso, foram utilizados o coeficiente de Sorensen e o programa MVSP versão 3.1. (Kovach Computer Services). Para análise dos padrões fitogeográficos foram excluídas espécies de distribuição muito ampla (cosmopolita, tropical ou neotropical), exóticas, que fossem comuns às áreas de cerrado de todo Brasil, ou que se distribuíssem por outras localidades do Estado de São Paulo. Dessa forma, foram selecionadas espécies de distribuição mais restrita ou cuja ocorrência no Estado de São Paulo se restringe à região de Pedregulho. Dados de distribuição foram obtidos de trabalhos florísticos de regiões de São Paulo, Minas Gerais e Bahia, de revisões taxonômicas, de bancos informatizados dos herbários F, IAC, MO, NY, S, U e US, e de coleções dos herbários SPF e UEC.

 

Resultados

Foram encontradas dentro das parcelas 65 famílias e 379 espécies e mais seis famílias e 64 espécies nas adjacências das parcelas, totalizando 71 famílias e 443 espécies (Tab. 2).

As famílias com maior número de espécies são Compositae (63 espécies), Leguminosae (49 spp.), Gramineae (38 spp.), Melastomataceae (22 spp.), Malpighiaceae (20 spp.), Cyperaceae (18 spp.) e Rubiaceae (16 spp.) (Fig. 2), representando 51% do total coletado. Cinco famílias apresentaram três espécies, 11 famílias duas espécies e 28 famílias uma única espécie. Dessa forma, aproximadamente 62% das famílias (44) englobam somente 15% das espécies (65 spp.).

 

 

Das 443 espécies coletadas em Pedregulho, 289 são ervas ou subarbustos e 154 arbustos ou árvores. A proporção aproximada entre o componente herbáceo-subarbustivo e o arbustivo-arbóreo é de 2:1 Apesar das diferentes fisionomias, nas áreas 1 e 4, 60% das espécies são ervas ou subarbustos e 40% arbustos ou árvores, e nas áreas 2 e 3, são 63% e 37%, respectivamente.

As parcelas nas quais registrou-se maior número de espécies são, em ordem decrescente, as da área 1 (198 espécies), área 2 (156 espécies), área 4 (116 espécies) e área 3 (98 espécies). Somando-se as espécies coletadas nas adjacências, totalizaram-se os seguintes números de espécies: 206 na área 1, 228 na área 2, 121 na área 3 e 127 na área 4.

As áreas 1 e 2, no P.E. das Furnas do Bom Jesus, totalizam 346 espécies e as áreas 3 e 4, em Estreito, 180 espécies. Foram registradas 86 espécies em comum entre as áreas situadas no P.E. das Furnas do Bom Jesus, e 68 espécies entre as áreas em Estreito. Somente 20 espécies são comuns às quatro áreas.

A análise por UPGMA agrupa as áreas de Estreito, com um alto valor de similaridade (S = 0,55), contra as áreas do P.E. Furnas do Bom Jesus, com valor de similaridade inferior (S = 0,40) (Fig. 3). Os valores de similaridades foram mais baixos entre as áreas 2 e 3 (S = 0,24), áreas 1 e 3 (S = 0,25), áreas 2 e 4, áreas 1 e 4 (S = 0,27), e entre o P.E. Furnas do Bom Jesus e o distrito de Estreito (S = 0,25).

 

 

A maioria das espécies deste estudo apresenta padrões de distribuição amplos. Oito deles englobam as espécies cuja distribuição em São Paulo restringe-se a Pedregulho, ou eventualmente a Pedregulho e a Rifaina, município vizinho e com características geomorfológicas semelhantes (Almeida et al. 1981).

1. Endêmica de Pedregulho

Padrão representado somente por Cuphea sp., possivelmente inédita, do cerrado e campo rupestre (Cavalcanti & Graham 2002).

2. Pedregulho e Serra da Canastra

Svitramia sp. nov. (Romero & Martins 2002), Stevia hilarii e Vernonia sp. nov. (Nakajima & Semir 2001), citadas como endêmicas da Serra da Canastra, ocorrem também em Pedregulho, sobre afloramentos quartzíticos ou areníticos.

