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Acta Botanica Brasilica

Print version ISSN 0102-3306On-line version ISSN 1677-941X

Acta Bot. Bras. vol.22 no.4 São Paulo Oct./Dec. 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-33062008000400006 

Riqueza de espécies de fungos conidiais em duas áreas de Mata Atlântica no Morro da Pioneira, Serra da Jibóia, BA, Brasil1

 

Species richness of conidial fungi in two areas of Atlantic Forest at Morro da Pioneira, Serra da Jibóia, Bahia State, Brazil

 

 

Marcos Fabio Oliveira MarquesI, 2; Luis Fernando Pascholati GusmãoII; Leonor Costa MaiaIII

IUniversidade do Estado da Bahia, Departamento de Educação, Campus VII, Laboratório de Microbiologia , BR 407, km 127, Rod. Lomanto Júnior, 48970-000 Senhor do Bonfim, BA, Brasil
IIUniversidade Estadual de Feira de Santana, Departamento de Ciências Biológicas, Laboratório de Micologia, C. Postal 252, 44031-460 Feira de Santana, BA, Brasil
IIIUniversidade Federal de Pernambuco, Centro de Ciências Biológicas, Departamento de Micologia. Rua Professor Nelson Chaves s.n., 50670-420 Recife, PE, Brasil

 

 


RESUMO

A Serra da Jibóia, fragmento de Mata Atlântica situado no município de Santa Terezinha, Bahia, está incluído entre as áreas prioritárias para conservação. Com o objetivo de conhecer os fungos conidiais decompositores da serapilheira nesse ecossistema, foram realizadas cinco expedições a cada dois meses, de outubro/2005 a junho/2006. Trinta amostras de material vegetal (folhas, pecíolos, galhos e cascas) foram coletadas em três parcelas de 10 m2, eqüidistantes entre si (10 m), delimitadas em duas áreas com vegetação e umidade diferentes. As amostras foram lavadas em água corrente e incubadas em câmaras-úmidas por um mês; durante esse período as estruturas fúngicas foram retiradas dos substratos para estudo, sendo identificadas 106 espécies de fungos conidiais. Embora apresentando número equivalente de espécies, houve baixa similaridade (25%), segundo o índice de Sørensen, entre as comunidades de fungos conidiais das duas áreas. Os dados contribuem para ampliar o conhecimento sobre a distribuição e a diversidade de fungos conidiais que colonizam substratos vegetais na Mata Atlântica e mostram a riqueza de espécies das áreas estudadas.

Palavras-chave: diversidade, Hyphomycetes, serapilheira


ABSTRACT

The fragment of Atlantic Forest at Serra da Jibóia, municipality of Santa Terezinha, Bahia state, is a priority area for conservation. Five expeditions were undertaken every two months, from October/2005 to June/2006, in order to investigate the fungi that decompose leaf litter in this ecosystem. Thirty samples of plant debris (leaves, petioles, twigs and bark) were collected in three parcels of 10 m2, 10 m from each other, in two areas with different vegetation and humidity. Samples were washed in tap water and incubated in moist chambers for 30 days; during this period fungal structures on substrates were studied and 106 species of conidial fungi were identified. In spite of the similar number of species, there was low similarity (25%) between the communities of conidial fungi of the two areas according to Sørensen's Index. These data increase our knowledge regarding the distribution and diversity of conidial fungi that colonize plant debris in the Atlantic Forest and confirm species richness in the areas studied.

Key words: diversity, Hyphomycetes, leaf litter


 

 

Introdução

A Floresta Atlântica guarda, apesar de séculos de destruição, a maior biodiversidade por hectare entre as Florestas Tropicais (Conti & Furlan 2003). A fragmentação desse ecossistema tem conseqüências sobre a estrutura e os processos das comunidades vegetais, e as respostas dessa e de cada espécie ao habitat variam de acordo com fatores como histórico, tamanho e forma do fragmento, impacto das ações humanas, entre outras (Scariot et al. 2003). Nesses fragmentos de Mata Atlântica a grande quantidade de matéria orgânica produzida garante fertilidade suficiente para suprir a vegetação (Conti & Furlan 2003). Associados à matéria orgânica, encontramse fungos que garantem, junto com outros organismos, a ciclagem de nutrientes, disponibilizandoos aos vegetais e promovendo a manutenção desse ecossistema. Tais fungos exibem grande variedade morfológica e adaptativa a esse tipo de ambiente, favorecidos pelas condições adequadas de temperatura e umidade. Entretanto, o conhecimento sobre esses organismos ainda é escasso. Heredia et al. (1997) acreditam que, pela ampla diversidade de espécies que habitam os ecossistemas tropicais, é de se esperar que, exista riqueza considerável de fungos conidiais, habitantes típicos de substratos vegetais em decomposição.