3. Pedregulho e sudoeste de Minas Gerais

É um padrão de distribuição em "U", periférico à Cadeia do Espinhaço (Romero 2002), de espécies exclusivas das porções sudoeste e sul dos campos rupestres de Minas Gerais. Diplusodon glocimarii, Eremanthus seidelii, Vellozia obtecta e V. peripherica confirmam esse padrão, estendendo-se, porém, até Pedregulho.

Diplusodon glocimarii era considerado endêmico da Serra da Canastra e Capitólio (Cavalcanti 2004).

4. Pedregulho e Minas Gerais

Calea graminifolia segue o padrão anterior, mas ocorre também na porção mineira da Cadeia do Espinhaço.

5. Pedregulho, sul e sudoeste de Minas Gerais e Goiás

Este padrão é baseado naquele de espécies exclusivas das serras de Goiás e do sudoeste de Minas Gerais (Romero 2002). A distribuição de Chresta scapigera segue este padrão, porém se estende até Pedregulho e o sul de Minas Gerais, em fisionomias mais abertas de cerrado e em campo rupestre.

6. Pedregulho, Minas Gerais, Centro-Oeste e países limítrofes

Padrão comum a muitas espécies (ou variedade, no caso de Tibouchina aegopogon) que se distribuem pelas serras do Centro-Oeste, sudoeste mineiro, Pedregulho, Planalto Sul de Minas e alcança a porção mineira da Cadeia do Espinhaço, podendo se estender até a Bolívia. Ocorrem em campo rupestre e cerrado, algumas em campo limpo, campo sujo e afloramento rochoso. As espécies amostradas em Pedregulho que apresentam esse padrão são Barjonia laxa (GO, MG, MT, SP), Camarea ericoides (GO, MG, MS, MT, SP), Chamaecrista ochnacea (MG, MT, SP), Deianira pallescens (DF, GO, MG, MT, SP), Diplusodon ovatus (GO, MG, MS, MT, SP), Diplusodon villosissimus (MG, MT, SP), Hyptidendron canum (DF, GO, MG, MS, MT, SP, Bolívia), Lychnophora ericoides (DF, GO, MG, SP), Manihot triphylla (DF, GO, MG, SP), Mimosa digitata (DF, GO, MG, SP), Polygala nudicaulis (GO, MG, SP), Smilax goyazana (DF, GO, MG, MS, MT, SP, Bolívia), Stachytarpheta longispicata (DF, GO, MG, SP), Strophopappus speciosus (DF, GO, MG, MS, MT, SP), Tetrapterys microphylla (GO, MG, SP), Tibouchina aegopogon var. aegopogon (DF, GO, MG, SP), Vochysia sessilifolia (GO, MG, MT, SP) e Wedelia puberula (GO, MG, SP).

7. Pedregulho, Minas Gerais, Centro-Oeste e Bahia

Padrão semelhante ao anterior, mas que engloba também a porção baiana da Cadeia do Espinhaço. As espécies coletadas em Pedregulho que apresentam esse padrão são: Myrcia torta (BA, DF, MG, GO, SP), Siphanthera cordata (BA, DF, GO, MG, MT, SP), Vellozia glauca (BA, GO, MG, SP), Vernonia buddleiifolia (BA, GO, MG, MS, MT, SP), Vernonia schwenkiifolia (BA, GO, MG, SP) e Wunderlichia mirabilis (BA, GO, MG, SP).

8. Pedregulho como limite sul de distribuições neotropicais amplas

Espécies amplamente distribuídas nas Américas Central e do Sul, cujo limite meridional são os Estados de Minas Gerais e o de São Paulo, sendo que neste último são restritas à região de Pedregulho. Ocorrem geralmente em ambientes abertos como cerrado e campo rupestre, mais raramente em florestas. Apresentam esse padrão: Habenaria leprieuri (GO, MG, PA, RO, SP, Bolívia, Trinidad e Tobago, Venezuela), Mesosetum loliiforme (AM, AP, BA, CE, DF, GO, MA, MG, MS, MT, PA, PI, RN, RO, SP, Colômbia, Cuba, Guianas, Guiana Francesa, Suriname, Venezuela), Siphanthera dawsonii (GO, MG, MT, PA, SP, Venezuela), Trimezia lutea (DF, GO, PI, RJ, SP, TO, Colômbia, Venezuela), Vochysia rufa (BA, DF, GO, MA, MG, MS, MT, PA, PI, RO, SP, Bolívia).

Das 39 espécies aqui analisadas, 17 foram encontradas somente em Estreito, 16 somente no P.E. das Furnas do Bom Jesus e seis em ambas regiões. Os ambientes de ocorrência são os mais variados, mas somente Calea graminifolia foi encontrada apenas em campo rupestre, e Diplusodon ovatus, Habenaria leprieuri, Mimosa digitata e Polygala nudicaulis não foram encontradas em campo rupestre. Sobre as demais especies, as informações disponíveis revelam que ocorrem em ambos os ambientes.

 

Discussão

Os cerrados paulistas são peculiares, pois, juntamente com os do Paraná, constituem o limite sul de ocorrência dessa vegetação e estão sujeitos a geadas e a períodos de seca mais curtos do que os cerrados do Planalto Central (Durigan et al. 2004). O município de Pedregulho, ainda, está situado em uma região distintiva, onde coincidem transições geomorfológica e climática. Essa região, como a maior parte de Minas Gerais, apresenta um período de seca de 4-5 meses, enquanto que nas demais áreas de cerrado paulista o clima é úmido com um período de seca mais curto, de 1-3 meses (Nimer 1989). A importância da influência do clima nos padrões de similaridade florística do cerrado tem sido indicada por outros estudos (Castro & Martins 1999; Ratter et al. 1996; 2003; Durigan et al. 2003a).

A maioria das espécies da listagem florística de Pedregulho apresenta ampla distribuição. Uma fração menor é, no Estado de São Paulo, restrita a essa região e pode se distribuir nos estados ao norte, e também em áreas mais ao sul em Minas Gerais e Mato Grosso do Sul. Uma característica comum a quase todas elas é sua ocorrência em campos rupestres, embora também ocorram em outras fisionomias, geralmente abertas. Apesar de predominantes na Cadeia do Espinhaço (Giulietti & Pirani 1988; Giulietti et al. 1997), os campos rupestres também ocorrem em serras do sul e sudoeste de Minas Gerais, de Goiás e do Distrito Federal (Giulietti et al. 2000), vinculadas ao Planalto Sul de Minas e ao Maciço Goiano, ligados pelo Arco da Canastra, modelados em rochas pré-cambrianas (Moreira 1977; Moreira & Camelier 1977).

Na Cadeia do Espinhaço, os padrões restritos, como endemismos locais e disjunções com a restinga e com serras de Goiás, são os mais comuns. Entretanto existem padrões mais amplos, como os de distribuição pela América tropical, principalmente em campos e cerrados, e as disjunções com o Planalto das Guianas (Giulietti & Pirani 1988). Poucos estudos versam sobre padrões de distribuição geográfica nos campos rupestres do cinturão orogênico das serras de Goiás e Minas Gerais, mas dois padrões são reconhecidos: um de espécies endêmicas do sul e sudoeste de Minas Gerais, e outro de espécies que ocorrem nas serras de Goiás e no sudoeste mineiro (Romero 2002). Com o presente estudo, esses padrões se ampliam para algumas espécies, passando a incluir a região de Pedregulho.