A Serra da Jibóia representa um fragmento de Mata Atlântica, sendo uma área reconhecida como de extrema importância biológica no quesito vegetação (Brasil – MMA 2002). Investigações sobre fungos nesse fragmento começaram em 1999 com estudos de espécies macroscópicas de Basidiomycota. No final do levantamento, Góes Neto et al. (2003) registraram 26 espécies distribuídas em 18 gêneros da ordem Aphyllophorales. Em relação a fungos decompositores da serapilheira da Serra da Jibóia, apenas dois trabalhos foram publicados Marques et al. (2007) que registraram 13 novas assinalamentos para América do Sul e descreveram uma nova espécie (Cubasina microspora M.F.O. Marques, Gusmão & R.F. Castañeda) e Barbosa et al. (2007) catalogando 16 novas ocorrências de fungos conidiais para o neotrópico e duas novas espécies (Deightoniella rugosa F.R. Barbosa, Gusmão & R.F. Castañeda e Diplocadiella cornitumida F.R. Barbosa, Gusmão & R.F. Castañeda).

Neste trabalho são apresentados aspectos relacionados à comunidade de fungos conidiais associados à decomposição de folhas, pecíolos, galhas e cascas, coletados em duas áreas de mata na Serra da Jibóia, Bahia.

 

Material e métodos

A Serra da Jibóia, no município de Santa Terezinha, Bahia, é constituída por um complexo de morros com aproximadamente 5.928 ha, com altitude variando entre 750-840 m, temperatura média anual de 21ºC, índice pluviométrico de 1.200 mm/ano e chuvas concentradas de abril a julho, (Queiroz et al. 1996; M.A. Tomasoni, dados não publicados).

Foram realizadas cinco expedições, nos meses de outubro/dezembro/2005 e fevereiro/abril/junho/2006, em duas áreas do Morro da Pioneira (12º5'S e 39º28'W), na mencionada Serra. Uma constituída por mata fechada (Área A) com serapilheira profunda, 20-40 cm, na vertente posterior de campo rupestre, umidade e temperatura variando de 70-95% e 19-24 ºC, respectivamente. Outra, constituída por mata com árvores esparsas (Área B), solo com Bromeliaceae e serapilheira com até 15 cm de profundidade, que antecede a formação do campo rupestre no topo da Serra, umidade e temperatura variando de 63-78% e 23-28 ºC, respectivamente.

Para estudo dos fungos conidiais foi realizada amostragem em três parcelas de 10 m2 em cada área. As parcelas foram definidas a partir da borda da mata com 10 m de distância entre si, e em cada uma foram coletados aleatoriamente pecíolos, folhas, galhos e cascas (quatro subamostras de cada tipo de substrato) em vários estágios de decomposição, compondo uma amostra mista. No total foram coletadas, em cada expedição, seis amostras (três em cada área, contendo 12 subamostras com os diferentes substratos por área) resultando no final do estudo em 30 amostras (15 por área) de serapilheira nas diferentes áreas, as quais foram analisadas separadamente, para fins de comparação entre os substratos e áreas pesquisadas. Os fungos conidiais foram registrados pela análise de ocorrência (presença/ausência) nos substratos.

As amostras foram submetidas à lavagem em água corrente, secagem sobre papel toalha em temperatura ambiente e posteriormente colocadas em câmaras-úmidas (placa de Petri + papel filtro), que foram acondicionadas em uma caixa de isopor (170 L). Periodicamente a caixa era aberta por alguns minutos para circulação do ar e após 72 horas o material incubado foi observado em estereomicroscópio. Durante 30 dias as estruturas reprodutivas dos fungos foram isoladas do material com auxílio de uma agulha fina e transferidas para meio de montagem entre lâmina e lamínula (Castañeda-Ruiz et al. 2006, modificado).

Para a identificação dos fungos foi utilizada bibliografia específica para cada gênero. O material estudado foi depositado no Herbário da Universidade Estadual de Feira de Santana (HUEFS) e/ou Herbário da Universidade Federal de Pernambuco, Departamento de Micologia (URM).

As espécies catalogadas foram agrupadas em categorias de constância utilizando-se o índice C= P/N × 100, onde P = número de coletas contendo a espécie e N = número total de coletas, sendo considerado como táxon constante (C) aquele cuja presença foi > 50% nas amostras, como acessória (A) entre > 25% e < 50% e acidental (S) quando < 25% (Dajoz 1983).