A proximidade geográfica e a similaridade geológica entre o extremo nordeste de São Paulo e os Planaltos da Canastra são fatores que influenciam a composição florística diferenciada da região de Pedregulho. A fisionomia de Estreito é característica da região da Canastra e das represas de Furnas no sul mineiro, onde se notam as seqüências de quartzitos plaqueados, pertencentes a uma formação do grupo Canastra (Machado-Filho et al. 1983), diferindo-se do cerrado arenoso do P.E. das Furnas do Bom Jesus. A fisionomia da vegetação de Estreito é semelhante à de Delfinópolis, considerada como campo rupestre por Bonifácio-Silva (dados não publicados). A definição de campo rupestre não é clara (Giulietti et al. 1987) e pode ser discordante em relação às diferentes fisionomias, substratos e localização geográfica (Giulietti & Pirani 1988; Harley & Simmons 1986; Ribeiro & Walter 1998; Vitta 2002). A falta de clareza do termo também leva a dificuldades em definir padrões de distribuição de suas espécies e, dependendo do conceito adotado, mais ou menos espécies seriam consideradas exclusivas do campo rupestre, e que também provavelmente podem ocorrer em fisionomias adjuntas e ecótonos entre elas.

Ainda que um melhor posicionamento da flora de Pedregulho no âmbito das fisionomias do cerrado requeira outros estudos, a região abriga populações de espécies únicas no Estado de São Paulo. Este estudo confirma a singularidade florística dessa região e enfatiza a importância da preservação das áreas marginais do rio Grande, carentes de áreas de proteção.

 

Agradecimentos

Ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), pela bolsa concedida.

 

Referências bibliográficas

Almeida, F.F.M. 1964. Fundamentos geológicos do relevo paulista. Boletim do Instituto Geográfico e Geológico 41: 169-263.         [ Links ]

Almeida, F.F.M.; Hasuy, Y.; Ponçano, W.L.; Dantas, A.S.L.; Carneiro, C.D.R.; Melo, M.S. & Bistrichi, C.A. 1981. Mapa geológico do Estado de São Paulo: escala 1:500.000 - volumes I e II. São Paulo, Instituto de Pesquisa Tecnológica do Estado de São Paulo, Divisão de Minas e Geologia Aplicada.         [ Links ]

Angiosperm Phylogeny Group. 2003. An update of the Angiosperm Phylogeny Group classification for the orders and families of flowering plants: APG II. Botanical Journal of Linnean Society 141: 399-436.         [ Links ]

Barbosa, L.M. & Nunes, J.A. (coords.). 2001. Atlas das unidades de conservação do Estado de São Paulo, parte II: interior. São Paulo, Secretaria Estadual de Meio Ambiente. Metalivros.         [ Links ]

Bonifácio-Silva, A.C. 2001. Levantamento florístico de cinco áreas em Delfinópolis, Minas Gerais – Brasil. Dissertação de Mestrado. Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo.         [ Links ]

Branco, I.C.; Domingues, E.N.; Serio, F.C.; Del Cali, I.H.; Mattos, I.A.; Bertoni, J.A.; Rossi, M.; Eston, M.R.; Pfeifer, R.M. & Andrade, W.J. 1991. Plano de manejo – Parque Estadual das Furnas do Bom Jesus, município de Pedregulho, SP. Revista do Instituto Florestal 3: 137-155.         [ Links ]

Brito, M.C.W. (coord.). 1997. Cerrado: Bases para conservação e uso sustentável das áreas de cerrado do Estado de São Paulo. São Paulo, Série PROBIO/SP, Secretaria do Meio Ambiente.         [ Links ]

Castro, A.A.J.F. & Martins, F.R. 1999. Cerrados do Brasil e do Nordeste: caracterização, área de ocupação e considerações sobre a sua fitodiversidade. Pesquisa em foco, São Luís 7: 147-178.         [ Links ]

Cavalcanti, T.B. 2004. Novos táxons, novos status, novo sinônimo e lectotipificações em Diplusodon Pohl (Lythraceae). Boletim de Botânica da Universidade de São Paulo 22: 1-14.         [ Links ]

Cavalcanti, T.C. & Graham, S.G. 2002. Lythraceae. Pp. 163-180. In: M.G.L. Wanderley; G.J. Shepherd & A.M. Giulietti (coords.). Flora fanerogâmica do Estado de São Paulo. v.2. São Paulo, Fapesp, Hucitec.         [ Links ]

Durigan, G.; Franco, G.A.D.C. & Siqueira, M.F. 2004. A vegetação dos remanescentes de cerrado no Estado de São Paulo. Pp. 29-56. In: M.D. Bitencourt & R.R. Mendonça (orgs.). Viabilidade de conservação dos remanescentes de cerrado do Estado de São Paulo. São Paulo, Annablume, Fapesp.         [ Links ]

Durigan, G.; Ratter, J.A.; Bridgewater, S.; Siqueira, M.F. & Franco, G.A.D.C. 2003a. Padrões fitogeográficos do cerrado paulista sob uma perspectiva regional. Hoehnea 30: 39-51.         [ Links ]

Durigan, G.; Siqueira, M.F. & Franco, G.A.D.C. 2002. A vegetação de cerrado no Estado de São Paulo. Pp. 5354. In: E.L. Araújo (ed.). Biodiversidade, Conservação e Uso Sustentável da Flora do Brasil. Recife, Universidade Federal Rural de Pernambuco, Sociedade Botânica do Brasil.         [ Links ]

Durigan, G.; Siqueira, M.F.; Franco, G.A.D.C.; Bridgewater, S. & Ratter, J.A. 2003b. The vegetation of priority areas for cerrado conservation in São Paulo state, Brazil. Edinburgh Journal of Botany 60: 217-241.         [ Links ]

Gatto, L.C.S.; Ramos, V.L.S.; Nunes, B.T.A.; Mamede, L.; Góes, M.H.B.; Mauro, C.A.; Alvarenga, S.M.; Franco, E.M.S.; Quirico, A.F. & Neves, L.B. 1983. Geomorfologia. Pp. 305-384. In: Projeto RadamBrasil. Levantamento de Recursos Naturais. v. 32. Rio de Janeiro, Ministério de Energia e Minas, Secretaria Geral.         [ Links ]

Giulietti, A.M.; Menezes, N.L.; Pirani, J.R.; Meguro, M. & Wanderley, M.G.L. 1987. Flora da Serra do Cipó, Minas Gerais: caracterização e lista das espécies. Boletim de Botânica da Universidade de São Paulo 9: 1-151.         [ Links ]

Giulietti, A.M. & Pirani, J.R. 1988. Patterns of geographic distribution of some plant species from the Espinhaço Range, Minas Gerais and Bahia, Brazil. Pp. 39-69. In: P.E. Vanzolini & W.R. Heyer (eds.). Proceedings of a workshop on Neotropical Distribution Patterns. Rio de Janeiro, Academia Brasileira de Ciências.         [ Links ]

Giulietti, A.M.; Pirani, J.R. & Harley, R.M. 1997. Espinhaço Range Region, Eastern Brazil. Pp. 397-404. In: S.D. Davis; V.H. Heywood; O. Herrera-MacBryde; J. Villa-Lobos & A.C. Hamilton (eds.). Centres of Plant Diversity. Cambridge, The World Wide Fund for Nature (WWF), The World Conservation Union (IUCN).         [ Links ]

Giulietti, A.M.; Harley, R.M.; Queiroz, L.P.; Wanderley, M.G.L. & Pirani, J.R. 2000. Caracterização e endemismos nos campos rupestres da Cadeia do Espinhaço. Pp. 311-318. In: T.B. Cavalcanti & B.M.T. Walter (eds.). Tópicos Atuais de Botânica. Brasília, EMBRAPA Recursos Genéticos.         [ Links ]

Harley, R.M. & Simmons, N.A. 1986. Florula of Mucugê: a descriptive check-list of a campo rupestre area. Kew, Royal Botanic Gardens.         [ Links ]

Köppen, W.P. 1948. Climatologia: con un estudio de los climas de la tierra. México, Fondo de Cultura Económica.         [ Links ]

Kronka, F.J.N.; Nalon, M.A.; Matsukuma, C.K.; Pavão, M.; Guillaumon, J.R.; Cavalli, A.C.; Giannotti, E.; Iwane, M.S.S.; Lima, L.M.P.R.; Montes, J.; Del Cali, I.H. & Haack, P.G. 1998. Áreas do domínio do cerrado no Estado de São Paulo. São Paulo, Secretaria de Estado do Meio Ambiente, Instituto Florestal.         [ Links ]