A riqueza foi determinada pelo número total de espécies amostradas em cada área (Brower et al. 1998). A similaridade entre as áreas foi obtida a partir do coeficiente de Sørensen (Muller-Dombois 1981): IS = 2c/A+B × 100, onde A e B representam o número de espécies nas áreas A e B; c, o número de espécies comuns nas duas áreas.

 

Resultados e discussão

Foram identificados 106 táxons de fungos conidiais distribuídos em 71 gêneros, associadas a folhas, pecíolos, galhos e cascas. A micota na Área A apresentou 75 táxons, distribuídos em 50 gêneros, enquanto que na Área B foram registrados 69 táxons e 54 gêneros. Trinta e oito táxons foram comuns às duas áreas (Tab. 1).

O elevado número de fungos conidiais registrados no presente estudo, associados a substratos vegetais é evidenciado em outros estudos dessa natureza. Utilizando técnicas de observação direta e/ou indireta, vários trabalhos registraram alta riqueza de fungos conidiais associados a substratos vegetais. Bill & Polishook (1994) obtiveram, em floresta úmida na Costa Rica, 1.709 isolados. Comparando microfungos isolados de folhas de Guarea guidonia (L.) Sleumer (Meliaceae) e Manilkara bidentata (A.D.C.) Chev. (Sapotaceae) em Porto Rico, Polishook et al. (1996) registraram 3.337 isolados, obtendo uma variação de 134 a 228 espécies/amostra. Os autores destacaram que Hyphomycetes e Coelomycetes foram os mais abundantes e, pelo índice de rarefação, observaram que amostras de M. bidentata foram relativamente uniformes na riqueza de espécies. Em estudos sobre a diversidade de fungos em 13 tipos de folhas em decomposição numa floresta úmida, na Austrália, Parungao et al. (2002) catalogaram 57 táxons: 18 Ascomycetes e 39 fungos conidiais. Investigando o folhedo de 71 espécies de plantas na Costa do Marfim Rambelli et al. (2004) identificaram 184 espécies de fungos, grande parte Hyphomycetes, verificando que 39,7% eram associadas com um substrato e 20,1% a dois substratos, sendo as espécies consideradas 59,8% especializadas, 12,5% ubíquas e 27,7% comuns.

Grande parte das espécies encontradas nas áreas de estudo foram também registradas em inventários realizados em outras áreas de Mata Atlântica, no sudeste do Brasil (Grandi 1998; 1999; 2004, Grandi & Attili 1996, Grandi & Gusmão 2002; Grandi & Silva 2006; Gusmão & Grandi 1997 e Gusmão et al. 2001).

Apesar dos diversos levantamentos não serem comparáveis, pois foram realizados em áreas e períodos diferentes, o folhedo de Caesalpinia echinata Lam. foi segundo Grandi & Silva (2006) um dos mais investigados contribuindo para o conhecimento de fungos conidiais no Brasil. Por outro lado, os estudos ainda são incipientes em diversas áreas, como observado pela considerável riqueza taxonômica encontrada no fragmento de Mata Atlântica ora investigado.

A alta riqueza de espécies nos trópicos permite inferir que o estudo dessas plantas e do folhedo por elas produzido pode levar ao conhecimento de novos gêneros e espécies com caracteres singulares (Mercado-Sierra et al. 1987). Do mesmo modo, tem levado à descoberta de gêneros de fungos conidiais pouco estudados, alguns monotípicos como os encontrados nesse trabalho Atrosetaphiale, Cubasina, Stylaspergillus, Umbellidion e Yinmingella.

Na Área A, 14 espécies foram comuns às três parcelas amostradas: Beltrania rhombica, Beltraniella portoricensis, Brachysporiella gayana, Chalara alabamensis, Chaetopsina fulva, Exserticlava vasiformis, Gangliostilbe costaricensis, Kionochaeta ramifera, Monotosporella setosa var. setosa, Paraceratocladium silvestre, Speiropsis scopiformis, Stachybotrys parvispora, Umbellidion radulans e Volutella minima, enquanto que na Área B apenas nove espécies ocorreram nas três parcelas: Beltrania rhombica, B. querna, Beltraniella portoricensis, Chaetopsina fulva, Cryptophiale kakombensis, Exserticlava vasiformis, Gyrothrix microsperma, Parassympodiella laxa e Vermiculariopsiella cornuta. O número de espécies exclusivas e comuns às três parcelas variou em cada área (Fig. 1). Essas diferenças refletem a heterogeneidade dos microhabitats nas áreas investigadas.

 

 

Foram mais representativos os fungos conidiais associados à decomposição de folhas e pecíolos. Houve predominância, nesse caso, de espécies do complexo-Beltrania (6), Stachybotrys (5), Vermiculariopsiella (4) e Cryptophiale (3). No caso dos associados a galhos e cascas, tiveram destaque Kionochaeta (4), Acrogenospora e Exserticlava (2) (Tab. 2). As folhas são mais susceptíveis aos fungos por representar a parte mais significativa entre os substratos vegetais da serapilheira, pela biomassa e pelo conteúdo de nutrientes orgânicos e inorgânicos que possuem (Meguro et al. 1979). Dix & Webster (1995) destacaram que as folhas são um dos mais relevantes substratos colonizados por microrganismos, entre eles os fungos conidiais. Estudando a diversidade de fungos filamentosos em mangue, na Índia Ananda & Sridhar (2004) evidenciaram, pela análise dos substratos (folhas, madeira e cascas), as preferências fúngicas e a variação durante o processo de sucessão, registrando grande diversidade e riqueza de espécies em madeira em decomposição (65) e folhedo (49). Esses resultados são diferentes do registrado no presente estudo, em área de mata, o que reflete as particularidades de cada ambiente e dos substratos estudados.

 

 

A distribuição das espécies por classes de constância (Tab. 2) revelou a predominância das acidentais (42,5%), seguidas das constantes (31,1%) e acessórias (26,4%). Entre os fungos encontrados, apenas Exserticlava vasiformis foi observado colonizando todos os substratos. Associadas a folhas e pecíolos foram registradas 15 espécies constantes e 10 acessórias; no entanto, colonizando apenas pecíolos foram 12 espécies acidentais, com menor incidência de espécies acessórias (2) e constantes (1), seguidos do registro de espécies acidentais em cascas (11), folhas (10) e galhos (10) (Fig. 2).

 

 

Estudando a micota associada a três tipos de folhas em floresta no México, Heredia (1993) registrou a presença esporádica de muitos fungos durante o processo de sucessão, sendo poucas espécies constantes (Beltrania rhombica, Beltraniella portoricensis (como Ellisiopsis gallesiae), Codianea assamica, Chalara alabamensis, Cryptophiale kakombensis, Cylindrocladium scoparium e Subulispora procurvata) durante todo o processo. Bill & Polishook (1994) registraram poucas espécies abundantes e uma alta proporção de espécies raras e entre os fungos responsáveis pela decomposição destacaram Beltrania rhombica, Cryptophiale sp., Dictyochaeta sp., Volutella minima, entre outros também registrados nesse estudo. A freqüência de ocorrência dos fungos depende, entre outros fatores, das condições ambientais.

A similaridade de espécies de fungos conidiais entre as áreas estudadas pode ser considerada baixa (25%). Esse resultado possivelmente decorre das diferenças das espécies vegetais e características ambientais entre as duas áreas investigadas e, segundo Polishook et al. (1996), amostras de folhedo de uma mesma espécie de planta tendem a ter alta similaridade, comparadas às amostras de diferentes espécies vegetais em uma mesma área. A vegetação do local estudado constitui um mosaico, com diferentes substratos passíveis de colonização pelos fungos. Na vertente oriental predomina a Floresta Ombrófila Densa, com remanescentes de Mata Atlântica, influenciada pelas chuvas orográficas onde os ventos úmidos, oriundos do litoral, ao encontrar a serra, fazem precipitar grande parte da umidade que contribui para manter sua densidade e exuberância. A porção ocidental é menos úmida, apresentando Floresta Estacional Semi-decidual (onde foram realizadas as coletas), Floresta Decidual e Caatinga Arbórea com palmeiras, onde as plantas encontram-se espaçadas, apresentando baixa densidade (M.A.Tomasoni, dados não publicados).

A comparação da similaridade entre as populações de fungos conidiais nos substratos investigados mostrou grande variação (Tab. 3), indo de 3,0 (galhos × pecíolos) a 30,1 (folhas × pecíolos).