Machado Filho, L.; Ribeiro, M.W.; Gonzalez, S.R.; Schenini, C.A.; Santos Neto, A.; Palmeira, R.C.B.; Pires, J.L.; Teixeira, W. & Castro, H.E.F. 1983. Geologia. Pp. 27-304. In: Projeto RadamBrasil. Levantamento de Recursos Naturais. v. 32. Rio de Janeiro, Ministério de Energia e Minas, Secretaria Geral.         [ Links ]

Moreira, A.A.N. 1977. Relevo. Pp. 1-34. In: M.G. Galvão (coord.). Geografia do Brasil, Região Centro-Oeste. Rio de Janeiro, Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.         [ Links ]

Moreira, A.A.N. & Camelier, C. 1977. Relevo pp. 1-50. In: M.G. Galvão (coord.). Geografia do Brasil, Região Sudeste. Rio de Janeiro, Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.         [ Links ]

Nakajima, J.N. & Semir, J. 2001. Asteraceae do Parque Nacional da Serra da Canastra, Minas Gerais, Brasil. Revista Brasileira de Botânica 24: 471-478.         [ Links ]

Nimer, E. 1989. Climatologia do Brasil. Rio de Janeiro, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.         [ Links ]

Ratter, j.a. & Dargie, t.c.d. 1992. An analisys of the floristic composition of 26 cerrado areas in Brazil. Edinburgh Journal of Botany 49: 235-250.         [ Links ]

Ratter, J.A.; Bridgewater, S.; Atkinson, R. & Ribeiro, J.F. 1996. Analysis of the floristic composition of the Brazilian cerrado vegetation II: comparison of the wood vegetation of 98 areas. Edinburgh Journal of Botany 53: 153-180.         [ Links ]

Ratter, J.A.; Bridgewater, S. & Ribeiro, J.F. 2003. Analysis of the floristic composition of the Brazilian cerrado vegetation III: comparison of the wood vegetation of 376 areas. Edinburgh Journal of Botany 60: 57-109.         [ Links ]

Ribeiro, J.F. & Walter, M.B.T. 1998. Fitofisionomias do bioma Cerrado. Pp. 89-166. In: S.M. Sano & S.P. Almeida (eds.). Cerrado: ambiente e flora. Planaltina, Embrapa.         [ Links ]

Romero, R. & Martins, A. 2002. Melastomataceae do Parque Nacional da Serra da Canastra, Minas Gerais, Brasil. Revista Brasileira de Botânica 25: 19-24.         [ Links ]

Romero, R. 2002. Diversidade da flora dos campos rupestres de Goiás, sudoeste e sul de Minas Gerais. Pp. 81-86. In: E.L. Araújo; A.N. Moura; E.V.S.B. Sampaio; L.M.S. Gestinari & J.M.T. Carneiro (eds.). Biodiversidade, Conservação e Uso Sustentável da Flora do Brasil. Recife, Universidade Federal Rural de Pernambuco, Sociedade Botânica do Brasil.         [ Links ]

Ross, J.L.S. & Moroz, I.C. 1997. Mapa geomorfológico do Estado de São Paulo - v. 1. Escala 1:500.000. São Paulo, Instituto de Pesquisa Tecnológicas, Fapesp.         [ Links ]

Vitta, F.A. 2002. Diversidade e conservação da flora nos campos rupestres da Cadeia do Espinhaço em Minas Gerais. Pp. 90-94. In: E.L. Araújo; A.N. Moura; E.V.S.B. Sampaio; L.M.S. Gestinari & J.M.T. Carneiro (eds.). Biodiversidade, Conservação e Uso Sustentável da Flora do Brasil. Recife, Universidade Federal Rural de Pernambuco, Sociedade Botânica do Brasil.         [ Links ]

 

 

Recebido em 29/08/2006. Aceito em 24/05/2007

 

 

1 Parte da Dissertação de Mestrado da primeira Autora
2 Autor para correspondência: denisesasaki@hotmail.com

Creative Commons License All the contents of this journal, except where otherwise noted, is licensed under a Creative Commons Attribution License