 

 

Heredia (1993) comparou a similaridade de fungos entre folhas de Quercus germana Cham. & Schlrcht, Q. sartorii Liemb. e Liquidambar styraciflua L. observando alta similaridade entre elas (acima de 70%). No Brasil, Maia (1983) verificou que as populações fúngicas em Licania octandra (Hoffmgg. ex R. & S.) Kuntze e L. kunthiana Hook F. são mais semelhantes entre si (69,99%), de que as populações em L. octandra e Hortia arborea Engl. (64,01%) e em L. kunthiana e H. arbórea (63,45%). Lodge (1997) e Lodge & Cantrell (1995) sugerem comparações entre plantas de uma mesma espécie, considerando variáveis como o local e distúrbios ambientais, pois estes afetam a distribuição dos fungos conidiais colonizadores da serapilheira.

Polishook et al. (1996) argumentam que os fungos têm preferência por um determinado substrato, resultando na riqueza fúngica do folhedo misto florestal. Fato este também observado por Hyde & Alias (2000) relatando que diferentes partes do vegetal (folhas, pecíolos, cascas, etc.) abrigam diferentes fungos, indicando que alguns deles podem preferencialmente se desenvolver em certos tipos de tecido, como as espécies endofíticas. No entanto, Parungao et al. (2002) acreditam que poucos fungos decompositores são específicos de um substrato. A partir dos valores de constância das espécies encontradas nesse estudo, observa-se que a maioria ocorre associada a apenas um substrato (Tab. 2).

Entre as espécies identificadas, algumas apresentam ampla distribuição: Beltrania rhombica, Beltraniella portoricensis (Matsushima 1971; 1975), Dictyochaeta simplex (Mercado-Sierra et al. 1997), Melanocephala australiensis (Hughes 1978), Pleurothecium recurvatum (Goos 1969), Sporidesmium tropicale (Mckenzie 1995), Stachybotrys chartarum (Mercado-Sierra et al. 1997), Virgaria nigra (Heredia et al. 1997), entre outros. Outras, no entanto, são escassamente referidas na literatura: Ceratosporella compacta (Castañeda-Ruiz et al. 1996), Dactylaria botulispora (Castañeda-Ruiz & Kendrick 1990), Endophragmiella quadrilocularis (Matsushima 1993), Kionochaeta nanophora, Kionochaeta pughii (Kuthubutheen & Nawawi 1988), Sporidesmiella vignalensis (Castañeda-Ruiz & Kendrick 1990), Yimingiella mitriformis (Goh et al. 1998), Zanclospora novae-zelandiae (Hughes & Kendrick 1965) entre outras. O predomínio de uma espécie está ligado aos fatores climáticos e físico-químicos dos substratos encontrados na área investigada. Outra explicação é que as técnicas aplicadas podem favorecer alguns fungos pelas condições nutricionais os quais são submetidos.

Espécies cosmopolitas e pantropicais como B. rhombica, B. portoricencis, Cladosporium cladosporioides, Colletotrichum gloeosporioides, Fusarium solani, Gliocladium roseum, Idriella lunata, Paecilomyces marquandii, Lasiodiplodia theobromae, Scolecobasidium constrictum, Mucor hiemalis, Phomopsis spp. Trichoderma spp., Volutella minima e Wiesneriomyces laurinus são usualmente isoladas durante estudos de folhedo de florestas tropicais úmidas e os gêneros Chaetopsina, Chloridium, Clonostachys, Cryptophiale, Dactylaria, Dictyochaeta, Myrothecium, Scolecobasidium, Stachybotrys e muitos anamorfos de Hypocreales e Xylariales estão representados na micota de folhedo tropical (Polishook et al. 1996).

O levantamento de fungos conidiais que colonizam substratos vegetais em decomposição tem sido eficaz para ampliar o conhecimento sobre a diversidade desses microrganismos, permitindo que novas espécies sejam conhecidas e novos registros sejam feitos, o que abre a possibilidade de sua posterior utilização para fins diversos. Como destacaram Heredia-Abarca et al. (2004), a importância dos fungos conidiais não se limita ao papel que desempenham no equilíbrio ecológico como degradadores de restos orgânicos e reguladores de populações fitopatogênicas

Os dados demonstram a elevada diversidade de fungos conidiais nas áreas estudadas. Considerando que o desmatamento dos remanescentes de Mata Atlântica no Brasil continua, entende-se como de fundamental importância conhecer a micota nesse bioma, de modo a fornecer subsídios para a conservação.

 

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Recebido em 23/04/2007. Aceito em 31/01/2008

 

 

1 Parte da Dissertação de Mestrado do primeiro Autor, Programa de Pós-Graduação em Biologia de Fungos da Universidade Federal de Pernambuco, Brasil
2 Autor para correspondência: mfomarques@gmail.com

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